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Resumo
Este pequeno artigo propõe uma leitura da vida profissional e pessoal da psicanalista Regina Schnaiderman, tal como é apresentada pela Revista Ensejo, de um ponto de vista baseado no ensaio de Agamben “O Amigo”, sobre os significados ético e político da amizade.


Palavras-chave
Psicanálise; cultura; amizade; ética; política.


Autor(es)
Camila Salles Gonçalves

é doutora em filosofia pela fflcusp, psicóloga pela pucsp, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, autora de publicações sobre psicanálise e filosofia.




Notas
1. G. Agamben, "O amigo", in O que é o contemporâneo? e outros ensaios, p. 89.

2. O currículo dos editores, assim como de colaboradores da publicação, estão na p. 103 de Ensejo -Revista de Psicanálise e Cultura - Vol. I, Goiânia, Dimensão, 2018.

3. G. Agamben, op. cit., p. 79.

4. G. Agamben, op. cit., p. 79.

5. G. Agamben, op. cit., p. 83.

6. G. Agamben, op. cit., p. 88.

7. G. Agamben, op. cit., p. 88.

8. G. Agamben, op. cit., p. 85.

9. G. Agamben, op. cit., p. 85.

10. G. Agamben, op. cit., p. 85.

11. Ensejo, op. cit., p. 7.

12. Ensejo, op. cit., p. 13.

13. Ensejo, op. cit., p. 26.

14. Ensejo, op. cit., p. 29.

15. Ensejo, op. cit., p. 32.

16. Ensejo, op. cit., p. 42.

17. Ensejo, op. cit., p. 47.

18. Ensejo, op. cit., p. 63.

19. Ensejo, op. cit., p. 64.

20. Ensejo, op. cit., p. 70.

21. Ensejo, op. cit., p. 71.

22. Ensejo, op. cit., p. 75.

23. Ensejo, op. cit., p. 76.

24. Ensejo, op. cit., p. 78.

25. Em papel, 30 X 41 cm.

26. A mensagem de Sara Müller, que, por algum revés, não saiu na Ensejo, foi: "Regina, amiga querida, fundamental na minha formação como pessoa. Orientadora, conselheira, confidente, incentivadora, mestre, grande anfitriã, reunindo a intelectualidade e jovens inquietos que buscavam novos valores, questionando a velha ordem. Com muito carinho e boas lembranças, envio reprodução de uma pintura de minha autoria, para acompanhar minhas palavras".

27. G. Agamben, op. cit., p. 88-89.

28. G. Agamben op. cit., p. 89.

29. G. Agamben, op. cit., p. 89.

30. G. Agamben, op. cit., p. 90.

31. G. Agamben, op. cit., p. 90.

32. G. Agamben, op. cit., p. 90.

33. G. Agamben, op. cit., p. 91.

34. G. Agamben, op. cit., p. 92.



Referências bibliográficas

Agamben G. (2009). O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó, Santa Catarina: Argos. 92 p.

Ensejo– Revista de Psicanálise e Cultura. Ano i: jul. 2018. Goiânia: Dimensão,104 p.





Abstract
This short article proposes a reading of the professional and private life of the psychoanalyst Regina Schnaiderman, as presented by the magazine Ensejo (Occasion), from a point of view based on Agamben’s essay, “O amigo” (The friend), about the ethical and political meanings of friendship.


Keywords
Psychoanalysis; Culture; Friendship; Ethics; Politics.

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 TEXTO

Regina Schnaiderman – com amigos

Regina Schnaiderman – with friends
Camila Salles Gonçalves

[...] a amizade tem um estatuto ontológico e, ao mesmo tempo, político. A sensação do ser é, de fato, já sempre dividida e com-dividida, e a amizade nomeia essa condivisão

 


A Revista Ensejo, de junho de 2018, n. 1, é dedicada a Regina Schnaiderman. A homenagem resultou do desejo de um grupo de estudos sobre cultura e psicanálise, coordenado por Miriam Chnaiderman no Instituto Dimensão, em Goiânia. Sem dúvida, ao eleger Regina como protagonista e pesquisar a história, o projeto biográfico do grupo tem afinidade com o propósito de relacionar cultura e psicanálise no Brasil. Editor, juntamente com Miriam Chnaiderman, Eli Antônio Cury é membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapietiae e diretor presidente do Instituto & Clínica Dimensão de Goiânia.
 
