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Resumo
Esse artigo examina um curto período de trabalho de Sigmund Freud no qual se evidencia uma teoria abrangente sobre a memória. Pretendo colocar algumas elaborações freudianas desse período em diálogo com autores contemporâneos, pensadores do campo das teorias da memória e, desse modo, contribuir para precisar a contribuição freudiana aos estudos contemporâneos sobre a memória social, política e cultural.


Palavras-chave
psicanálise; teoria freudiana; memória; lembrança; esquecimento.


Autor(es)
Paulo Endo


Notas

1.Esse alerta foi emitido eloquentemente por Victor Klemperer (2006). Ele alertou em seus apontamentos sobre a linguagem do 3o Reich que a dominação começa sempre pela linguagem, sempre pelas palavras, porque é ela que forja subjetividades e inventa novas formas para praticar, cometer e ocultar ou banalizar violências. Lembramos ainda Gracilaso de la Vega (1598-1616), sobre o processo de colonização das américas pelos espanhóis destacando como primeiro ato o ato de incompreensão e transformação da língua nativa.

2.S. Felman, Education and crisis or the vicissitudes of teaching, in S. Felman; M. D. Dori Laub (orgs.) Testimony: crises of witnessing in literature, psychoanalysis and history.

3.Esse artigo é mais uma das elaborações que venho realizando sobre a literatura de testemunho e relatos de testemunhos da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) apoiado nas elaborações metapsicológicas sobre o sonho. O leitor poderá encontrar, na bibliografia deste artigo, outros artigos publicados no âmbito da mesma investigação (P. Endo, 2005, 2010, 2012, 2015, 2015a, 2016).

4.S. Freud. Proyecto de una psicologia para neurologos. In Obras Completas de Sigmund Freud, T.i. p. 214.

5.P. Ricoeur, A memória, a história, o esquecimento, p. 80.

6.A. Assman, Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural, p. 33.

7.A. Assman, op. cit., p. 34.

8.P. Ricoeur, op. cit., p. 81.

9.Tanto no sentido de um jamais lembrado, o ilembrável, presente na hipótese do recalcamento primário, quanto no sentido de contra a memória. Algo que anularia a própria memória enquanto tal. Aqui poderíamos propor como exemplo as experiências limites em que o sujeito se encontra em situação continuada de risco iminente de morte e na qual todos os seus recursos psíquicos se voltam para a sobrevivência, que passa então a ser a tarefa primeira do psiquismo: manter o organismo vivo. Remeto o leitor ao livro A violência no coração da cidade: um estudo psicanalítico, especialmente na segunda parte intitulada A violência no pensamento de Freud (Endo, 2005), onde desenvolvo extensamente essa hipótese.

10.    A ação dos mecanismos de defesa, como o recalque, impossibilita a lembrança, bem como o esquecimento. O ex-cadescere, cair para fora, presente na etimologia da palavra esquecer poderia receber outro prefixo, teríamos então in-cadescere, cair para dentro. Ou seja, algo que cai, como que solto (desligado), mas perdura como conteúdo psíquico inconsciente.

11.    M. Schneider, Afeto e linguagem nos primeiros escritos de Freud.

12.    S. Freud, Freud (1893-1895) - Estudos sobre a histeria. Obras completas, vol. 2.

13.    J. M. Masson (edit.), A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887-1904), p. 265-266.

14.    J. M. Masson (edit.), op. cit., p. 267.

15.    Remeto o leitor ao capítulo vii de A interpretação dos sonhos, no qual Freud apresenta a primeira teoria do aparelho psíquico. Ali vemos que a regressão a que Freud se refere não é apenas temporal, mas tópica. Tal como a experiência do sonho demonstra. O estado regressivo do sonho suspende o sujeito numa posição em que a percepção e a motilidade estão em estado de suspensão, mas são ambas emuladas no sonhar que, de certo modo, as suprime. Reconstituindo um estado psíquico extraordinário em que tudo pode acontecer sem que haja percepção e ação motora. O mundo é dispensado para que o mundo do sonhador desperte.

