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Resumo
Resenha de Ana Maria Loffredo, Figuras da sublimação na metapsicologia freudiana, São Paulo, Escuta/Fapesp, 2014, 384 p.


Autor(es)
Luiz Eduardo de Vasconcelos Moreira Moreira
é psicanalista. Doutorando em Psicologia Clínica, Mestre em Psicologia Social e Psicólogo pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.


Notas
[i] {O CAMPO DA SUBLIMAÇÃO}J. Laplanche, Problemáticas III: a sublimação. São Paulo, Martins Fontes, 1989, p. 9.

[ii] S. Mijolla-Mellor, La sublimation. Paris, PUF, 2005, p. 14.

[iii] L. R. Monzani, Freud: o movimento de um pensamento. Campinas: EDUNICAMP, 1989.


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 LEITURA

O campo da sublimação e a paisagem da psicanálise

[Figuras da sublimação na metapsicologia freudiana]


The territory of sublimation and the landscape of Psychoanalysis
Luiz Eduardo de Vasconcelos Moreira Moreira

Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos –
um poço fitando o céu.

Fernando Pessoa, O livro do desassossego.

 

 

A obra que ora resenhamos, Figuras da sublimação na metapsicologia freudiana, é resultado direto da tese apresentada ao concurso de livre-docência prestado pela autora, Ana Maria Loffredo, no Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É um livro, portanto, que está na imbricação dos territórios acadêmico e psicanalítico. Sabemos que essa relação nunca foi simples, para dizer o mínimo, mas também que abre possibilidades de ótimos resultados. O trabalho da autora deixa claro se tratar do segundo caso, aliando o melhor do rigor acadêmico com o da riqueza do corpus psicanalítico.

 

Quem quer que tenha sido aluno de Ana Loffredo em algum dos cursos - insuspeitadamente nomeados como "Metapsicologia" - ministrados pela agora professora livre-docente reconhecerá desde logo alguns elementos da obra em tela: leitura cerrada dos textos freudianos, precisão conceitual, generosidade intelectual e apreço pela construção metapsicológica. É com essas ferramentas que a autora empreende uma corajosa viagem (em dois tempos) pelo que nomeia como "campo da sublimação", enfrentando decididamente todos os percalços que o estudo deste conceito - sublimação - na obra de Sigmund Freud apresenta desde logo.

 

Não há mapa preestabelecido, pelo contrário: o convite para o passeio assume a necessidade de idas e vindas por conceitos, temas e textos, armando assim uma rede conceitual na qual cada ponto ilumina e é iluminado pelos outros. Ao mesmo tempo, esclarecem-se e problematizam-se os limites da teoria psicanalítica ao redor da sublimação, que já foi chamada de cruz da psicanálise[i] e de ruse (ardil, artimanha, estratagema ou embuste) da civilização[ii], para citar apenas duas das inúmeras referências mobilizadas ao longo do livro. Trata-se, portanto, de tema espinhoso.

 

Lembremos que uma tese de livre-docência pode configurar-se de duas formas: a (re)apresentação de trabalhos já publicados, articulados entre si com o intuito de demonstrar a coerência teórica e temática do caminho já percorrido pelo(a) candidato(a), ou a apresentação de um trabalho original, uma nova tese a ser defendida, desta vez sem a figura de um(a) orientador(a). A autora, no trabalho defendido junto à banca examinadora do concurso, escolheu ambos. Na primeira parte, apresentou uma série de trabalhos já publicados, que delineavam o percurso de seu interesse e compuseram a primeira parte da tese. Foi deixada de lado quando da publicação do livro, dado que os trabalhos se encontram disponíveis por meio dos periódicos onde apareceram originalmente.

 

As outras duas partes foram ambas mantidas no livro. São como o anverso e reverso de um mesmo texto, dando forma à tese propriamente dita e conferindo-lhe unidade e, não menos importante, originalidade. Viagem em dois tempos, como dissemos acima, e não exatamente de ida e volta. Senão, vejamos.

 

Em um primeiro momento, a autora apresenta um longo "ensaio de investigação", acompanhando o desenvolvimento da obra freudiana ao longo dos principais textos. É aqui que encontramos a leitura cerrada dos textos freudianos tal como mencionamos acima, tomando como prisma a construção do edifício metapsicológico e, mais especificamente, da sublimação propriamente dita. Não se trata, aqui, de uma simples apresentação cronológica de diferentes textos, com destaque para as passagens em que se encontram a palavra "sublimação" e tomando como ponto pacífico que o sentido das ideias de Freud é cada vez mais claro quanto maior a data de publicação de determinado texto. Uma tal postura implicaria aceitar que Freud soubesse, desde a correspondência com Wilhelm Fliess, aonde chegaria.

 

Ao contrário, o que vemos desdobrar-se ao longo do texto é o movimento de um pensamento, para usar a expressão de outro autor citado com alguma frequência[iii], que tateava o território cujo sentido era atribuído pela teoria que construía naquele mesmo momento: Freud ia e vinha, propondo hipóteses e conceitos que, adiante, abandonaria ou ressignificaria.

