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Resumo
Resenha de Lucía Barbero Fuks, Narcisismo e vínculos, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2008, 286 p.


Autor(es)
Maria Helena Fernandes
é psicanalista, doutora em psicanálise e psicopatologia pela Universidade de Paris VII, professora do Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, autora de "L’hypocondrie du rêve et le silence des organes: une clinique psychanalitique du somatique" , Ed. Presses Universitaires du Septentrion, 1999.


Notas

1 J. Guimarães Rosa, “O espelho”, in Primeiras histórias, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 66-67.

2 L. Andreas-Salomé, Correspondance avec Sigmund Freud, Paris, Gallimard, 1970, p. 38.


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 LEITURA

Narciso no espelho da contemporaneidade

Narcisismo e vínculos


Narcissus in the mirror of our times
Maria Helena Fernandes

Tirésias já havia predito ao belo Narciso que ele
viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse…
Sim, são para se ter medo, os espelhos.
[Guimarães Rosa] [1]

A elaboração teórica dos problemas que a clínica apresentava a Freud parece ter exigido a introdução de um conceito a mais – o de narcisismo – ainda em 1914, ocasião em que o pai da psicanálise estava às voltas com a problemática da psicose, da melancolia, da hipocondria, da neurose obsessiva e dos quadros dissociativos em geral. Em uma das cartas que dirigiu a Lou Andreas-Salomé, em primeiro de abril de 1915, ele enfatizou a fecundidade clínica do conceito de narcisismo: “Você sabe que eu me preocupo com o fato isolado, esperando que o universal manifeste-se por si mesmo. É por isso que acho os pontos de vista do narcisismo muito úteis para a análise da melancolia e de outros estados muito obscuros até o presente momento” [2].

Se a imagem de Narciso, debruçado sobre o espelho das águas do lago e encantado consigo mesmo, mostrou-se fecunda para o avanço da metapsicologia freudiana, não podemos deixar de constatar que essa mesma imagem continua hoje em dia extremamente útil. Desta vez, para espelhar as vicissitudes da cultura contemporânea e nortear as compreensões teóricas oriundas de vários campos do conhecimento preocupados com uma análise do social. É essa dupla função do conceito de narcisismo que o livro de Lucía Fuks vem testemunhar, assinalando justamente o lugar articulador deste conceito como instrumento de leitura das vicissitudes da clínica cotidiana e das mazelas da cultura de nossos dias.

A autora mostra que a potência teórica daquilo que Freud descreveu como uma etapa necessária na evolução da libido, na singularidade da subjetividade individual, assume, na análise dos autores contemporâneos, o lugar de noção privilegiada para melhor compreender a cultura.

É ancorada no discurso freudiano que Lucía discorre sobre a violência, a relação entre os sexos, a evolução feminina, o trauma, o abuso sexual, as relações familiares e contribui, de forma original, para uma compreensão propriamente psicanalítica a respeito do impacto devastador das vicissitudes da vida contemporânea na constituição da subjetividade.

Nesse sentido, a escolha do título Narcisismo e vínculos, assim como a extrema atualidade dos temas abordados, vêm testemunhar a aposta no alto potencial da clínica psicanalítica enquanto espelho da cultura, mas também o seu reverso, isto é, a tomada em consideração do social como horizonte da prática clínica. O sofrimento daqueles que nos procuram não brota apenas dos tumultos internos de cada um, mas também das exigências impostas pela sociedade em que vivemos. Encontramos aqui um duplo espelhamento, que permeia praticamente todo o livro: narcisismo/individualismo e socialização/vínculos. Esse duplo espelhamento funciona como um operador de leitura que permite a Lucía demonstrar, através do instrumental psicanalítico, que os modos de socialização na contemporaneidade parecem pautados pela lógica narcísica. Isto é, os vínculos sociais se organizam a partir de identificações entre os sujeitos pautadas por imagens idealizadas e marcadas pela lógica do imaginário.

Os ensaios reunidos neste livro são, quase todos, fruto de comunicações orais, em diversos momentos e contextos. Embora se perceba o encadeamento dos temas abordados, o livro apresenta a vantagem de cada capítulo poder ser lido de forma independente. Isso o transforma também em uma rica e diversificada fonte de consulta, não apenas para os psicanalistas, mas também para pesquisadores dentro e fora do âmbito psicanalítico.

A autora abre o livro com uma releitura do texto freudiano sobre Leonardo da Vinci. Retomando a descrição feita por Freud acerca dos três destinos possíveis para a investigação sexual infantil, ela aborda a relação de Da Vinci com a investigação científica e com a atividade artística. Insistindo no fato de que a pulsão de saber, tão evidenciada na curiosidade investigativa de Leonardo, “procura menos as respostas já obtidas do que as perguntas por formular” (p. 33), Lucía enfatiza a dimensão essencialmente criativa da sublimação.