16.    Dori Laub, psicanalista, professor e um dos fundadores do Fortunoff Video Archive for Holocaust Testimony da Universidade de Yale, observa que logo após a libertação dos prisioneiros dos campos de concentração milhares de testemunhos escritos foram produzidos e mesmo gravados. Com o passar do tempo houve um declínio dessa produção que Laub atribui não ao fato da latência necessária para que fosse possível dizer, mas das possibilidades ainda inexistentes de escutar. (Laub and Hamburger, 2017, p. 9)

17.    P. Endo, "Partilha, testemunho e a insistência e a impermanência do dizer"; "Sonhar, o mal-sonhar e o sonambulismo no horizonte da experiência do desaparecimento forçado de pessoas no Brasil".

18.    P. Levi, É isto um homem?; Os afogados e os sobreviventes.

19.    P. Levi, É isto um homem?, p. 62.

20.    P. Levi, op. cit., p. 62.

21.    C. Beradt, em Revêr sous le IIIe Reich, demonstrou habilmente como o trabalho do sonho pode antecipar fatos, sentimentos e experiências antes que os acontecimentos flagrantes, catastróficos ou espetaculares tivessem lugar. Suas análises inspiradoras de 300 judeus vivendo na Alemanha em 1933 revelaram seu aspecto preditivo indicando as consequências possíveis de um estado nazista em estado de gênese, anos antes das catástrofes protagonizadas pelo sistema nazista que se espalharam por todo o mundo e, muito especialmente, pela Europa.

22.    P. Levi, op. cit., p. 60-61.

23.    P. Levi, op. cit., p. 91.

24.    Ver J. Derrida, Mal de arquivo: uma impressão freudiana.



Referências bibliográficas

Assman A. (2011). Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Trad. Paulo Soethe. Campinas: Editora da Unicamp.

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____. (2015a). Violence, Dream Work (Dreams' elaboration) and the testimonial horizon. In W. Owczarski; M. V. F. Cremasco, Solidarity, memory and identity. Newcastle: Cambridge Publishing Scholars.

____. (2016). Sonhar, o mal-sonhar e o sonambulismo no horizonte da experiência do desaparecimento forçado de pessoas no Brasil. Revista Literatura e Sociedade, n. 23, jul.-dez., p. 212-229.

Felman S. (1992). Education and crisis or the vicissitudes of teaching. In S. Felman; M. D. Dori Laub, (orgs.), Testimony: crises of witnessing in literature, psychoanalysis and history. Routledge: New York.

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Levi P. (1947/1988). É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco.

____. (1990). Os afogados e os sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Masson J. M. (edit.) (1986). A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887-1904). São Paulo: Imago.

Ricoeur P. (2007). A memória, a história, o esquecimento. Trad. Alain François. Campinas: Editora da Unicamp.

Schneider M. (1993). Afeto e linguagem nos primeiros escritos de Freud. São Paulo: Escuta.





Abstract
This article examines a period of work by Sigmund Freud in which a comprehensive theory about a memory is evinced. I intend to open the dialogue between some Freudian elaborations of the period with contemporary authors, thinkers of the field of memory theories and thus contribute to the search for a Freudian contribution to contemporary studies on a social, political and cultural memory.


Keywords
Keywords psicoanálisis; freudian theory; memory; remembrance; forgetfulness.

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 TEXTO

Freud, o inconsciente, a des-memória, a in-memória e os paradoxos do esquecimento, do sonho e do real de Auschwitz

Freud, the unconscious, the memorylessness, the un-memory and the paradoxes of oblivion, of dream and of the Real of Auschwitz
Paulo Endo

Colocar em pauta a questão da memória revela imediatamente um problema ético que assalta não apenas os registros conhecidos do que deve e pode ser lembrado e esquecido, como também tudo aquilo que jamais será esquecido porque nunca foi lembrado. Esses ficam como que de fora das questões da memória, não se assuntam, não se pode perscrutá-los.

Populações inteiras extintas que jamais serão encontradas; pessoas e vidas indigentes e não identificadas que pereceram em porões jamais alcançados pelas pesquisas e pelas mídias; outros que sumiram em prisões e valas comuns são, quando muito, representados por flâmulas genéricas de tais massacres, assassinatos e extermínios que, por sua vez, não poderão repor os traços da existência singular dos que desapareceram completamente nesses processos de erradicação.

