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Resumo
Resenha de Daniel Schor, Heranças invisíveis do abandono afetivo – um estudo psicanalítico sobre as dimensões da experiência traumática, São Paulo, Blucher, 2017, 216 p.


Autor(es)
Renato Tardivo

é psicanalista e escritor. Mestre e doutor em Psicologia Social pela usp. Pós-doutorando em Psicologia da Saúde (Metodista/capes). Autor, entre outros, de Porvir que vem antes de tudo– literatura e cinema em Lavoura arcaica.



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 LEITURA

Heranças invisíveis e visibilidade da clínica psicanalítica [Heranças invisíveis do abandono afetivo]

Invisible inheritances and visibility of psychoanalytic clinic
Renato Tardivo

Em diálogo com autores que são, a um só tempo, fiéis às proposições do criador da psicanálise e originais em suas formulações, este livro de Daniel Schor apresenta, com erudição e sensibilidade, um complexo sistema que atravessa a clínica psicanalítica contemporânea. Mas, antes de comentar alguns aspectos do trabalho, vale destacar o prefácio, assinado por Luís Cláudio Figueiredo. Sem poupar elogios, um de nossos principais pensadores da psicanálise escreve: "Em consequência de um trabalho meticuloso de leitura e de articulação teórica (artes em que Daniel é exímio [...]), e, mais ainda, em virtude da atenção sustentada aos sofrimentos destes pacientes [...] o autor compõe uma montagem teórico-clínica complexa, engenhosa e sutil" (p. 10). E, após mais uma série de recomendações, Figueiredo conclui: "Espero que os leitores possam se beneficiar com este livro e, especialmente, que mestrandos e doutorandos em nossa área possam tomá-lo como referência e modelo, se seus propósitos de pesquisa forem o de fazer com que a investigação e a produção acadêmica enriqueçam a vida da clínica psicanalítica" (p. 11).

Não é pouco, nem por acaso. Trata-se, com efeito, de um trabalho no qual a tessitura entre teoria e clínica delineia um campo de atuação notadamente autoral e histórico. Freud, Ferenczi, Winnicott, Fairbairn, Green, Roussillon, entre outros, são trazidos à baila em íntima conexão com a experiência do autor: "Passei a localizar, no avesso de reações contratransferenciais em que me sentia por vezes muito seduzido, os apelos de pacientes assolados pelo pavor de se revelarem verdadeiramente incapazes de despertar em alguém um interesse genuíno por eles" (p. 16). No esteio de André Green e da chamada clínica do vazio, o trabalho irá se debruçar sobre os pacientes cujos desinvestimentos ao longo da dependência infantil implicaram marcas inconscientes profundas de modo que a criança busque a todo custo "revitalizar seu objeto criador" (p. 17).

Assim, o autor encampa a perspectiva de que os sonhos não são apenas realizações de desejos. Há uma urgência anterior, em torno da qual o princípio do prazer é posto fora de ação, que é a de dominar os estímulos - questão presente, a propósito, nos sonhos das neuroses traumáticas. São justamente essas situações que o trabalho de Daniel Schor se propõe a discutir, isto é, "os efeitos subjetivos de falhas essenciais e precoces nos processos de cuidado" (p. 30). Nessa medida, considerando que "o movimento de cura leva à patologia, e a patologia constitui, de sua parte, a prova mais incontestável da procura incessante do sujeito por uma ‘melhor solução'" (p. 33), o autor elenca as principais dimensões da experiência traumática - o caráter des-historicizante, o autoalienante e o autointoxicante -, dimensões que serão abordadas em minúcias nos capítulos subsequentes (reflexões teóricas e casos clínicos), esquematizando um contexto tão rigoroso quanto dinâmico, intenso e vivo.

O primeiro caso clínico, "Bernardo e a esperança de ‘se juntar'", é o relato da análise de um garoto de treze anos que, ao mesmo tempo que trazia significativa bagagem cultural e circulava com pessoas bem mais velhas que ele, vivia dificuldades importantes em busca de moradas - na escola, na família, na relação com a mãe distante. A dificuldade em habitar o espaço se refletiu na relação com o analista, que, com perspicácia, sustentou flexibilizações importantes no setting.

Em seguida, há um capítulo sobre o caráter des-historicizante do trauma. Retomando Freud, desde os Estudos sobre a histeria, originalmente publicados em 1893 em coautoria com Breuer, até Construções em análise, de 1937, o autor discute as reminiscências de que sofriam as histéricas à luz das últimas considerações de Freud acerca das previsões dos neuróticos de que "algo terrível" está prestes a acontecer, o que é sinal de que eles estão "em contato com um fragmento de lembrança reprimida" (p. 63, grifo do autor). As proposições finais de Freud acerca dessas questões, segundo Schor, indicariam "o sentido mais profundo das ‘reminiscências' cujas manifestações testemunhava em 1893" (p. 63). A partir disso, buscam-se articulações com os demais autores, já mencionados como balizadores do trabalho, para abordar circunstâncias como as lembranças do não acontecido e a condição de ser coadjuvante da própria história no sujeito que, dilacerado pelo trauma, "terminou por deixar no meio do caminho as partes não vividas de sua história" (p. 76).

