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Resumo
Resenha de Julieta Jerusalinsky (org.), Travessias e travessuras no acompanhamento terapêutico, Salvador, Ágalma, 2016, 296 p.


Autor(es)
Renato Tardivo

é psicanalista e escritor. Mestre e doutor em Psicologia Social pela usp. Pós-doutorando em Psicologia da Saúde (Metodista/capes). Autor, entre outros, de Porvir que vem antes de tudo– literatura e cinema em Lavoura arcaica.



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 LEITURA

A construção de um lugar [Travessias e travessuras no acompanhamento terapêutico]

Constructing a place
Renato Tardivo

A clínica psicanalítica vem enfrentando nos últimos anos o desafio de ir para além do setting tradicional, seja o do consultório seja o das instituições. A contemporaneidade e os sintomas que dela decorrem solicitam, com efeito, uma clínica extensa - clínica engajada à cultura, às artes, à política. Se umas das principais demandas da clínica contemporânea é a falta de lugar, cabe a essas novas modalidades de clínica ir até o não lugar da pessoa em sofrimento para, nesse movimento, ajudá-la na construção de um lugar.

Essa é a temática que atravessa todos os ensaios do livro Travessias e travessuras no acompanhamento terapêutico, organizado por Julieta Jerusalinsky. Além de organizadora, Jerusalinsky assina alguns capítulos, em coautoria ou sozinha. Na apresentação, ela traz interessantes reflexões que envolvem a temática do livro: o sofrimento que estar sozinho implica, as diferentes modalidades de aprendizagem e suas especificidades, a importância da abertura à alteridade (só assim é possível que haja desejo) e das implicações que o contato com o outro, o estranho/familiar, traz.

Os primeiros capítulos, também assinados por Julieta Jerusalinsky, situam epistemologicamente o - e justificam a importância do - acompanhamento terapêutico. Enquanto, muitas vezes, família e escola esperam que o at exerça uma função de tapa-buraco, Jerusalinsky sublinha a importância de "tomar, como ponto de partida para a intervenção, um traço que possa ter função de referência, iniciando, a partir de tal traço, um deslocamento psíquico e, ao mesmo tempo, pela cidade, produzindo a extensão do fio do desejo desde o qual se tece uma série simbólica" (p. 35). Aprendizagem e cuidado aqui implicados não seguem a via da adequação, mas, em direção oposta, a da criatividade, da construção compartilhada, do desejo.

Mas quando é pertinente o recurso ao acompanhamento terapêutico? Lembrando Freud e a condição artificial que, segundo ele, decorre do tratamento, qual seja, a neurose de transferência, Jerusalinsky indaga: "Mas o que se passa quando nada ocorre? Quando alguém está só, retirado das experiências?" (p. 38). Quer dizer, e quando não há conteúdo a ser recordado, repetido e elaborado? É precisamente aí que o acompanhamento terapêutico atua - "como intervenção em ato" (p. 39). Intervenção que precisa se interrogar o tempo todo, se reconstruir, visando, segundo a autora, ao protagonismo do paciente, tirando-o da reclusão do anonimato.

Todas as reflexões do livro são atravessadas por relatos clínicos. Os textos têm vida, movimento - são travessias engastadas a outras travessias. Uma das propostas mais criativas nesse sentido é a apresentada pela Equipe Ponte: Julia F. Vasconcelos, Manuela B. Crissiuma, Marcela M. Cury e Mariana F. Angelini. Trata-se dos grupos itinerantes. Neles, os participantes lidam juntos com o novo, o desconhecido, o inesperado, por meio de saídas pela cidade. Ou seja, no contato com o outro, cria-se a possibilidade da construção de protagonismos para cada um dos integrantes, um protagonismo coletivo - e é um bonito paradoxo, porque os integrantes podem ser eu e outro, ou, como diria Merleau-Ponty, visível e invisível a um só tempo.

"Acompanhamento terapêutico e práticas inclusivas na escola", de Renata Guirado e Clarissa Metzger, apresenta uma consistente reflexão acerca da infância e inclusão, amparada, entre outros autores, em Arriès, Foucault, Freud e Lacan. Há uma passagem cinematográfica por excelência: "Do ponto de vista dos laços sociais, as crianças são sempre olhadas de um universo fora delas. São os adultos que se voltam para as crianças, que as observam, que procuram nelas sinais de que vão bem, ou não [...]" (p. 152). Há, aqui, a noção de dentro e fora, observador e observado, em suma, de diferentes perspectivas. Poderia muito bem se tratar do roteiro de um filme, a câmera de cima para baixo, os planos ora mais abertos ora mais fechados. Precisamos atentar para a qualidade desse olhar - se se trata de um olhar normativo ou de um olhar implicado e questionador.

Há ainda uma série de ensaios e cada um deles renderia uma resenha independente. Fecha o livro "Por uma inclusão escolar possível: o que o Acompanhamento Terapêutico tem a ver com isso?", de autoria da já mencionada Equipe Ponte e de Jerusalinsky. A escola, lugar social reservado às crianças, pode funcionar como instituição que privilegia as aquisições sociais e a aprendizagem, mas pode também ser fonte de ameaças, angústia, sofrimento. Nesse sentido, promovendo as articulações e pontes entre família e escola, criança e outros, criança e linguagem, o acompanhamento terapêutico contribui para que a criança venha a se constituir enquanto sujeito - ou seja, aquele que reconhece as normas da cultura e que, justamente ao ressignificá-las, pode, pela via do desejo, construir a sua história em temporalidade après-coup


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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