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Resumo
Evocando a interdição kantiana de acesso à coisa-em-si, o presente artigo tenta mostrar que, em vez de uma divisão ideológica ou uma recessão teórica, a introdução de Bion de sua chamada abordagem “mística” nos leva às conclusões lógicas de sua investigação epistemológica. Longe de ser uma reviravolta vertiginosa, este movimento revela o fio vermelho que atravessa toda a sua obra: a questão do conhecimento em geral, e seguindo Freud, particularmente do conhecimento inconsciente.


Palavras-chave
O; o Real; coisa em si; ciência e verdade; epistemologia e inconsciente; interpretabilidade do Id.


Autor(es)
Ana Helena de Staal

é psicanalista e psicossomatista, membro da Société de Psychanalyse Freudienne (spf). Ex-chefe de edição da revista Chimères, fundada por G. Deleuze e F. Guattari, ela dirige atualmente Ithaque, editora parisiense especializada em psicanálise e filosofia. Ela traduziu e publicou em francês a maior parte dos seminários de W. R. Bion, assim como o trabalho de autores contemporâneos importantes como Christopher Bollas, Thomas Ogden e André Green. Vive e trabalha em Paris.

 

 




Notas

[1] A. Green, Penser la psychanalyse avec Bion, Lacan, Winnicott, p. 44.

[2] Para não dizer de Anna Freud...

[3] Notadamente André Green, Thomas Ogden, James Grotstein, Michel Eigen, Rafael Lopez-Corvo, Neville Symington, Elisabeth Tabak de Bianchedi, Gérard Bléandonu, Pierre-Henri Castel, etc.

[4] W. R. Bion, Transformations; ver o capítulo xi, para todas as minhas citações deste livro.

[5] Cf. W. R. Bion, "Elements of Psycho-Analysis", in Seven Servants.

[6] Referência aos versículos 1, 2 e 3 de Gênesis, via John Milton, Paradise Lost, III, 11-12: "The void and formless infinite".

[7] "Utilizarei o signo O para denotar o que é a Realidade última representada por termos como: realidade última, verdade absoluta, divindade, infinito, coisa-em-si". W. R. Bion, Attention and Interpretation.

[8] E. O'Shaughnessy, "Whose Bion?", International Journal of Psychoanalysis 86, p. 1523-1528.

[9] Cf. J. Grotstein, A Beam of Intense Darkness; Un rayon d'intense obscurité. Ce que Bion a légué a psychanalyse.

[10] Segundo as palavras do próprio Bion, in A Memoir of the Future (1975-1979).

[11] W. R. Bion, Cogitations, p. 244.

[12] Comunicação de Bion a Grotstein, citada in Grotstein, Un rayon..., p. 141.

[13] W. R. Bion, Transformations.

[14] W. R. Bion, Four Discussions.

[15] Termo utilizado por Bion para designar as impressões sensoriais brutas causadas pelos estímulos entrantes (O); os elementos beta (β) são físicos (fisiológicos) por natureza, contrariamente aos elementos alfa (α) que são mentais; v. W. R. Bion, Learning from Experience.

[16] W. R. Bion, Transformations.

[17] W. R. Bion, Quatre discussions.

[18] Função de "metabolização" das impressões sensoriais brutas (elementos β), cujo protótipo é a capacidade de devaneio (rêverie) materna; cf. Learning from Experience.

[19] À imagem das amostras colhidas em laboratório, a maneira de se aproximar do material na sessão obviamente influencia o que se obtém. Daí a necessidade de um "método" e de uma "técnica" suficientemente testados (a associação livre, a escuta flutuante, o funcionamento específico do enquadre, etc.), capaz de nos levar aos melhores resultados.[20] Ou seja se submetendo a transformações em L, H ou K (Love, Hate, Knowledge) e em -L, -H, -K, mas nunca em O. Bion escreve: "as transformações tratam de fenômenos e [...] os fenômenos só são tratados quando conhecidos, amados ou odiados." Cf. Transformations, xi.

[21] Bion gostava muito de parafrasear a sentença do escritor francês Maurice Blanchot, que André Green lhe citara um dia: "A resposta é a infelicidade da pergunta".

[22] E Bion prossegue: "Principalmente quando você acaba acreditando que a resposta é a resposta"; cf. Quatre Discussions, p. 42.

[23] V. André Green, Penser la psychanalyse..., p. 33.

[24] S. Freud, Psychanalyse, Résultats, idées, problèmes, t. ii. O itálico é meu.

[25] Cf. C. Bollas, The Freudian Moment.

[26] W. R. Bion, Transformations, xi.

[27] Fala-se de uma interpretação "em C" ou "em O", como uma partitura para ser executada em dó ou em fá.

[28] W. R. Bion, The Tavistock Seminars.

[29] Sem esquecer que Beckett foi um analisando de Bion, quando ambos iniciavam suas carreiras. Para mais detalhes, ver: D. Anzieu, "Beckett and Bion", International Review of Psycho-Analysis 16, p. 163-8; S. Connor, "Uma conferência sobre Beckett e Bion", disponível em: < www.stevenconnor.com/beckbion/ >.

[30] O vazio da ausência do objeto: somos imediatamente enviados portanto ao nosso próprio corpo, como na psicossomatização: dor nas costas, dor de barriga, dor de cabeça...

