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Resumo
Resenha de Cassandra Pereira França, Nem sapo, nem princesa: terror e fascínio pelo feminino, São Paulo, Blücher, 2017, 175 p.


Autor(es)
Marcia Schivartche Schivartche
psicanalista clínica, mestre e doutoranda em Psicologia Clínica pela puc-sp.

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 LEITURA

Caminhos e descaminhos do sexual [Nem sapo, nem princesa: terror e fascínio pelo feminino]

Paths and errance of the sexual
Marcia Schivartche Schivartche

Em tempos de discussões sobre sexo e gênero, o livro de Cassandra Pereira França chega para contribuir com este diálogo da clínica contemporânea. 

O livro propõe um desafio que é o de reconhecer que o clássico modelo edipiano não responde mais por muitas construções identitárias. Para a autora, o Complexo de Édipo não seria mais a chave de leitura para a gênese da identidade de gênero, o que implica um aprofundamento ainda maior com relação aos estudos sobre os conceitos de narcisismo e identificação. 

A autora levou três décadas para escrever esse belíssimo objeto de estudo, tempo que precisou para tomar certa distância afetiva do caso.

O texto, elaborado a partir do caso de B., uma criança que chegou à análise com quatro anos e permaneceu com sua analista durante três anos, aborda, especialmente, a questão da identidade sexual na infância.

Miriam Chnaiderman, que prefacia o livro, chama atenção ao uso que foi feito dos desenhos de B. como importantes elementos para pensar o processo do analisando. Desenhos que vão, ao longo do processo analítico, ganhando uma narrativa, além de mostrar a riqueza do mundo fantasmático do paciente. Através dos desenhos a analista pode verificar a evolução entre a falta de vida própria que eles apresentavam, como uma falsa estética na qual o afeto estava ausente, para a gênese de vida e uma sofisticação que denotava as múltiplas identificações elaboradas pelo paciente.

A autora trabalha o tempo todo o imbricamento entre prática e teoria. Para isso, apoia-se em vários autores para desenvolver as suas ideias. Entre eles Freud, que não poderia deixar de ser citado, uma vez que se trata de um trabalho psicanalítico, especialmente no que diz respeito à ideia do estado de desamparo; Robert Stoller e a identidade de gênero, sobre o transexualismo na infância; John Bowlby e a Teoria do Apego; Didier Anzieu e seu estudo acerca dos processos psíquicos primários; Bion e o conceito de continência psíquica exercida pela mãe; Melanie Klein para pensar e agir sobre o manejo transferencial; Renato Mezan, seu orientador do Doutorado, para pensar a noção de fantasia inconsciente; Judith Butler e sua proposição de que o gênero deva ser considerado como ato performativo, uma ação pública, que encena significações já estabelecidas socialmente e, desse modo, funda e consolida o sujeito; Foucault e a ideia de que o sexo acabou por caracterizar e unificar não apenas as funções biológicas e os traços anatômicos, mas as atividades sexuais; Silvia Bleichmar, sua supervisora e co-orientadora, que acredita que a enunciação do gênero se inscreve na identidade nuclear do ego, numa época em que o inconsciente está em vias de constituição; Eliane Kogut e os estudos sobre o movimento crossdresser no Brasil. 

A autora detalha o caso permitindo ao leitor acompanhar o seu desenrolar, nos seus impasses e transformações, como uma ferida aberta, até porque o caso de B. se dá com muita força no corpo. 

A escuta livre de classificações da analista e sua ideia de que existem mais gêneros do que sexos garantiram que a criança não fosse enquadrada em nenhuma identidade sexual e deram a oportunidade para que B. pudesse fazer suas escolhas. Na mesma direção, não compactuou nem com as violências das normas que regem a necessidade de se ter um sexo definido nem com a mãe, que não permitia à criança sair da imersão simbiótica e criar sua própria identidade.

Fica claro, ao longo da leitura, a dificuldade que a analista teve em sustentar a transferência num caso que aborda os primórdios da constituição psíquica, que está dividido em três fases: a primeira em que B. sente inveja da figura feminina; a segunda em que há um predomínio de um movimento egoico defensivo que fazia com que escondesse seu pênis e alardeasse seu desejo de ser mulher, na tentativa de escapar de um ataque fulminante ao órgão que elegeu como referente de individuação; e a terceira, que nos indica que, apesar de B. ter tido um avanço significativo na elaboração da angústia de castração, fica a impressão da identificação pelo gênero feminino, pois o fascínio pelos adereços usados pelas mulheres ainda persistia.

Confrontamo-nos, assim, com velhos conhecidos da clínica infantil, isto é, questões como a criança poder se libertar de uma imago materna e constituir a sua própria identidade psíquica sexual sem o peso que aquela lhe confere e o difícil reconhecimento dos pais pelo trabalho de parceria no acompanhamento da constituição psíquica de seus filhos, especialmente quando a análise mexe nas suas próprias feridas narcísicas.

A leitura instiga pensar em outra lógica para a questão do gênero, que não pela binariedade que considera apenas a coerência entre anatomia, identidade de gênero, desejo e prática sexual. Desta maneira, o desafio de suportar na escuta (transferência) uma sexualidade fora dos parâmetros daquilo que a cultura determinou como sendo masculino e feminino permite que se escute um sujeito que se sente aprisionado pela sexualidade normativa. 

Cassandra Pereira França utiliza-se bastante do pensamento teórico de Silvia Bleichmar como referência para discutir a sexualidade. Esta postula que, apesar de o autoerotismo seguir os caminhos do paragenital, ele não é simplesmente um componente de uma síntese do genital, conforme a ideia de Freud de que afinal tudo se junta na genitalidade. Portanto é preciso estudarmos mais os avatares da correlação entre autoerotismo e autoestima na construção da identidade sexual. Outra postulação dá conta de que é fundamental reconhecermos que a identidade de gênero antecede o modo em que se define a sexuação e a diferença anatômica, e que também é anterior a escolha de objeto, e a eleição de objeto pode ser alterada a partir dos modos de identidade ou vice-versa.

No mais, o livro é um jeito de a autora mostrar o seu incômodo em relação à forma como a sexualidade tem sido vivenciada pelas pessoas no século xxi, quando não parece haver mais espaço para a fantasia, uma vez que tudo tem de ser vivenciado no plano concreto. Ela acredita ser importante dar visibilidade às angústias que acompanham a fantasmática da designação de gênero na infância quanto aos engessamentos teóricos da psicanálise para lidar com o emaranhado de questões envolvidas nesse assunto tão complexo. De volta ao questionamento sobre o Complexo de Édipo, assume que as variações na identidade sexual não se reduzem ao posicionamento da criança diante da castração e sim aos complexos modos de combinação entre os fantasmas que articulam o desejo sexual e as formas de organização dos atributos de gênero.

É no final do texto que descobrimos o que motivou Cassandra a escrevê-lo. Vale a pena a leitura tanto pelo seu valor no campo psicanalítico como também pelo jogo detetivesco. 


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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