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Resumo
O artigo apresenta a posição de Balint sobre a questão da formação psicanalítica, especialmente como ela nos é trazida em um artigo de 1948. Preliminarmente, é oferecido um breve panorama da vida e da obra de Balint, a fim de situar histórica e criticamente seu estudo sobre o sistema psicanalítico de treinamento.


Palavras-chave
Balint; história da psicanálise; formação; análise didática; supervisão; escola húngara.


Autor(es)
Decio Gurfinkel
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor nos cursos "Psicanálise - teoria e clínica" e "Psicossomática" do mesmo Instituto. Doutor pelo Instituto de Psicologia da USP e autor dos livros Viagens ao informe: o sonhar e a experiência psicanalítica (em preparo), Do sonho ao trauma: psicossoma e adicções (Casa do Psicólogo) e A pulsão e seu objeto-droga: estudo psicanalítico sobre a toxicomania (Vozes).


Notas

1 Conforme seu próprio depoimento, em carta a Jones de 1954 (apud A. Haynal, A técnica em questão: controvérsias em psicanálise de Freud e Ferenczi a Michael Balint, p. 85-86).

2 A. Haynal, op. cit., p. 87.

3 Winnicott, em contraste, se formou no ambiente kleiniano e em meio às controvérsias crescentes, permanecendo por toda sua vida “inteiramente inglês”.

4 A tradução brasileira das obras de Ferenczi, publicada entre 1991-93, baseia-se nesta versão francesa de suas obras completas.

5 Reciprocamente, Winnicott manteve uma “distância boa” de seu colega “independente”, o que fica claro pela capacidade de reconhecer méritos e tecer críticas. Em carta a Balint, Winnicott (1960) assinalou o grande parentesco entre seus pensamentos e o interesse comum que tinham por bebês e por uma teoria dos mecanismos iniciais, e ainda reconheceu que “sua formulação dessas questões é anterior à minha, em muitos anos” (p. 81); mas, por outro lado, criticou o uso, por Balint, das expressões “amor primário” e “mistura harmoniosa” para descrever a relação inicial indiferenciada mãe-bebê.

6 O assunto já vinha sendo fartamente discutido na psicanálise francesa, e Bollas dá mais um passo significativo, com seu estudo sobre a histeria, em termos da fertilização recíproca entre as diferentes vertentes da psicanálise.

7 M. Balint, “Criticism of Fairbairn’s generalisation about object-relations” (incluído em “Replies to ‘reevaluating concepts’”).

8 M. Balint, op. cit., p. 140.

9 J. Greenberg & S. Mitchell (1983), Relações objetais na teoria psicanalítica.

10 M. Balint, op. cit., p. 133-135.

11 D. Gurfinkel D. (2001), “Balint e sua posição bilíngue”, p. 86.

12 Ao receber a notícia da morte do pai, Balint escreveu para a irmã de Alice: “é verdade que há tempo negligenciava meu pai. Nós nunca nos demos bem. Na verdade, nunca tivemos um bom relacionamento, mas herdei sua inteligência, sua mente lógica e sua capacidade de trabalho” (apud Haynal, op. cit., p. 91).

13 A. Haynal, op. cit., p.87.

14 O termo se encontra nas “Notas e fragmentos” (1932[308]), no volume IV das Obras completas de Ferenczi (1992, p. 284).

15 Lembremos o engajamento de Balint na policlínica de Budapeste, nos anos 1920 e 1930.

16 Em 1954, Balint publicou um segundo trabalho sobre o assunto – Analytic training and training analysis –, no qual retomou o fio do pensamento do artigo de 1948. Neste segundo artigo, ele discute o problema da formação no ambiente de rivalidade entre grupos que imperava então, o papel da reanálise nestas circunstâncias, os riscos da interpretação prematura da hostilidade e os destinos do componente agressivo da transferência nas análises didáticas, a “confusão de línguas” que se estabelecera, entre outros aspectos.

