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Resumo
Resenha de Teresa Pinheiro, Ferenczi, São Paulo: Casa do Psicólogo (Coleção clínica psicanalítica), 2016, 202p.


Autor(es)
Karla Patrícia Holanda Martins Martins

é psicanalista, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará. Doutora em Teoria Psicanalítica pela ufrj (2002), pós-doutora em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da usp (2017), membro do Grupo de Trabalho da anpepp Psicanálise e Clínica Ampliada, autora do livro Sertão e melancolia: espaços e fronteiras (Appris, 2014).




Notas

1. T. Pinheiro, Do grito à palavra. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed./Ed. ufrj, 1995.
2. Aristóteles, Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2005.
3. J.-A. Miller, La pareja y el amor. Buenos Aires: Paidós, 2003, p. 274.
4. S. Ferenczi, "Fé, incredulidade e convicção sob o ângulo da Psicologia Médica" (1913), in Psicanálise II. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 27-38.
5. S. Ferenczi, "O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios" (1913), in Psicanálise ii. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 39-53.
6. S. Ferenczi, "A criança mal acolhida e sua pulsão de morte" (1929), in Psicanálise iv. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 47-52.
7. T. Pinheiro, Ferenczi. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2016.
8. S. Ferenczi, "O sonho do bebê sábio" (1923), in Psicanálise iii. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
9. S. Ferenczi, 1909 citado por T. Pinheiro, Ferenczi. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2016, p. 76.
10. S. Ferenczi, "Confusão de línguas entre adultos e crianças" (1933), in Psicanálise iv. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 97-106.
11. S. Ferenczi, "Reflexões sobre o trauma" (1934), in Psicanálise iv. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 109.
12. T. Pinheiro, op. cit., p. 130.
13. S. Ferenczi, "Análise de crianças com adultos" (1931), in Psicanálise iv. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 79-80.
14. T. Pinheiro, op. cit., p. 136.
15. T. Pinheiro, op. cit., p. 128.
16. S. Ferenczi, "Talassa. Ensaio sobre a teoria da genitalidade" (1924), in Psicanálise iii. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 255-325.
17. T. Pinheiro, op. cit., p. 89.
18. S. Ferenczi, Diário clínico (1932). São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 37.


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 LEITURA

Ferenczi: polissemia e clínica [Ferenczi]

Ferenczi: polysemy and clinical
Karla Patrícia Holanda Martins Martins

O reencontro de Teresa Pinheiro com a obra de Ferenczi, em 2016, ganha, com a publicação do seu livro Ferenczi, o caráter de uma fraterna amizade. Se em 1995, ao publicar Do grito à palavra[1], fruto de sua tese de doutorado defendida em 1987 (La theórie du trauma: de l'introjection à la cure), a psicanalista nos introduz na apreciação das noções fundamentais de Sándor Ferenczi pelo seu estranhamento, no mais recente livro, Teresa Pinheiro hospeda Ferenczi e nos apresenta, com sua teoria e também com sua história, uma história que é também a história da psicanálise. Ferenczi aparece aqui sempre acompanhado: de sua família, de seus amores e amizades, de Freud, dos tensionamentos no Comitê Secreto, no seio da ipa e nos congressos oficiais e, ainda, junto aos seus contemporâneos igualmente analistas de primeira hora.

Através desta estratégia narrativa, a autora presentifica um esforço que foi também o do próprio Ferenczi: identificar na história da psicanálise as diferentes línguas, positivando a polissemia da comunidade analítica. Ferenczi escreve com e para seus companheiros, denotando em sua posição uma ética que apontará na direção de uma comunidade construída com base na partilha sincera de suas concretas experiências clínicas. O sentido aristotélico[2] da philia triunfa, sublinhando a dimensão alteritária e o sentido da hospitalidade. Em consequência, na obra ferencziana haverá lugar para o Bem para além de uma referência à perfeição, ao absoluto da verdade e do sentido. Para seu banquete são convidadas figuras clínicas que até então eram apresentadas como despossuídas de um saber (os homossexuais, a mãe, as mulheres, os psicóticos). Retornam em seus textos finais conceitos que já pareceriam ultrapassados, a exemplo do trauma, da sedução e da catarse, e temas-tabus como a hipocrisia, o narcisismo dos analistas e suas resistências, suas análises e processos de formação no seio das instituições. A posição aí assumida faz lembrar uma das proposições do psicanalista J.-A. Miller, no seu livro La pareja y el amor: "fracasso no amor, êxito no saber"[3].

