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Autor(es)
Paulo de Carvalho Ribeiro
é psicanalista e professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMG.

Miguel Calmon du Pin e  Almeida
é psicanalista, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, biênio 2015-2016.

Lúcia Barbero Fuks
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas
[i] {DEBATE CLÍNICO} Pandora (em grego antigo: pan - dom. Significa "a detentora de todos os dons". Há no verbo que compõe seu nome uma antinomia: doron significa doar, mas em quase todas as línguas indo-europeias, tem como sentido inicial "tomar". Portanto, aquela que dá e tira ao mesmo tempo.

[ii] J. Brandão, Dicionário Mítico-Etimológico, vol. II. Petrópolis: Vozes, p. 234.

[iii] C. du Pin; A. Miguel, A função paterna da interpretacão, apresentado no 73 CPFL, Paris 2013.

[iv] C. Delourmel, De la fonction du père au principe paternel.

[v] F. Villa, Le père: un héritage archaïque?

[vi] J.-C. Rolland, Os Olhos da Alma. São Paulo: Blucher, 2016.

[vii] J.-C. Rolland, "Sorcellerie de l'image", in: Avant d'être celui qui parle. Paris: Gallimard, 2006.

[viii] p. 127.

[ix] Freud (1914), "Introducción del narcisismo", Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, 2003, p. 80.


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 DEBATE CLÍNICO

O guardião de enigmas

The guardian of enigmas
Paulo de Carvalho Ribeiro
Miguel Calmon du Pin e  Almeida
Lúcia Barbero Fuks

Em "Debates Clínicos", a revista Percurso convida três psicanalistas de correntes teóricas e instituições diferentes, um deles como apresentador e dois como comentaristas. Solicitamos que o material e os comentários se atenham o mais possível à clínica, de modo que dela se depreenda a teoria e não o contrário. Cada convidado só conhece os outros dois participantes no final do processo. Com isso, visamos diminuir os fatores paratransferenciais que poderiam inibir a livre e descompromissada manifestação de opinião. Nosso objetivo é superar as divisões em nosso campo, proporcionar movimentos integrativos e estimular a reflexão sobre convergências e divergências na prática clínica.

 

A primeira coisa que me levou a refletir mais detidamente sobre esse paciente foi minha necessidade de verificar, junto a conhecidos que trabalham com informática e telecomunicação, se um determinado uso do celular, relatado por ele na primeira sessão, era viável tecnicamente. Tratava-se de um programa espião que, uma vez instalado no celular de alguém, permitia não só conhecer a localização e os deslocamentos feitos pelo aparelho, como também acionar à distância o gravador de sons e imagens do aparelho espionado, disponibilizando-os para serem registrados pelos dispositivos de quem controlava o programa espião. Desconfiado de estar sendo traído pela namorada, esse jovem rapaz me dizia ter registrado os sons de uma suposta relação sexual da namorada com um ex-namorado dela, quando ela se encontrava no escritório deste último. Segundo meu paciente, os registros são apenas de áudio, uma vez que o celular encontrava-se, provavelmente, dentro da bolsa dela, e por isso nenhuma imagem foi gravada. Ainda segundo o relato, a despeito da qualidade ruim da gravação, é possível perceber que se trata dos sons de uma relação sexual e que as vozes, tanto da namorada quanto do ex-namorado dela, são reconhecíveis. Minha consulta aos conhecedores dessas tecnologias confirmou a viabilidade de tais fatos. Diante disso, não pude evitar o incômodo de me perceber buscando uma verossimilidade que, nesse caso, não deveria me interessar.

 

Essa mesma namorada, de acordo com o que foi relatado na segunda sessão, já tinha "ficado" com um amigo do meu paciente, quando eles (paciente e namorada) ainda não se conheciam. Ao tomar conhecimento desse fato, insistiu para que a namorada lhe contasse detalhadamente o que acontecera entre ela e o amigo dele. Tinha sido há muito tempo, quando ela ainda era adolescente, em um fim de noite em que ela, em companhia de duas amigas, pegou uma carona com esse amigo. Encontrando-se ligeiramente bêbada e tendo sido a última a ser deixada em casa, acabou beijando e sendo beijada. Depois de bastante insistência por parte do meu paciente, a namorada acrescentou ao relato inicial a informação de que, na ocasião, tivera a blusa aberta pelo amigo dele e que ele lhe havia acariciado os seios. Esse relato serviu para que se instalasse em meu paciente a dúvida obsessiva sobre o que de fato teria acontecido nesse dia. A insistência para que ela contasse tudo de uma vez, para que admitisse ter mantido relação sexual dentro do carro, quase levou ao término precoce do namoro e fez do amigo em questão uma pessoa a ser evitada ou ignorada em situações sociais.

 

Os primeiros dois ou três meses de análise desse paciente foram tomados, quase que inteiramente, pela recorrência dos relatos sobre a suposta infidelidade não só da namorada, mas das mulheres em geral. Nesses primeiros meses, minhas intervenções foram escassas e quase todas elas voltadas para o assinalamento do que me parecia mais relevante para a análise naquele momento, a saber, a incompatibilidade entre a manutenção do namoro e a convicção do paciente sobre a infidelidade da namorada, somada à sua declarada intolerância à traição.

 

"Ela me disse que eu estou louco; que fico inventando coisas que não aconteceram; que minhas gravações não mostram nada a não ser pedaços incompreensíveis da conversa entre ela e um advogado que tem escritório no mesmo prédio onde trabalha o ex-namorado dela; que eu preciso me tratar e que ela só não termina tudo de uma vez por todas porque ainda gosta muito de mim, porque minha mãe a apoia e pede para que ela tenha paciência comigo."

