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Resumo
Em um relato pessoal, construído a partir de cartas de Regina Schnaiderman, vai sendo traçado seu percurso de apátrida, onde se configura o sítio do estrangeiro que caracteriza o psicanalista. A origem do Departamento de Psicanálise vai se delineando nessa jornada de militância por um mundo mais justo e no assumir de um não lugar que se reflete na vida e na postura inquieta de Regina.


Palavras-chave
Pátria; apátrida; língua; língua materna; sítio do estrangeiro; movimento; exílio.


Autor(es)
Miriam Chnaiderman Chnaiderman

é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise, doutora em artes, documentarista.

 




Notas
1. P. Fédida , "A melancolia do imortal", in O sítio do estrangeiro", p. 10.

2. P. Fédida , op. cit., p. 10.

3. P. Fédida, op. cit., p. 11.

4. R. Schnaiderman, "Política de Formação em Psicanálise" , Revista Percurso n. 1.

5. R. Schnaiderman, "Artigo de Regina Schnaiderman publicado na Revista Percurso, n. 1, 1988", Revista Ensejo n. 1.

6. M. Chnaiderman, "Minha mãe, Regina", Revista Ensejo n. 1.

7. Para conhecer mais o coletivo Escutando a Cidade, ver o site .

8. W. Flusser, "Habitar a casa na apatricidade (Pátria e mistério, habitação e hábito)" in Bodenlos, uma autobiografia filosófica. Disponível em: .

9. M. Seligmann-Silva, "Para uma filosofia do exílio: A. Rosenfeeld e V. Flusser, sobre as vantagens de não se ter uma pátria, Revista Eletrônica do NIEJ/UFRJ, ano I, n. 3.
10. O evento Deslocamentos aconteceu no Instituto Sedes Sapientiae em 4 e 5 de maio de 2018. Todas as falas, na íntegra, estão no site .

11. M. Chnaiderman, op. cit., p. 64.

12. V. Flusser, op. cit., p. 223.

13. V. Flusser, op.cit., p. 232. Citado por M. Seligmann-Silva, op. cit. (2007: 232). "Die Enttäuschung mit Brasilien war die Entdeckung, dass jede Heimat [...] nichts ist als Sakralisation von Banalen; dasHeimat, sei sie wie immer geartet, nichts ist als eine von Geheimnissen umwobene Wohnung. Und dass man, wennman die in Leiden erworbene Freiheit der Heimatlosigkeit erhalten will, ablehnen muss, an dieser Mystification von Gewoheiten teilzunehmen." (1994: 26).

14. M. Seligmann-Silva, op. cit., p. 15.

15. M. Seligmann-Silva, op. cit., p. 9.

16. M. Seligmann-Silva, op. cit., p. 10.

17. M. Seligmann- Silva, op. cit., p. 37-38.

18. V. Flusser apud M. Seligmann-Silva, op. cit., p. 38.



Abstract
The Regina Schnaiderman’s stateless trajectory is traceable in the personal account of her letters, whereby the psychoanalyst’s site of the alien is characterized. The origin of the Psychoanalysis Department is shaped by the militant journey for a fairer world and by assuming a non-place that reflects Regina’s life and restless attitude.


Keywords
Homeland; stateless; language; mother tongue; site of the alien; motion; exile.

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 TEXTO

Regina?– desterros fecundos

Regina?– fruitful exiles
Miriam Chnaiderman Chnaiderman

Hoje
Assim escreve P. Fédida sobre o ofício do psicanalista:

... é necessário que renuncie ao olhar. É preciso que aceite o distanciamento que seu rosto exige. E esse distanciamento trazido e regulado pela fala que fala aqui já é o movimento da descoberta de um sítio - a ação desta fala que o reconstrói. A renúncia não apenas priva ao olhar a menor pretensão de se dirigir ao rosto, mas impõe a linguagem reservada ao silêncio. Tornar-se o estrangeiro é isso .
[...]

Tornar-se o estrangeiro?- neutro?- pela reserva do silêncio da linguagem que esta fala aqui exige .
É a partir de um caso clínico que o texto vai mergulhando em uma clínica que reafirma o lugar do psicanalista como sítio do estrangeiro. Todos nós então ocuparíamos o sítio do estrangeiro em nossa escuta. Uma escuta que perscruta outra língua. Esse dado fica amplificado quando a estrangeiridade se coloca na vida.