Uma das características da autora é a precisão na formulação das perguntas. A aparente simplicidade das perguntas não esconde que é justamente na aparência das certezas prontas que Lucía deseja fazer incidir seus questionamentos. É pondo em movimento uma leitura afiada do texto de Freud que ela contesta ao mesmo tempo o apego dogmático e idealizado às teorias, assim como denuncia o risco de autoritarismo vigente no interior das relações humanas, familiares e institucionais.

É assim que o interesse da autora na “historicidade das relações entre sexo e poder” (p. 48) permeará um bom número dos ensaios. No segundo e no terceiro capítulos, a questão do vínculo amoroso e a problemática da violência entre os casais serão trabalhadas. Assinalando particularmente o desafetamento do sujeito contemporâneo, avesso à dramaticidade das paixões e ao engajamento coletivo, Lucía aponta a perda de relevância da palavra “como suporte do pensamento e da subjetividade, e também como suporte da intersubjetividade e do vínculo” (p. 36). A partir daí, apoiando-se em autores como Bourdieu e Lipovetsky, é com extrema perspicácia que Lucía nos propõe uma discussão relevante sobre as vicissitudes da relação homem-mulher na atualidade. A exaltação do individualismo e a competição acirrada que impera na cultura atual infiltram também as relações amorosas. No confronto especular, fruto de uma relação predominantemente dual narcísica e na ausência de uma intersubjetividade capaz de sustentar a diferença, o que predomina é a lógica desgarrada da pulsão de morte.

A realidade social atual, enfatiza Lucía, “dentro da qual se destaca a premência das exigências socioeconômicas e um neoindividualismo exacerbado, coloca à prova a capacidade dos indivíduos para enfrentá-las. Como não faltam os fracassos, entra em jogo a economia narcisista que tenta amenizar as dificuldades do eu com a realidade” (p. 64). Assim, a autora irá, no quarto capítulo, discutir a relação entre as especificidades do mundo contemporâneo e a prevalência das ditas patologias narcísicas no cenário psicopatológico da atualidade, salientando a ênfase nas problemáticas centradas “nas dificuldades de identificação, autorreconhecimento e valorização” (p. 64).

Passeando com destreza pela referência a vários autores de filiação distinta no campo psicanalítico, com o objetivo de especificar as características que delimitam um modo de funcionamento psíquico próprio dessas patologias, a autora adverte, com razão, que se essas patologias costumam ser pensadas como resultantes dos novos tempos, elas certamente não deixam de ser também “variantes contemporâneas das carências narcísicas próprias de todas as épocas” (p. 64). Assim, Lucía chama nossa atenção para o paradoxo desse modo de funcionamento psíquico: “A afirmação de que por trás da força do narcisismo se encontra a fragilidade do eu parece resumir bem o cerne da questão, tanto teórica como clínica, presente nessa problemática” (p. 67).

Os desdobramentos clínicos dessa compreensão se fazem sentir pela fineza com a qual a autora aponta os impasses no manejo transferencial desses casos. Exigindo delicadeza na condução do processo terapêutico, esses pacientes solicitam uma maior plasticidade do enquadre analítico. Ao mesmo tempo, o papel da agressividade, da inveja e dos ataques ao objeto no conflito intrapsíquico e interpessoal sustentam, como insiste Lucía, que é necessário firmeza para trabalhar, desde o início, a transferência negativa e a hostilidade atualizadas na relação com o analista.

Ao abordar as vicissitudes da clínica em toda a complexidade exposta nos seus paradoxos, a autora anuncia, de forma discreta e concisa, a ambição que a moveu a articular a dupla narcisismo-vínculos para abordar a questão da violência da pulsão e do encontro com o outro, a saber, a ambição de articular clínica e cultura. Isto é, trata-se de pensar a cultura com os elementos conceituais forjados pela construção do dispositivo clínico da psicanálise. É a própria autora quem esclarece sua empreitada: “Reconhecer, finalmente, na emergência dessas patologias, as características de um sintoma analisador das tensões e conflitos de um contexto sociocultural comum, que nos constitui em simultaneidade, permite articular a violência intrassubjetiva que neles observamos com aquela que atravessa os diversos espaços: a dos vínculos cotidianos, a que existe no interior das casas, a que existe nas ruas e a que invade as relações entre países e raças. Essa articulação ajuda a aprofundar a dimensão crítica que é consubstancial à psicanálise desde seus primórdios” (p. 78).