As fotos publicadas, desde a primeira, na capa da revista, de autoria de Fabio Herrmann, propulsionam uma viagem no tempo, a tempos de amor e luta. Rompem o quotidiano da memória do dia a dia, que fica para trás, superada. Para além do impacto afetivo- emocional, precisei construir um lugar ou perspectiva, a partir do qual pudesse indicar e comentar a presença e o desempenho de Regina na história da psicanálise e da cultura brasileiras, evocados pela revista. Imagino que Regina, que era apaixonada por filosofia, aprovaria o recurso de que lancei mão, o de forjar uma chave de leitura com o pequeno artigo "O amigo", de Giorgio Agamben. A frase com que este se inicia é: "A amizade é tão estreitamente ligada à própria definição da filosofia que se pode dizer que sem ela a filosofia não seria propriamente possível" . Em seguida, o texto nos diz que a intimidade entre amizade e filosofia é profunda, após relembrar que philos (amigo) faz parte do próprio nome filosofia, observando, no entanto, que "como frequentemente ocorre para toda proximidade excessiva, corre o risco de não conseguir realizar-se" .

O filósofo italiano afirma que a amizade tem estatuto ontológico e político. Esta concepção, da qual me aproprio, pode nos levar a visualizar Regina em plena ação política, ao compor seus grupos de estudos e ao fundar o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Creio que seja imediato associarmos sua história com várias formas de luta contra as ditaduras no Brasil e na Argentina. Percorremos ideias e atitudes combativas por meio de depoimentos e entrevistas: o apoio a participante de seus grupos e a seu filho, exilados, integrantes da luta armada, a escolha do Sedes para iniciar o Curso de Psicanálise, associada com as iniciativas de Madre Cristina, a acolhida dos psicanalistas argentinos em exílio no Brasil e muito mais.

A epígrafe que coloquei, com palavras extraídas de pesquisa do autor sobre a amizade, embora seja condizente com episódios e gestos documentados, a meu ver, ilumina de um modo peculiar a história de Regina. Peço que acompanhemos parte das considerações linguísticas, feitas por Agamben sobre o termo amigo, e de suas leituras de Ética a Nicômacos, de Aristóteles.

Para o filósofo nosso contemporâneo, amigo pertence àquela classe de termos que os linguistas definem como não predicativos, isto é, "termos a partir dos quais não é possível construir uma classe de objetos na qual inscrever os entes a que se atribui o predicado em questão" .

Vamos aos exemplos de termos predicativos, que deixam bem clara a definição de termo não predicativo. Palavras como branco, duro, quente quando usadas como predicados são termos predicativos. Se digo A casa é branca, estou usando um termo a partir do qual posso construir uma classe de objetos na qual posso incluir os entes a que se atribui o predicado: o leite é branco, a página é branca, a blusa é branca etc. Mas amigo não funciona assim.

Agamben me faz entender que, quando pronunciamos amigo, evocamos algo que vai além das possibilidades de análise lógica. Paradoxalmente, é por meio do estudo de Aristóteles, criador da Lógica, que ele nos apresenta o termo. O filósofo de Estagira teria considerado, em sua Filosofia Primeira, ser e viver como equivalentes, enunciado que viria ter eco em Nietzsche: "Ser: nós não temos disso outra experiência que viver" ou "Ser, para os viventes, é viver" .

Sem dúvida, podemos associar estas afirmações com várias das fotos que encontramos, talvez dando realce às que mostram Regina com parentes, discípulos, colegas. Além disso, continuando com o pensamento de Agamben, trago outra imagem, a que ele comenta, não para comparar representações, mas para sugerir sentidos. Ele nos fala de um quadro de Giovanni Serodine que representa Pedro e Paulo, personagens cristãs, juntos, a caminho do martírio, porém imóveis, no centro da tela, e tendo em volta a turba de soldados e carrascos, que gesticula. Os apóstolos estão muito próximos, seus rostos quase se encostando e de mãos dadas. Agamben considera a tela incomparável, sobretudo pelo fato de os dois santos terem sido representados "tão próximos, com as frontes quase coladas uma na outra, que estes absolutamente não podem se ver" .