A reflexão que se segue só agora posso explicitá-la, passados 33 anos desde que Regina, minha mãe, morreu. Estranha temporalidade essa do luto. Algo de muito vivo permanece. Sempre. Não como cicatriz mas como borbulhamento permanente, intensidades que não deixam de fluir e que desrespeitam o mármore dos túmulos.

Ano: 1984
Também há 33 anos o Departamento de Psicanálise existe.

Em dezembro de 1984, Regina, já na cadeira de rodas, subiu de elevador até a sala onde ocorria a assembleia que fundaria o Departamento. E fez a fala de fundação realizando um grande sonho seu. É preciso contar que subir de elevador no prédio do Instituto Sedes Sapientiae não é um ato corriqueiro. Movimentamo-nos pelo prédio cinzento percorrendo os corredores e sempre subindo as escadas. Um carpete negro de borracha dá um aspecto sombrio àquele interior de um prédio que por fora é também cinzento. Como se todo aquele escuro precisasse temperar um excesso vital necessário na luta contra a opressão e que permanece impregnando as paredes todas. Por aquele prédio circulou a direção do PT que ali foi fundado, o movimento dos Sem Terra, o movimento indígena.

Até aquele momento, eu nem sabia que era possível subir pelo elevador. Mas, é claro, a própria Madre Cristina envelhecia e passava a precisar do elevador. Regina parara de andar em novembro, na volta de sua última viagem à Europa. O câncer invadia os ossos. Um câncer que começara em um dos seios e que ela descobrira em uma viagem à Europa em 1982. Naquele momento, meu irmão, Carlos, passava por uma grande cirurgia para retirada de dois terços de um pulmão. Carregava uma tuberculose crônica, sequela dos anos em que morou no Chile de Allende, fugindo de cruenta perseguição que a ditadura fazia àqueles que lutavam por um mundo melhor. Depois, foi viver em Cuba, desobedecendo a Regina/mãe, que tinha horror à proibição de contato que o Brasil mantinha em relação à ilha. Era muito duro lidar com as escolhas que meu irmão ia fazendo... Regina tinha que deixar de ser a mãe rodeada de seus filhotes.

Ano: 1982
Era 1982 e meus pais passeavam pela Europa, enquanto, no Brasil, eu ia acompanhando meu irmão por vários médicos até a decisão da cirurgia. Lembro que fomos ao Rio de Janeiro para consultar o médico que havia operado Darci Ribeiro do câncer, tamanha a angústia em relação a retirar dois terços de seu pulmão, tomado por cavernas que eram focos infecciosos. Meu irmão acabou passando pela cirurgia durante a viagem dos meus pais.

Carta de 1 de setembro, escrita de Amsterdã:

Amsterdã é muito linda. Boris já escreveu que andamos muito e pelo jeito andamos pouco em relação ao que temos que andar [...]

Estamos no mesmo hotel que a Miriam esteve...
[...]

Estamos no hotel fazendo hora para telefonar para São Paulo. A diferença de 5 horas atrapalha um bocado. Quando aqui for 17:30 acho que será 12:30 em São Paulo e espero encontrar Miriam em casa. [...]

Estou ansiosa para saber o que o Nestor (Schor, clínico geral da família) achou do Carlos...

Carta de 15 de setembro de 1982:

Já estou com muitas saudades de todos. Acho até que seria uma boa poder ir à Europa por 15 dias e voltar... Mas, tudo bem. Temos andado muito por aqui e tem feito um tempo muito bonito. Prá mim está quente demais e acho Paris uma curtição mas gosto mesmo é de morar no meu São Paulo.
[...]

Hoje vamos ao Museu Guimet ver arte oriental. Vimos muito Picasso. Há coisas para ver ainda nessa semana, que falta ou que sobra prá curtir aqui. Passeamos bastante pelo Loire e fomos a Chartres. Um deslumbramento. Muita emoção.

Recebemos só uma carta da Miriam. [...] Carlos também, mas estou preocupada com seu pulmão...