17 R. Mezan (1998), “Figura e fundo: notas sobre o campo psicanalítico”.

18 Em Transferências cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições, Daniel Kupermann discute as questões da formação e da institucionalização da psicanálise de maneira ampla e profunda, e destaca a pertinência das análises propostas por Balint; a expressão “transferências cruzadas”, escolhida para o título do livro, é retirada do artigo de Balint de 1954. Um dos interesses maiores deste trabalho é abordar “o que veio depois” – a partir do “corte transferencial” operado por Lacan – e estudar um desdobramento trágico, em nosso próprio território, das distorções e perversões na formação analítica: o caso Amílcar Lobo. Para mais detalhes, consultar, neste volume da revista Percurso, a resenha de Noemi Moritz Kon sobre o livro de Kupermann, “Sobre totens e tabus”.



Referências bibliográficas

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_____ (1957/1994). Criticism of Fairbairn’s generalisation about object-relations (incluído em “Replies to ‘reevaluating concepts’”). In: D. E. Scharff; E. F. Birtles, (ed.) From instinct to self: selected papers of W. R. D. Fairbairn – vol.1: Clinical and theoretical papers. New Jersey/London: Jason Aronson.

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Bollas C. (2000). Hysteria. São Paulo: Escuta, 2000.

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Ferenczi S. (1992). Obras completas – Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes.

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aynal A. (1988/1995). A técnica em questão: controvérsias em psicanálise de Freud e Ferenczi a Michael Balint. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Kupermann D. (1996). Transferências cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições. Rio de Janeiro: Revan, 1996.

Mezan R. (1998). Figura e fundo: notas sobre o campo psicanalítico. Percurso, n.20. Roudinesco E. &

Plon M. (1998). Balint, Michael. In: Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Winnicott, D. W. (1960/1990). Carta a Balint de 05.02.1960. In: O gesto espontâneo. São Paulo: Martins Fontes, p.111-112





Abstract
This paper presents Balint’s position on the question of psychoanalytic training, especially as it is brought in an article from 1948. Preliminarily, it is offered a brief overview of the Balint’s life and work, in order to contextualize historic and critically his study on psychoanalytic training system.


Keywords
Balint; history of psychoanalysis; training; training analysis; supervision; Hungarian school.

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 TEXTO

Balint e a formação psicanalítica

Balint and the psychoanalytical formation
Decio Gurfinkel


O objetivo deste texto é apresentar a posição de Balint sobre a questão da formação, especialmente como ela nos é trazida em seu artigo On the psycho-analytic training system, de 1948. A revisitação deste trabalho pouco conhecido oferece a oportunidade de nos reconhecermos nas antigas e tão atuais dificuldades que comportam a formação e a institucionalização da psicanálise. Para preparar o terreno, traçarei um breve panorama da vida e da obra do autor, a fim de contextualizar histórica e criticamente seu artigo.

O percurso singular de um psicanalista

A vida pessoal e o percurso psicanalítico de Balint merecem nossa atenção por sua singularidade, ainda que reflitam o espírito da época e se assemelhem, em alguns aspectos, à saga de diversos analistas de sua geração.

Nascido em Budapeste em 1896, sob o nome de Mihaldy Bergsmann, era filho de um médico judeu, clínico geral muito bom, mas com consultório em subúrbio da cidade, de pouca ambição científica e desapontado com a profissão. No final dos anos 1920, Mihaldy decidiu, para a tristeza do pai, alterar seu nome, acompanhando um movimento corrente: se no final do século xviii os judeus foram obrigados a alterar seus sobrenomes e escolheram nomes alemães, durante o despertar nacionalista do final do século xix, muitos judeus trocaram seus nomes alemães por nomes húngaros [1]; o pai de Ferenczi (né Fraenkel) havia feito o mesmo. Leitor voraz desde o curso secundário, formou-se em medicina e, como um estudante brilhante, diplomou-se também em filosofia, química, física e biologia, além de neuropsiquiatria. Durante esse período conheceu Alice, sua primeira esposa, filha de Vilma Kovács, psicanalista pioneira e aluna de Ferenczi. Ainda estudante, Balint frequentou cursos de psicanálise dados por Ferenczi e, pouco depois de se tornar médico e se casar, iniciou sua formação psicanalítica em Berlim, no Instituto de Psicanálise (bpi), quando se analisou com H. Sachs e supervisionou- se com M. Eitingon. Depois de tomarmos conhecimento do que Balint nos diz em seu texto sobre o treinamento psicanalítico de 1948, podemos imaginar o papel que teve sua experiência neste centro de formação pioneiro e prototípico para a visão crítica ulteriormente desenvolvida. Já na época havia problemas: após dois anos, Balint estava insatisfeito com sua análise pessoal, que lhe parecia mais “uma experiência de ensino, até mesmo uma doutrinação” [2]. Decidiu, então, voltar para Budapeste em 1924 e continuá-la com Ferenczi, em um período de mais dois anos. Tornou-se membro atuante e de destaque na Sociedade Húngara de Psicanálise nos anos seguintes, com importante papel na criação da Policlínica Psicanalítica, a maior da Europa na época. Esta se situava no mesmo edifício onde moravam os Balint, que havia sido projetado e construído por Frederick Kovacs, arquiteto, padrasto e pai adotivo de Alice; os Kovacs eram importantes mecenas da psicanálise húngara. A convivência dos Balint com o meio artístico e intelectual húngaro, bastante vivo e efervescente, era considerável. Alice, por sua vez, também se analisara com Sachs, e o desenvolvimento dela e de Balint foram marcadamente entrelaçados: a convivência, as ideias e o trabalho eram muito compartilhados.

