EDIÇÃO

 

TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
  
 

voltar
voltar à lista de autores

Resumo
Resenha de Silvia Leonor Alonso, Danielle Melanie Breyton, Helena M.F.M. Albuquerque, Luciana Cartocci (orgs.), Corpos, sexualidades, diversidade, São Paulo, Escuta/Sedes Sapientiae, 2016, 423 p.


Autor(es)
Lilian Quintão Quintao
psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas

1. Psicanalista, professora do Curso de Psicanálise e coordenadora do Grupo de Trabalho e Pesquisa sobre o Feminino e o Imaginário Cultural Contemporâneo do Instituto Sedes Sapientiae.

2. Psicanalista, diretora do filme De gravata e unha vermelha.

3. Jornalista e coordenadora de mídias sociais da Secretaria de Comunicação da Prefeitura do Município de S. Paulo.

4. Professor, músico e escritor.


voltar à lista de autores
 LEITURA

Transitando [Corpos, sexualidades, diversidade]

Transiting
Lilian Quintão Quintao

Este é um livro que reúne os trabalhos apresentados na iii Jornada Temática do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, "Corpos, sexualidades, diversidade". Realizado em junho de 2015, o evento foi proposto pelo grupo de trabalho e pesquisa "O feminino e o imaginário cultural contemporâneo", cuja coordenação vem sendo conduzida desde 1997 por Silvia Leonor Alonso, cuja investigação, reflexão e diálogo baseiam-se nas questões do feminino na atualidade.

 

Como nas duas jornadas anteriores, o livro é consequência e desdobramento do que vem sendo estudado e produzido até agora. Esta, em particular, teve sua atenção voltada principalmente para o fenômeno recente e controverso das novas arrumações ou desarrumações das representações pré-fixadas de masculino e feminino, seus novos arranjos e consequentes configurações, mas principalmente o caráter de trânsito entre as diversas modalidades de sexualidade. 

 

Quais repercussões, aberturas e desenvolvimentos esse cenário trouxe para a psicanálise - tanto na teoria quanto na clínica? É o que apresentam os autores que se debruçaram sobre uma grande diversidade de aspectos. Para se ter uma ideia, a Jornada contou com 10 mesas, mais de 30 artigos e um instigante debate a respeito do belo filme De gravata e unha vermelha, de Miriam Chnaiderman, com a diretora, Bia Abramo e José Miguel Wisnik.

 

Como ponto de partida, acompanho quase que passo a passo a conferência de abertura dada por Silvia Alonso, por considerar que praticamente tudo que lá está contido será retomado nos artigos que virão, de uma forma ou de outra.

 

"Anatomia não é destino": eis a frase com que Silvia Alonso inicia sua fala (Freud, 1924). A partir disso desenvolverá suas propostas, desde a teoria freudiana que diz que "A psicanálise [...] não pretende descrever o que é a mulher [...] mas indagar como advém, como se desenvolve a partir da criança polimorfa" (Freud, 33a Conferência, de 1932, in Alonso, p. 14), ou seja, a autora pergunta-se o que constitui a feminilidade ou a masculinidade que a anatomia não é capaz de apreender. 

 

Alonso chama a atenção para o modo como Freud aborda a sexualidade, ao afastar-se de um modelo médico-biológico-naturalista: ela não se restringe à genitalidade; ao contrário, é polimorfa ao abarcá-la de maneira parcial e pré-genital, através de uma pulsionalidade espalhada por todo o corpo, cujo objeto não é fixo, mas contingencial, ancora-se nas excitações corporais e está na base da simbolização. Isso porque se organiza por movimentos desejantes em torno daquilo que pode também ser fantasístico, bem como das marcas de linguagem. Observa-se assim que os sintomas histéricos não respeitam a anatomia e se montam sobre o corpo erógeno. Alonso ressalta que é necessário distinguir entre o sexual e o sexuado, o que em muitos momentos da teoria freudiana pode ser discriminado por fatores sociais que acabam por determinar, restringir e modificar as formas de ser (p. 14).

