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Resumo
Resenha de Cristiane Curi Abud, A Subjetividade nos Grupos e Instituições: Constituição, mediação e mudança, São Paulo, Chiado Editora, 2015, 431p.


Autor(es)
Marilucia Melo Meireles
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, mestre e doutora em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da USP. Autora do livro Anomia: ruptura civilizatória e sofrimento psíquico (Casa do Psicólogo, 2001) e coautora, com Marco Aurélio F. Velloso, de Seguir a aventura com Henrique Jose Pichon-Riviére: uma biografia (Casa do Psicólogo, 2007).


Notas
[i] {O LAPSO DE TEMPO} M. Velloso, M. Meireles, A operatividade da psicanálise vivida por Enrique José Pichon-Rivière, São Paulo, Velloso Digital, 2014, p.301.

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 LEITURA

O lapso de tempo nas “Notas bibliográficas”

[A Subjetividade nos Grupos e Instituições: Constituição, mediação e mudança]


The lapse of time in the Bibliographical Notes
Marilucia Melo Meireles

Selando vínculos entre temas de extremo fôlego - Grupos e Instituições - e sustentado por ampla experiência clínica e teórica de seus articulistas, este livro, organizado por Cristiane Curi Abud, nos apresenta prefácio de Eva Wongtschowski e Vera Zaher, introdução da organizadora e 15 artigos debatidos por autores e participantes em dois encontros realizados em 2012 no Departamento de Psicanálise do Sedes, a saber: II Colóquio sobre Grupos: o Dispositivo Grupal na Clínica Psicanalítica Expandida, e Encontro Psicanálise e Instituição.

 

Resultado de um fértil pensar coletivo sobre temas relativos ao trabalho em Grupos nas ou das Instituições, os autores resumem suas ideias e nos convocam para percorrer diversos campos de aplicação das teorizações grupais, marcadas por suas distinções, pelas particularidades encontradas no exercício da prática clínica e pelos esforços inventivos, criativos e adaptativos.

 

Logo no prefácio, as autoras reintroduzem, dentre outras ideias, a antiga discussão quanto ao emprego do método psicanalítico nas instituições e sua utilização nos dispositivos grupais, enaltecendo a oportunidade que esta publicação alcança: "para profissionais que diariamente se veem à frente de situações clínicas difíceis e desafiantes" (p. 14).

 

Cristiane Abud, na introdução, ressalta o valor da retomada desses temas, enfatizando que "além de constitutivo e mediador, o grupo pode oferecer-se como lugar de mudança intra e interpsíquica" (p. 20), afirmação inequívoca e encorajadora para levarmos adiante o trabalho de superação das resistências e dos conturbados processos próprios do campo.

 

Fernando Silveira coloca o dedo na ferida quando percorre, historicamente, as vicissitudes do movimento psicanalítico grupal, denunciando os prejuízos que recaíram sobre o trabalho clínico com grupos, no Brasil e no mundo. Foi relegado à condição desprestigiada comparada ao nobre e amplamente praticado dispositivo individual - o ouro puro de Freud. Lamentou o que adveio dessa conduta que gerou ausência de trocas e de mútuo enriquecimento conceitual entre essas duas modalidades clínicas. O resultado foi a sustentação do equivocado fosso entre o singular e o coletivo, que perdura até os dias de hoje. Aponta o paradoxo existente, de um lado, entre o incremento de teorizações sobre técnicas grupais, nascidas da práxis dos atendimentos coletivos frente às demandas cada vez mais crescentes e, de outro, os obstáculos institucionais, impedidores de progressos teóricos decorrentes dessas experiências clínicas.