O segundo relato de caso, "João, o herói abandonado", garoto que certa vez disse ao analista - "Sabe, acho que eu nunca fui um bebê" (p. 91) -, faz-nos pensar nos buracos psíquicos de que fala André Green, buracos que invadiriam a própria relação terapêutica, uma vez que a análise foi bruscamente interrompida pelos cuidadores do menino. Então, analista e paciente, apartados, permaneceriam "juntos em nosso abandono e impotência, à espera do que sabíamos que jamais viria" (p. 94). Segue-se a esse relato o capítulo teórico sobre o caráter autoalienante do trauma, cujo mote é o referencial metapsicológico do bebê sábio, de Ferenczi, que diz respeito a uma prematuração patológica e, mais ainda, a uma inversão do jogo entre quem cuida e quem é cuidado. Ora, "a necessidade de socorrer os pais em seu sofrimento retira da criança a possibilidade de conquistar um lugar para existir" (p. 106). E é com o complexo da mãe morta, de André Green, que ele encaminha a questão, uma vez que, à ânsia de ressuscitar a mãe dentro de si, o luto da perda do seio torna-se impossível. O sujeito engolfa-se na saudade do que não viveu e as tentativas - inócuas, portanto - de recuperá-lo, que se prestariam a sanar as dúvidas catastróficas (o seio existiu? O bebê existiu?), o colocam ainda mais em contato com o sentimento de catástrofe iminente.

O último caso, "Ian, o sujinho sedutor", é particularmente tocante. Sem perder o rigor clínico, o texto conjuga precisão e sensibilidade. Dos três relatos, é o que mais se assemelha a um texto literário. Ian lembra o herói trágico; seguir adiante, para ele, implicava um movimento radical de retorno. Não por acaso, "finalmente, num dos encontros, deu-se a tragédia anunciada: Ian caiu, batendo a cabeça num móvel e começando a chorar copiosamente" (p. 131). A dor - o analista perceberia após o susto inicial - não era física, mas psíquica: o cuidador não conseguira evitar a queda. Não é aleatório que, pouco depois disso, o menino, que fora adotado com cerca de um ano e meio de idade, tenha perguntado: "E se eu fui adotado antes de ser adotado? [...] E se a minha primeira mãe também me adotou?" (p. 131). Ou seja, ele acreditava trazer dentro de si um potencial arcaico para o abandono, caindo indefinidamente, como se portasse uma "sujeira infinita" (p. 132). Mas, por fim, é muito bonita a forma com que o analista maneja a situação, de modo que Ian, leitor perspicaz da própria história, pudesse pela primeira vez encontrar "o chão. Um chão humano. O nosso chão" (p. 132).

Na sequência o autor discute o efeito autointoxicante do trauma, amparado nas ideias do psicanalista escocês Ronald Fairbairn. Afirma: "o sujeito não apenas introjeta a maldade oriunda da falha dos objetos primordiais. Mais do que isso, forja, por assim dizer, sua identidade a partir dela" (p. 145). E pouco mais à frente: "É inegável que, para o psiquismo, seja imensamente preferível ser mau, mas potente, do que fraco e desamparado" (p. 146). É assim que, segundo o autor, se constitui um paradoxo essencial que atravessa o caráter traumático da experiência - o bebê que percebe sua dependência em relação ao objeto é o mesmo que acredita tê-lo criado. Paralisam-se, portanto, as possibilidades de simbolização.

No último capítulo, Daniel Schor se debruça sobre as perspectivas clínicas com vistas a favorecer justamente as possibilidades de simbolização. Por meio de uma rigorosa articulação teórico-clínica, o autor discute noções como a sobrevivência do objeto, sua função simbolizante, o meio maleável (desenvolvido por Roussillon) e o trabalho do negativo e estrutura enquadrante (desenvolvidos por Green). Cumpre destacar a fina relação tecida pelo autor entre o meio maleável - "o que originalmente sustenta uma atividade representativa ainda incipiente, fugaz, da qual o sujeito não está ainda plenamente seguro" (p. 182) - e suas decorrências para o estabelecimento dos processos de simbolização, o que será discutido à luz das concepções de André Green, tendo sempre em vista a prática clínica. Finalmente, no epílogo, o autor sintetiza as principais decorrências de suas análises, retomando aspectos dos casos clínicos previamente relatados.

Conquanto as articulações teóricas sejam realizadas com cautela, levando-se em conta também os limites entre as ideias apresentadas, finda a leitura, percebo que o meu exemplar está todo grifado, riscado, marcado. Movido pela urgência da sobrevivência (é de sobrevivência que se trata!), é como se o livro apresentasse "verdades" seguidas de "verdades": tudo é relevante. Nessa medida, ampliando a perspectiva, este estudo sobre as dimensões da experiência traumática cumpre, em seu próprio movimento, com uma função de cuidado, porque resgata e inaugura as dimensões potentes da clínica psicanalítica. Um trabalho indispensável.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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