 

De acordo com Nathalie Zaltzman, "a alteridade é uma condição necessária e prévia à identidade" (p. 16). E a autora comenta que pelo caminho da alteridade é que se recebe, se acolhe e se penetra no corpo. Dessa forma o corpo para a psicanálise vai se distanciando cada vez mais da biologia. É a partir da sexualidade do outro inoculada no infans em suas origens que observamos os fundamentos da constituição do psiquismo (p. 16).

 

Apesar de estarmos no campo da identidade sexual, há que se considerar a identidade de gênero, prévia a ela. O conceito de identidade de gênero no campo da psicanálise foi introduzido por Robert Stoller na tentativa de distinguir o sexo biológico (macho-fêmea) do gênero, enquanto significações atribuídas pela sociedade, ou seja, a imagem do feminino ou masculino que a cultura oferece e com a qual se identifica. As mensagens que vêm de fora vão construindo a matriz e um perfil de gênero, implantando uma autorrepresentação de gênero. Este questionamento a respeito da desnaturalização dos corpos permitiu que se pudesse falar em masculinidades e feminilidades como construções da cultura - o que sem dúvida acabou por se introduzir dentro das próprias teorias psicanalíticas, fazendo reconsiderar alguns conceitos tais como maternidade, inveja do pênis, zonas erógenas femininas, etc.

 

Se por um lado esses estudos inicialmente se voltaram para as feminilidades, passando às masculinidades, e na atualidade abrangem também diversidades, por outro deram ensejo para estudos sobre conceito de gênero, assim como abriram brecha para se pensar as relações entre sexo, identidade e poder.

 

Além disso, conforme nos diz Alonso, ultimamente tem se constatado que a categoria de gênero foi pensada numa lógica binária - masculino-feminino - também estabelecida pela cultura; no entanto o gênero não é binário por natureza, ele pode ser plural. Há então que se considerar não apenas a diferença, mas a diversidade (p. 20-21).

 

Se avançarmos um pouco mais, no texto, a autora mostra que pensadores da atualidade como Judith Butler desconstroem a noção de gênero como categorias identitárias, questionam a fixidez da identidade e o binarismo de gêneros - construções essas que viriam justamente a oprimir a singularidade. Embora o conceito de gênero surja em oposição ao essencialismo biológico, para Butler a cultura também pode se essencializar como instrumento de poder. Dessa forma, assim como não aceita a "anatomia como destino", não aceita a "cultura como destino" da sexualidade, pois há um permanente remodelamento dos gêneros e da construção dos corpos, que poderiam exercer melhor sua singularidade se não estivessem presos aos discursos que os encaixam em categorias.

 

De um lado temos que, a partir da reformulação do conceito de sexualidade pela psicanálise, pôde-se pensar as categorias de gênero, isto é, uma distinção e rearticulação das categorias biológicas sexuais, identidade de gênero, diferença sexual e identidade sexual. Por outro, Alonso ressalta que é preciso ter cuidado para que não se transforme a psicanálise em antropologia nem sociologia, deixando de lado a descoberta fundamental que a funda, a saber, o aparelho psíquico dividido, inconsciente e sua relação com a sexualidade perverso-polimorfa infantil. O gênero seria assim um importante núcleo identitário, ao redor do qual fazemos movimentos pulsionais e os processos identificatórios. O gênero é da ordem da atribuição e se constrói por identificação ao atribuído (p. 22).

 

É nesse sentido que a autora enfatiza que não podemos descartar também uma visão sócio-histórica, em que a relação de saberes e poderes se assentam sobre discursos a respeito das práticas eróticas, e que critérios de normalidade de moralidade determinam o modo com que cada um se relaciona com a própria sexualidade. E, portanto, é preciso insistir que a psicanálise não está a serviço da reprodução, mas sim da criatividade do sujeito para encontrar uma solução singular: singularidade é sua marca. O corpo erógeno se constrói em sua história particular, na montagem de uma equação própria de articular o corpo, o gozo, o desejo e o amor. Joyce McDougall o chama de neossexualides (p. 23). 

 

Alguns outros autores também se voltaram para esta questão, dentre eles, Jean Laplanche, que prestou uma grande contribuição à hipótese da constituição do sujeito com o conceito de mensagem enigmática: a influência do adulto ocorre através de suas ambiguidades, incertezas, conflitos e desejos inconscientes, são como que inoculados no bebê e fundam no infans, fonte de pulsão. São essas mensagens enigmáticas, porque inconscientes para o próprio adulto, que ficam à busca de uma tradução, e irão formar o inconsciente do bebê.