[31] É neste sentido, por exemplo, que Bion comenta as esculturas de Henry Moore, em que a forma sempre se desenha mais pelos vazios escavados na matéria que por seus próprios contornos.

[32] J. Grotstein, Un rayon..., p. 55.

[33] W. R. Bion, "Differentiation of the psychotic from the non-psychotic personalities", in Second Thoughts, p. 43-64.

[34] Diria que este é o artigo fetiche de Bion - a quase-totalidade de sua obra está baseada neste artigo, e em "O Ego e o Id".

[35] S. Freud, in Résultats, idées, problems, t. i, p. 142.

[36] Cf. A. Green, Penser la psychanalyse..., p. 42.

[37] Cf. J. Grotstein, Un rayon..., p. 15.

[38] De qualquer modo é importante sublinhar que, se Bion opera essa diferenciações (como os freudianos clássicos também estão acostumados a fazê-lo mas talvez de maneira menos radical), é para melhor integrá-las em seguida no seio de um corpus teórico unificado: não há uma teoria para a neurose e uma teoria para as organizações ditas não neuróticas, tanto mais que não há estado psíquico fixado para sempre ou a priori; segundo Bion, justamente, a tendência é a oscilação: SPÛD (v. infra, a nota 43).

[39] I. Kant, Crítica da Razão Pura.

[40] S. Freud, Abrégé de psychanalyse, p. 70-71; Esboço de psicanálise, in S. Freud, Obras completas xxiii, p. 225.

[41] É Bion que acrescenta os estímulos do meio ambiente, a partir de suas elaborações sobre a identificação projetiva enquanto modo de comunicação normal que utiliza o outro como suporte e instrumento de regulação. Para Freud, a pulsão representa unicamente as excitações endógenas.

[42] Para Bion, o dualismo corpo-espírito é um modo cômodo e puramente teórico de se imaginar o trabalho de qualificação pulsional e não corresponde de forma alguma à realidade monista da unidade de funcionamento humano.

[43] Notação que remete às posições kleinianas clássicas: esquizoparanoide (SP) e depressiva (D). Utilizando a flecha bilateral Û, Bion "corrige" a linearidade desenvolvimentista da proposição de Klein e introduz a oscilação entre as fases do desenvolvimento.

[44] Cf. A. Green, Penser la psychanalyse..., p. 28.

[45] Em outros termos, quando se trata de enfrentar distúrbios psíquicos ligados às falhas de simbolização, por exemplo, ou lidar com psicossomatizações graves.

[46] Júlio César, ato I, cena II.

[47] Love, Hate, Knowledge; v. Elements of Psycho-Analysis.

[48] Segundo Grotstein, a terminologia de Bion age como uma defesa maníaca contra a depressão, quando utiliza - como por vingança - as figuras do divino para registrar a finitude humana: sua finitude temporal e epistêmica.



Referências bibliográficas

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Grotstein J. (2007). A Beam of Intense Darkness. Londres: Karnac Books; Un rayon d'intense obscurité. Ce que Bion a légué a psychanalyse. Paris: Ithaque, 2016.

O'Shaughnessy E. (2005). Whose Bion?, International Journal of Psychoanalysis 86, p. 1523-1528; Quel Bion?, Année psychanalytique internationale 4, 2006, p. 161-166.





Abstract
O; the Real; thing-in-itself; science and truth; epistemology and unconscious; interpretability of the Id.


Keywords
By evoking the Kantian interdiction of access to the thing-in-itself, the present article attempts to show that instead of an ideological split or a theoretical recession, Bion’s introduction of his so-called “mystical” approach brings us to logical conclusions of his epistemological research. This movement is not a dizzying turnaround: on the contrary, it reveals the red thread that the common thread running through Bion’s oeuvre is that of question of knowledge in general, and following Freud, the question of knowledge of the unconscious in particular.

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 TEXTO

Sobre a mística bioniana

On Bionian Mysticism
Ana Helena de Staal

Em vez de explicar os pensamentos do sonho na linguagem da consciência, Bion decidiu utilizar o próprio sonho para construir artificialmente esse tipo de conhecimento que só o sonho pode oferecer. Foi a partir daí que ele começou a pensar que não há teoria psicanalítica capaz de conter tudo que a experiência psicanalítica nos ensina[1].

 

Depois de ter ocupado vários cargos importantes nas instituições psicanalíticas, Wilfred Bion, aos 70 anos de idade, decide abandonar as obrigações e intrigas da vida institucional em Londres para ir morar nos Estados Unidos. Nessa época (estamos em 1968), ele se estabelece em Los Angeles, viajando com frequência para o Rio, Brasília, Nova York ou Buenos Aires, lugares onde trabalha incansavelmente como analista, supervisor de grupos e diretor de seminários.

Se mencionamos aqui essa mudança transcontinental, é exatamente porque ela não se deu como mera busca de um lugar mais ensolarado para se aposentar, muito pelo contrário. De um ponto de vista biográfico, mas sobretudo teórico, é como se Bion reconhecesse enfim uma evolução de seu pensamento que já há alguns anos o colocava de fato a um continente de distância de seus colegas britânicos.

Retomar rapidamente esse período nos ajudará a introduzir o tema da mística bioniana.