 

O levantamento histórico empreendido por Silveira explicita o conflito de poder que se estabeleceu no interior das Sociedades Psicanalíticas tradicionais, entre alguns de seus membros e as recém-nascidas Sociedades Psicanalíticas de Grupo. Não por acaso, os psicanalistas destas últimas, além do trabalho precípuo que exerciam, nelas encontravam, entre seus pares mais progressistas, espaços de troca para o debate aberto de questões interditadas em suas respectivas Sociedades Psicanalíticas de origem. Assim, foi possível aceitar, acolher e responder ao imperativo clamor social da época, construir as necessárias sistematizações dos funcionamentos dos atendimentos grupais, enfrentar os conflitos de poder com suas dinâmicas institucionais incluindo, aí, seus embates políticos e a constatação da presença de interdições ideológicas e de práticas de reserva de mercado que resultaram em silenciamentos, mutismos, pautas ocultas e alienação coletiva que grassaram nas instituições ditas oficiais. No entanto, hoje, passados os anos, sabemos que essa independência era relativa, pois esses analistas, que se equilibraram em vínculos duplos pela inserção atravessada em instituições individuais e coletivas, permaneceram vigiados pela ortodoxia de seus pares, gerando, em muitos casos, acareações, expulsões ou isolamento de seus membros. Apesar de tudo, no entanto, foram tempos necessários[i].

 

Mario Fuks nos apresenta relato do convênio estabelecido, em 1984, entre o coletivo de psicanalistas do Sedes e a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Além da oportunidade de relembrarmos - os que naquela época compartilhavam ou acompanhavam os trabalhos desses colegas - os destinos deste projeto, permite aos jovens leitores interessados retomar a histórica coragem, as agruras, o desânimo e algumas alegrias que marcaram o vínculo entre essas duas instituições. Seu relato restitui-nos a memória dos acontecimentos e lutas travadas pelos trabalhadores de Saúde Mental na rede pública durante um período em que ditaduras político-militares no Cone Sul ditavam o cerceamento das liberdades democráticas. As mudanças e reformas dos modelos de tratamentos ultrapassados e desumanos praticados em hospitais psiquiátricos eram cada vez mais urgentes e ganhavam, a cada dia, mais importância, exigindo e pressionando as instituições pelas imediatas transformações. Esse acontecimento inaugural, assim denominado por Fuks, permitiu que o convênio operasse um marco, um divisor de águas, quando um grupo de psicanalistas questionou e propôs mudanças radicais nas relações de poder dentro da ordem psiquiátrica, escapando da tão nefasta neutralidade em que, tanto as instituições psicanalíticas quanto as de saúde mental, se mantiveram por décadas.

 

No âmbito propriamente dito das teorizações, encontramos três artigos que articulam conceituações complexas e necessárias: objeto mediador e pensamento metafórico, de autoria de Claudine Vacheret; transferência e contratransferência nos Grupos, escrito por Pablo Castanho, e acoplamento de settings, de Paulo Jeronymo de Carvalho.

 

A convidada Claudine Vacheret oferece sua contribuição relativa ao campo da mediação, trazendo-nos suas opiniões sobre o pensamento metafórico, enaltecendo, dentre outros ganhos, o favorecimento do acesso aos processos de simbolização. Enfatiza o caráter preventivo que tal trabalho alcança em vários âmbitos, inclusive o desafio que propõe aos profissionais que se valem dessa técnica mediadora.

 

Castanho parte das distintas conceituações de transferência e contratransferência presentes na literatura psicanalítica para introduzir, passo a passo, essas mesmas categorias no interior dos grupos, tratando, agora, de pensar suas relações de semelhanças e diferenças no interior das duas doutrinas. Destaco a elucidação do conceito de intertransferência desenvolvido por René Kaës, para tratar de um complexo de situações em que ficam incluídas, além da transferência e contratransferência, sob a perspectiva do analista e a situação grupal, as relações com seus pares, sua própria equipe e sobre a instituição instituinte.

 

Paulo Jeronymo discorre sobre o acontecer, muito frequente nos atendimentos grupais, do que denominou de "excessiva instabilidade do setting" (p. 158), gerador, no limite, de fracassos no trabalho, apesar do estabelecimento do contrato e observância do setting e de haver mútuo interesse entre as partes: dispositivo clínico e demanda institucional. O acoplamento de settings seria, justamente, a condição de possibilidade de se estabelecer o planejamento do setting grupal - desenhado para atender tal tarefa - e o setting institucional, que estaria aberto às surpresas na execução dos processos de mudanças. Jeronymo detalha, conceitualmente, o itinerário de um atendimento clínico grupal-institucional, explicitando as dimensões existentes e encontradas entre o instituído e o instituinte e suas consequências: flutuações inconscientes, resistências institucionais próprias do processo de implantação de mudanças demandadas, sabotagens. Adverte que a escuta e continência no acolhimento das angústias são os pilares necessários às modulações dessas defesas e impasses presentes nas relações transferenciais e contratransferenciais e na evitação de fracassos ao longo do trabalho. As transformações do setting institucional, quando da implantação de um projeto clínico grupal, é condição necessária para o alcance de um resultado produtivo.