Também neste caso, e mais uma vez, sobreveio a diáspora. Balint era considerado parte da esquerda freudiana, que integrava junto com seu amigo Fenichel; interessava-se pela importância do contexto social da psicanálise, apesar de não ter pertencido a nenhum grupo político atuante. Quando emigrara para Berlim, já havia sido em parte por razões políticas, já que em 1919 terminara a República Comunista. O seu novo período em Budapeste se encerrou em 1939, quando, a exemplo de Freud, refugiou-se na Inglaterra. A partir de 1932, o governo húngaro tornara-se um estado racista pró-hitlerista, e a situação política tornou-se sombria; as reuniões de trabalho precisavam ser notificadas, e havia policiais à paisana acompanhando os trabalhos dos psicanalistas. Balint se instalou em Manchester, com a esposa e o filho, e mudou-se finalmente para Londres em 1945, onde permaneceu até morrer, em 1970. Os primeiros anos em solo inglês foram difíceis: Balint teve que refazer seus estudos médicos e, após seis meses, perdeu subitamente Alice, que faleceu devido à ruptura de um aneurisma, com quarenta anos de idade. Na mesma época morreu sua sogra, Vilma Kovács, a quem era muito apegado, e, em 1945, recebeu a notícia trágica de que seus pais se suicidaram quando estavam para ser presos pelos nazistas húngaros. Entre 1944 e 1947, teve um segundo casamento com Edna Oakeshott, ex-paciente que se tornou psicanalista e, em 1953, casou- se com Enid Flora Albu-Eicholtz, que adotou seu sobrenome; analisada por Winnicott, ela se tornou também uma grande companheira de trabalho até o final da vida.

Os anos de maturidade foram muito produtivos; pode-se dizer que o trabalho de Balint é fruto de uma construção longa, contínua e consistente, que resultou em uma obra escrita de extensão considerável. Incluí-lo no chamado middle group britânico – a tradição independente – e identificá-lo como integrando o pensamento das relações de objeto é a tendência natural dos historiadores da psicanálise. Mas Balint guarda uma singularidade diferenciadora, já que chegou a Londres com uma experiência acumulada e com uma identidade analítica bastante estabelecida, trazendo na bagagem a força da tradição húngara fundada por Ferenczi [3]. Após terminar sua análise com Ferenczi, Balint se tornara seu discípulo, seu amigo e continuador de seu legado. Quando Ferenczi morreu, em 1933, Balint o substituiu como diretor da Policlínica Psicanalítica de Budapeste e, como uma testemunha viva, nos brindou posteriormente com suas observações críticas a respeito do trabalho do mestre nos últimos anos, incluindo aí os efeitos perturbadores do último grupo de pacientes de Ferenczi. Balint foi seu testamenteiro literário, e empenhou-se na preservação e promoção de sua obra. Em 1968, as obras de Ferenczi começaram a ser publicadas em francês em quatro volumes, com prefácios de Balint [4]; devido à sua morte, o terceiro e quarto volumes foram prefaciados por Judith Dupond e Pierre Sabourin – a primeira, neta de Vilma Kovács e sobrinha de Alice Balint, traduziu Balint para o francês e também se tornou executora testamentária da obra de Ferenczi, contribuindo para a afirmação da escola húngara na França, e o segundo escreveu uma conhecida biografia de Ferenczi. Balint transcreveu os manuscritos do Diário Clínico de Ferenczi, escreveu uma introdução a ele e traduziu-o para o inglês, assim como o fez com a correspondência com Freud; em 1969, supôs que o material já poderia vir a público – o que, devido a seu teor polêmico, demorou mais 16 anos! Com a morte de Balint, André Haynal abriu, em Genebra, os Arquivos Balint, com os manuscritos e correspondências recebidas de Enid Balint.