O que é e o que não é a psicanálise

Na época da mudança de Bion, o grupo kleiniano, antagonizado - para não dizer claramente proibido - nos Estados Unidos, despertava grande curiosidade entre os jovens analistas americanos, que, embora reconhecendo a autoridade suprema de Heinz Hartmann[2], não deixavam de ser permeáveis ao espírito contestador da década de 1960. Assim, convidar o famoso ex-analisando de Mrs Klein para fazer supervisões em Los Angeles era como convidar o diabo para rezar a missa, ou seja, uma travessura que só poderia irritar a cúpula da Psicologia do Ego. Mas havia também algo de terrivelmente ingênuo em tal convite: nossos aprendizes de feiticeiro logo perceberiam que o analista kleiniano que estavam esperando, além de não se alinhar com escola alguma, já vinha sendo bastante maltratado pela casta londrina dos kleinianos, a mais pura da Europa. Em Londres, dizia-se que, pelo rumo que o velho Bion estava dando às suas ideias, ou ficara psicótico, ou um acidente vascular cerebral teria definitivamente lesado suas funções cognitivas (sic), era exatamente este o boato que corria na época.

O que se criticava em Bion? O que não se podia ou queria suportar deste veterano de duas guerras, velho soldado íntegro, fundador do Instituto Tavistock, antigo presidente da Sociedade Psicanalítica Britânica, admirado por Melanie Klein e respeitado por Donald Winnicott?

Os comentadores e biógrafos de Bion respondem indiretamente a esta questão[3] quando identificam fases ou momentos distintos na evolução de seu pensamento. Não entraremos em detalhes sobre essas cronologias, que são bastante variadas. Basta sublinhar que praticamente todas concordam em um certo ponto de ruptura na época da publicação de Transformations[4], em 1965. Ora, o fato é que nessa época o homem que ambicionava construir um "sistema científico dedutivo"[5] e criar uma notação universal rigorosamente neutra - matemática! - capaz de marcar enfim a psicanálise com seu mais nobre cunho positivista se pusera repentinamente a citar Leonardo da Vinci, a discursar sobre o "infinito vazio e sem forma"[6], a falar de "Verdade absoluta sobre a Realidade última", "Fé", misticismo, "divindade", "O"[7], "coisa-em-si"... Depois do metódico Bion epistemológico ou matemático, descobria-se relutantemente um Bion, digamos, anárquico. Um místico? Um inesperado psicótico!

Certamente, ainda sem saber bem aonde o velho analista queria chegar com um léxico tão exuberante, os que o haviam tido em alta estima preferiram olhar essa virada com uma certa precaução.

No entanto, as conclusões mais precavidas serão igualmente as mais desdenhosas: em seus últimos trabalhos, Bion teria se tornado "menos rigoroso"[8], ultrapassara a proibição edipiana contra a curiosidade humana e embarcara na busca alucinada de uma suposta Verdade[9]: passara da ciência para a ficção científica[10]... Em poucas palavras, o ancião teria perdido os limites.

Por trás dessas tensões, bem entendido, se encontra a questão polêmica e inquietante da cientificidade da psicanálise. Ou melhor: a questão de saber o que é positivamente a psicanálise se, como Bion defendia, em virtude da própria natureza de seu objeto, ela não pode ser uma ciência, na medida em que o método científico, embora necessário, lhe é totalmente insuficiente. Bion explica:

As descobertas da psicanálise fazem com que não seja mais possível se contentar com a metodologia dos cientistas e filósofos das ciências. Afinal, a posição do psicanalista é das mais curiosas: ele estuda um assunto que elucida a fonte menos eliminável da pesquisa científica - a saber o espírito humano -, usando esse mesmo espírito como um instrumento científico e tendo que fazê-lo sem a conveniência de pensar que suas observações são feitas por uma máquina inanimada, que estando morta, só pode ser objetiva[11].

E é aqui - e assim - que Bion acaba jogando a toalha. No fim de um longo percurso de exploração racional, científica, consciente, lógica, geométrica, matemática, ele admite (um tanto deprimido, convenhamos) a necessidade de renunciar ao projeto de "dar uma respeitabilidade científica à psicanálise"[12], sabendo-se que é impossível "cantar batatas"[13]. Batatas se cultivam, se descascam, se comem; não se cantam nem dançam!

Em suma, havia ali um erro de categoria insanável: era ocioso querer acomodar a psicanálise à ciência ou a ciência à psicanálise, pois o objeto, os fins e os meios da psicanálise - por serem vivos (o homem), e inacessíveis (o inconsciente, o Id, a força bruta da pulsão) - não podiam e, epistemologicamente falando, não deviam integrar uma metodologia cuja eficácia dependia acima de tudo das noções de objetividade e reprodutibilidade, sem falar na exigência de uma distância asséptica do objeto em nome de uma impossível supressão de toda e qualquer subjetividade. Ora, dizia Bion, o homem aprende, se transforma e se humaniza, não tanto por sua aptidão para seguir protocolos e instruções - ou por seu "dom de macaquear" e "fazer truques", como ele gostava de sublinhar -, mas por sua capacidade, aliás dolorosa, de aprender com a experiência vivida. A psique humana lida com o real bruto, e é para isso que se busca uma resposta. Sem dúvida, a ciência trouxera uma forma de mediação possível entre o homem e a brutalidade das coisas, mas à custa de congelar a alma humana, de arremedar o inanimado que observa o inanimado no intuito de reproduzir um mundo inanimado feito de pura abstração, conceito e forma. Um mundo no qual a força, o conteúdo (), colocado entre parênteses, clivado e depois até certo ponto sublimado, prosseguia escorrendo ainda assim por todas as brechas, metamorfoseado em guerras, sofrimento psíquico, ansiedades, lutos insuportáveis, doenças do espírito. A ciência, como as disciplinas atreladas à consciência, havia deixado intacto mais do que um resto, um torrão inteiro da vida dos homens, uma vez que para realizar plenamente sua tarefa ela devia avançar ignorando o não consciente, o Id, a coisa-em-si - esses prodígios das trevas que, relegados aos bastidores dos conceitos, abanavam o rabo desvairados, exigindo consideração. Pois como bem dizia Bion:

O problema é que os fatos não se deixam domar pelo ser humano. Tome qualquer lei da ciência: nada prova que alguém ou alguma coisa a obedeça. Seria prático se a realidade se adequasse à nossa compreensão, mas não se adequa, e não há motivo nenhum para que o faça[14].

Ao descobrir o inconsciente, isto é, este mundo além ou aquém do que a consciência nos apresentava, a psicanálise havia inaugurado uma maneira nova de abordar as mediações entre o homem e a Coisa (das Ding); decerto, ela tinha sua própria contribuição a oferecer, sua maneira muito particular de lidar com a força bruta, com os elementos beta[15], o O, o Real, a coisa-em-si.

Frequentar o antro da fera

A coisa-em-si, justamente. É mais do que hora de entrar no assunto, pois é ela que encontraremos implícita na problemática mística e, em particular, na mística bioniana.

Quando, como Freud ou Bion, estudamos um pouco a filosofia de Kant, sabemos que pretender conhecer a coisa-em-si é um contrassenso. Sabemos que estamos destinados a lidar somente com os fenômenos, ou seja com a coisa tal qual ela nos aparece. Da coisa-em-si, portanto, conhecemos apenas o que ela consente nos mostrar como aparência, e que nos é dado nas formas da sensibilidade. Para o comum dos mortais como nós, mal equipados para aceder ao suprassensível ou gozar da onisciência divina, a coisa-em-si (o O, nos termos de Bion) só pode ser uma história de ouvir dizer, de ficção ou delírio.

Daí a famosa pergunta de Bion: quando o analisando chega ao consultório para sua sessão, com o que ou com quem exatamente você vai ter que lidar? Não sabemos. Pois, rigorosamente falando, estamos diante de um fenômeno - isto é, diante do que aparece, do que se manifesta para nós (para a nossa consciência e para os nossos sentidos), e que pode eventualmente se tornar sujeito de uma experiência ou objeto de um saber.

Mas de que saber exatamente esse analisando-fenômeno pode se tornar objeto, se o analisando-em-si (o O do analisando, a coisa-em-si que ele é e que constitui sua personalidade, sua alma, sua psique) nos é inacessível? Se "existe um abismo entre o fenômeno e a coisa-em-si"[16]? Se, por definição, a realidade do fenômeno que se apresenta a nós não pode ser objeto de conhecimento?

O que você faz então, prossegue Bion, do fenômeno que acontece de estar lá, deitado no divã bem ao seu lado? Porque "assim que uma pessoa entra em seu consultório, você sente imediatamente a pressão para você ser o tal que conhece as respostas"[17]: É simples: o fenômeno aparece querendo consultar, e você deve "saber": você é o sujeito-suposto-saber - pior, você é o sujeito-pago-para-saber! Mas... saber o quê, exatamente? Como? Por meio de qual instrumento, uma vez que obviamente o inconsciente, a coisa-em-si, não são dados à consciência?

Ao se fazer estas perguntas - muito familiares a Freud -, Bion coloca de um modo absolutamente novo a questão da aquisição da interpretabilidade do material inconsciente, uma problemática que irá conduzi-lo ao conjunto de elaborações reunidas mais tarde sob a noção de "função-alfa"[18]. Em resumo: de que maneira o material inconsciente se torna acessível para ser submetido a um tratamento psicanalítico, ou seja, à interpretação? Em virtude de quais mediações se torna um elemento ao alcance da análise (um elemento alfa, em última instância), suscetível de conhecimento e de interpretação?

Segundo Bion, o próprio modo com o qual este material é recolhido ou colocado à disposição do par analítico na sessão depende do método especificamente psicanalítico[19]. Já que este material só será autêntico ou válido - isto é, só será Verdadeiro - se a força bruta (pulsional) que constitui seu conteúdo não for de imediato anulada pela ação da consciência que, ansiosa para compreender (e se proteger), tentará imediatamente neutralizá-lo, devolvendo-o por assim dizer à gaveta a partir da qual ele poderá ser uma vez mais recalcado, negado, clivado, atuado ou até mesmo conceitualizado[20].