 

A terceira parte que compõe este livro trata do trabalho de intervenção nas instituições hospitalares em que a temática sobre os somatizadores, o médico, a morte e a pulsão de morte, foi largamente abordada.

 

Pichon-Rivière dizia que todo ato criador resulta da elaboração de perdas e de morte, mantendo durante sua vida posição crítica sobre o ensino da medicina. Apesar de ser denominada a mais nobre das profissões, considerava sua transmissão distante do ser vivo, pela visão fragmentada do doente para o estudante em início de formação, na medida em que, naquela época e ainda hoje, se ocupavam do estudo de cadáveres. Afirmava que sua preferência pela psiquiatria decorria da elaboração pessoal resultante da superação desse dilema. Para a loucura e a dor psíquica, não existe nem anestesia nem formol, dizia ele. A atenção e o cuidado se dirigem ao sofrimento de pacientes vivos, não cadáveres.

 

Cristiane Abud narra sequência de fatos resultantes da transmissão do ensino médico e os efeitos produzidos nos alunos, gerando graus de tensão e ausência de possibilidades representacionais entre o psíquico e o somático. Dentre outros registros importantes, destacamos a "Aula de Respeito ao Cadáver" (p. 183) realizada em hospital universitário, e a desrespeitosa aposta sobre qual, dentre os alunos, seria o primeiro a desmaiar durante a dissecação do cadáver. Além de descrever as situações observadas nas aulas de anatomia durante sua pesquisa de doutoramento, avança na análise desse lugar comum, examinando o bizarro que constitui essa e outras situações enfrentadas pelos alunos de medicina, quando não incluem em sua prática a dimensão subjetiva presente entre médico e paciente. Oferece, a partir da literatura psicanalítica e antropológica, equivalentes simbólicos para pensarmos dinamicamente o tabu que envelopa morte e vida.

 

O psicanalista francês Georges Gaillard traz importante aporte sobre o que denominou ser a exigência, para qualquer trabalhador ou equipe que se dedica a atendimentos de caráter social, de prestar-se à transferência. Isso significa aproximar-se sem medo dos pacientes, acercando-se de espaços afetivos arcaicos em que sua condição humana foi dilacerada, dotando-os de um lugar instituído do morto-vivo na sociedade. Propõe, dentre outras intervenções, a terapia do handicap como paradigma para trabalhar as atualizações dos aspectos mortíferos, presentes nesses atendimentos. Usando de vinhetas clínicas, ilustra sua contribuição, propondo variados destinos da clínica do handicap. Considera necessário, a posteriori, espaços de escuta a esses profissionais, sejam reuniões clínicas, grupos de discussão e análise da prática, para o resgate compartilhado e para a drenagem dessas depositações mortíferas.

 

Maria Laurinda de Souza, Cleide Monteiro e Vera Zaher apresentam o relato da experiência de intervenção realizada, em 2010, em uma equipe multidisciplinar de professores-tutores de uma instituição universitária. Contextualizam a formulação administrativo-burocrática do convite feito por Faculdade de Medicina do Estado de São Paulo e a aceitação de tal convênio pelo Instituto Sedes Sapientiae e pelo Departamento de Psicanálise, percorrendo os meandros que atravessaram para a realização da tarefa. A execução desse trabalho, em grande parte, foi creditada aos valores e práticas partilhados, tornando-se o ponto de confluência e de sustentação para a realização e êxito da empreitada teórico-prática. Descrevem os percalços que foram transpondo tanto em relação à demanda institucional quanto ao próprio trio que constituía a equipe. Ao final, a construção de espaços de elaboração e de definição de diretrizes para o encaminhamento e execução do projeto comprovou que, de fato, ocorreram atos de invenção e avanço do conhecimento.