 

Esta é, aproximadamente, uma das falas dele diante de uma dessas intervenções em que eu buscava assinalar o quão intrigante me parecia a posição dele. Ser chamado de louco já não o incomodava tanto, ele dizia, na medida em que encontrara apoio à sua percepção dos "fatos" por parte de duas pessoas que ele tinha em alta conta e com quem tinha intimidade suficiente para compartilhar esse tipo de problema. Uma delas, uma irmã mais velha, filha do primeiro casamento do seu pai, escutou a gravação e concordou que os sons sugeriam uma relação sexual. A outra, uma antiga empregada doméstica da família, teria ficado chocada com o que escutou. Não tardou para que eu fosse escolhido como a próxima pessoa a emitir uma opinião sobre a gravação.

 

O pedido para que eu a ouvisse não foi, inicialmente, formulado de forma direta, nem tampouco me foi perguntado se eu gostaria de ouvi-la. Era, no entanto, impossível não perceber esse pedido em meio às queixas permanentes de sentir-se preso ao arquivo de áudio que continha a famosa gravação. Preso, explicava meu paciente, tanto no sentido de ouvi-lo muitas vezes ao dia, retornando inúmeras vezes aos trechos que considerava mais reveladores, quanto no sentido de fazer várias cópias do mesmo arquivo, para armazená-las em diferentes locais, temendo sempre que alguém, sua namorada, por exemplo, tentasse destruir "seu tesouro", denominação introduzida por mim, ao interromper um desses relatos queixosos, no fim de uma sessão. "Pois é", ele retrucou enquanto pegava um chaveiro que havia deixado sobre a mesa ao lado da poltrona onde estava sentado e me mostrava um pequeno pen drive pendurado entre as chaves, "eu carrego esse tesouro comigo o tempo todo". Não lhe disse nada e levantei-me para acompanhá-lo à porta.

 

O tema da gravação geralmente servia de introdução a outros relatos e considerações destinados a sustentar a tese da infidelidade generalizada das mulheres. Foi assim que o episódio da antiga "ficada" com o amigo do meu paciente foi retomado diversas vezes. Em uma delas esteve em questão o fato de que a namorada fazia uso de anticoncepcional oral desde os quinze anos de idade, para tratamento da síndrome dos ovários policísticos. Sendo assim, quando ela "ficou" com o amigo dele, ela não só já havia perdido a virgindade, pois tivera relações sexuais com o primeiro namorado, como também estava protegida contra uma eventual gravidez. "Hah!", exclamou meu paciente antes de prosseguir, "Você acha que uma adolescente com os hormônios bombando, que não era mais virgem e estava meio bêbada, sem blusa e sem preocupação de ficar grávida, iria ficar só no sarro com um cara como o fulano? É claro que ela deu pra ele! Você não concorda?" Respondi, encerrando a sessão: "Já que você não tem a gravação dessa cena e não pode reproduzi-la centenas de vezes, quem sabe você se contenta com suas fantasias?" Na sessão seguinte, logo no início, ele disse: "Você acha então que tudo é fantasia minha." Permaneci em silêncio e ele continuou: "Se eu não tivesse ficado e até transado com várias namoradas de outros caras, e até com uma que era noiva, seria mais fácil me convencer de que a traição da fulana (namorada) é fantasia minha". Depois de um breve silêncio, ele retoma: "Disse a ela que você acha que estou fantasiando sobre ela e o ex dela. Ela pôs as mãos pro céu e eu até achei graça, mas fui logo dizendo que você não tinha me convencido." Nesse momento voltei a intervir dizendo: "Parece-me que você quer muito que eu tenha uma opinião sobre sua namorada, sobre as mulheres". "Mas é lógico!", ele exclamou, "faz um bom tempo que estou vindo aqui, já te falei tudo que está acontecendo, estou meio desesperado e não consigo tomar uma decisão... é lógico que eu quero que você me ajude!" Eu digo: "Tudo que você falou até agora me leva a pensar que você tem algum ganho ao duvidar da fidelidade das mulheres; acho que você quer se convencer de que todas elas traem". Ele diz: "Mas isso quer dizer que você acha que eu estou inventando pra mim mesmo que a fulana me traiu?" Eu digo: "Isso quer dizer que, independentemente de ela ter te traído ou não, a possibilidade da traição te mantém ligado a ela". Ele diz: "Mas por quê?" Não respondo, ele insiste com a pergunta e eu com o silêncio, ele também se silencia e assim permanece por alguns minutos até dizer o seguinte: "Se eu terminar com ela agora, sou capaz de passar o resto da vida me lembrando de todas as vezes que ela começa a chorar e jura que nunca me traiu. Mas eu não consigo acreditar. Você tem que escutar essa gravação".

 

Depois de alguns meses atendendo esse paciente em sessões cuja frequência variava de uma a duas vezes por semana, uma dúvida sobre o diagnóstico ainda persistia. O caráter obsessivo do ciúme preponderava sobre os aspectos paranoicos, mas não de forma suficiente para que eu afastasse definitivamente a hipótese de psicose. Os relatos sobre as "evidências" da traição, assim como as inúmeras teorias e certezas sobre a infidelidade das mulheres me traziam sempre a impressão de uma atividade delirante muito bem estruturada, porém sem outros elementos psicopatológicos que levassem à suspeita de esquizofrenia. Eu me perguntava se não seria uma Síndrome de Otelo, um delírio celotípico monossintomático; se os sintomas obsessivos não estariam apenas mascarando o quadro psicótico; ou se seria mesmo um obsessivo grave no auge do sofrimento neurótico. Achei que poderia confiar nas minhas impressões sobre a transferência e decidi que ele passaria a utilizar o divã.