Combatentes, vencidos, povos extintos, etnias apagadas são sucedâneos genéricos que revelam e ocultam diante da impossibilidade de relembrar e restaurar uma memória factível e singular que fora abortada por um acontecimento qualquer, que guiou cada um dos sujeitos e vidas até os umbrais da morte prematura e, não raro, efeito de catástrofes sociais e políticas. Cada uma deles dissolveu-se nos coletivos negros, indígenas, tutsis, guerrilheiros, judeus, comunistas, pobres, favelados, vândalos, criminosos, etc.

Por vezes, por eles e para eles, ergueram-se memoriais, monumentos, obras de arte, renderam-se homenagens, canções foram entoadas e rituais fúnebres a eles foram endereçados. Entretanto, há em tudo isso um aspecto que escamoteia e encerra compensatoriamente um impossível: a restituição singular de cada um dos milhões que foram assassinados. Suas histórias e nomes apagaram-se no momento de seus respectivos extermínios e não foram, nem serão mais encontrados.

Isso indica a medida do excesso que não pode ser reparado sempre que uma decisão de uso massivo da violência é deflagrado; aponta também para um limite problemático da memória a ser sempre interpelado com cautela.

É a isso que a psicanálise, sua teoria e sua clínica estão endereçados. À perpétua busca de um sujeito que fala e falando repõe sua posição de enunciante e de constituição, reposição, criação e invenção da linguagem, único lugar onde um sujeito se singulariza e existe. É nesse sentido preciso que a linguagem estaria nas antípodas da violência, podendo estar ao lado das violências de outras tantas maneiras[1].

O testemunho de si, do inconsciente que a situação psicanalítica repõe e que Shoshana Felma[2] viu como o próprio ato fundador da produção testemunhal, instala um sujeito que se reinventa pela linguagem após ter sido capturado e submetido por ela em sua forma discursiva, categorial e definitória. É em torno dessa possibilidade e impasse que uma teoria sobre a memória se ergue a partir da psicanálise, e é sobre ela que farei as considerações a seguir.

Serão observações breves, a serem complementadas com pesquisas vindouras, pois elas constituem parte de uma pesquisa mais extensa que hoje se debruça sobre a elaboração onírica ante as experiências de aniquilamento[3].

Aqui procurarei considerar o percurso de quatro anos entre o primeiro texto de Freud por ele renegado - O Projeto de uma psicologia para neurólogos, escrito em 1895, mas só publicado em 1950, após sua morte - que é também o primeiro e último a tentar a aproximação entre a psicologia e a neurologia - até o texto A interpretação dos Sonhos, terminado em 1899 mas só publicado em 1900. O primeiro, um texto que Freud quis apagar de sua obra e o outro que ele desejou ressaltar, atrasando em um ano sua publicação, para que se tornasse um dos textos mais importantes do novecentos. Nesse interjogo dos textos freudianos, o desejo de evidenciar e ocultar também é revelador dos traços da obra.

O segundo tempo deste artigo pretende iniciar uma interpretação, inspirada pela psicanálise, de sonhos oriundos de experiências liminares nas quais os campos de concentração e os porões de regimes ditatoriais fazem existir; nos deteremos mais especificamente no atravessamento da elaboração onírica na obra de Primo Levi.

Freud e a memória

A hipótese do inconsciente como um lugar (topos) ou um lugar terceiro, entre (in between), estrangeiro, excluído (a-topos) do ponto de vista da razão, da consciência e da memória evocativa, entendida como o que se move nas dinâmicas entre o lembrar e o esquecer, é uma contribuição decisiva da psicanálise aos estudos sobre a memória.

Primeiro porque na trajetória de seu pensamento Freud inclui fendas, buracos, solavancos enormes nessa passagem, além e aquém das dinâmicas entre o lembrar e o esquecer e, depois, porque sem fazer disso um campo de batalha decisivo, Freud propõe outra teoria sobre a memória instalada sobre os processos e dinâmicas inconscientes que a determinam. Processos que têm como origem e destino a constituição do psiquismo pautado pela sexualidade.