 

A clínica das psicoses, projeto realizado pela equipe multifuncional do CAPS -UNIFESP, foi descrita por Wilma SzarfSzwarc e Antonio Carlos Corrêa. Trata-se de instituição de atenção psicossocial com características singulares e transversais, possibilitando a cada membro e/ou equipe desenvolverem suas potencialidades. Utilizaram a simpática imagem das conhecidas bonecas russas - matrioschka - para ilustrarem a composicao das equipes, fixas ou móveis, de seus técnicos. Ressaltaram a importância da qualificação dos profissionais, com capacidade individual para acolher o estranho que a situação comporta e de se deixarem afetar por seus conteúdos, zelando pelas equipes, criando instrumentos de elaboração das angústias e de continência para o acolhimento das depositações psicóticas. Os autores privilegiaram apresentar relato do atendimento a um paciente, o processo terapêutico desenvolvido e os acontecimentos inerentes a esse atendimento. O projeto examinado evidencia a preocupação e o esforço da reorganização de elementos caóticos e indiscriminados e o restabelecimento contínuo de vínculos intersubjetivos, dos pacientes e das equipes.

 

Seguindo a tradição de Pinel (1795) e de Pichon-Rivière (1936), que possuíam clara opinião a respeito da importância dos profissionais de enfermagem vinculados a atendimentos em hospitais psiquiátricos, Christiana Freire apresenta, no capítulo dez, relato de sua experiência (2005-2009) com grupo de enfermeiros numa Instituição, tido como o responsável pelas ações contraditórias e pelo impedimento do trabalho comum mas que, no decorrer do desenvolvimento grupal, foi revelando que o sintoma que esse grupo problema carregava era o de ser porta-voz dos conflitos inconscientes de outros grupos de profissionais da Unidade de Internação Psiquiátrica e da Instituição de Assistência e Ensino. Freire descreve, a partir de sua proposição inicial, a importância de estabelecer as especificidades entre ser enfermeiro de outras unidades do hospital e ser enfermeiro do setor de psiquiatria. Comportamentos sincréticos, indiscutivelmente geradores de circulações de elementos arcaicos e, consequentemente, de angústias, dores, cisões e sobrecarga dos mecanismos projetivos, foram, dentre outros, resultado das indistinções encontradas nesse grupo de trabalho.

 

Rodrigo Blum escreve com humor sério. Para ele, um Projeto se dá no corner, no tempo, no espaço, na transitoriedade, nos cantos, nas esquinas, nos apuros, nos becos - em princípio, sem saída e, por princípio, buscando saídas - no corpo a corpo entre psíquico e somático. Ângulo e Plano se oferecem para o encontro de duas ou mais linhas: abertas, fechadas, flexíveis, inflexíveis, chegadas, partidas, início e fim. De 1919 a 1927, Projetos significativos da obra freudiana foram inaugurados. O sujeito freudiano se estabelece na encruzilhada do estranhamento, da luta pulsional, nos becos do desamparo. De um lado, um futuro feliz e próspero cede à tragédia e, de outro, o humor abre saída crítica para o trágico da guerra pulsional. Blum teoriza e dá seus passos. Busca respostas às indagações sobre a tessitura de que é feito um plano subjetivo apoiado pela estética freudiana do humor, diante da angústia, do desamparo, do sinistro, próprios à condição humana. Para ele, o humor na clínica psicanalítica pode se constituir num plano subversivo, elucidativo e revelador de construção subjetiva, quando partes cindidas e alienadas podem ser aproximadas e elaboradas, desenlaçando-se do jogo dual, mortífero, quando o eu se torna refém do gozo alheio. A última parte do ensaio, que denominou de "O Grupo de Segunda-Feira" (p. 327), apresenta o Projeto Terapêutico, enunciado com suspense, no início do artigo. Afirmando que o "grupo é o lugar por excelência da figurabilidade e da representabilidade" (p. 326), descreverá os diversos entrecruzamentos do humor, do desamparo e do sinistro. Utilizando-se de chistes, da ironia e de refinado humor, Blum descreve, na Instituição em que trabalha, as vicissitudes ocorridas entre o fim do Grupo de Projetos das terças-feiras e os inícios de outro grupo, nas segundas-feiras: belo exemplo de quando, do corner, a bola faz sua travessia até o gol.