Retomo algumas das fotos de grupo publicadas na revista, imagino o que está acontecendo ali: um dos grupos de estudos de Regina, formando uma rodinha, Bela Sister, Marilsa Taffarel, Marli Schor e Miriam Chnaiderman; outro, em que ela brinca com as integrantes, Marilene Carone, Betty Milan, Clélia Roman; outro, na casa de Isaías Melsohn, em 1977, com H. Rosenfelf, em sua vinda ao Brasil, Leda Herrmann e Ana Maria Sigal. Depois, duplas: Regina dançando com Miriam, com Sandra Moreira de Souza, com Benê, irmão de Sandra. Outra foto, em que Regina está parada, junto com Julieta Nóbrega, ambas olhando para a frente e de mãos dadas. Fantasio, tento, por meio de representações, substituir o indescritível dessas amizades.

O que pretendo, ao trazer o quadro descrito por Agamben? Creio que procuro encontrar uma maneira de sugerir a capacidade de Regina de ser amiga, na qual a publicação me faz pensar.

Nas observações sobre o quadro, Agamben prossegue: "Essa impressão de uma proximidade por assim dizer excessiva é ainda acrescida do gesto silencioso das mãos que se apertam embaixo, dificilmente visíveis. Sempre me pareceu que esse quadro contenha uma perfeita alegoria da amizade" (p. 85). Ele indica o que não posso ver: "O que é, de fato, a amizade senão uma proximidade tal que dela não é possível fazer nem uma representação nem um conceito?" .

Mais importante que minhas fantasias, parece-me ser a ideia segundo a qual amigo ou amiga não é um termo predicativo:

Reconhecer alguém como amigo significa não poder reconhecê-lo como "algo". Não se pode dizer "amigo" como se diz "branco", "italiano" ou "quente" - a amizade não é uma propriedade ou uma qualidade de um sujeito .

Do editorial, de entrevistas e depoimentos, recorto vozes: "ela funda em 1976 o Curso de Psicanálise" - Eli Antônio Cury , "era uma pessoa supergenerosa, e ajudou muitos outros jovens nos quais via valor" - Renato Mezan" , "amiga, anfitriã em terra estrangeira, que com sua capacidade de acolhimento adoçou a vida em momentos difíceis, lhe sou grata" - Silvia Leonor Alonso , "seu poder fundador estará sempre presente na qualidade de uma força ancestral decisiva porque se fez ato" - Renata Udler Cromberg , "com ela a psicanálise no Brasil encontrou uma referência fundamental para se aliar ao que acontecia no mundo" - Ana Maria Sigal , "eles (Regina e Boris) ficaram meses em Paris comigo [...] grandes intelectuais aos quais eu jamais teria acesso, apareceram na minha casa, inclusive o Cortazar - Marie Christine Laznik , "Regina transitou entre muitos autores, franceses, ingleses, integrantes do chamado ‘middle-group' " - Janete Frochtengarten , "(Regina) deixou um nome respeitado e o reconhecimento geral pela contribuição à Psicologia e ao exercício da prática psicanalítica em São Paulo" - Boris Schnaiderman , "Minha mãe aglutinara em torno de si um grupo de pessoas interessadas em ler Freud e que buscavam fazer a formação como psicanalistas fora da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, ou seja, fora da IPA" - Miriam Chnaiderman , "valorizando o Brasil, permitiu-nos conhecer o que se fazia na França e também nos outros países latino-americanos" - Betty Milan , "Conheci a Regina duas vezes na vida, sempre como paciente" - Vivien Lando , "Não se cingia dogmaticamente ao que estava classicamente estabelecido, nem na filosofia em geral, nem na psicanálise em particular" - J. Guinsburg , "Árvore de espécie rara, que pôde deixar raízes de forma própria e independente" - Cecília Hirschzon , "Ela ouvia com muita atenção o paciente e foi a primeira ‘professora' de psicanálise de muitos de nós" - Marilsa Taffarel .


Revejo o encontro em 2013, no qual os editores Eli Antônio Cury, Iranildes Ferreira Luz e Miriam Chnaiderman reuniram-se, na casa de Bela e Sérgio Sister, com os amigos Ana Marli Schor, José Benedito de Souza Freitas, Sandra Moreira de Souza Freitas e Sula Terepins. Sandra trouxe uma carta que Regina, em 1977, enviara de Paris, em que ela se queixava da dificuldade de se comunicar com seu filho Carlos, exilado em Cuba.