Esses processos, para Freud, dependiam da compreensão de mecanismos presentes na constituição do próprio psiquismo enquanto tal, a partir de menções, analogias e aproximações com a neurologia, cuja heurística foi escrita em 1895 com o texto Projeto para uma psicologia para neurólogos. Texto, como observado anteriormente, posteriormente abandonado por Freud e somente publicado em 1950, após sua morte.

Nesse texto Freud se esmera na construção de uma teoria neurológica plausível que incorporaria suas próprias descobertas, hipóteses e suposições sobre um aparelho de memória. Freud diz:

[...] uma das características do tecido nervoso é a memória, quer dizer, em termos gerais, a capacidade de ser permanentemente modificado por processos únicos, característica que contrasta tão notavelmente com a conduta de uma matéria que deixa passar um movimento ondulatório, para retornar logo a seu estado prévio. Toda teoria psicológica digna de alguma consideração haverá de oferecer uma explicação sobre a "memória".[4]

Nesse trecho extraído das páginas iniciais do ‘Projeto' Freud evidencia, de um lado, sua ambição em localizar fisicamente, na córtex cerebral e nas ligações neuronais, as funções e os processos neuropsíquicos em geral que ele pretende descrever e explicar, mas também o trabalho da memória em particular; de outro indica o empreendimento de toda a psicanálise até então não nascida: a que se esmeraria na compreensão das transformações permanentes sofridas pelo psiquismo a partir das marcas nele impressas que, mais adiante, na primeira teoria do aparelho psíquico apresentada em 1900, no texto A interpretação dos sonhos, Freud denominará de marcas mnêmicas.

Assim Freud primeiro examina, explica e discrimina o exame dos processos envolvendo o lembrar e o esquecer, utilizando-se para isso de uma visão muito própria dos processos neurológicos que a envolvem e a determinam para, depois, ater-se aos inúmeros matizes no vasto campo da memória, que ele amplia e sucessivamente redefine ao longo de sua obra.

Podemos dizer genericamente que, para a psicanálise desde Freud, interessam as dinâmicas do des-lembrar (o percebido consciente que foi esquecido); do mal-lembrar (do que não pode ser inteiramente lembrado a não ser pela via de sinais, indícios e pistas: os sintomas); do lembrar-encobrindo (daquilo que se lembra precisamente para que não seja possível a lembrança, tornada difícil e dolorosa), que se exibem na clínica psicanalítica cotidiana.

Os sintomas seriam a demonstração de um lugar terceiro da memória, um lugar outro, que se instala fora das dinâmicas inerentes ao lembrar e ao esquecer. Revelam também uma tentativa de equilíbrio inercial, pois buscam um outro equilíbrio. Ou seja, podem perdurar durante toda a vida do sujeito se não forem psiquicamente interpelados, aturdidos e perturbados. Tarefa que a clínica psicanalítica tomará para si.

Os sintomas neuróticos - o corpo cativo da histérica pelo olhar de outrem e, ao mesmo tempo, distante do gozo com outrem; a ideação aflitiva do obsessivo e a angústia como instalação de um corpo impossível de prazer na neurose de angústia - revelariam que um trabalho inconsciente se põe em marcha produzindo efeitos que condenam o sujeito ao não esquecimento e, ao mesmo tempo, o impedem de lembrar.

Dito de outro modo, são conteúdos que perduram como des-memória - um corpo e um psiquismo (desmemoriado) que compulsiva e dolorosamente alienam-se da consciência, dos pensamentos e ações voluntários e passam a frequentar, repetidamente, caminhos conhecidos não sabidos e irreconhecíveis (Unheimliche). Um afeto desligado indica contudo que algo aconteceu, mas impede que se realize psiquicamente a apropriação subjetiva desse acontecido.

Conteúdos baldios, atemporais e sem rumo, como que se esgotando em seu próprio movimento de perpetuação repetitivo, vagam em sua impossibilidade e mortificação. Energia, pulsão psiquicamente desligada que se aliena no corpo para ali manter-se aprisionada, drenando energia psíquica na mobilização dos mecanismos de defesa psíquicos mantenedores da neurose.