 

Alonso nos indica em seu texto que não podemos deixar de lado esta visão sócio-histórica, que caminha lado a lado às conquistas e avanços nesse campo. A começar pelo movimento feminista e seus desdobramentos ao longo dos séculos xx e xxi. As conquistas que obtiveram revolucionaram valores e lugares de poder, antes destinados a homens, a começar pelo direito de voto, direito à defesa contra a violência, reconhecimento como sujeitos amparados pela lei e acesso ao mercado de trabalho. Foram conquistas de desmonte de comportamentos e atribuições que fazem parte da própria cultura onde vivem desde sempre, como, por exemplo, casamentos forçados, mutilações genitais que impedem o prazer, e tantas outras. A liberdade, não só das mulheres, caminha para teorizações a respeito de gênero, ao lado de avanços tecnológicos, o que possibilita, por exemplo, a mudança de sexo (hoje temos técnicas cirúrgicas que não eram possíveis há relativamente pouco tempo); avanços do ponto de vista jurídico, na legislação, tais como a inserção na sociedade com uma nova identidade, bem como a legalização de casamentos com pessoas do mesmo sexo. Mesmo quanto ao aspecto reprodutivo, vê-se que, atualmente, é possível haver reprodução in vitro de maneira mais efetiva, ou ainda a reprodução assistida; adoção de filhos por casais homoafetivos. E, consequentemente, novas configurações familiares. Em outras palavras, o que une um casal não é mais a questão de ter filhos, de procriação, e sim um enorme leque de escolhas. 

 

O livro, como um todo, mostra de maneira clara que a psicanálise não pode se furtar às mudanças no mundo e muito menos patologizar aqueles que aderem às novas formas de vida. O que observamos na clínica é que tais mudanças na maior parte das vezes vêm acompanhadas de sofrimento psíquico. E é disso que se trata para nós, os psicanalistas. É preciso repensar a psicanálise para que possamos acompanhar, sem cair na tentativa de engessar o paciente em normas estabelecidas. A única forma de manter viva a psicanálise é, pois, incorporar e teorizar os desafios que os novos conhecimentos aportam. Podemos ver esse movimento ao longo dos artigos que retomam esses temas, nas mais diferentes direções, sempre entremeadas aos fios do imaginário cultural contemporâneo relativos ao feminino e à sexualidade. O que encontramos, então, são problemáticas que gravitam em torno do corpo, do discurso, da perversão, do gênero, etc. Mas também que tratam de questões específicas da mulher, da maternidade, da feminilidade, do supereu feminino, da menopausa, da mulher na política e na sociedade - através, das mães, avós -, do desamparo. Além desses, outros artigos que fazem uma abordagem metapsicológica que acabam por questionar o Édipo, o parricídio e o matricídio. Impossível deter-se em cada um, o que seria assunto para mais um longo artigo. Deixo assim, ao leitor, o prazer da descoberta e o desfrute da leitura. Todos os artigos têm sua originalidade e contribuição. 

 

Mas cabe ainda mencionar o capítulo final que trata do debate do filme De gravata e de unha vermelha, com Miriam Chnaiderman, Bia Abramo e José Miguel Wisnik. Nele surge como mote à célula semântica trans que, na observação de Wisnik, está ligada a cross, transição, travessia, travesti. No filme vemos pessoas em trânsito em diferentes dimensões: do próprio corpo, da sexualidade, da autoimagem, da relação com o outro e consigo mesmo.

 

Chnaiderman nos apresenta seus personagens cuja vida deixa entrever que o desejo não é domesticável e que irrompe sobrepujando o estabelecido. Dentre os personagens, em especial, Laerte, cartunista da Folha de São Paulo, que lá pelas tantas aparece vestida de mulher, põe em xeque se seria um cross-dresser, ou como ela mesmo mais tarde critica, um travesti de classe média? Binarismo de gênero questionado radicalmente tanto na fala quanto na figura.