 

As primeiras sessões com o uso do divã ainda foram dominadas pelo tema da traição e pelo relato dos momentos em que meu paciente se via compelido a ouvir, pela enésima vez, a gravação da suposta relação sexual, apesar do esforço que vinha fazendo para não ouvi-la. Progressivamente, porém, outros temas começaram a ser abordados até que a mãe do paciente passou a ser o principal objeto das associações. A cumplicidade entre ela e a namorada dele sempre servia de introdução a uma série de comentários sobre as características da mãe, sobre o relacionamento dela com o marido, pai do meu paciente, e sobre a forma como ela se relacionava com ele, filho, desde criança. Antes de me alongar sobre esses dois últimos aspectos, algumas referências recorrentes à beleza e vaidade da mãe merecem ser mencionadas. Aos olhos do meu paciente, sua mãe era uma mulher muito bonita, que sabia se cuidar muito bem. Apesar dos mais de cinquenta anos de idade, ainda era uma mulher atraente cuja beleza, elegância e jovialidade eram objeto de comentários por parte de todos que a conheciam. Quase treze anos mais jovem que seu marido, sua aparência contrastava cada vez mais com o aspecto envelhecido exibido por ele. Segundo meu paciente, mais de uma vez sua mãe fora tomada por filha do marido, fato que muito incomodava seu pai e muito agradava sua mãe, apesar do esforço que ela fazia para esconder sua satisfação nessas ocasiões. Sobre o relacionamento do casal, meu paciente tinha uma visão muito clara e definitiva: desde que a mãe descobrira um relacionamento extraconjugal do marido, quando ele, paciente, ainda era adolescente, houve um distanciamento definitivo entre seus pais. Logo que o caso veio à tona, seu pai chegou a sair de casa a pedido da mãe, mas retornou algumas semanas depois e passou a ser tratado com frieza pela esposa. Nos últimos anos meu paciente presenciou muitas discussões entre os pais, geralmente motivadas pelos gastos excessivos da mãe ou pelas viagens que ela fazia em companhia das irmãs dela, muitas delas ao exterior, nas quais o pai nunca era incluído. Nos eventos relacionados à profissão do pai, nas festas de família e nos encontros com amigos do casal, sua mãe "fazia seu papel de esposa", dizia meu paciente. Quanto à relação entre mãe e filho, a nítida ambivalência dos sentimentos e opiniões do meu paciente foi pouco a pouco cedendo lugar ao ressentimento por ser visto pela mãe como herdeiro dos defeitos do pai. A grande semelhança física entre eles e alguns traços de personalidade presentes em ambos com frequência suscitavam comentários críticos e distanciamento por parte da mãe. Em outros momentos, ela conseguia a cumplicidade do filho na ocultação de pequenos acontecimentos que poderiam despertar a ira do pai, como, por exemplo, pequenos danos causados por ela aos carros da família ou gastos que ela fazia com coisas consideradas supérfluas, o que levava meu paciente a utilizar conscientemente essa cumplicidade como estratégia para obter o apoio da mãe em diversas situações. Incomodava-o, por outro lado, quando percebia que sua mãe e sua namorada se associavam para comentarem criticamente o quanto ele e seu pai se pareciam. Em uma das sessões em que a cumplicidade com as "aprontações" da mãe foi retomada, meu paciente fez a seguinte observação: "Papai está pagando caro demais a pulada de cerca". Era uma referência a uma joia que sua mãe havia comprado utilizando o cartão de crédito do filho para burlar o limite que o pai havia imposto ao dela. Nesse momento intervim dizendo: "E você tem contribuído para isso". Essa intervenção, que de imediato produziu justificativas do tipo "melhor gastar com mamãe do que com as amantes dele", deu início a uma série de sessões em que o pai passou a ser o principal assunto, culminando com a explicitação da seguinte queixa: "O problema é que ele não dá conta de se abrir comigo e prefere achar que eu fiquei do lado da mamãe, contra ele". Nesse momento eu lhe disse: "Se você fosse se abrir com ele, o que você diria sobre a infidelidade dele?" O principal efeito dessa intervenção foi o afloramento de ressentimentos manifestados sob a forma de um longo desabafo, entrecortado por tentativas de amenizar tanto o sofrimento por ter se sentido traído pelo pai quanto a culpa por condená-lo e muitas vezes ser cúmplice da mãe. A seguinte fala resume o desabafo e a ambivalência dos sentimentos dirigidos ao pai: "Quando mamãe descobriu tudo, nós tínhamos acabado de mudar para a casa nova. Eu achava aquela casa o máximo. Só queria curtir a piscina, a quadra, chamar os amigos, fazer churrasco... eu estava me sentindo milionário e achava papai foda pra caralho. E aí o sacana fode tudo, fica apaixonado por uma mulher nada a ver, que nem era bonita, nem inteligente, nem rica, nem porra nenhuma... só era nova e safada. Mamãe não quis mais saber da casa, não cuidava mais de nada até que não teve jeito e mudamos de lá para um apartamento. Papai ficou arrasado, se fodeu demais, coitado".

 

Depois desse desabafo a tomada de consciência do quanto se sentira traído pelo pai e do desejo de ser amado e admirado por ele foi um caminho percorrido com certa facilidade na análise. A dimensão homossexual desse amor pelo pai nunca foi explicitada nem por ele nem por mim, embora tenha se manifestado na transferência por meio de pequenas brincadeiras e piadas em que eu e o pai éramos comparados e colocados no lugar de quem o "sacaneava" ou era "sacaneado" por ele.