Por mais de duas décadas, Pinheiro se pôs a caminhar lado a lado com a obra de Ferenczi no seu trabalho clínico, de pesquisa e ensino nas instituições de psicanálise e nas universidades brasileiras. Já foi dito que na Hungria não existe confusão de línguas entre a psicanálise e o magiar (língua dos afetos húngaros). A escrita de Teresa Pinheiro igualmente nos permite reaproximar a psicanálise de uma língua de origem em que os afetos (e estes não estão em oposição à linguagem) são novamente recolocados em um plano de importância fundamental para compreender os processos primários de simbolização e as matrizes identificatórias da constituição do eu.

O conceito de introjeção é mais uma vez afirmado em sua centralidade como palavra-chave de uma teoria da linguagem na obra ferencziana e de sua matriz intersubjetiva. Esta é a tese da segunda parte do livro. O que é introjetado diz respeito à função da linguagem, ao mundo das representações e dos sentidos. Isto significa afirmar que, nas relações com os objetos, o que deles se introjeta é o seu universo simbólico. Portanto, o aparelho que realiza o trabalho de apropriação dos sentidos é um aparelho de interpretação. A autora segue uma pista importante ao estabelecer uma relação entre esse conceito e o que mais tarde será postulado como traumatogênese.

Inicialmente, Ferenczi formulara tais ideias num contexto onde os traumas eram necessários e estruturantes, onde a identificação, produto do amor objetal, teria lugar a partir de uma constituição narcísica da subjetividade. Porém, antes da sistematização de sua teoria sobre a gênese do trauma, o problema do sentido de realidade fora posto em relevo. No ano de 1913, Ferenczi declara a precedência lógica do sentimento de onipotência na construção do sentido de realidade[4] para mais tarde, em 1929, relacionar este sentimento às condições para a afirmação do desprazer, afirmação que traz como consequência a construção pela criança de uma representação de si na realidade[5]. Deste modo, o sentimento de onipotência da criança (um equivalente da sua crença na capacidade de criar a realidade) não se configura, inicialmente, como um obstáculo à sua relação com a realidade; ao contrário, é condição indispensável para que esta inclua a representação de si na sua representação do mundo em conexão com seus afetos. Esta especial representação organiza ainda o estabelecimento de uma ordem espaço-temporal, fundamental para a construção de matrizes simbólicas. Em síntese, para que a realidade funcione não apenas como um princípio e adquira um valor é necessário que a criança acredite-se nela representada. O adulto terá aqui função fundamental nos destinos do processo de subjetivação da experiência traumática: introjeção, incorporação e clivagem.

De acordo com Pinheiro[6], a relação do adulto com a criança é um tema recorrente na obra ferencziana, explicitado desde o breve texto O sonho do bebê sábio[7] até o conjunto de textos sobre a traumatogênese, escritos entre 1928 e 1933. Considera necessário esclarecer que o adulto - efeito da história dos seus investimentos e de sua confrontação com a castração - é alguém capaz de produzir um saber-fazer com sua história que lhe permite relacionar-se com os membros de sua comunidade a partir de um aparato de linguagem. Todavia, o adulto não é a superação do devir infantil: "arranhe o adulto e você encontrará a criança"[8].