 

Chnaiderman diz ainda se perceber mergulhando no que a sexualidade tem de mais radical, ou seja, na não submissão a qualquer padrão preestabelecido e ao uso abundante do fetiche, reconhecendo a necessidade de recorrer a conceitos ainda não estabelecidos para poder despatologizar. Já Abramo sugere que, no processo dos transgêneros, o corpo, a sexualidade e o gênero se apresentam como três narrativas completamente diferentes, destacando aí uma riqueza ideológica interessante, na medida em que haveria a possibilidade de dissociar as narrativas para inventar uma quarta, quinta, sexta... Como se pudesse dizer: "Olha, o meu corpo é uma coisa, o meu gênero é outra coisa, e minha sexualidade uma terceira coisa" (p. 405).

 

Convido o leitor a acompanhar o raciocínio de Wisnik, a respeito de duas posições, do homem e do "veado", baseada no princípio de identidade, em que o princípio logico é o seguinte: "homem que é homem não é veado" e "veado não é homem''. Este pensamento teria um princípio fundamentalista, ou seja, está baseado numa lógica identitária, onde tudo dá no mesmo, no sempre igual. A própria palavra identidade está ligada a algo idêntico. E o perigo, o insuportável, está nessa outra instância, no fato de que algo pode ser e não ser, é e não é, alguém que é homem e não é homem. No entanto, ultrapassar o igual, o já dito, determinado, o idêntico - essa zona de conforto - não se faz sem sofrimento, sem o confronto com a própria história, seus conflitos, ambivalências, expectativas (p. 409-410). 

 

Nos relatos do filme, isso aparece de forma muito clara. Ao mesmo tempo, é sempre um ato de coragem, de sustentação. Pois, como Bia encerra sua fala, a construção do gênero, no fim, ainda é binária (p. 407).

 

Ao acompanharmos o raciocínio de Wisnik, podemos concluir que "quantos indivíduos houver, tantas sexualidades haverá". Diz ele:

 

Pessoa é personna, não é? Você vê máscara por onde soa uma identidade, que é o sentido antiquíssimo da palavra personna, pessoa. Mas em francês, personne é ninguém. A mesma palavra diz ninguém, máscara e pessoa. E, portanto, há alguma coisa de vertiginoso quando, em cada pessoa que a gente vê, podemos imaginar também as outras que ela também é, ou que ela poderia ser. De vários pontos de vista: de classe social, de destinos, de escolhas, de papéis e de erotismo, de sexualidade ou gênero. [...] E há nisso uma vertigem que é aquela ideia teórica de que cada personalidade, cada identidade é um teatro que fazemos para nós, para os outros, é íntimo e é público. Esta figuração, esta cena, esta construção do gênero como construção social [...] deixa ver um desejo de alguma coisa, um desejo de identidade. Ou seja, alguém que passa por dentro dessa vertigem de que ninguém é, rigorosamente, uma essência, mas que quer, ao mesmo tempo, de algum modo repousar em uma identidade (p. 411-412).

 

Pois é, e quem há de negar que a literatura diz melhor e com poucas palavras tantas e tantas teorias que nós, psicanalistas, investimos anos para formular?

 

Por fim, recomendo este livro porque, além do apreço afetivo que tenho pelo trabalho deste grupo, também julgo que a questão não é apenas teórica, como afirmei antes, de fazer trabalhar a teoria de acordo com as mudanças ao longo do tempo, e por achar que o verdadeiro posicionamento do analista é poder trabalhar de forma isenta, sem, no entanto, perder de vista seu próprio posicionamento. Seria esta uma posição política? No nosso ofício não há como se refugiar em qualquer tipo de assepsia. É preciso tomar posição sem perder de vista a neutralidade da escuta. Eis nossa arte. Caso contrário, seremos um exército de técnicos a repetir teorias que valem para a época em que foram concebidas. E, repito, sem resvalar para uma psicanálise sociológica ou antropológica, não se pode perder de vista os fundamentos da herança que Freud nos deixou: a noção de inconsciente e de sexualidade infantil. E este livro cumpre essa missão.


topovoltar ao topovoltar à lista de autorestopo
 
 

     
Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
Sociedade Civil Percurso
Tel: (11) 3081-4851
assinepercurso@uol.com.br
© Copyright 2011
Todos os direitos reservados