Balint na Inglaterra: independente entre os independentes

Balint mantinha relações de amizade com Melanie Klein e Anna Freud, mas pôde desenvolver uma visão crítica tanto da clínica freudiana de então quanto da clínica kleiniana e, ainda assim, manter-se a uma boa distância dos colegas independentes. Essa posição se evidencia em sua pesquisa sobre a chamada questão da técnica, que é tomada como um eixo em torno do qual se pode apreender a psicanálise de um modo mais amplo. Em A falha básica, seu último livro, em que conflui um percurso de trabalho de várias décadas, Balint fez uma análise lúcida e crítica da técnica freudiana que, por se ater ao nível edípico e por não aceitar mudanças no setting, conduz a uma seleção mais estrita de pacientes, assim como da técnica kleiniana, que força uma “linguagem louca” para dentro do paciente e alimenta uma relação de assimetria entre um indivíduo oprimido e um outro todo-poderoso, estimulando reações de agressividade, inveja e ódio na transferência.

Mas também uma terceira via, emergente na época, é avaliada com olhos críticos: o uso da regressão como meio terapêutico. Aqui observamos, por um lado, a retomada da tradição ferencziana e, por outro, sua recolocação em diálogo com a realidade contemporânea britânica. Para Balint, houve um mal-entendido trágico sobre a questão entre Freud e Ferenczi, o que gerou um trauma e uma paralisia na pesquisa psicanalítica por décadas. Devido aos temores de Freud pelos experimentos de Ferenczi dos seus últimos anos, a regressão na análise foi expurgada. Os riscos da regressão foram reconhecidos por Balint: o estabelecimento de uma relação de sedução na qual o analista aceita a responsabilidade de criar as condições nas quais não seriam mais infligidos ao paciente sofrimentos desnecessários, o que pode alimentar uma “regressão maligna”, insaciável e voraz, que realimenta demandas sem fim de gratificação. Mas, por outro lado, o estabelecimento de uma “regressão benigna” – cujo eixo é o reconhecimento e não a gratificação, e na qual o mundo externo é buscado para proporcionar melhores condições para uma mudança subjetiva – é uma ferramenta fundamental do trabalho analítico, proposição hoje muito mais aceita pelos analistas. No entanto, nem Freud e nem Ferenczi perceberam a necessidade dessa distinção e, talvez, nem Winnicott [5]. Mais recentemente, e dentro da tradição das relações de objeto, Bollas (2000) retomou a questão, ao destacar o risco de uma regressão maligna na análise de certas formas graves de histeria – que denominou “malignas”, inspirando-se em Balint –, e tem se dedicado a advertir a comunidade analítica de influência anglo-saxônica sobre a importância crucial de não tratar esses casos como se fossem pacientes borderline [6].

Também em relação a Fairbairn – outro companheiro ilustre de middle group – Balint [7] manteve uma distância crítica, tendo adotado um dos posicionamentos mais equilibrados sobre a polêmica a respeito da fórmula “a libido não busca prazer, e sim o objeto”; para ele, trata-se de uma oposição problemática, que precisa ser revisada: “apesar de considerar as relações de objeto como de fundamental importância, eu não concordo que a busca de prazer deva ser excluída” [8]. Greenberg e Mitchell [9], em seu estudo sobre as relações de objeto, consideravam que a distinção de Balint dos dois tipos de regressão atendia mais a uma finalidade política do que teórico-clínica, já que ele buscava com isso sanar a cisão entre Ferenczi e Freud [10]; segundo eles nos dão a entender, Balint teria adotado uma posição um pouco em cima do muro. Com essa leitura pejorativa, creio que não fizeram jus ao trabalho cuidadoso de pensamento que encontramos em Balint, que de fato foi um dos primeiros analistas a elaborar, de forma consistente, um modelo misto que integra pressupostos dos modelos pulsional e relacional da teoria psicanalítica. Ainda que tenha sido movido por razões pessoais ou subjetivas – sua necessidade de reabilitar Ferenczi e de conciliá-lo com o pai Freud – isso não invalida a contribuição; ao contrário, trata-se justamente de um caso bem-sucedido de instrumentalização do próprio lugar na família psicanalítica a serviço de uma reflexão, à maneira da análise da contratransferência, no melhor estilo da tradição húngara.