Carta de 18 de setembro de 1982:
Tenho escrito menos que de costume... Agora estou no consultório de Chris (Marie-Christine Laznik) onde há uma mesa que serve para escrever... Por incrível que pareça pegamos um calor bravo aqui em Paris - parece verão do Rio... O que, apesar de tudo, não tem me impedido de andar por aí e ver e ver e ver. Paris é incrível?- as coisas, as ruas, os museus, o jeitão. Mas, eu jamais moraria aqui. Prefiro ler os franceses a partir da posição de São Paulo. Além do mais, há um tamanho excesso de coisas... [...] que eu, como boa provinciana, fico meio perdida. E, por vezes, fico também muito cansada... [...]

Ontem fui conhecer o hospital de Bernard (Pénot) e assisti a uma reunião de síntese que, como no Brasil, não faz síntese, só discute. Foi interessante, gostei de conhecer.

Naquele momento estavam de partida para Roma e, na Itália, minha mãe descobriria um caroço no seio. Carlos, meu irmão, precisou ser operado antes do retorno deles. Estava com uma infecção no pulmão e não foi possível aguardar a volta dos meus pais. Em nenhuma carta há referência à cirurgia do Carlos, o que me fez deduzir que decidimos, eu e meu irmão, não preocupá-los. Talvez tenhamos falado no telefone, mas foi tão tenso esse momento em que sozinha acompanhei meu irmão nessa dura cirurgia, que não consigo me lembrar. Só lembro como minha mãe ficou perturbada quando encontrou meu irmão na semi-intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein, tendo saído de pelo menos dois retornos à mesa de cirurgia em função de hemorragias e drenos.

Demoraria um ano até minha mãe procurar um médico e encarar verdadeiramente seu câncer. Repetia assim aquilo que sempre me relatara de sua mãe, minha avó Sônia.

Goiânia

Foi só com a ideia de Eli Antônio Cury de lançar uma revista de psicanálise e cultura na Clínica Dimensão de Goiânia que pude, passados 28 anos, voltar a me debruçar sobre a história de Regina, minha mãe. Até então eu não conseguira. Por dor. Talvez por um excesso de rosto como aponta P. Fédida:

O que é ter um rosto de um desaparecido? O que é viver com a concentração de uma força cuja fonte lhe é exterior?

Logo depois da morte da minha mãe, eu e Renata Cromberg, estimuladas por Jacó Guinsburg, grande amigo de meus pais e diretor da Editora Perspectiva, reunimo-nos pensando em uma publicação. Vasculhamos seus escritos e só encontramos fichamentos. Fichamentos infinitos que mostravam a paixão pela psicanálise e a seriedade no estudo da teoria. Havia notas de sessões, muito material de pacientes, que sob orientação do Conselho Regional de Psicologia foram devidamente destruídas. Alguns poucos escritos curtos publicados em revistas esparsas... Havia apenas o texto denso sobre a questão da formação em psicanálise que a revista Percurso em seu primeiro número publicou . A revista Percurso nasceu três anos depois da morte de Regina e da fundação do Departamento. É preciso observar que esse texto também foi republicado pela Revista Ensejo .

Assim relato o nascimento da Revista Ensejo em texto que introduz seu primeiro número:

A partir de 2011 comecei a ir uma vez por mês a Goiânia, durante três anos, para coordenar seminários [...] Foi então que Eli me falou do sonho de lançar uma revista que mergulhasse na relação psicanálise e cultura [...] Depois, enquanto os integrantes desse espaço de trabalho pensavam no que escrever e como publicar, Eli me trouxe outra novidade: sonhava em dedicar esse primeiro número à minha mãe .
Algo que eu não conseguira fazer até então se tornou possível. Só agora, depois de publicada a revista Ensejo e a partir do pedido da Percurso para que eu escrevesse algo sobre a minha mãe para o número 60, é que consigo retomar as cartas que recebi durante a vida toda.
Vou recortando a história da minha mãe e de meu pai e os depoimentos são tocantes.

Ano: 1977
Em 1977 meus pais foram à Europa com o projeto de encontrar meu irmão Carlos na então URSS. Desde 1973, depois do golpe no Chile, meus pais não viam Carlos, que escolhera ir morar em Cuba. Naquela viagem meu pai teve uma hemorragia proveniente de uma úlcera e acabou sendo operado em Paris. Lembro que foi recolhido pela polícia, desmaiado, no Boulevard St Michel. Era tudo muito tenso, meus pais não sabiam se conseguiriam encontrar meu irmão. Mesmo da Europa, a comunicação com Cuba era precária. Meus pais ficavam atrás de onde conseguiriam se comunicar com meu irmão.

