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Resumo
Resenha de Luciana Saddi, Educação para a morte, São Paulo, Patuá, 2017, 132 p.


Autor(es)
Susan Markusszower
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

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 LEITURA

Educação para a vida [Educação para a morte]

Education for life
Susan Markusszower

O terceiro livro de ficção da psicanalista e escritora Luciana Saddi convida o leitor a um mergulho na intimidade de uma menina, de uma adolescente e de uma mulher adulta. Não importa muito saber se as personagens nas várias histórias são uma só ou a mesma. O que vale realçar é a intimidade compartilhada com o leitor.

O título do livro, Educação para a morte, surpreende, parece quase um paradoxo. Será que devemos educar para a morte? A morte não é sempre um acontecimento trágico e por esse motivo preferível ocultar das crianças? Nós, adultos, acreditamos muitas vezes que as crianças não são capazes de entender a morte. O desaparecimento para sempre de um ente querido pode ser considerado doloroso demais para a criança.

Geralmente os adultos, como descrito no livro por Saddi, a mãe da protagonista, encontram na omissão do real acontecimento, uma grande aliada para a tendência a criar imaginariamente um mundo desprovido de crueldades e impotências. Certos educadores julgam que apenas eles têm capacidade de compreender e absorver a dura realidade a respeito da finitude da existência e que a criança não seria capaz de suportá-la.

Nesse sentido é interessante lembrar o que Freud afirma a respeito das falhas na educação dos jovens no que diz respeito à agressividade. No artigo Mal-estar na Civilização (1929), numa nota de rodapé diz o seguinte: "Ao encaminhar os jovens para a vida com essa falsa orientação psicológica, a educação se comporta como se se devesse equipar pessoas que partem para uma expedição polar com trajes de verão e mapas dos lagos italianos" (p. 158).

Saddi faz o leitor presenciar situações em que não só a censura da agressividade, mas também o ocultamento das verdades supostamente cruéis da existência geram na criança desconfiança em relação ao mundo adulto e solidão.

Ao mergulhar na vivência infantil, a autora não deixa espaço para criarmos ilusão de que a criança habita um mundo angelical. Sua criança é vingativa, mentirosa, interesseira, manipuladora, se deixa corromper para aceitar certas coisas em troca de outras e sabe a respeito da morte.

Também a culpa não lhe é estranha. A respeito da intensidade desse afeto vivenciada pela menina, a autora afirma: "[...] e a culpa veio, instalou-se perniciosamente, grudou nas minhas células, tomou conta do meu fígado, corroeu meu cérebro e questionou aquele ato de justiça, me acusando de vingança e ladronagem" (p. 19).

No meio do embate duro do cotidiano com os pais e as intrigas com a irmã, a menina declara seu amor incondicional para com certos animais. O cachorro e o cavalo se destacam como seus preferidos.

A respeito desse amor diz:

 

Ainda ouço minha mãe reclamar do meu amor incondicional pelo Trigger ao reivindicar dez por cento de todo aquele sentimento para ela. O amor é sem explicação - amo o cavalo, mas não amo você. O cavalo amo porque amo e você nem amo, mas é obrigação te amar (p. 31).

 

Além de seu amor incondicional dedicado ao cavalo, também Sandra, sua cachorrinha, é objeto de uma paixão intensa. Ao ser esmagada por um carro, na ausência da menina, os pais preferem amenizar este cruel fim da amada, e a informam que a cachorrinha tinha fugido. Quando a menina finalmente descobre a verdade a respeito do ocorrido, diz o seguinte:

Ela, que tanto me amara, voltaria, voltaria cansada da folia da rua, mas voltaria. Não fazia sentido, não era do feitio da cadela esquecer o grande amor de sua vida em favor de vadiar eternamente. Sandra jamais fugiria eternamente. Eu jamais fugiria dela e da verdade (p. 41).

A criança se identifica com o animal e sem a menor hesitação acredita na semelhança dos afetos compartilhados pelos seres vivos. A autora descreve com muita sensibilidade como a convivência e o amor por um animal pode preencher as lacunas deixadas pelas relações afetivas familiares e servir como proteção a mais para a expedição polar da vida.

Também a sexualidade e suas particularidades entram logo no circuito vivencial da menina. No capítulo "A boca de línguas", a autora descreve a sensação de intenso horror da menina perante a revelação dos detalhes do beijo amoroso dos adultos.

Da mesma forma que na infância a morte e a sexualidade ocupam um espaço nas preocupações da menina, na vida adulta essas mesmas questões continuam marcando o curso da vida. Como jovem adulta é confrontada com a morte; a morte da irmã gêmea, a morte do marido. Os mortos e os vivos se misturam nos seus sonhos e fantasias: "De vez em quando pensava nos mortos como se estivessem vivos em outra dimensão, imaginava sentar na mesa dos ilustres falecidos e com eles aprender tudo que aprenderam antes e depois do fatídico dia" (p. 50).

No capítulo "Saudade bruta e traiçoeira", relata o espanto que sente ao acordar da transa com o marido morto enquanto dorme com o segundo.

Ora a comemoração de um ano da morte do marido ora o seu aniversário sem a presença do aniversariante são celebrações que brindam a vida onde os pratos e bebidas favoritos daquele que não está mais são servidos. E onde sua presença é celebrada apesar de sua ausência.

Mas há momentos de grande dor: "Há poucos dias te perdi para sempre. O nunca-mais me esmaga" (p. 66). "Morreu e não volta, morreu e acabou para sempre, morreu e morreu. Os beijos morreram, a forma de lamber seus seios ou de apertar sua bunda também" (p. 65).

A última parte do livro é dedicada a diálogos. Diálogos entre homens e mulheres que se encontram seja num restaurante seja num bate-papo virtual.

São conversas que remetem a antigas paixões perdidas, traídas ou recuperadas e a busca eterna de um novo encanto sensual. Nesses encontros o prazer pela comida e bebida acompanha a busca dos outros prazeres da vida.

A leitura do livro de Luciana Saddi é uma expedição, sim, às vezes até polar, através das várias fases da vida de uma mulher. Mas são relatos que, afinal, celebram a vida, o amor, o tesão, a amizade, o diálogo e a boa comida.


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