 

Esse movimento é apresentado ao leitor por detalhados comentários de textos freudianos, não necessariamente em ordem cronológica, mas seguindo o que poderíamos chamar de uma ordem das razões da necessidade da sublimação como operador fundamental na economia conceitual freudiana. Se a sublimação não resolve todos os problemas que a convocaram, ela abre um novo e riquíssimo campo de investigação. É isso que Ana Loffredo nos mostra: dos "Três ensaios sobre a sexualidade infantil" a "O eu e o isso", de "A moral sexual ‘civilizada' e a doença nervosa moderna" a "O mal-estar na civilização", da "Psicologia das massas e análise do eu" a "O problema econômico do masoquismo", de "Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci" a "O criador literário e o fantasiar", toda a problemática pulsional vai sendo apresentada, tensionada e destrinchada sob o ângulo da sublimação.

 

Não se trata aqui tanto de um eixo ou fio condutor quanto de um ponto fixo para a observação privilegiada para passar em revista o processo de elaboração da metapsicologia. É sob esse prisma que os textos já mencionados e outros, como o "Projeto para uma psicologia científica", "A interpretação das afasias", a correspondência com Fliess e os diferentes manuscritos nela presentes, são examinados.

 

Anverso e reverso, dissemos das duas partes que compõem o livro que examinamos. Falta apresentar a segunda, nomeada como "As trilhas da sublimação". Temos, aqui, um novo procedimento. A paisagem conceitual construída pela visita aos textos freudianos, cada um deles comentado em sua própria economia textual mas também articulados uns com os outros, serve agora como repertório ou ponto de partida para acompanhar o que a autora nomeou como "campo da sublimação": "seu enredamento na gênese dos conceitos fundamentais, com destaque para seu entrecruzamento com a angústia e o recalque e os desdobramentos dessa articulação em função do segundo dualismo pulsional e da segunda tópica" (Loffredo, 2014, p. 18).

 

Reverso, pois: se na primeira parte os textos eram passados em revista, agora trata-se de alinhavar a sublimação com diferentes conceitos. O movimento de pensamento que acompanhamos agora é o da própria autora, que vai desvelando as diferentes articulações possíveis a partir da sublimação, mas na trama conceitual apresentada anteriormente. Sexualidade, pulsão sexual ou autoconservação, pulsão de vida ou de morte, defesa, erotização, simbolização, recalque, recusa ou frustração, desvio de meta ou de objeto da pulsão, perversão, apoio, trauma, narcisismo, aparelho psíquico (na sua primeira ou segunda tópicas), idealização, identificação... A engenhosidade da autora está em mostrar como o campo da sublimação não diz respeito apenas a diferentes conceituações, mais ou menos explícitas, do que afinal é sublimar, referidas a diferentes textos ou momentos da obra freudiana. O que está em jogo é a maneira como o edifício teórico vai sendo construído e reconstruído a uma só vez, num estado de reforma e inacabamento permanentes. É como se autora nos avisasse: para dar conta da problemática da sublimação (e, a bem da verdade, qualquer outra), rigor conceitual não deve ser confundido com rigidez teórica. Tomemos como uma lição de método.

 

Este caráter de inacabamento, como apontamos, do edifício metapsicológico freudiano não serve de desculpa para que a autora aceite de forma fácil os problemas que vão ganhando forma ao longo do comentário dos textos e da exposição dos conceitos, ao modo de um Freud dixit. Além de expô-los e encará-los, temos também propostas teóricas importantes, resultantes dos questionamentos feitos aos textos e - por que não? - ao próprio leitor.

 

Temos, por exemplo, a proposta de que existem três teorias freudianas sobre a angústia que podem ser compreendidas num todo coerente e não necessariamente como concorrentes entre si. Ou, quiçá ainda mais instigante, a ideia de que a sublimação opera distintos planos, com movimentos e estratégias sublimatórias em graus distintos de dessexualização e, não menos importante, de ressexualização.

 

Assim como falamos de recalque primário, haveria uma sublimação primária e sublimações secundárias. Resta pensar as consequências e reverberações no edifício metapsicológico de uma tal proposta e, não menos importante, pô-la à prova da clínica. Não seria excessivo, aliás, pensar nas implicações para os modelos psicopatológicos e as diferentes técnicas que eles demandam do analista.

 

Uma viagem em dois tempos, dissemos, mas não exatamente de ida e de volta: não se trata de, a partir do que se constata ao fim da primeira parte, voltar ao começo; nem tampouco de dois tempos distintos de um mesmo trabalho. Se é verdade que a organização do texto permite a leitura de apenas uma ou outra parte, parece-nos que o leitor ganha muito em compreensão do tema se considerar que temos aqui um mesmo tempo para dois trabalhos concomitantes e imbricados: um só é possível e ganha sentido com o outro e vice-versa.

 

Em suma, é um prazer ter em mãos uma obra de psicanálise que consegue ao mesmo tempo referir-se à tradição, por meio do trabalho minucioso com textos, e dela extrair uma série de questionamentos que revigoram o campo teórico de pesquisa em psicanálise. Não nos consta obra tão detalhada e rigorosa, sem ser engessada ou uma mera repetição de ideias já apresentadas sobre o tema, na literatura especializada, nacional ou estrangeira. É certo que pela problemática abordada, pelos recursos arregimentados pela autora para dar conta de sua proposta e pelo modo como a autora escolheu examiná-la trata-se de trabalho de fôlego, cuja exigência para com o leitor só é equivalente ao que ele, o leitor, terá ganho ao fim dessa trilha. Se houver disposição, indicações não faltam para a próxima viagem.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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