Assim, independente também em relação aos independentes, temos aqui um tipo de posicionamento cujas ressonâncias podemos reconhecer em sua análise do sistema de treinamento e do processo de institucionalização da psicanálise que em seguida adentraremos. Em outro lugar, denominei a posição de Balint na história de psicanálise como uma “posição bilíngue”: “duplamente identificado e estrangeiro à psicanálise ferencziana e à inglesa – e estando em posição de colocar em questão a tradição e a tradução freudiana –, pôde estar menos aderido à nacionalidade e ao narcisismo das pequenas diferenças que assola o continente psicanalítico, assim como propor o interessante problema da confusão de línguas no campo psicanalítico. […] A ‘posição bilíngue’ talvez propicie também certa reserva em relação à linguagem verbal adulta por aquilo que ela comporta de onipotente e autorreferente: é assim que ganham destaque os temas dos limites da palavra, do risco de ela tornar-se ineficaz e morta e do valor do silêncio e da linguagem gestual como modos de comunicação” [11]. A rigor, deveríamos falar em “posição trilíngue”, incluindo aqui também sua relação com a língua alemã e sua experiência de formação no Instituto de Berlim. Trata-se, sem dúvida, de uma combinação bastante profícua de influências e experiências, entrelaçadas e assimiladas por Balint de modo bastante singular.

Outra dimensão do trabalho de Balint que não pode deixar de ser aqui mencionada é fruto de um engajamento profundo seu na formação de médicos clínicos e nos problemas da instituição médica, como parte da preocupação que sempre o acompanhou com a psicanálise extramuros. Retraçar esse caminho também nos ajuda a preparar o terreno para apreciar seu trabalho sobre o training psicanalítico. Haynal chegou a sugerir que o engajamento de Balint nesse campo tinha também uma motivação pessoal, tendo sido um trabalho reparatório em relação a seu pai, a quem declaradamente negligenciara [12]; se for assim, podemos considerar este mais um caso bem-sucedido de uso da própria dimensão subjetiva e contratransferencial a serviço do trabalho construtivo, à moda húngara. Os chamados “Grupos Balint” nasceram de uma parceria entre Michael e Enid, a partir de 1949, antes ainda do casamento. Ela dirigia um serviço na Clínica Tavistock para o auxílio de problemas conjugais, e Balint foi convidado a participar do projeto; começaram a trabalhar com grupos de discussão de caso com os assistentes sociais, e este programa de treinamento foi posteriormente adaptado para o trabalho com médicos (clínicos gerais). Balint já tratara, no período de Berlim, de casos psicossomáticos em hospital – “o primeiro a analisar tais casos” [13] –, e tentara retomar esse trabalho em Budapeste, onde chegou a ter uma experiência positiva com grupos de treinamento de médicos clínicos; foi em Londres, no entanto, que o projeto ganhou maior envergadura. Os seminários eram grupos de discussão de caso com médicos que buscavam maior compreensão das questões emocionais que enfrentavam na sua prática cotidiana, e tinham como objetivo sensibilizá-los para a transferência e a contratransferência e, com isso, incrementar a dimensão psicoterápica de seu trabalho; a inspiração na supervisão analítica húngara centrada na contratransferência, discutida a seguir, é explícita. O método, elaborado e aprimorado ao longo de anos, foi adotado pelo Serviço Nacional de Saúde britânico e, a partir da década de 1960, institucionalizou-se como prática por meio de associações criadas na França, Inglaterra, Itália e muitos outros países, formando a ong internacional “Federação Balint”. O médico, seu paciente e a doença é seu livro mais conhecido sobre o assunto, mas houve outros em parceria com Enid. Ora, se Balint foi capaz de promover um tal movimento de revisão e quebra de estereotipias na formação médica, o que ele nos diz sobre a formação psicanalítica?