 

Por outro lado, os afetos relacionados à mãe somente afloraram após a superação de grandes resistências e envolveram muita angústia associada a sentimentos de rejeição e impotência. O relato de uma experiência vivida na adolescência serviu de parâmetro para a avaliação da intensidade dessa angústia. Aos dezesseis anos, com o apoio dos pais, ele se inscreveu em um programa de intercâmbio estudantil e chegou a viajar para o país onde deveria permanecer por seis meses. Lá chegando, entrou num estado de extrema ansiedade, acompanhado de ideias persecutórias e dificuldade de dormir e se alimentar. Sua mãe foi ao seu encontro logo que tomou conhecimento do que estava acontecendo e retornou com ele ao Brasil poucos dias após sua partida. Essa foi, segundo ele, a pior experiência de sua vida. Junto ao reconhecimento e gratidão pelo apoio recebido da mãe, a impressão de que ela sentia-se vitoriosa com o fracasso dele foi aos poucos ganhando espaço nas sessões. Em uma delas ele disse: "Ela me dizia que aquilo que eu tive foi um problema neurológico, que eu não tinha culpa, que isso pode acontecer com qualquer um, que era só tomar o remédio por um tempo e que nunca mais eu teria nada daquilo. Mas isso, em vez de me consolar, só me fazia sentir que eu tinha a cabeça fraca, que eu era mesmo um bosta". Lembrando-me de outras ocasiões em que ele havia se referido às comparações negativas que sua mãe fazia entre ele e o pai dele, disse-lhe: "Pelo que você diz, aos olhos da sua mãe, você e seu pai sempre podem decepcionar". Ao que ele acrescentou: "Aos olhos da minha mãe, acho que o único homem que não decepcionou foi o pai dela". Voltei a intervir dizendo: "Esse homem que você não conheceu sempre vai ser o preferido dela".

 

Não sei se ele entendeu que eu fazia ali alusão a um inescapável sentimento de traição. Não sei tampouco se o término do relacionamento com a namorada, ocorrido pouco tempo após essas sessões que acabei de relatar, deveu-se a algum efeito da análise ou simplesmente à decisão de mudar-se para outra cidade onde pretendia fazer um curso de pós-graduação e submeter-se a um processo de seleção de trainees. Não sei nem mesmo se a decisão de mudar-se foi o resultado da resolução de conflitos que o paralisavam ou simplesmente uma fuga de tudo, inclusive da análise. Fui comunicado tanto sobre o término do namoro quanto sobre a decisão de mudar-se de cidade na primeira sessão após um período de interrupção da análise devido às férias do meu paciente, que coincidiram com as minhas. Nas três sessões que tivemos entre a volta das férias e a interrupção definitiva ele pouco falou sobre o término do namoro. Disse que seria muito difícil manter um relacionamento à distância e que sua prioridade era, naquele momento, a carreira profissional, mas não mencionou nenhuma briga, nem fez comentários sobre a reação da namorada à decisão dele. O pai o apoiava e a mãe achava que ele deveria pensar com mais calma se de fato a mudança de cidade seria a melhor opção. De sua parte, ele não mostrava nenhuma hesitação; estava decidido e parecia tranquilo com sua decisão.

 

Na primeira sessão após as férias, quando as decisões tomadas me foram comunicadas, não contive minha curiosidade e perguntei se ele ainda ouvia com frequência a gravação. Ele respondeu: "Tinha um bom tempo que não ouvia, mas ouvi algumas vezes no dia em que terminei com ela. Ouvi, mas não fiquei mais sofrendo e nem senti raiva. Andei deletando o arquivo nos lugares onde tinha salvado, mas salvei em tantos lugares que já nem sei se tem outras cópias além das que estão no meu celular e no meu drop­box. Você acha que eu deveria apagar tudo?" Respondi sorrindo: "Talvez seja bom que isso fique gravado em alguma nuvem". Ele também sorriu e não mais falou sobre o assunto nas duas sessões que ainda tivemos.

 

No dia seguinte à última sessão recebi um e-mail dele cujo título era "nuvem" e trazia anexado um arquivo nomeado "traição". No corpo do e-mail estava escrito: "Guarda aí pra mim na sua nuvem rsr".

 

Esse arquivo cuja viabilidade técnica eu tinha me dado o trabalho de verificar, que cheguei a comparar a um tesouro, e sobre o qual perguntei sem que ele tivesse sido mencionado naquela sessão encontrava-se ali à minha disposição. Mas quem poderia me garantir que não era apenas uma piada? Um vírus, quem sabe? Talvez fosse um arquivo vazio. Pior ainda, poderia conter apenas o som de uma gargalhada de escárnio, atestando minha destituição do lugar de analista.

 

Hoje penso ser quase certo que o arquivo contenha mesmo a gravação da suposta traição. Não o deletei e nunca tentei abri-lo. Às vezes esse paciente me vem à lembrança e me pergunto se ele me enviou o arquivo por ter percebido minha curiosidade ou por saber que eu não o abriria, e mesmo que o abrisse jamais faria qualquer comentário; ou se foi por todos esses dois motivos ao mesmo tempo. Sim, por todos esses motivos ao mesmo tempo, tento me convencer. Gostaria de ter a certeza de que ele reconheceu em mim o interesse e as dúvidas que pairam em torno dessas cenas mal gravadas, envolvendo os corpos de duas pessoas, envolvendo, acima de tudo, o corpo e o desejo de uma mulher especial; cenas que tanto perturbam quanto excitam. Mas gostaria muito mais de ter a certeza do reconhecimento da minha clara renúncia à pretensão de ter as respostas. Não descarto a hipótese de ter fracassado nesse caso, mas também não abro mão da possibilidade de que o arquivo tenha sido enviado para quem de direito: um guardião de enigmas.

 

miguel calmon du pin e almeida

Caixa de Pandora

Inventar e investigar desde um novo lugar a alma do sonho, do humano do homem, onde a alma e o sonho possam se mostrar e se expressar sem os constrangimentos do desejo de curar, assim como o cuidado de evitar a pura abstração para a qual os românticos em seu desejo de tudo compreender nos seduzem, é o desafio que caracteriza a especificidade de nossa clínica.

 

Um processo onde as marcas das pegadas de nossa história e constituição permitam que reconheçamos de que somos feitos, como somos feitos, à imagem e semelhança de quem, do quê.

 

Mas a dimensão trágica - o homem sempre em contradição consigo mesmo, irremediavelmente - aparece mais fortemente na pergunta: Mas é o que queremos? De fato, queremos saber quantas são as superfícies contidas na alma dos pequenos gestos através dos quais nos fazemos e somos?