O problema da aquisição da interpretabilidade do material inconsciente, o problema da inacessibilidade do Real, do O (no caso, o O de nosso analisando-fenômeno) é assim sobretudo e indiscutivelmente um problema de resistência; uma resistência, afirma Bion, ativada "quando a iminência da realidade do objeto é temida", quando se chega perto demais da coisa. Assim, segundo Bion, existiria um "conhecimento do inconsciente" que, por refletir antes de tudo a angústia causada por essa vizinhança, não passa de uma "doença da ignorância"[21]: "Se você exprimir a menor curiosidade, diz, as respostas estão lá para acabar com ela"[22]. Para Bion, é o medo do vago, o medo da coisa, que nos leva às racionalizações inúteis, às "paramnésias teóricas", à criação de conceitos vazios, em suma a um discurso interno contínuo em busca de razões (o paciente-se-comporta-assim-porque-quando-ele-era-bebê-a-mãe-dele-blá-blá-blá...), e cuja falação vem no momento certo para calar de vez o assunto. (Notemos que tudo isso é muito concreto e pragmático, pois trata-se aqui do comportamento e do estado de espírito do psicanalista durante a sessão. Esta é uma das maiores preocupações de Bion, na medida em que, para ele, o psiquismo do analista constitui a principal e a primeira ferramenta da técnica psicanalítica - entre outros motivos porque, como observava André Green, Bion exclui a transformação espontânea do material bruto (β) em material interpretável (α) sem a mediação do meio ambiente, ou seja, do objeto: a mãe, o analista, o outro[23]...).

De que maneira então, propriamente psicanalítica, o material deve ser abordado? A resposta de Freud, que podemos ler em vários lugares de sua obra, é muito conhecida, mas vale a pena lembrar o que diz, por exemplo, em um dos seus "Dois verbetes de enciclopédia":

(O psicanalista) se comporta aqui da maneira mais adequada se se abandona, em um estado de atenção uniformemente flutuante, à sua própria atividade mental inconsciente; evita tanto quanto possível pensar e elaborar expectativas conscientes; não quer, do que escutou, fixar particularmente nada em sua memória e, deste modo, capta o inconsciente do paciente com seu próprio inconsciente [24].

É impossível uma resposta mais clara:

1. O analista capta o inconsciente do paciente com o seu próprio inconsciente: o O do paciente torna-se o O do analista, diria Bion;

2. Ao abandonar-se à sua própria atividade mental inconsciente: em um estado de "devaneio" (rêverie), diria Bion;

3. Evitando tanto quanto possível pensar, elaborar expectativas conscientes e sem querer fixar nada em sua memória: sem pensamento, sem memória ou desejo, diria Bion.

Como nota o psicanalista Christopher Bollas, que propôs esta comparação entre Freud e Bion: "Isso é Bion, antes de Bion!"[25].

E eis que, com a bênção de Freud, acabamos todos concordando (ou assim espero) que não são os raciocínios ou a consciência do analista que conduzem a dança no consultório. Não é à luz da consciência que consideramos a coisa no paciente, uma vez que isso seria, como já dito, mais uma forma de resistência, uma fobia do O. De fato, em termos bionianos, a consciência, a nossa e a do analisando, talvez possa nos levar a tomar conhecimento de O, mas jamais a se tornar O - e entre essas duas situações há um mundo.

Quem, entre nós, nunca viu esse paciente que diz: "Claro, sei bem que meus acessos de cólera são nocivos, que eles acontecem sempre que isto ou aquilo... O que não sei é como fazer?!" Ou então, esse paciente que aparece explicando que não está ali por iniciativa dele, mas que foi o irmão ou a namorada que insistiram para que viesse? Em suma, quem entre nós nunca encontrou esse analisando que sabe mas que não é, que não consegue ser e que sofre com isso?

De acordo com Bion, é exatamente a este ponto de passagem que devemos endereçar nossas (melhores) interpretações; é neste ponto preciso de articulação, nesta via estreita que vai do conhecimento ao porvir, do epistêmico ao ontológico, que elas devem atuar. Bion se pergunta:

É possível, pelo viés da interpretação psicanalítica, operar uma transição entre conhecer os fenômenos do Id real e ser este Id real?[26]

É possível vencer a resistência de nossas explicações racionais (e conscientes) e se tornar o O do paciente, a fim de atravessar o Rubicão com ele? Aos olhos de Bion, de fato, a posição do psicanalista é uma das mais difíceis que existem. Ali, nos confrontamos com nada menos que o informe, a força, a pulsão; brincamos perigosamente com fogo, e é necessário ter uma técnica apurada para fazê-lo - uma técnica que não se aprende nos manuais ou nos bancos dos seminários, mas no calor da batalha, em plena imersão na experiência do consultório. Uma técnica que exige, por exemplo, que se tolere a frustração de não ter a menor ideia do que está acontecendo, de ter a paciência de esperar dias, meses ou anos, antes que uma centelha do O do paciente nos seja perceptível. Um técnica que pede que não se deseje nem pense no lugar de outrem, que se suporte seu próprio sofrimento e o do outro sem afobamento e sem apelar para as teorizações, que então só criariam mais um efeito paramnésico: preencher o vazio, espantar os silêncios intermináveis, moderar o constrangimento da espera... Sobretudo, tais interpretações, que não são causais (em C) mas transformadoras (em O)[27], exigem um psiquismo muito menos clivado, para que se possa chegar até o antro da fera, frequentá-lo um tanto e depois ir embora sem cair na sua armadilha patológica; na verdade, essas interpretações em O exigem que possamos descer pelas infinidades obscuras do inconsciente sem deixar ali a razão, sem enlouquecer.

De fato, segundo Bion, esse interdito kantiano da frequentação da coisa-em-si (a frequentação do Id, ou do puro pulsional, como já compreendemos) só pôde ser violado pelos grandes espíritos místicos que buscavam a comunhão com o inefável, com Deus. É por isso que, para Bion, o psicanalista faria bem em encontrar em si mesmo pelo menos uma fagulha de alma mística, se quiser ter uma ideia de com o que terá que lidar quando sugerir ao fenômeno que bate à sua porta que se deite no divã.