Na terceira parte do livro, o contexto dos traumas em que à violência soma-se o aspecto surpresa é retomado, colocando em risco todo o processo identificatório do sujeito. No mito proposto por Ferenczi, participam três personagens - a criança que ternamente seduz; o adulto que infligiu a violência; e o adulto a quem a criança recorre para compreender a situação experimentada[9]. O adulto, marcado pela sexualidade genital, responde a partir da linguagem da paixão. Como afirma Teresa Pinheiro, a violência sexual é considerada neste texto como a violência mais extrema que uma criança pode sofrer. No entanto, não seria a violência em si que apareceria como traumático, mas a identificação da criança com o agressor. A criança buscaria o adulto na tentativa de produzir um sentido que possa ser afirmado, representado. O adulto, em vez de fazer a função de testemunho, produz um descrédito (Verleugnung). O descrédito do adulto corresponde à desautorização da criança.

Impedida de pensar sobre o que lhe aconteceu senão sob a forma de culpa e autorrecriminação, a criança passa a alucinar negativamente o agressor, e o que deveria sobrevir como revolta adquire a forma de uma submissão. Sobrevém como consequência o choque, a cisão. Ferenczi, nas suas notas sobre o trauma, descrevera o choque como o equivalente à aniquilação do sentimento de si, "da capacidade de resistir, agir e pensar com vistas à defesa do Si mesmo [Soi]" e, em consequência: "a perda de sua forma própria e a aceitação fácil e sem resistência de uma forma outorgada, à maneira de um saco de farinha"[10].

Deste modo, Teresa Pinheiro segue enfatizando a função de mediador do adulto ("o adulto pode se tornar perigoso quando se furta à função de mediador"[11]), atribuindo à presença sincera - sinônimo de sua capacidade de suportar a verdade da criança - o valor de retirar, tanto da criança quanto do adulto, o peso de uma verdade absoluta. Aqui também reside a importância da presença do adulto como testemunha na introjeção dos choques traumáticos. Nas palavras de Ferenczi: "Tem-se mesmo a impressão de que esses choques graves são superados, sem amnésia nem sequelas neuróticas, se a mãe estiver presente, com toda a sua compreensão, sua ternura e, o que é mais raro, uma total sinceridade"[12]. Ao valorizar a polissemia da linguagem, a psicanalista coloca a conquista da ambivalência e dos jogos de linguagem como fator estruturante do trauma. Postula assim que, ao reduzir o que ouviu da criança a um enunciado unívoco (mentira absoluta - verdade absoluta), o adulto aí profere um descrédito unívoco. Pinheiro conclui: "A palavra que desacredita retira toda a ambivalência, não é portadora da ambiguidade e não é polissêmica"[13]. A sinceridade, ao contrário da versão totalizante, coloca em cena a parcialidade e equivale "à aceitação da polissemia e da impossibilidade do unívoco"[14]. Poderíamos acrescentar que, neste cenário, ambos experimentam a precariedade diante de um incerto porvir.

O fator surpresa e o descrédito são, portanto, dois elementos decisivos para configurar uma teoria do fator exógeno do trauma. Aqui, novamente, Ferenczi reafirma uma linhagem de pensamento já visitada em seu texto Talassa: ensaio sobre a genitalidade[15], ao declarar seu tributo a Lamarck. Nesse contexto, o conceito de katastrófák (catástrofe) é retomado, representando, em parte, um diálogo com as ideias freudianas apresentadas em Além do princípio do prazer. Thalassa, saudado por Freud com entusiasmo, conseguiria reunir filogênese e sexualidade. Na leitura de Pinheiro, essa obra, além de ser capaz de fazer esta articulação representa uma sofisticação da noção de simbólico e a inclusão da negação como condição fundamental para a possibilidade simbólica. Aqui, reside uma virada conceitual do campo psicanalítico com extensas consequências para sua clínica: o símbolo é o representante da indeterminação do inconsciente. Reproduzo as felizes palavras de Teresa Pinheiro, dada a potência do que esta afirmação significa para o futuro da psicanálise: [o inconsciente] "capaz somente de produzir sintomas incômodos, gueto do recalcado nefasto, pois deixava esse ser humano cego e escravo de um si-mesmo desconhecido, ganha aqui um novo lugar: o de generoso artesão de uma palavra que só aparentemente consegue ser unívoca e com isso funciona como um dispositivo confortável diante da privação da onipotência e do sofrimento do desejo"[16].