 

Hesíodo conta na Teogonia que a pedido de Zeus, desejoso de castigar os homens em virtude do "crime" de Prometeu, Hefesto modela em argila a primeira mulher, "mal tão belo", nas palavras do poeta. Com a ajuda de outros vários imortais, dota-a de todas as qualidades apreciadas pelos homens e, por fim, Hermes lhe dá o dom da palavra. Chamam-na Pandora[i].

 

Satisfeito com a cilada que armara para os homens, Zeus, através de Hermes, envia-a de presente a Epimeteu, o que aprende e vê depois, que, apesar de advertido por Prometeu, o que vê antes, a jamais receber de Zeus nenhum presente, desposa Pandora. Só depois de a infelicidade se abater sobre sua vida, Epimeteu realiza com o que Zeus o presenteara.

 

Como presente de núpcias, Pandora traz consigo do Olimpo uma jarra de tampa larga, onde se depositavam todos os males do mundo. Por curiosidade feminina, Pandora abre a jarra e dela deixa sair todas as calamidades que a partir de então assombram a tranquilidade dos homens. Apenas a teimosa Esperança foi contida a tempo, ficando presa nas bordas da jarra[ii].

 

Que o mito da caixa de Pandora nos acompanhe em nossa reflexão, pois a nenhum de nós escapa a curiosidade em tudo saber e poder dominar o mundo.

 

É com esse propósito que o autor nos adverte desde as primeiras linhas acerca de sua luta contra a curiosidade em querer saber toda a verdade, muito embora sem renunciar completamente a ela.

 

Antes de mais nada e para começar, felicito o analista - "guardião de enigmas" - por ter resistido à curiosidade e não ter aberto a "caixa de Pandora". Considero a condução que deu ao processo psicanalítico de seu paciente exemplar.

 

A primeira coisa que me levou a refletir mais detidamente sobre esse paciente foi minha necessidade de verificar, junto a conhecidos que trabalham com informática e telecomunicação, se um determinado uso do celular, relatado por ele na primeira sessão, era viável tecnicamente.

 

Para além de se certificar dos limites entre realidade e delírio, há algo de feminino nas provocações que seu paciente lhe faz, mas isso discutiremos mais à frente.

 

Por ora o que nos interessa é que o arguto analista percebe que o processo se instala ali onde existe alguma coisa sobre a qual ele não deveria se interessar. E faz uso disso em suas primeiras interpretações: "a incompatibilidade entre a manutenção do namoro e a convicção do paciente sobre a infidelidade da namorada, somada à sua declarada intolerância à traição".

 

Diante da insistência do paciente em confirmar as suspeitas das gravações, e percebendo ali algo que extrapolava os limites de um namoro, o analista sugere chamar o pen drive com as evidências do crime de "o tesouro".

 

Preso, explicava meu paciente, tanto no sentido de ouvi-lo muitas vezes ao dia, retornando inúmeras vezes aos trechos que considerava mais reveladores, quanto no sentido de fazer várias cópias do mesmo arquivo, para armazená-las em diferentes locais, temendo sempre que alguém, sua namorada, por exemplo, tentasse destruir "seu tesouro", denominação introduzida por mim, ao interromper um desses relatos queixosos, no fim de uma sessão.

 

Ao destacar esses movimentos, pretendo valorizar a paciência e delicadeza com que o analista vai construindo as condições mínimas necessárias para o estabelecimento de um campo transferencial onde as associações possam encontrar seus deslizamentos, sem que para isso o próprio analista tenha que intervir na qualidade de testemunha, como outros tantos o fizeram sem que nem ao longe as dúvidas de seu paciente fossem arranhadas. Dizer "tesouro" significa apontar ali naquelas gravações mais do que poderia estar contido nelas, criando uma zona de hesitação fundamental para equivocar as certezas da dúvida obsessiva. Como se o analista lhe dissesse: "Há no que você me conta mais do que você gostaria de saber".

 

Essa hesitação rende seus primeiros frutos diante das fantasias que o paciente faz sobre um dos encontros de sua namorada, o que permite que o analista o interprete: "Já que você não tem a gravação dessa cena e não pode reproduzi-la centenas de vezes, quem sabe você se contenta com suas fantasias?"

 

Considero essas equivocações fundamentais diante dos impasses em que a neurose obsessiva nos aprisiona. Encerrado no dilema "você concorda ou discorda de mim?" que divide e organiza o mundo de seu paciente, o analista procura formas de sobreviver ao que, desse modo, não tem saída.

 

Ou, como diria Freud em Construções em Psicanálise: "cara, eu ganho; coroa, você perde", ou seja, não há como escapar. Algo de mim eu perco nessa operação e assim trata-se de criar as condições para instalação de uma processualidade que permita suportar a aceitação de que não há como escapar a essa perda.

 

A escolha, como na Odisseia de Homero, será entre perder uma parte ou perder tudo. Não nos apressemos na aparente obviedade do que há para ser escolhido. Muitos de nós preferiríamos perder tudo.

 

Nossa questão será sob que condições esse processo de velar e desvelar, de abrir e fechar, se instala. Este me parece o viés que o material clínico apresentado nos oferece. Como suportar a incerteza, a aceitação de não poder saber toda a verdade?

 

Como já disse anteriormente[iii], não nos surpreende mais que a clínica psicanalítica se apoie na especificidade de uma escuta que se empenha em se abrir aos muitos sentidos. Se muitos, se tantos, se em excesso, ao siderar entre tantos, nada fixa e ficamos impedidos de escutar; se apenas um, nos crispa e cristaliza, paralisa o jogo, a brincadeira, e se torna insuportável ouvi-lo. Uma escuta que se define pelo constante abrir e fechar para os sentidos.

 

Do mesmo modo, função materna e paterna se combinam e se complementam.

 

Christian Delourmel[iv] cita J. L. Donnet em seu relatório para o 73ème CPLF, De la fonction du père au principe paternel: "o pai sempre esteve presente e, se ele vem em ‘segundo lugar', é sempre numa temporalidade après-coup".