Num de seus seminários na Clínica Tavistock, Bion descreve bem o que acontece:

Acho que o sinal da situação falsa é o sentimento de ansiedade, a sensação de estar em conflito, a impressão de que as coisas não se encaixam perfeitamente. [...] Em um certo ponto, ou pelo menos em um ponto incerto, ouve-se o estalo. Mas, na maioria das vezes, você é obrigado a tolerar esse sentimento de desorientação, ou de estar no que não é verdade. É difícil, porque os momentos de iluminação não são muitos, são mesmo extremamente raros. Consolo-me pensando que depois de, digamos, cinco ou seis anos com um paciente, talvez tenhamos tido três momentos de iluminação... e três são suficientes. Estou falando da verdadeira iluminação, da coisa real. Explicações razoáveis, racionalmente aceitas, não nos faltam... quanto a isso, não há o menor problema: interpretações ‘corretas' se contam aos milhões. Mas são as tais situações iluminantes que dão conta do recado. Se o analista e o analisando puderem suportá-las, então também poderão continuar ligados o tempo suficiente para que elas apareçam[28].

Como podemos constatar, não estamos aqui em busca uma compreensão intelectual do sofrimento psíquico do paciente. À semelhança da maneira mística, há algo como uma entrega de si mesmo, um abandono, uma com-paixão, como diria Winnicott, que permite ao analista (e ao analisando) procurar um acesso vivo para as emoções com as quais estão lutando - isso é o que cria a experiência analítica na sessão e, segundo Bion, não há teoria psicanalítica que possa dar conta completamente da experiência analítica em si.

Não que a interpretação explicativa, a interpretação correta em C (conhecimento), não seja válida ou útil. Não apenas é, mas também, como observa Bion, é muito modestamente o quinhão diário dos analistas e analisandos. Ela tem sua beleza e eficiência próprias, e não se deve imaginar que só as interpretações em O importam, ou que sem elas seríamos maus analistas, preguiçosos ou incompetentes. No entanto, o que as distingue é por exemplo a temporalidade: a situação temporal (e tópica) do material ao qual cada uma remete. É fácil ilustrar este ponto se fizermos uma analogia com a nossa experiência do teatro, como espectadores convidados a nos sentarmos em uma sala e a assistir à representação de um drama. Tomemos Tchékhov e Beckett[29], dois autores populares, ambos de um talento incontestável.

O que se passa no tempo vivido - na peça e para o espectador - nas Três Irmãs de Anton Tchékhov? Há um armário que ocupa quase toda a cena. Sua chave foi perdida, ou não se quer mais achá-la. O armário está repleto de coisas que ninguém sabe bem o que são - o recalque. A dança da vida transcorre em torno desse armário: as pessoas chegam e vão embora, falam do passado, do futuro, têm lembranças, esperam... Elas se unem e se separam, se acalmam ou se desesperam, se perguntando sempre sobre o que já foi, especulando sobre o que virá. Mas, basicamente, exceto o armário vivido como um trambolho existencial incontornável, ninguém nunca está ali, presente. E o espectador que embarca nessa história tão bem contada também se ausenta: ele pula por cima do tempo presente e passeia do passado ao futuro, pronto a esquecer que já está há mais de uma hora sentado em uma poltrona geralmente desconfortável, pior, que pagou para estar lá, precisamente nesta u-topia, neste lugar nenhum do passado ou do futuro, contanto que não lhe peçam para existir ali onde se encontra agora. (O espectador fantasma.)

Mudemos de teatro. Estamos assistindo a Esperando Godot de Samuel Beckett. O que acontece? Ao contrário das Três Irmãs, em vez do armário abarrotado (o inconsciente recalcado), há um vazio (o buraco negro do Id). Só uma arvorezinha atrofiada e perdida, como que naufragada na imensidão do palco, aparece longínqua significando a imensidão da falta. O objeto redentor não está lá. Ele deve vir, ele disse que viria, mas não está lá. O que fazemos então? Esperamos... E o que fazemos enquanto esperamos? Percebemos que nossos sapatos estão apertados, que a poltrona do teatro está realmente caindo aos pedaços e que nossos pés e as costas doem[30]; dizemos não saber bem o que fazer, mas que se matar talvez seja uma opção... Ou seria melhor ir embora? Mas então, por que viemos? Pensamos que talvez preferíssemos não estar lá, mas que estamos lá, dolorosamente lá, criando raízes de tanto estar lá, pois estamos esperando. Vladimir e Estragon, e a plateia inteira com eles, se encontram presos no aqui-agora do presente. Sem passado: o esquecemos, talvez nunca o tenhamos tido... Sem futuro, já que esperamos. E esperar nos faz experimentar - eis aí toda a crueldade do instante - o Real do presente, o tempo sem tempo, o absurdo do sempiterno.

Tchékhov = C; Beckett = O. É lugar comum associar Tchékhov com a neurose e Beckett com a psicose. Na realidade não é tão simples, porque do ponto de vista bioniano o que importa é o negativo de tudo isso, a coisa-em-si, a saber: o que neles não nos é dado ver - aquilo que sobra, precisamente, uma vez removida da paisagem a sua simples demonstração fenomenal[31].