Releio a carta de 12 de julho:
Minha cabeça está estourando e há momentos que me sinto perdida no meio de tanto absurdo. Felizmente Boris está melhorando dia a dia o que não significa que está bem de todo. Fica cansado logo, logo e é muito triste ver ele na cama desse jeito. Só vai ter alta no dia 18 ou 20 mas eu desconfio que ainda deverá ficar alguns dias de cama em casa. Afinal, foi uma operação de urgência e uma operação grande além dele estar já muito cansado antes disso tudo acontecer. A loucura é essa viagem para a URSS. Primeiro, o Carlos, que não tinha tratado de conseguir lugar na URSS. Agora acabo de receber um telegrama dele que acertou toda a sua viagem para o dia 25... Aqui está impossível de conseguir viagem para a URSS antes do fim de agosto! Mesmo porque eu não gostaria de viajar com seu pai no dia 25/7. Além disso há o problema da pesquisa dele para a FAPESP?- ele quer fazê-la, pela FAPESP, e por ele mesmo.

Se nós formos para algum lugar descansar 10 ou 15 dias já seremos o mês de agosto (está assim no original?- confusão de línguas?). Realmente não sei bem o que fazer, estou um bocado confusa. E essa confusão me impede muito de me virar bem por aqui [...]

Desculpem esse desabafo mas à medida que vou escrevendo vou me acalmando. [...]

Brochei totalmente em relação à viagem e só hoje, uma semana depois do internamento do Boris é que a coisa está chegando a esse ponto insuportável.

Mas, por favor, não se preocupem?- a gente reage e vocês sabem que eu arranjo um jeito de me sair bem dessa.

Há uma coisa boa?- eu emagreci 10 quilos. Um pouco na marra com a braveza da Chris e um pouco porque perdi até a vontade de comer. Provavelmente isso também me deixa um bocado deprimida ou nervosa. A verdade é que as costas pararam de doer e posso andar melhor.
[...]

... tenho remorsos de estar dando tanto trabalho além dos trabalhos normais que já são tantos, tantos.

E também peço desculpas por estar sobre carregando todo mundo com as minhas preocupações. Sinto a solidariedade de todos e nem sei como agradecer.

Não dá prá enfeitar muito esta carta ... Estava deprimida e desorganizada. Agora estou melhor.
[...]

E as férias da Miriam? Até tinha esquecido que vocês iriam viajar no dia 15! Faço questão que vocês tirem as férias normalmente por duas semanas. (... E agora que eu marquei telefonema prá o dia 21!
[...]

Assim era Regina... na intensidade dos afetos falava e des-falava no mesmo parágrafo. Transbordava angústia assim como transbordava carinho e alegria.

Os sentimentos contraditórios proliferam nessa carta. Entre o desejo de ver meu irmão, a raiva pela dificuldade, a dor e o incômodo de ver meu pai tão fragilizado, sua impotência e a dificuldade de ter algum controle diante de fatos tão contundentes...

Mas, é preciso dizer, a maior parte das cartas são descrições de filmes, concertos, exposições, leituras, uma curiosidade infinita.

Carta de 16 de junho de 1977:

Estou acabando de chegar do cinema?- fui ver "Laranja mecânica". Estou completamente acabrunhada com a violência do filme terrível. Até mais do que eu podia imaginar. Além do mais é um filme muito bonito, francamente impressionante. Sem saída. Um banho de real ou realidade ou só imaginário, não sei.

17-6
Interrompi ontem para atender um telefonema do Nelsinho Aguilar prá me convidar para ir ver Boulez reger música moderna. Fui. É uma maravilha e ouvir Berg, Webern, Schömberg é muito bom, é como música medieval?- parece coro de anjos. Mando o programa para vocês ficarem com inveja... Paris é uma festa. Mil programas de tudo. Depois do espetáculo fomos beber na Closerie des Lilas?- um bar muito importante onde ficavam Lenin e também Picasso e Malarmée, etc. (tem plaquinhas nas mesas) e onde agora vai também um monte de intelectuais de teatro, cinema e também todo tipo de psicanalista que aqui também transa como artista. É difícil descrever todas as sensações que vão da sensorialidade ao lugar da memória, fruição de estar por aí e disponível?- que milagre.. O Théatre de La Ville é um teatro enorme e estava cheíssimo e aqui a turma não tosse nem se mexe, num respeito pela música, pelo regente, sei lá, é diferente.