 

Pela mesma razão, estou de acordo com François Villa[v] quando afirma em seu relatório para o mesmo congresso: "Defenderei a ideia de que, no começo, há necessariamente pai e mãe. Os dois primeiros processos, o da identificação e o do investimento libidinal de objeto, cumprem-se numa contemporaneidade que impossibilita a sua distinção cronológica".

 

Se a função materna tem por finalidade fixar a pulsão em sua excessiva possibilidade, a função paterna tem por objetivo fixar o pêndulo de modo a permitir e estabelecer o movimento de báscula, onde o abrir e fechar se alternam e tornam possível abrigar em seu interior o estranho.

 

Já se foi o tempo em que a pretensão de uma verdade secreta escondida nas dobras das palavras, ou ainda, por debaixo delas, jazia à espera de seu decifrador. Os sentidos da interpretação são construções produzidas no interior da relação psicanalítica pela obediência da regra fundamental.

 

O estranho que inclui e interroga, que abriga, exclui e deixa escapar, que compreende e reconduz a pergunta para outros lugares. Em toda sua dimensão paradoxal, esse estranho encarna a função paterna.

 

Por muito tempo, restringimos nossa concepção de interpretar aquela de propor um nível de desvelamento simbólico do material manifesto, fosse sonho, sintoma ou qualquer outra formação de compromisso.

 

Foram as exigências dos casos-limite, para usar a concepção de André Green, que nos confrontaram com outras dimensões da interpretação. Como interpretar um símbolo que não chegou a se constituir com tal? Quais as operações implicadas nesse processo de constituição? Quais as precondições para uma interpretação?

 

A partir de então, a função de interpretar sofre uma violenta torção e nos obriga a considerar questões de sensações, de ritmos, principalmente ritmos, como sendo fundamentais para construir um solo comum onde um mesmo acontecimento possa ser compartido. A todas essas operações de construção de um solo comum passamos a considerar como pertencendo à função materna da interpretação.

 

Na apresentação de Os Olhos da Alma[vi], de Jean-Claude Rolland, destaquei a perspectiva que o autor toma em suas reflexões, não poupando sequer a psicanálise de sua crítica. Sabendo da ofuscação que todo foco de interesse causa e traz consigo, mais ou menos intensamente, Rolland adverte para o viés que o psicanalista toma quando em contato com seu paciente. Viés gerador de cristalizações, onde a urgência da dor que nos é trazida por nossos pacientes consequentemente nos impede e inibe a liberdade para algumas aventuras e considerações que fugiriam à finalidade da consulta.

 

Por isso em seu trabalho há um diálogo tenso e muito rico entre a psicopatologia e a literatura. Jean-Claude Rolland encontra na literatura um lugar privilegiado para essa aventura em virtude de um certo descompromisso do autor e do leitor.

 

O interesse na abordagem literária da afecção psicótica reside, justamente, em nos autorizar um pouco mais de distância e de achatamento.

 

Isso implica dizer que, ao assim proceder, a literatura nos permite um afastamento do imperativo do intervir e do tratar tudo o que se nos apresenta, deixando livre para reflexão outros campos de visão. Eu o cito:

Não precisando curar aquilo que lemos e livres do papel de cuidador que nos é conferido por pertencermos à comunidade, podemos então, com mais vagar, fazer justiça à razão do autor, tolerar a vontade implacável que organiza essa lógica do destino, e compreender por que esse se recusa e escapa à nossa influência. Contornar a questão pelo estudo literário pode enriquecer o clínico e restituir-lhe um fato que não lhe é diretamente acessível.

 

Por outro lado, não lhe escapa também à crítica, que - de novo - ao assim proceder, obscurece o que nossos pacientes esperariam obter de seus psicanalistas. Pois se por um lado Jean-Claude Rolland se refere à função da poesia e da literatura como condição para melhor poder suportar a posição de psicanalistas face à psicose (ao que eu acrescentaria, às patologias do vazio, compulsões, psicossomatoses...), por outro, reconhece que enriquecemos mais a teoria psicanalítica com o que conhecemos da psicose do que enriquecemos aos psicóticos com o que aprendemos com eles sobre eles. Eu o cito: "[...] a teoria psicanalítica, como escrevi noutro momento[vii], enriqueceu-se mais com a exploração da psicose do que esta tirou proveito do seu método[viii]".

 

"Guarda aí para mim na sua nuvem", assim se despede o paciente de seu analista. O pedido traz duas afirmações importantes: o analista tem uma nuvem que lhe permite experimentar dúvidas, hesitações e incertezas sem enlouquecer, e em seguida que ele seja capaz de guardar, como fiel depositário, o que não coube "em mim".

 

Nuvem remete à capacidade de armazenar os pedaços de experiências que não se revelam por inteiro e logo criar narrativas, ligá-las para não enlouquecer.

 

E o que será que não coube nele, levando-o a pedir que o analista guarde em sua nuvem? Nesse ponto retomo as indagações que o analista se faz a si mesmo assim como as provocações de caráter feminino que o paciente lhe dirige que apontei no início do meu comentário. Seu investimento amoroso sobre o analista carrega dentro de si esse viés homossexual que somente através do humor encontra condições para se expressar, velando e desvelando simultaneamente sua posição feminina frente ao analista. Por essa razão sou levado a concordar com as reflexões que o autor faz ao término da apresentação de seu material clínico sobre a dimensão homossexual do paciente ter sido deixada um tanto de lado.

 

A dimensão homossexual desse amor pelo pai nunca foi explicitada nem por ele nem por mim, embora tenha se manifestado na transferência por meio de pequenas brincadeiras e piadas em que eu e o pai éramos comparados e colocados no lugar de quem o "sacaneava" ou era "sacaneado" por ele.