Os impasses da formação psicanalítica: rompendo o silêncio

O texto de Balint sobre o training suscita muitas indagações, das quais faço um levantamento preliminar. Ele veicula, antes de tudo, um chamado ético à responsabilidade, já que, como sugere, o treinamento de analistas pode influenciar o futuro da psicanálise e, até, da sociedade de modo geral. Ora, se Balint se dirigiu à comunidade analítica de sua época (1947), não podemos deixar de nos indagar sobre como essas questões nos atingem hoje.

Balint parte da constatação do grande silêncio que havia na psicanálise escrita sobre o assunto, com exceção de três trabalhos: um artigo de ninguém menos do que Vilma Kovács, de 1935, um texto de 1947, de Sachs, seu antigo analista, e algumas recomendações de Freud em Análise terminável e análise interminável. Kovács se formou na década de 1920 e foi uma das mais próximas colaboradoras de Ferenczi; fez parte do comitê húngaro de formação, foi analista didata de destaque e referência para todos os candidatos da época. Ela elaborou, juntamente com Ferenczi, o método húngaro de formação: é o analista do candidato que supervisiona o seu primeiro caso, no divã. Seu artigo de 1935 é um baluarte em defesa deste modelo, foi traduzido em várias línguas e é citado por Dupont como um clássico da literatura. Se, por um lado, o trabalho de Kovács é um pano de fundo da reflexão de Balint, o de Sachs é mencionado e logo deixado de lado; o ex-analista é tratado como um “velho sábio” que “proferiu uma encantadora palestra”. Freud, por sua vez, é invocado para reforçar o triste diagnóstico de que os analistas estavam aquém do que se podia esperar em termos de saúde psíquica; mas, para Balint, Freud propôs uma solução insatisfatória e não se aprofundou nas causas desse estado de coisas. Afora esses trabalhos, só havia relatórios de congressos publicados sobre o assunto training. Para Balint, trata-se de um sintoma, o sintoma gritante de uma severa inibição. Começam então a surgir as questões: será que o sistema de treinamento é falho? Ou será que a eficiência e validade de toda terapia analítica está em cheque? Será que alguns dos training analysts não foram – eles mesmos – tão “bem formados”? Estamos diante de uma “atmosfera inquieta”…

O segundo sintoma assinalado é o dogmatismo. Balint aponta a tendência ao dogmatismo que se reflete no estabelecimento de regras que não podem ser mais objeto de reflexão, e exemplifica com o problema da duração da análise e do papel da supervisão. Alguns desses problemas não se colocam hoje para nós necessariamente da mesma maneira ou com a mesma importância, mas certamente o problema do dogmatismo continua vigente. Se o modelo húngaro da supervisão com o próprio analista parece um pouco distante de nós – ainda que não de todo alheio às práticas atuais – , a maneira como é apresentado e o argumento quanto à posição privilegiada do analista para proporcionar o trabalho com a contratransferência do seu paciente / analista iniciante merece discussão; é importante distinguirmos duas tarefas diferentes na supervisão, a análise da contratransferência e “o ensino sobre como analisar um paciente”. Quanto à duração da análise – que, como Balint retoma das recomendações técnicas de Freud, não pode em absoluto ser prevista ou regulada –, talvez seja hoje um problema menos crítico do que a frequência das sessões, que para Balint é mencionada, de passagem, como um ponto não polêmico. Os problemas técnicos na análise do analista podem variar, mas o risco do dogmatismo permanece. Outra observação que merece ser retomada: na década de 1920, surgiu a ideia de que a formação que fosse iniciada em um Instituto poderia ser continuada em qualquer outro – medida que foi, aliás, adotada pelo próprio Balint; ora, mesmo que a proposta estivesse ligada à era de uma ipa única e hegemônica, não seria esta uma boa medida para minorar os efeitos deletérios do dogmatismo? Quem, hoje, se preocupa em circular em instituições psicanalíticas diferentes, especialmente nos anos de formação? Este poderia ser um bom antídoto contra as identificações alienantes que tão bem Balint soube denunciar.