É assim que no quinto capítulo, ao abordar os diferentes momentos da evolução feminina, deparamos com uma leitura crítica que não hesita em atribuir uma positividade à diferença entre os sexos: “O que se propaga não é a semelhança dos papéis sexuais, mas a não diretividade dos modelos sociais e, correlativamente, o poder de autodeterminação e de indeterminação subjetiva dos gêneros” (p. 84). A autora salienta a relação privilegiada da mulher com o amor para analisar as vicissitudes da relação com a figura paterna, seus desdobramentos no vínculo amoroso com outro homem, e se questiona: afinal, o que é ser pai na atualidade? Em contraposição ao declínio social da imagem paterna, Lucía sugere que a presença corporal do pai no espaço doméstico permite repensar seu lugar e assinala a importância do laço conjugal. Se para a criança o pai “terá sido primeiramente um lugar instituído por uma mulher” (p. 93), é importante, assinala Lucía, “que ele ocupe esse lugar à sua maneira, e não de acordo com as imposições da mãe. Que ele realize tarefas, preencha um papel junto a ela. Com isso, fará significativa diferença no papel ocupado pela mãe, ou seja, pela mulher nesse momento peculiar da evolução feminina” (p. 93).

Continua a ser o universo feminino o foco de atenção no sexto capítulo. O interesse da autora na relação que se estabelece entre o artista e sua obra no processo de criação retorna ao analisar o modo como a complexidade feminina emerge em duas personagens de Clarice Lispector – Lori (do livro Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de 1969) e Macabéa (do livro A hora da estrela, de 1976). Chamando a atenção para o nítido espelhamento entre Clarice e sua personagem Lori, a autora salienta que a personagem Macabéa, ao contrário, espelha apenas o estrangeiro que habita em todos nós “a face oculta de nossa identidade” (p. 96). A partir daí, Lucía se pergunta se a importância que Clarice atribui à morte neste último livro não seria uma espécie de questionamento sobre suas próprias possibilidades de morrer de um modo diferente do de Macabéa. Morte e criação se veem assim espelhadas na figura feminina de Clarice Lispector.

Nos próximos três capítulos, o interesse da autora se volta para a atualidade do conceito de trauma postulado pela psicanálise. Percorrendo a evolução desse conceito na teoria freudiana, Lucía aponta, a partir de um relato clínico, a absoluta singularidade histórica do traumático na vida de cada um. E isto com o objetivo de enfatizar a fecundidade da noção de a posteriori, não apenas para uma compreensão teórica, mas, sobretudo, para uma melhor compreensão do modo como opera o processo analítico. A seguir, propõe uma reflexão sobre os efeitos traumáticos produzidos pela vivência inesperada de situações de violência, nas quais o sujeito se vê confrontado à eminência da própria morte, como nos assaltos, nos atentados, nos sequestros etc.

O alcance traumático dessas vivências, insiste Lucía, é intenso pela ruptura que produzem na existência cotidiana, mas também por “colocarem o sujeito frente a um perigo vital para o qual não tinha preparo algum” (p. 125). Ao formular o conceito de emergência psicológica, a autora enfatiza a importância, nessas situações, do trabalho terapêutico precoce: “Falar com alguém nesse momento já implica tomar um pouco de distância das imagens de horror que produziram marcas no aparelho psíquico. Falar com alguém é, também, segurar-se no mundo dos humanos – a comunidade dos vivos – e escapar, dentro do possível, ao poder de atração do horror e da morte” (p. 129-130).

Assim como o mesmo acontecimento não carrega a mesma carga traumática de um sujeito a outro, as reações psicopatológicas também são muito diversas: “manifestações de pânico, ansiedade, reações depressivas e crises histeriformes, até o estupor e as manifestações psicossomáticas” (p. 125). Salientando que as situações mais frequentes em que surge uma desorganização somática são as perdas narcísicas (lutos, fracassos amorosos e profissionais, perdas financeiras e decepções com os ideais), Lucía irá propor, no nono capítulo, uma reflexão a respeito da relação entre trauma, elaboração psíquica e doença orgânica.

Partindo da ideia de atuação somática – “algo que não pôde entrar no processo simbólico de elaboração e se degrada através de transtornos corporais” (p. 141) –, a autora insiste na importância do ponto de vista econômico na compreensão do trauma e sua utilidade na compreensão das desorganizações somáticas. Estas aparecem como uma espécie de descarga defensiva frente à própria realidade psíquica. Sendo assim, é justamente a escuta e o acolhimento do analista que surgem, não apenas como possibilidade de redução da vulnerabilidade somática do analisando, mas também como uma “ampliação dos recursos elaborativos dos pacientes, tanto no que se refere ao desbloqueio dos lutos congelados, quanto no enriquecimento de sua vida representacional […]” (p. 146).