No final deste primeiro número de Ensejo, está a republicação do artigo de Regina que fez parte do primeiro número de Percurso - Revista de Psicanálise, em 1988. Em seguida, temos os comentários de Janete Frochtengarten, Decio Gurfinkel e Renata Udler Cromberg, como forma de homenagem, em diálogo com um segmento do texto, vinte anos depois, em Percurso n. 35. Também aí se publicou uma reflexão sobre o pensamento psicanalítico de Regina, que tive a oportunidade de realizar.


Como encerramento, uma implicação a partir da arte, homenagem da artista plástica Sara Müller, a reprodução de uma obra que combina materiais, tem camadas sobrepostas, provém de gestos espiralados e orifícios de luz. Um universo de referências, em uma obra emocionada .


É claro que a partir dos flashs que apresentei o leitor poderá se interessar e ir em busca de todo o material interessantíssimo, que não pretendi resenhar e deixei para a sua própria descoberta, e constatar que Regina tinha muitos amigos. Mas para prosseguir no que pode dar outra intensidade à nossa constatação, volto à metáfora escolhida por Agamben e sua associação com a Ética a Nicômacos.
É-nos apontada a sensação de existir, considerada como em si mesma doce, por Aristóteles. E nessa sensação "insiste uma outra sensação, especificamente humana, que tem a forma de um com-sentir (synaisthanesthai) a existência do amigo" . Não se trata de intersubjetividade ou de relação entre sujeitos, que Agamben chama de quimera dos modernos. Em sua leitura da passagem aristotélica ele destaca:


A amizade é a instância desse com-sentimento da existência do amigo no sentimento da existência própria. Mas isso significa que a amizade tem um estatuto ontológico e, ao mesmo tempo, político. A sensação do ser é de fato, já sempre dividida e comdividida e a amizade nomeia essa condivisão .


Esta concepção não se refere a relação alguma entre sujeitos porque "em vez disso o ser mesmo é dividido, é não idêntico a si, e o eu e o amigo são as duas faces - ou os dois polos - dessa com-divisão" .


Agamben vai abrindo nossos ouvidos contemporâneos por meio dos termos gregos, inclusive em distinções importantes de significado, que se alteram na tradução para o latim, e revelando um sentir próprio da vida humana, um sentir dividido originário ontológico: "O amigo não é um outro eu, mas uma alteridade imanente na ‘mesmidade', um tornar-se outro do mesmo" .


A doçura da minha existência, no ponto em que é percebida, faz com que a minha sensação seja "atravessada por um com-sentir que a desloca e deporta para o amigo, para o outro mesmo" .


Por mais poética que soe esta interpretação, ela não deixa de constituir uma investigação sobre o ser e, ao prosseguir, nos diz o que é a amizade: "A amizade é essa des-subjetivação no coração mesmo da sensação mais íntima de si" .


Assim, amigo é não conceitualizável. Em termos modernos, nos diz Agamben, é um existencial e não um categorial. Para ele, trata-se de um existencial pleno de intensidade, carregado "de algo como uma potência política" . O syn, o com, seria a intensidade.


Hoje em dia, fala-se muito em subjetivação, sem que se pesquise a origem nem o sentido dessa expressão, que, de forma equivocada, muitas vezes é empregada como se houvesse, num suposto processo, algo positivo na constituição do sujeito ou o resgate de algo a seu favor de um vir a ser. Agamben é conhecedor das obras de Lacan e de Foucault. Indo ao mais antigo, encontra uma visão da des-subjetivação como com-divisão ontológica que tem significado político: "A amizade é a condivisão que precede toda divisão, porque aquilo que há para repartir é o próprio fato de existir, a própria vida. E é essa partilha sem objeto, esse com-sentir originário que constitui a política" .


A história de Regina Schnaiderman faz parte da história da psicanálise e da cultura brasileira, do vir a ser psicanalista de cada um de nós. Faz parte de um passado que, enquanto tal, não pode ser revivido, mas que é inseparável de nossa existência.


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