As consequências da alucinação negativa são a divisão subjetiva e a instância de auto-observação, efeitos que podem vir a constranger as condições para indeterminação. Esta última posteriormente adquire um caráter superegoico e de idealização. De algum modo, a compreensão dos processos de idealização deste adulto forjado dentro de si traz impasses para a técnica ativa, até então aplicada. Ao agir de modo imperativo com o seu paciente, Ferenczi identifica que sua técnica acabará refém da transmutação de mediação em mandato superegoico. Com o fim da técnica ativa começa um novo momento da técnica, nomeada como relaxamento e neocatarse, construída no seio de uma clara formulação sobre o trauma desestruturante.

Como dito anteriormente, Pinheiro confere a essa categoria de trauma o caráter de um mito. Sua escolha acerta um alvo importante ao colocar a cena montada por Ferenczi em uma discussão que articula tempo, linguagem e ética numa referência que não é a do drama neurótico freudiano inaugural. A posição tomada por Ferenczi frente ao sofrimento dos pacientes que, em um momento preciso de suas vidas, encontraram o excesso do outro - violência, paixão ou loucura - abre um campo de possibilidades para a prática clínica de casos difíceis e muitas vezes considerados inanalisáveis.

A partir deste momento, o livro de Teresa ganha outro contraponto, fruto dos anos de pesquisa com a melancolia e das reflexões construídas no exercício da clínica e dos quatorze anos de percurso no Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade (nepecc), inserido no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica (ipub/ufrj). O trabalho de investigação ali desenvolvido com vários outros analistas vem abrindo caminhos para as hipóteses teórico-clínicas que nos ajudam a pensar a importância da obra de Ferenczi na atualidade, já anunciada em trabalhos anteriores.

A importância de Ferenczi é, mais uma vez, ressaltada pela dimensão ética de seu talento clínico com os "casos difíceis", de ontem e de hoje, onde este foi capaz de localizar as questões narcísicas nos diferentes modos de ordenação psíquica, sabendo reconhecer nos seus fracassos os limites de sua própria análise e de seus pressupostos teóricos. Ao teorizar sobre as políticas institucionais e o lugar do analista, Ferenczi surpreendeu seus contemporâneos, levando às últimas consequências a dimensão inédita do vínculo com o paciente, quando já insistia na importância da transferência negativa para a efetividade de uma análise. Ecos de sua insistência serão encontrados nas obras dos ditos pós-freudianos sobre a contratransferência e, ainda que de modo distinto destas últimas, reverberam no trabalho de Lacan em torno da repetição e da resistência do analista.

Pinheiro finaliza o livro ressaltando a atualidade das questões apresentadas, sobretudo no que se refere também ao lugar ocupado pelo corpo na clínica contemporânea, já apontado por Ferenczi no axioma "nos momentos em que o psíquico falha, o corpo começa a pensar"[17]. Nessa mesma linha, questionará as condições necessárias para a instauração dos processos primários de simbolização, descrevendo situações clínicas que podem ser identificadas nos sofrimentos narcísicos contemporâneos.

O livro de Teresa respeita a polissemia de Ferenczi, colocando partes cindidas da história da psicanálise para realizarem uma boa conversa. A clínica psicanalítica tem sempre a ganhar quando colocamos em jogo as palavras e os desafios clínicos que instigaram a formação e o exercício cotidiano dos analistas de primeira hora. Este livro é o testemunho de um movimento permanente da psicanálise, sempre reafirmada pela presença de mais de Um.



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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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