Lançando mão do conceito de gênero, Lucía aborda, no décimo capítulo, a violência exercida sobre a mulher e salienta justamente os mecanismos sociais de produção e, ao mesmo tempo, de velamento dessa violência, seja ela física, sexual ou psicológica. É através da noção de violência invisível que a autora expõe um pensamento extremamente lúcido e crítico a respeito do malestar feminino na atualidade. Enfatizando que “nomear o mal-estar das mulheres não é só um ato semântico” (p. 153), Lucía discorre sobre o mito da maternidade e a participação das mulheres nos redutos masculinos, como o futebol, para salientar o preconceito de gênero contra a mulher presente ainda hoje.

Além disso, ao apontar os efeitos psíquicos nefastos decorrentes da violência experimentada, a autora assinala que, examinados em conjunto, o que chama a atenção nos relatos das mulheres “é a repetição: o que cada um acredita ser singular é, na verdade, compartilhado por muitos indivíduos” (p. 159). É por isso que um aspecto fundamental, insiste Lucía, “é romper esse ciclo de silêncio, e sem dúvida a psicanálise desempenha um papel importante nesse processo. Por um lado, a abordagem clínica das vítimas da violência coaduna – na possibilidade de uma abertura para a palavra – com a dimensão terapêutica da reestruturação subjetiva e com a dimensão ética de uma restituição da dignidade. Por outro, contribui para a investigação e para o conhecimento dos processos de dominação e sujeição no campo complexo da construção e da instituição social do gênero” (p. 159). Vê-se aqui reafirmada sua intenção de explicitar a potencialidade da psicanálise não apenas como dispositivo clínico de cuidado, mas também como dispositivo de investigação dos processos de dominação vigentes no âmbito social.

A fecundidade da teoria psicanalítica do trauma continuará a se fazer presente, desta vez para orientar as reflexões da autora sobre a questão, atualíssima, do abuso sexual de crianças e adolescentes. Discorrendo sobre as posições subjetivas do pai abusador, da criança e da mãe, Lucía propõe ao longo de dois capítulos (11 e 12) uma reflexão sobre a dimensão do traumático nas situações de abuso e incesto que leva em conta, além da questão óbvia da submissão no interior das relações de poder, a dimensão pulsional.

É assim que os inúmeros efeitos nefastos do abuso sexual (depressão, fobias, atraso escolar, enurese, tentativas de suicídio etc.) aparecem agrupados, de forma evidente, no prejuízo da “autoimagem narcísica e sexual” (p. 172). Em consequência disso, aponta Lucía, “a vulnerabilidade das mulheres em relação a homens sexualmente exploradores aumenta e sua possibilidade de proteger os filhos diminui” (p. 172-173). É nessa direção que se pode melhor compreender que na maior parte dos casos “a mãe muitas vezes tenta renegar suas próprias percepções, no intuito de proteger uma certa unidade familiar, ou ainda por sentir medo da própria violência do agressor” (p. 177). Por outro lado, o silêncio amedrontado das crianças, por receio de perder o afeto do abusador, de que não acreditem nela, ou de que a achem culpada, esbarra, via de regra, na certeza de que a mãe sabe do que está acontecendo. A imensa complexidade dessas situações, além de apontar a importância do trabalho analítico com todos os atores desse drama, solicita ainda uma abordagem multidisciplinar. O rompimento do silêncio e a ação da lei na punição do abusador, enfatiza Lucía, funcionam como um ponto de partida importante para a reorganização subjetiva da criança: “Se o abuso é reconhecido como um delito dentro do discurso social e castigado pela lei, então seu processamento no psiquismo da vítima terá possibilidades de superar o bloqueio ao trabalho de representação” (p. 215).

Os cinco últimos capítulos propõem ao leitor uma reflexão instigante e rigorosa sobre os pilares da prática clínica. Retomando a cronologia dos modelos teóricos freudianos para compreender a formação do sintoma, a autora avança uma discussão que coloca em evidência a dupla dimensão que o caracteriza, a saber, o sintoma se impõe como substituto e como gozo (no sentido utilizado por Lacan). E isto, com o objetivo de insistir na necessidade de considerarmos a relação entre sofrimento, sintoma e gozo, se quisermos avançar na compreensão dos impasses colocados pela complexidade evidenciada na clínica contemporânea.