 

Com o desabafo de sua decepção com seu pai, "ele fudeu tudo", essa posição feminina se revela e se intensifica e, talvez, seja a isso que o paciente se refira ao pedir para o analista guardar em sua nuvem para ele.

 

Quero agradecer aos editores da Percurso a oportunidade do diálogo e mais uma vez felicitar ao analista por seu vigoroso trabalho.

 

lucía barbero fuks

Os debates clínicos propostos pela Revista Percurso enriquecem nossa prática, pela possibilidade de pensar as situações diversas que os pacientes trazem ao consultório, e com as quais em geral temos que nos haver em solidão. Nesta proposta de trabalho se estabelece, de certa maneira, um diálogo com alguém desconhecido, em uma tentativa conjunta de entender o que acontece através de um recorte da relação psicanalítica. Uma relação onde, inevitavelmente, está presente a transferência. Para nós, convidados ao debate, essa transferência é esquiva. Por um lado, podemos pensar com maior isenção; por outro, temos que considerar a modalidade de trabalho de cada um, e os tempos em que o analista se sente convocado a interpretar.

 

Entrando já no material em questão, o trabalho se inicia em clima de desconfiança, suscitando algumas perguntas inevitáveis. É possível fazer esse tipo de registro do material que o paciente traz? E que consequências isso poderia trazer ao futuro da relação analítica? O sigilo das sessões estaria mantido, ou acabaria por se turvar nesse processo?

 

Os ciúmes do paciente se dirigiam ao passado, como se ele quisesse se apropriar da vida toda da namorada e, simultaneamente, todos os amigos seriam competidores em potencial. Pergunto-me de partida se, quando ele "escolhe seu analista", não teria curiosidade em relação à vida dele, para conferir com que tipo de homem iria se relacionar. O caso é que no momento inicial ele precisava desabafar e encontrar um ouvido que pudesse acolher sua insegurança. Uma insegurança que se reflete também na falta de relatos de suas próprias relações sexuais. A satisfação se produziria no encontro dos corpos? Ou na fantasia de ser o vencedor em relação aos outros competidores? Por isso, apesar da incompatibilidade entre os dois, ele "não podia aceitar a traição", e a relação continuava.

 

Podemos dizer que vivemos numa cultura da representação, onde é mais importante o que representamos para os outros do que o que realmente somos. Parecer é mais importante que ser, seria isso o que habilitaria o paciente a ter um lugar na relação com o outro. Neste caso em particular, compartilhar a escuta da gravação com os outros o levou a sentir-se obrigado a manter sua posição, sendo que a resolução desse conflito já não seria só dele, teria que prestar contas para os outros que também escutaram. Essa exigência passa a representar um papel de acordo com os valores dominantes da cultura à qual pertence.

 

Por outro lado, o paciente não exigiu do analista que escutasse a gravação. Isso me leva a pensar que, inconscientemente, ele queria ser decodificado; que, escutando mil vezes esse relato, o analista pudesse delimitar o que era que ele, paciente, realmente escutava e pensava em relação a isso. Não precisava resolver a questão rapidamente; precisava retirar a libido aos poucos dessa ferida aberta, como se faz num processo de luto, para chegar à conclusão final, de quem seria ele como homem. Minha impressão é de que o paciente tenta, pelas repetições dos relatos, se assegurar de que conta com a escuta do outro, o analista, apesar de não obter a reafirmação esperada.

 

Qual é a origem da teoria da infidelidade generalizada das mulheres? Na sequência do material escrito, novamente se apresenta a questão: por que é tão importante alcançar essa verdade? Outros aspectos de sua vida ficam de fora: o analista nunca vem a saber se ele se sente amado pela namorada, ou de que forma se sente amado, e como são as relações sexuais entre eles. Talvez se torne pertinente, então, a pergunta: a competição entre os homens seria, nesse cenário, um equivalente à traição entre as mulheres?

 

Quanto ao namoro, a noção definitiva dessa relação talvez seja o não reconhecimento do outro, porque o paciente tende a ignorar as afirmações contrárias da namorada, deixando que prevaleça sua própria hipótese. Essa incapacidade de reconhecimento da alteridade é sem dúvida um dos temas da atualidade. Rejeitar o outro implica não assumir que o outro é a base de nossas esperanças.

 

O outro é um gerador de Eros, permitindo uma racionalidade com paixão. A não existência do outro provoca, em contrapartida, o desaparecimento dos próprios desejos e necessidades. Eticamente, temos que dar conta do outro, temos que reconhecê-lo. É por isso que Eros se torna condição e possibilidade de acharmos a nós mesmos.

 

Para a psicanálise, o amor existe lado a lado com o ódio, ambos estão juntos. Temos que recuperar a capacidade de amar justamente nesse reconhecimento do outro. Freud sustenta que "o egoísmo nos preserva de adoecer, mas finalmente é preciso amar para não adoecer e, como consequência, se adoecerá se, por uma frustração, não se pôde amar"[ix]. A psicanálise tenta elaborar um saber sobre o amor e o desejo, já que a clínica psicanalítica se encontra em seu início com o amor de transferência.

 

Já no divã, atrevendo-se a associar e deixando que o tema dos ciúmes ocupe a totalidade de sua consciência e de sua atenção, a figura significativa que começa a ocupar a cena é a mãe. "A cumplicidade entre ela e a namorada dele sempre servia de introdução a uma série de comentários sobre as características da mãe, sobre o relacionamento dela com o marido, pai de meu paciente, e sobre a forma como ela se relacionava com ele, filho, desde criança".

 

Em Três ensaios sobre uma teoria sexual (1905), Freud formula uma concepção do amor baseada no desenvolvimento psicossexual. O primeiro objeto de amor para o infans é a mãe. Na latência, a pulsão se divide num componente sexual que é vítima do recalque e a ternura que permanece consciente. Na puberdade, um novo objeto substitui o antigo e as duas correntes se reunificam. Também pode se produzir uma disjunção entre paixão e desejo.