Para tentar compreender estes sintomas – a inibição e o dogmatismo – Balint lança, então, sua hipótese interpretativa: as análises de treinamento – hoje chamadas didáticas – tendem a forçar o candidato a se identificar com seu iniciador, introjetando seus ideais e construindo um forte superego que irá dirigir o seu futuro. Isto é o oposto do que se deveria esperar da análise, a saber: desenvolver um “ego crítico forte, capaz de suportar pressões consideráveis, livre de qualquer identificação desnecessária, de qualquer transferência automática ou de modelos de pensamento”. Ora, eis um dos maiores paradoxos da análise do analista, e com o qual até hoje nos debatemos. O chamado ético de Balint é dirigido tanto aos candidatos quanto aos analistas responsáveis pela formação; pois, no processo inconsciente de introjeção de ideais, ambos os lados têm sua participação. Se Balint invoca o termo intropressão, criado por Ferenczi [14], para designar este processo, é justamente porque ele pressupõe uma participação ativa dos analistas no mesmo, assim como Ferenczi havia denunciado nos casos da violência traumática de adultos, que resulta em uma identificação com o agressor. Mas os candidatos – a quem pela primeira vez Balint incluiu como público-alvo do debate –, por sua vez, ficam “respeitosos demais” em relação a seus formadores, sujeitando-se a um tratamento dogmático e autoritário.

Um historiador da psicanálise

A partir daqui, vemos Balint se tornar um exímio historiador da psicanálise. Enquanto tal, ele sabe que existem várias histórias possíveis, e ele nos apresenta uma que é “exotérica” – a oficial, que conta “os sucessos gloriosos do sistema” – e a “esotérica”, que traz à tona a “maldição dos conflitos”, até então apenas reconhecidos por Freud. O viés adotado por Balint é o da história da formação psicanalítica. Ele propõe três períodos nesta história: o primeiro, no qual não havia sistematização no treinamento; o segundo, a partir da criação do Instituto de Berlim (após uma tentativa abortada de um Instituto em Budapeste) e da formatação de um modelo de treinamento; e o terceiro, a partir da morte de Freud, quando termina – supostamente – um controle internacional centralizado da formação. Em sua origem, um Instituto Psicanalítico deveria ter um triplo objetivo: “a psicoterapia de massa”, o treinamento e a pesquisa psicanalítica. Mas, lamentavelmente, eles se tornaram exclusivamente um locus de reprodução do sistema de treinamento – uma “estrutura altiva e imutável”; o projeto de uma clínica psicanalítica se perdeu [15], e os resultados da pesquisa foram extremamente pobres. Conforme assinalou Balint, assim os psicanalistas facilitavam que estas funções passassem cada vez mais para outras mãos – o que realmente aconteceu, como verificamos hoje, seja no caso do papel cumprido pelas universidades na pesquisa psicanalítica, seja quanto às iniciativas de desenvolver modelos de atendimento psicoterápico na rede pública e, mais recentemente, com subsídio dos convênios, em clínicas privadas de massa. Ao mesmo tempo, a instância de instauração e discussão da política de formação – a Comissão Internacional de Treinamento – teve um destino melancólico: assolada por discórdias, paralisia geral e incapacidade de trabalhar com conflitos, praticamente se desintegrou, e foi incapaz de produzir qualquer pensamento consistente.

Isso tudo pede por interpretações que vão além da denúncia e da triste constatação e, se possível, por sugestões de encaminhamento a partir delas. Balint vê aqui um conflito de ambivalência com a figura paterna. Os pontos maiores de discordância eram a questão da análise leiga e o controle central, questionado duramente pelos norte-americanos na época; o Instituto central tentou manter os jovens americanos por demais infantilizados, e a reação foi uma rebelião desnecessariamente impetuosa e uma declaração de independência. Paradoxalmente, anos depois os novos Institutos americanos adotaram os mesmos padrões da matriz europeia – “como nossos pais”… Ora, a transformação de jovens revolucionários em conservadores empedernidos na maturidade é compreensível à luz das características do modelo de treinamento, no qual predomina uma intropressão de padrões impostos de fora: oriundos de figuras paternas exigentes, estes precisam ser rejeitados; mas, ao fim e ao cabo, sobrevém a identificação com o agressor.