Em Beckett, a urgência da presença esconde vergonhosamente a concretude obscena da ausência. Ela figura assim o vínculo impossível com o objeto do amor, pois é de um objeto irremediavelmente perdido que se trata: com ares de quem não está pedindo nada, somos obrigados a "esperar" se não quisermos escolher entre a vergonha de odiar ou de se matar. Em Tchékhov, a nostalgia pletórica, mas quão dolorosa, esconde a pulsão devoradora que teria devastado qualquer momento presente; porque a incerteza do instante é insuportável - ela é tão cheia de fantasmas que melhor é sair para tomar chá, inventar histórias de família e planos para o futuro, inevitavelmente fadados a fracassar. Assim, o excesso-vazio de Tchékhov e a ausência-plena de Beckett apontam cada um para o seu oposto, seu negativo: a falta de significado criada pelo excesso de convenções (o excesso de recalcamento), o amor hemorrágico criado pela ausência de objeto continente (o buraco psíquico deixado pelo objeto perdido). Eis, de certa forma, a diferença de registro - temporal e existencial - entre esses dois tipos de interpretação de que fala Bion: a interpretação em C, que trabalha remetendo para o inconsciente recalcado, e o atemporal do inconsciente recalcado; a interpretação em O, que trabalha remetendo ao Id e à falta de representação essencial ao Id.

Por definição, a interpretação em O não pode ser narrada, uma vez que provém de uma situação de insight naturalmente indescritível; é uma experiência vivida sobre a qual não se há nada a dizer, exceto talvez para um artista, um Shakespeare, um Flaubert ou um Proust. A interpretação em C é mais fácil de ilustrar. Em uma sessão de análise com Bion, James Grotstein resmungava em seu divã contra alguma cambalhota sexual de seus pais, que ele teria visto ou ouvido. Bion escuta a reclamação e diz: "Muito bem feito! O pênis e a vagina são órgãos sexuais nojentos. Que fiquem um com o outro, é só o que merecem!"[32].

Com uma interpretação maliciosa, endereçada diretamente às partes infantis de seu analisando, Bion o faz entender que sua visão repugnante da sexualidade é apenas uma resposta desajeitada e rancorosa à sua inveja do amor entre o casal parental. É uma interpretação em C, edipiana clássica, límpida e desconstrutiva, formulada de maneira brincalhona e compassiva. É dirigida ao inconsciente recalcado e tem pouco a ver com o Id, exceto talvez num efeito de eco elevado à décima potência.

Essas interpretações, em O e C, têm ambas a ver com a teoria bioniana das partes psicóticas e não psicóticas da personalidade[33]; com a maneira como essas partes se respondem, se tratam e se maltratam mutuamente. Sobretudo, elas têm a ver com a forma como Bion interpretou a articulação entre a primeira e a segunda tópicas, e com sua leitura de "Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental" (1911)[34], em que Freud, ao falar de realidade real e de realidade psíquica, afirma que "temos obrigação de usar a moeda corrente do país que estamos visitando"[35].

Ou seja, como pedia Freud, a teoria bioniana procede a diferenciações importantes quanto aos nossos modos de engendrar e organizar a experiência (isto é, quanto aos nossos mecanismos de defesa), evitando aplainar as irregularidades do material a ser tratado, ou uniformizá-lo segundo um único padrão[36]. Assim, por mais excêntrica que pareça, essa atitude mística que permite a interpretação em O - e que visa em particular às instâncias da segunda tópica - torna-se um instrumento de trabalho original, e sobretudo um "componente obrigatório"[37] da teoria contemporânea do conhecimento psicanalítico.

Fica claro aqui a que ponto a "teoria do pensamento" de Bion, e tudo o que dela decorre, provém de uma extensão da psicanálise ao tratamento das psicoses - extensão que teria sido provavelmente impossível sem a famosa virada freudiana da década de 1920, que abriu o caminho para a exploração do psiquismo borderline e das chamadas organizações não neuróticas[38].

O finito e o infinito
e a questão da criação

Se um dia Bion preferiu utilizar os termos de "finito" e "infinito" - em vez de "consciência" e "inconsciente" - não é porque de repente se tornou um paranoico, um místico no sentido pejorativo da palavra, mas sim porque o interdito kantiano quanto à coisa-em-si possui ainda um outro nome: a finitude. Inspirado na filosofia do conhecimento de Kant[39], Bion só fez adaptar seu léxico à ideia segundo a qual nossa faculdade de conhecer é limitada, já que trombaremos sempre com a inacessibilidade da coisa-em-si. De fato, ele radicaliza uma ideia que Freud aceitava plenamente quando, no Esboço, chamava a atenção para "a natureza e limitação de nossa ciência"[40].

No nosso campo científico, como em todos os outros, o problema é o mesmo: trata-se de descobrir, por trás dos atributos (qualidades) diretamente percebidos do objeto, algo que depende menos da capacidade receptiva de nossos órgãos sensoriais e que se aproxima mais do que se supõe ser o estado real das coisas. Decerto não esperamos ter acesso a tal estado, pois obviamente somos obrigados a traduzir todas as nossas deduções de volta para a linguagem das nossas percepções, uma desvantagem da qual nunca poderemos nos liberar. Mas é exatamente aí que reside a natureza e a limitação da nossa ciência. [...] É assim que tentamos aumentar o máximo possível o desempenho de nossos órgãos sensoriais por meios artificiais, mas pode-se dizer que todos os nossos esforços não mudam em nada o resultado final. A realidade permanecerá para sempre "incognoscível".