A partir daí, a argumentação da autora conduz o leitor através de um questionamento arguto sobre a espinhosa questão do fim da análise, sem recuar diante da insistente pergunta: “O que muda em uma análise, além dos sintomas, no fim do processo? Qual é o mecanismo dessa mudança? É a interpretação? É a transferência?” (p. 232). Para tentar responder a essas questões Lucía percorre, com destreza e simplicidade, prova de quem tem muita cultura psicanalítica, o que responderiam os analistas da psicologia do ego, os kleinianos, os winnicottianos, os lacanianos e os freudianos. É esse percurso que permite à autora tematizar os alcances e limites de uma análise, assim como a complexidade inerente à especificidade da metodologia psicanalítica.

É nesse contexto que aborda as vicissitudes da supervisão, dispositivo essencial na formação dos psicanalistas, e enfatiza a posição estratégica do supervisor, o lugar do terceiro no processo de análise. Tal lugar não se refere apenas à dualidade analista-analisando, mas também à outra dupla, a saber, o analista e seu próprio analista. A autora problematiza, a partir daí, a questão dos processos identificatórios, inerentes à formação de todo analista.

Discorrendo sobre a história da supervisão no interior do movimento psicanalítico e suas diversas concepções, ela descreve sua própria experiência como supervisora e defende a fecundidade das transferências com vários supervisores “para evitar uma identificação demasiada com o estilo de um só analista” (p. 246). Vemos aí a atenção de Lucía às relações de poder no interior dos dispositivos de transmissão da psicanálise, o que a faz apostar nos espaços coletivos e, também, na riqueza da transversalidade da troca entre analistas.

Assinalando que a solidão inerente à situação analítica submete “a duras provas o narcisismo do analista” (p. 267), a autora nos conduz para o último capítulo de seu livro em que propõe uma discussão, importantíssima, sobre os valores e critérios que modelam a prática dos analistas e sua relação com os ideais. A questão do poder do analista sobre o analisando, as ambíguas interpretações da ideia de neutralidade do analista, a relação entre aspirações e ideais nos analisandos e os ideais próprios do analista são algumas das questões abordadas. De maneira firme e corajosa, Lucía reafirma seu compromisso em explicitar e denunciar as armadilhas inerentes a quaisquer modos de apreensão totalizante da realidade do sujeito contemporâneo, mesmo aqueles oriundos da própria psicanálise.

É assim que o leitor se encontra com toda a potência e fecundidade da experiência da autora, não apenas oriunda de sua atividade clínica, mas também de todos os anos dedicados à transmissão da psicanálise. Esta experiência tem história. Há cerca de trinta anos, Lucía Fuks tem se dedicado à formação de analistas no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Em seu prefácio, Renato Mezan oferece um bom guia de leitura desse livro, como também uma oportunidade de conhecer o percurso de uma psicanalista, cuja aguda consciência dos impasses e complexidades do processo analítico se fez sempre acompanhar de uma crítica político-institucional a respeito dos destinos da psicanálise.

Como dizia Pierre Fédida, em suas belas lições de psicanálise: “em todo texto escrito por um psicanalista devíamos sempre poder entrever sua clínica, mesmo que seja um texto teórico”. Isso pressupõe que a escrita em psicanálise carrega a marca incontestável de sua especificidade metodológica. Nos dias de hoje, em que a violência desmedida impera e a sociedade enfrenta profunda crise ética, somos cotidianamente convocados, também enquanto psicanalistas, a tentar administrar o excesso, o mal-estar e o sofrimento que nos espreitam a todos. O livro de Lucía Fuks é um testemunho eloquente de que é de nossa responsabilidade, ética e social, buscar meios de contribuir, com nosso instrumental metodológico, para melhor compreender e intervir nas problemáticas sociais e culturais que nos afligem, mesmo sabendo dos riscos e dificuldades da empreitada psicanalítica para além de nossos consultórios.

De fato, se é enquanto psicanalistas que somos cotidianamente convocados, isso implica não perdermos de vista a especificidade de nosso instrumento metodológico. Se sabemos dos riscos e dificuldades de uma empreitada para além de nossos consultórios, é porque não perdemos de vista as fronteiras epistemológicas do nosso campo de conhecimento. É a essa atenção à especificidade de nosso instrumento de trabalho que a escrita deste livro vem testemunhar.

O livro Narcisismo e vínculos: ensaios reunidos testemunha de forma viva a potencialidade da especificidade clínica da psicanálise para contribuir não apenas para cuidar do sofrimento individual, mas também para compreender as especificidades do sofrimento do sujeito contemporâneo, imerso simultaneamente no seu universo simbólico e pulsional. Vale a pena conferir!

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