Tudo isso contrastando com as cartas que escreveu no segundo semestre de 1984, já com o diagnóstico do câncer. Na sua volta, deixaria de andar e continuaria realizando sua imensa curiosidade vendo exposições e indo ao cinema já em uma cadeira de rodas.

Assim inicia uma carta:

Papai já escreveu bastante e a verdade é que ando preguiçosa para escrever. Também, imaginem que passo fome... e além disso sou obrigada a andar muito?- subir morro, subir escada, etc., Ainda bem que consigo?- sinal que estou bem, não é? Tem horas que volta um pouco a depressão, também é natural. Saudades de vocês todos...

Temos ainda muita coisa para ver e só faltam 15 dias para partir. Acho que vai dar tempo e na verdade adoro estar em Paris. Não chegou nenhuma carta de vocês e nem o relatório do Sérgio (Sergio Simon, oncologista que a acompanhou até morrer). Que fazer? Paciência.

Comprei muitos livros e me diverti muito com as compras. Para Miriam comprei por enquanto uma linda capa de chuva e um fantástico vestido de noite... Está tudo muito caro para nossa pobre moeda.
A confusão das línguas

Foi em uma carta de 18 de julho de 1977 que encontrei uma preciosidade sobre o que, me parece, introduz uma chave importante na compreensão de minha mãe e de nossa origem como psicanalistas filiados ao Departamento:

Estamos em casa. Boris teve alta hoje e o médico disse que ele estava muito bem e que pode comer de tudo?- pouco de cada vez e várias vezes?- e que pode passear e viajar e tudo mais. Mas, que é natural que ele esteja fatigado e abatido pois foi uma grande operação. A verdade é que ele emagreceu bastante, está cansado, muito quieto (mais ainda que de costume) e a recuperação tem que levar mesmo algum tempo. Há momentos em que eu aguento tranquila a situação e há outros em que me desespero e fico numa fossa muito grande. É mais ou menos natural que eu esteja bastante confusa com toda a situação. Viagem para a URSS? Repouso nas montanhas? Tudo, sei lá, muito indefinido. E o tesão por Paris não anda muito intenso, não me ocorre sair e deixar o Boris, acho que também estou precisando me recuperar... Aliás, até que eu tenho saído um pouco?- sábado Chris e Bernard foram me buscar mais cedo no hospital para assistir um concerto na Concièrgerie. Não houve concerto mas fomos passear pelo cais do Sena e fizemos um passeio pelo Sena no Bateau-Mouche, um barco, foi muito bonito e interessante. À noite fomos jantar no Samuel e Mariinha (Werebe), todos muito gentis. Ontem, domingo, Bia ( Beatriz Forjaz) ficou comigo no hospital e depois insistiu para a gente ir passear no St Germain, sentar num bar e depois jantar fora. Estava muito gostoso, St Germain muito alegre, muita gente. Paris tem seus encantos. É preciso estar um pouco mais em sintonia para fruir tudo isso. Mas, há de voltar, espero. [...]
Por aqui não fez ainda o tal verão?- faz até um pouquinho de frio e está chuviscando u
m pouco.
[...]

Terei muito a fofocar quando chegar aí?- não tenho o que fazer e faço descobertas "filosóficas".
Bem, vou deixar um espaço para o Boris escrever um pouco.

Minha lua linda, Luana meu amor, estou beijando minha Luana com muita saudade.
Mil beijos a todos

Mãe Regina
Escrevo tudo errado, primeiro porque não sei ortografia e segundo porque mistura-se aqui português, inglês, francês, espanhol e fico meio biruta.

Reler essas cartas, hoje, agosto de 2018, quarenta e um anos passados, foi de um impacto indescritível. Pela intensidade de minha mãe, pelos momentos duros que vivemos nos anos duros da ditadura, pela dor da ausência de meu irmão e a imensa dificuldade para estar perto dele. Meu pai ter desmaiado duas vezes andando pelas ruas de Paris foi algo terrível. Ser operado às pressas, a angústia toda. Imensa gratidão a Christine Laznik e Bernard Pénot que souberam tão bem acolher meus pais.