O Real é um privilégio de Deus - nosso mundo é o mundo da psique, do espírito, da alma, dos fenômenos e fantasmas que assombram cavernas ... É com este mundo que temos de lidar, e foi exatamente por isso que Freud sustentou que o aparelho psíquico deve fornecer um trabalho para qualificar (mentalizar, representar) o que, do Real, o atinge vindo do interior (e, dirá mais tarde Bion, do exterior[41]). Este trabalho, como sabemos, tem um custo psíquico comensurado em termos de quantidade de pressão - força do input - exercida sobre a nossa psique: é a definição da pulsão que propõe Freud. Portanto, é exatamente da pulsão que Bion fala, ou melhor, desta articulação entre o físico e o psíquico atravessada pela força pulsional (teoricamente conectada a ela)[42], quando tenta encontrar uma via de acesso para o Id. Se partirmos do postulado freudiano de que o Id é pura força pulsional e não contém representações, forçosamente este acesso só pode ser entendido como uma via marginal (mística?). Porque nenhuma representação de coisa ou de palavra será, nesse caso, capaz de fazer o trabalho, nenhum pré-consciente (Pcs), com suas ricas figurações, condensações e deformações, poderá se dedicar à tarefa. Simplesmente porque o Pcs não dá conta do Id... (é preciso usar a moeda do país que se está visitando!). Logo, só nos resta a transgressão do interdito kantiano da coisa-em-si: passar pela porta mística, pela porta dos fundos, por assim dizer, uma via de acesso ao Id que só se percebe depois de uma "mudança de vértice".

Mas é preciso agora uma pequena digressão para que se entenda o que Bion quer dizer com mais esse termo bizarro. Costuma-se dizer: uma "mudança de vértice" é uma mudança de ponto de vista. Sim, é mais ou menos isso. Mas de qual ponto de vista, exatamente? Daquele que passa da primeira para a segunda tópica - o da famosa virada freudiana. Falando mais claramente, do ponto de vista da nossa maneira de abordar o inconsciente. (E, como observou Freud, uma tópica não deve jamais excluir a outra, precisamos de ambas: precisamos então adquirir esta capacidade, acrescenta Bion, de mudar de vértice o tempo todo - SP Û D[43] -, de acordo com o material que nos é apresentado.) A primeira tópica nos oferece uma visão do inconsciente a partir do sistema Cs-Pcs. Ela representa o ponto de vista da história dos Ics contada pelos Cs-Pcs; é uma história do material coletado após a interpretação[44] ou pelo menos após sua passagem pelo portão do Pcs: os sonhos, os lapsos, os atos falhos, as fantasias, todo esse material processado, secundarizado pelo filtro da "representação de coisas/representações de palavras". Mas o que fazemos quando não há um PCs para contar a história?[45] Quando a história é contada por um surdo, mudo, cego e paralisado, cuja única expressão exteriorizada é um coração que bate (a imagem é tirada do livro de Dalton Trumbo, Uma arma para Johnny). Bem, dizia Bion, é aí que é preciso ter a coragem de transgredir o interdito kantiano da coisa-em-si, e, com o risco de passar por louco, ir auscultar a fera em seu próprio covil.

Eis a posição mística: uma posição transgressora em relação à visão que a consciência nos oferece do mundo. De acordo com Bion, ela permite um acesso à história do Id em versão original, ou quase - em todo caso, sem a tradução da primeira tópica, que, por mais interessante e útil que seja, só pode contar o que se passa de seu próprio ponto de vista.

Do mesmo modo, para Bion, rigorosamente falando não pode haver criação (exceto em caso de patologia megalomaníaca), já que a criação é também um puro atributo de Deus. Só Deus pode criar o que quer, quando quer. Só Deus pode separar os elementos e dar forma ao infinito vazio e sem forma, ou decidir abandonar todo esse pandemônio ao seu próprio caos, se tal for Seu soberano desejo. Só Deus goza de uma infância absoluta, vive eternamente no princípio do prazer.

Por conseguinte, só o inconsciente é in-finito. A consciência, esta, tem de se contentar com seus limites e se acomodar à sua castração constitutiva, essencial. Quanto a nós, "que não apitamos nada", como diria Shakespeare[46], resta-nos o consolo das transformações, e a possibilidade de uma posição epistêmica feita de porvir. Podemos, afirma Bion, amar (L), odiar (H) ou conhecer (K)[47] os fenômenos que nos rodeiam. Depois, nos colocarmos francamente do lado da experiência vivida como uma tentativa de chegar mais perto da coisa, mas sempre como um jogo, deixando-nos levar por um fluxo feito da sucessão de porvires que não se realizarão jamais. Nunca seremos a Coisa.

A terminologia grandiosa de Bion[48], que muitas vezes assusta, fala na verdade dessa frequentação perigosa da Coisa, dessa vizinhança arriscada com o pulsional. Ela reflete também a dor (o trabalho) psíquico que a integração da ideia de finitude supõe: a ideia segundo a qual não conheceremos jamais o desfecho da história, pois nunca estaremos lá a tempo de assistir ao fim do mundo. Não viveremos eternamente. Exceto em nossos delírios psicóticos ou em nossas crenças religiosas - mas, mesmo aí, exige-se que se enlouqueça ou se morra antes...



 


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