 

A psicanalista Vera Zimmermann aceitou, a partir de seus estudos acadêmicos, o desafio de se afastar dos cânones da psicanálise para participar da montagem de um espaço escolar em que o objetivo maior era intervir, através da dimensão institucional, na constituição psíquica dos adolescentes estados-limite (Aulagnier). Para realizar a intervenção pretendida, utilizou diferentes técnicas e estratégias terapêuticas singulares, sustentando-se em formulações teóricas que privilegiavam a clínica da psicose e a função do social na constituição psíquica. Zimmermann oferece o meticuloso passo a passo percorrido na investigação clínica, enfatizando as possibilidades de intervenção do psicanalista institucional sem preconceitos e devoções.

 

No capítulo treze, Eloisa Lacerda conta suas reflexões sobre a empreitada desenvolvida em serviço de atendimento a pais e bebês, numa instituição universitária. Implantado e coordenado por ela em decorrência de exigência instituída pelo Ministério da Educação, envolveu equipe interdisciplinar. Utilizando-se de vinheta clínica, descreve o árduo trabalho de enlaçamento afetivo realizado e o trançado pulsional que foi se constituindo durante o atendimento conjunto dos pais e da criança. A partir da metáfora criada em torno das fitas no cabelo da pequena Quênia e da África tão longínqua, a autora tece as formulações conceituais que foram emergindo do atendimento. Sublinhando a importância dos espaços criados para tornar possível esses encontros clínicos, Lacerda encaminha seu texto na direção de transmitir ao leitor, para além da formulação teórica, o enovelamento dos laços afetivos enredados, a imbricada tarefa e o minucioso trabalho de tecelões de toda a equipe multidisciplinar envolvida na dinâmica institucional e organizacional, assim como na dinâmica clínica, antes e durante a constituição do serviço.

 

A Oficina de artes em serviço público de saúde, como condição de possibilidade do acontecer terapêutico com crianças e adolescentes que têm pouco a conversar com os adultos, é o artigo de Mira Wajntal. Recriando, com outros profissionais, esse dispositivo de atendimento e tratamento clínico às crianças do CAPS Infantil da Mooca, descreve a formação de grupos terapêuticos infanto-juvenis, cujos participantes apresentavam déficit de comunicação verbal, parcial ou total, ou, ainda, características estereotipadas de falas e inibições, evidenciando a necessidade de resgatar as marcas psíquicas advindas da história singular e das inscrições que o contexto social forjou em cada uma dessas crianças. O recurso utilizado durante essas oficinas constituiu-se no suporte plástico para que cada participante pudesse recriar seu estilo e forma de ser e estar no mundo. A autora traz excertos clínicos que enriquecem o relato, evidenciando as mudanças operadas pelo trabalho.

 

O experimento terapêutico extramuros realizado por Vilma Florêncio da Silva na UBS de Lauzane Paulista encerra a série de artigos que compõem este livro. Provocada pela demanda crescente e exagerada de atendimentos a crianças encaminhadas pelas escolas da região, decidiu sair do intramuros tradicional dos atendimentos e adentrar os portões escolares, trabalhando com professores e familiares das crianças. A quebra do olhar patognomônico, a escuta e drenagem das angústias que ondulavam no ambiente, trouxeram uma série de ganhos aos professores, às famílias e, sobretudo, às crianças que, em seu complexo processo normal de crescimento, eram vistas, de forma confusa, como doentes. A terapêutica utilizada por Vilma possibilitou ganhos preventivos, já que propiciou a elaboração e o consequente amadurecimento de aspectos infantis pertencentes aos adultos, depositados nas crianças, conturbando o ambiente.

 

Ao final da leitura destas 431 páginas, resta uma observação: o lapso de tempo nas notas bibliográficas dos textos que integram este volume. Verificando as referências presentes ao final de cada um, observo que, na sua maioria, remetem-nos a publicações datadas cerca de uma década atrás - bons textos são os que permanecem. Esse fato faz ressaltar, de um lado, o longo intervalo e a escassez de publicações recentes sobre o tema, e, de outro, o valor, por si só, deste livro, já que vem interromper esse hiato temporal de publicação de novos textos sobre grupos e instituições.


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