Mas, esse post-scriptum veio quase que confirmar algo que só pude pensar depois de elaborar meu texto para a revista Ensejo, onde fui vendo a história da minha mãe como a história de uma apátrida.
Foi a partir do coletivo Escutando a Cidade , do qual faço parte, através de dois textos, um de V. Flusser e outro de Márcio Seligmann-Silva , enviados por Alessandra Sapoznik e na elaboração da temática do evento Deslocamentos , que pude refletir sobre a perda da língua mãe em Regina. Depois, no evento, a fala de Caterina Koltai, Márcio Seligmann-Silva e Peter Pèlbart foram me fornecendo instrumentos para refletir sobre a história da minha mãe e a inevitável relação com a psicanálise, sítio do estrangeiro, na sábia expressão de Pierre Fédida.

Assim começo meu texto sobre "Minha mãe, Regina" na revista Ensejo:

Só soube que minha mãe não era brasileira poucos anos antes de sua morte. Foi na sua última análise com Fernando Ulloa que decidiu contar, a mim, a meu irmão, ao mundo, que nascera na Bessarábia, antiga União Soviética. Chegou ao Brasil com seis anos de idade e foi obrigada a "esquecer" o russo no momento em que sua família conseguiu o documento brasileiro. Pude então melhor entender minha mãe. Mãe exuberante e contraditória que dançava, chorava e me deixava tonta. Entendi sua eterna luta com a obesidade, entendi seus negros olhos tristes e alegres, sua imensa necessidade de estar perto e de ter a admiração e o carinho de multidões.

O final da carta transcrita, quando afirma que as línguas se misturam, deixando-a "meio biruta", estava falando de vivências de sua infância, quando falava o russo, ouvia seus pais falando o ídiche, e chegou ao Brasil tendo que falar português. Essa descoberta, nesse momento da minha vida, me deixou perplexa.

Percebi então como a questão da língua e do não lugar marcaram minha mãe.

A fala de Caterina Koltai, no evento Deslocamentos e que neste número da Percurso aparece publicada, reverberou em mim, de modo dolorido e, ao mesmo tempo, esclarecedor. Aqui, parti da escuta de sua fala, reproduzida no site do coletivo Escutando a Cidade:

A partida é sempre uma ruptura [...] migrar é sempre a marca de uma ruptura e o sujeito da ruptura sempre se encontra no estado interior de transição, oposição e mobilização?- reconstrução de uma identidade através de uma outra língua.

Só pode ser marca traumática a perda de uma língua em uma criança de seis anos de idade. As reverberações que tudo isso teve na vida de Regina, minha mãe, só hoje posso entrever.
A língua xadrez, que falava com Luana, sua neta, ganha outro sentido. Era uma língua
esdrúxula, inventada pela avó e pela neta, que só as duas entendiam e na qual falavam durante horas.
Nunca imaginei que minha mãe pudesse ter tido outra língua que não o português como língua materna. Uma outra língua que não apenas a língua xadrez que falava com Luana.

Foi só depois dessa descoberta de que Regina era uma apátrida que pude entender minha mãe e seu percurso. Pude entender também o exílio de meu irmão e o carinho de minha família para com os argentinos que aqui chegaram na fuga de uma ditadura atroz.

A inquietude no seu dia a dia, sua busca infindável de diálogo e interlocução, sua dificuldade com a solidão. Ler um livro sem ter com quem compartilhar era algo sentido como "sem graça". O grande prazer era ler em voz alta, era fazer junto não importa o quê.

Qual pátria?
Assim fala Flusser sobre a pátria:

Pátria é uma técnica específica mas quem a perde sofre a ela ficando conectado por inúmeros fios que a consciência desconhece e que forma vínculos cortados, sendo esse corte vivido como uma intervenção cirúrgica. Só quando reconheci que os fios estavam ligados a mim é que vivi uma grande libertação.

Regina cantava lindamente e gostava de cantar modinhas caipiras que aprendera na juventude, em suas viagens com amigos. Era uma voz de contralto que saía das entranhas. Que cantigas de ninar teria ouvido em sua infância? Cantava também em ídiche. O tumbalalalá, tumbala, tumbalalaica... Há uma universalidade na sonoridade das canções populares...