 

Freud diz que o encontro com o objeto é, na realidade, um reencontro. Por isso, a forma como cada sujeito recebeu afeto, o lugar que ocupa na relação mãe-pai-filho, a relação com os objetos que lhe deram satisfação na infância, todos esses aspectos são muito importantes.

 

A eleição dos objetos de amor está marcada pelo objeto de amor primeiro: a relação com esse primeiro outro. Cada eleição de objeto vai ser uma tentativa de recriar aquelas aspirações ou expectativas infantis inconscientes que surgiram no passado e que ficaram recalcadas pela proibição do incesto. É a partir dessa falta que o amor tende a recuperar a ilusão de uma unidade. No desejo de ser UM, o sujeito se ama no outro. O outro se constitui no ego ideal da onipotência narcísica infantil, como ocorre no amor-paixão. Sendo o outro perfeito não existe a possibilidade de perceber a castração. Por sua vez, na medida em que a paixão é uma gratificação narcísica, evita a própria castração.

 

No enamoramento, quem ama sente uma falta, mas uma falta necessária para poder amar. Essa falta não produz sofrimento, e sim exaltação. Quando amamos, o ego se empobrece em benefício do objeto, mas este processo não produz dor porque o sujeito que ama se identifica narcisicamente com o objeto e participa de seu gozo. Por isso, a relação amorosa fracassa quando o processo cessa ou produz dor.

 

Mas, se o arcaico significa o encontro amoroso, a relação com o outro ressignifica essas relações e as libera da repetição. Esse seria o conflito entre repetição e criatividade enfrentado por toda relação de casal: identidade sustentada entre o ego ideal e a alteridade. É nesse ponto que aparece Eros como condição e possibilidade de nos acharmos.

 

Continuando com o relato clínico, vale dedicar um olhar ao "caráter obsessivo do ciúme que preponderava sobre os aspectos paranoicos". A partir disso, podemos considerar várias possibilidades.

 

Nos ciúmes desse paciente se reúnem elementos do luto, a dor pelo objeto perdido e pela ferida narcísica que teria provocado essa perda. A isso se acrescenta a hostilidade em relação aos supostos rivais. Mas temos que considerar a existência de outras determinações inconscientes. Eles retomariam as primeiras experiências de afetividade infantil, e remetem ao complexo de Édipo ou ao complexo dos irmãos do primeiro período sexual. Também podem ser vivenciados bissexualmente: além da dor pela possível perda da mulher amada e do ódio dirigido aos rivais masculinos, existiria um luto pelo homem a quem se ama inconscientemente, e um ódio direcionado à mulher que aparece como rival na relação ao homem.

 

Por outro lado, lembrando que o paciente falava da própria infidelidade praticada de fato, podemos atribuir os ciúmes pela infidelidade dela a um mecanismo de defesa centrado na projeção. O que procuraria seria um alívio e até uma absolvição, por parte da consciência moral, projetando no outro seus próprios impulsos. Os ciúmes que têm essa origem, por projeção, podem chegar a ter um caráter quase delirante, podendo, entretanto, ser trabalhados psicanaliticamente quando se descobrem as fantasias inconscientes da própria infidelidade. Cabe se perguntar qual era a situação psíquica do paciente nesse aspecto: recalque do sentimento de culpa? Autorização ligada à presença de uma dupla moral burguesa?

 

Contudo, o caráter insistente, reiterativo e referido a uma cena do passado com seu amigo, a da blusa aberta, e o fato de que o analista opte por postergar o início do processo analítico pleno, fazem pensar que este último queria descartar a hipótese de uma estruturação delirante que apontaria mais para a paranoia.

 

Quando o paciente aceita se deitar no divã, inicia-se uma nova etapa, tanto em relação a ele mesmo e sua possibilidade de se comunicar, quanto na confiança em relação à escuta do analista, que já não precisaria ser tão vigiado por ele. É nesse contexto que vai surgindo a mãe, inicialmente na "aliança entre mulheres" - e nesse quesito ele estaria em desvantagem, porque em momento algum surgiu no relato algo similar que ele pudesse sentir em relação ao pai ou a algum amigo; os que escutam a gravação são mulheres. Apesar de ele também ter uma aliança com a mãe, em sua cumplicidade para ocultar coisas do pai, sua impressão era de que "na hora H" a mãe ficava do lado das mulheres, isto é, de sua namorada.

 

Passamos depois a um período da análise em que a sensação de ser traído pelos pais é oscilante. Ora ele se sente usado pela mãe para ocultar suas trapaças, ora se sente traído pelo pai, que não o coloca no lugar de um homem com o qual se poderia estabelecer uma aliança. Nesse sentido, é como se para os pais ele continuasse a ser o adolescente em pânico que não conseguiu aguentar o intercâmbio. Mas, nesse episódio da adolescência, somos levados a pensar no triunfo da mãe, quando o trouxe de volta reafirmando se tratar de uma síndrome neurológica, sem ter, aparentemente, tentado reanimá-lo para que recuperasse sua força e seu desejo de completar esse projeto.

 

Em oposição a essa viagem, se faz presente outra questão: a escassez de menções a sua vida profissional. Em que área ele se sente reafirmado em sua potência produtiva? Quem são seus colegas? Em quem ele poderia se sentir apoiado em seu crescimento, tanto na vida amorosa quanto no seu crescimento profissional?

 

As sequências a que vou me referindo levam a um final que traz uma repetição: sair de cena para poder terminar a relação afetiva, mas também, desta vez, se sentir apoiado pelas figuras masculinas (pai e analista) em vez de ser socorrido pelas mulheres.

 

Por que a memória teria que ficar com seu ex-analista? Essa pergunta é importante, porque assinala o possível início de um caminho de abertura para a compreensão de que nem sempre as verdades são absolutas, e de que ser guardião de um enigma é algo possível também para ele próprio.
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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