Chegamos, assim, à “história esotérica”, que nos leva ao problema fundamental do papel do superego na formação psicanalítica. A partir das cisões traumáticas de Adler, Jung e Stekel, Freud passou a se preocupar com a formação de candidatos para evitar a recorrência desses episódios traumáticos. Reconhecendo as grandes dificuldades dessa tarefa e os riscos de uma independência precoce em relação ao “professor”, ele estabeleceu a exigência de uma “extensa e severa” disciplina de treinamento. As novas gerações deveriam aprender a renunciar à afirmação de sua independência, e a aceitar serem educadas. Para Balint, isso só funcionou enquanto Freud estava à frente, já que era sempre possível recorrer a ele e seus conselhos eram sempre sábios e aceitáveis; conforme muitos historiadores da psicanálise vieram a corroborar posteriormente, a morte de Freud é o marco fundamental de uma nova etapa da história. Assim, na terceira geração de analistas, os antigos elos de verdadeira amizade e forte lealdade foram cedendo a disputas e inquietações, e o sistema foi perdendo sua força. Neste terceiro tempo – o tempo “atual” do artigo de Balint –, sobrevieram o caos e o colapso de qualquer autoridade central: a intropressão do superego mostrou sua face sombria. Passou a imperar a supervalorização narcisista das pequenas diferenças, a falta de cooperação, a competição entre grupos e o proselitismo das facções. Como observou Balint, a missão de criar “escolas” ou “times” de treinamento não havia sido até então empreendida nem por Freud, nem por Ferenczi ou Jones.

A partir desse estado de coisas, o que fazer? Para Balint, é necessário “uma nova orientação no nosso sistema de treinamento, que precisa ser direcionado menos pelo estabelecimento do superego e mais a capacitar o candidato a se libertar e construir um forte ego, que deve ser tanto crítico como liberal” [16]. Bem, podemos tomar essa plataforma como um referencial possível para pensar nossas práticas formativas de hoje? Até que ponto pudemos avançar nas questões que se apresentavam em 1948, e até onde os vícios se repetem? Quais são os novos problemas que emergiram desde então?

Não estamos mais neste terceiro período descrito por Balint; e, antes de tudo, é precioso considerar que o efeito Lacan ainda não era internacionalmente visível neste momento. Mas a era das escolas já mostrava a sua cara. Segundo Mezan [17], esta se caracterizou pela formação de quatro grandes grupos bem delimitados: a psicologia do ego, o kleinismo, a escola das relações de objeto e o movimento lacaniano. A partir da década de 1970, com a psicologia do self de Kohut nos eua, os últimos trabalhos de Bion e O brincar e a realidade de Winnicott na Inglaterra, assim como os trabalhos da geração formada em contato com Lacan na França, surgiu uma nova mentalidade: “a psicanálise ‘oficial’ se vê questionada por dentro, e com grande vigor”. O classicismo freudiano da psicologia do ego foi posto em questão por Kohut, a psicanálise britânica avançou em direção ao campo do “não neurótico” e, na França, diversos analistas de enorme talento inventivo reiteram o “retorno a Freud” proposto por Lacan, mas o fazem de modo mais ou menos independente e crítico em relação a ele. Do ponto de vista institucional, surgiu nesse ínterim um fato inédito, desencadeado pelo fenômeno Lacan: a perda de hegemonia da ipa e a possibilidade da organização institucional da psicanálise fora desse organismo idealizado pelos fundadores da disciplina, e regulado pela figura de Freud. O tornar-se analista e o ser analista ganharam novos contornos possíveis, o que ampliou e muito o leque das problemáticas envolvidas. [18]

É nessa nova era que surgiu, dentre vários agrupamentos e instituições, o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, que hoje procura interrogar-se sobre tais problemáticas. Este número da revista Percurso busca contribuir com a discussão dessas problemáticas.

Em seu trabalho, Balint esteve frequentemente empenhado em fazer história da psicanálise, seja em relação ao problema da regressão e da técnica, seja em relação à questão da formação. Mas tratou de fazê-lo psicanaliticamente: pensar criticamente as configurações, teorias e posicionamentos da psicanálise a partir das determinações que as precederam, levando em conta os movimentos transferenciais e inconscientes, as heranças, identificações alienantes, rebeldias reativas e resistências para, a partir dessa análise, abrir um campo de maior liberdade para a pesquisa presente e futura. Isso sem nunca negar o próprio lugar, mas trabalhando a partir dele. “Tive que fazer sérias acusações contra nós mesmos, os analistas de treinamento e nossos candidatos”, disse e escreveu Balint, dirigindo-se corajosamente à sua comunidade psicanalítica; será que somos capazes de fazer o mesmo? Oxalá possamos dar alguns passos à frente e, dentro do possível, construir uma história mais digna…

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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