O russo ficou como língua que deveria ser esquecida. Mas o ídiche, não. O ídiche, a língua de seus pais, a língua ancestral oral dos judeus da Europa Central.

Cito novamente V. Flusser:
...pátria é sempre uma sacralização do banal. [...]
Para defender a apatricidade é preciso não participar do congelamento dos hábitos. Pátria, para mim, são os homens pelos quais tenho responsabilidade. É a liberdade da responsabilidade pelo próximo.
A generosidade de Regina hoje pode assim ser entendida, nessa liberdade da responsabilidade pelo próximo.

Flusser faz uma diferença, fundamental, entre pátria e moradia. A moradia pode acontecer em qualquer pátria. Márcio Seligmann-Silva acentua que Flusser desenvolve um elogio da casa ambulante . Pude assim entender o que era a casa para Regina... local de acolhimento, a cozinha sempre com cheiros de comida gostosa, a geladeira sempre cheia. A sala bonita cheia de quadros. E o desejo permanente de ter gente por perto... Afinal, o que importava era a moradia, e não a pátria.

O esquecimento impingido marcou um olhar triste em Regina. E uma busca infinita que a levava a engolir o mundo. Mesmo sua relação com a comida era aflitiva, precisava sentir o gosto do universo.
Márcio Seligmann-Silva, em seu ensaio sobre V. Flusser e Anatol Rosenfeld, aponta como toda língua produz e ordena uma realidade diferente. Cito Seligmann-Silva:

"Se abandonamos o terreno da nossa língua materna", escreve o exilado Flusser, "o nosso senso de realidade começa a diluir-se. O amor pela língua materna estabelece o nosso senso de realidade, porque nos proporciona a vivência da superioridade da nossa própria língua. [...] Se perdemos o amor pela língua materna, se aceitamos todas as línguas como ontologicamente equivalentes, a nossa realidade se desfaz em tantos pedaços quantas línguas existem".

E Flusser conclui: "E nos abismos entre estes pedaços abre-se o nada, muito precariamente transposto pelas pontes duvidosas que as traduções oferecem. A perda do amor pela língua materna equivale a uma forma infernal da superação da luxúria pela tristeza." (2006:91) Ou seja, o território niilista aberto pelo tradutor é também o terreno de onde brota a melancolia, Antimusa tão conhecida de Benjamin. Mas Flusser ensina também que este tradutor não necessariamente é triste.

O Brasil foi local de acolhimento para Regina. Que adorava dizer-se "brasileira".

Flusser fala da uma libertação da ideia de Heimat. Seligmann-Silva fala de um artigo de 1991 de Flusser em que defende a ideia de que "aquele que realmente ama sua língua materna deve saber amar outras línguas" . As belezas de cada língua só podem vir à luz nesta passagem de uma língua para a outra.

Regina formou-se primeiramente em química e foi grande professora, deixando marcas em muitos alunos que a acompanharam pela vida afora. Na química, a busca de compreensão concreta do que fazia o mundo existir. Mas, liberta da Heimat, foi buscar outras línguas. Na psicanálise, assumiu o sítio do estrangeiro que era o seu... E assumiu radicalmente, sendo psicanalista fora da IPA. Não foi aceita nas instituições oficiais, mas nem por isso desistiu. Flusser fala de como o apátrida é profanador e, por isso mesmo, às vezes é sacralizado e sacrificado.

Flusser nos ensina sobre a liberdade do movimento. A perda de Heimat implicaria uma libertação de amarras e uma abertura para o inabitual.

A inquietude de Regina nos formou. A falta de ancoradouro externo levou a uma procura de vida na arte, na psicanálise, na política. Enfim, à procura da vida.

Márcio Seligmann-Silva nos conta de um ensaio de 1984 chamado "Exil und Kreativität" ("Exílio e criatividade"), no qual Flusser apresenta o banido como aquele que primeiro pôde perceber que não somos árvores . Ele descobre que "talvez a dignidade humana consiste justamente em não possuir raízes" . O que implica tornarmo-nos seres em permanente movimento, espíritos inquietos de uma floresta que se desloca. Uma floresta de duendes, fadas, espíritos ancestrais, um imenso séquito de origens dançantes. Regina adorava dançar...

Por isso, na psicanálise, Regina assumiu o sítio do estrangeiro que era o seu...

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