Assim, no trabalho clínico, Freud depara com a seguinte constatação: o sintoma do neurótico não é um efeito de uma experiência realmente vivida e não lembrada, mas de um desejo combatido, interpelado pelo próprio psiquismo do sujeito que, primeiro, cinde o desejo da possibilidade do ato em direção ao suposto objeto desse desejo e, depois, o irrealiza como fantasia proibida.

Sendo um dos propósitos da fantasia adiar ou impedir a passagem ao ato, testemunhamos na histeria os estertores desse adiamento e impossibilidade em que um corpo, repleto de dores e espetáculos, se mortifica no imenso trabalho de exibir para ocultar. Porém, a fantasia não vela o desejo, mesmo que para isso recaia sobre ela o recalque e, como seu corolário, o sintoma. O sintoma exibe, portanto, o desejo convertido em limbo. Nesse sentido o corpo cativo da histérica e do histérico seriam exemplares desse sofrimento e dessa suspensão de um prazer do qual nunca se sabe.

Mas qual é o tempo das fantasias senão o tempo do desejo que demarca a distância entre querer e ter? O tempo que a pulsão sexual trilha e marca na mesma - ou oposta - direção de seus objetos. Para se aproximar de seus objetos ou para repeli-los, evitá-los, mantê-los à distância. Um tempo que se incumbe de presentificar o que não existe e também negar, adiar, postergar o ato e alargar a distância entre pulsão e objeto, entre desejo e ato. É portanto um tempo-espaço interpelado pela realidade que induz e exige trabalho psíquico. Tais preocupações fundam a própria psicanálise, pelo menos desde 1895, e consistem na constituição de matizes que Freud introduz nos estudos sobre a memória, concomitantemente ao nascimento da própria psicanálise. Freud estava então no âmbito, ou muito próximo, do que Ricoeur distinguiu como memorização e recordação[5] e mesmo de Aleida Assman quando retomou a distinção conceitual entre memória e recordação[6].

Lembrando Junger, Assman relembra a equiparação de memória com coisas pensadas, ou seja, conhecimentos, e associou por sua vez a recordação com experiências pessoais. Cito:

A memorização procede basicamente de forma reconstrutiva: sempre começa do presente e avança inevitavelmente para um deslocamento, uma deformação, uma distorção, uma revaloracão e uma renovação do que foi lembrado até o momento da sua recuperação. Assim, nesse intervalo de latência, a lembrança não está guardada num repositório seguro e sim sujeita a um processo de transformação. A palavra "potência" indica, nesse caso, que a memória não deve ser compreendida como um recipiente protetor, mas como uma força imanente, como uma energia com leis próprias. Essa energia pode dificultar a recuperação da informação - como no caso do esquecimento - ou bloqueá-la - como no caso da repressão. Porém ela também pode ser controlada pela inteligência, pela vontade ou por uma nova situação de necessidade, e proporcionar uma nova disposição de lembranças. O ato do armazenamento acontece contra o tempo e o esquecimento, cujos efeitos são superados com a ajuda de certas técnicas. O ato da recordação, por sua vez, acontece dentro do tempo, que participa ativamente do processo. No que diz respeito à psicomotricidade da recordação, esquecimento e recordação estão indissociavelmente intrincados. Um é possibilitador do outro. Podemos também dizer: o esquecimento é oponente do armazenamento, mas cúmplice da recordação.[7]

E Ricoeur referindo-se à obra de Frances Yates, ars memoriae:

Ademais, dessa recusa do esquecimento e do ser afetado resulta a preeminência concedida à memorização à custa da recordação. A valorização das imagens e dos lugares pela ars memoriae tem como preço a negligência do acontecimento que espanta e surpreende.[8]

No caso da recordação, o esquecimento revelaria não o polo oposto, demérito e falha da memória, mas um fenômeno constitutivo que revela, em tudo aquilo que se recorda, algo que se esquece, e que os assim chamados ‘efeitos visíveis do recordado' são, desde sempre, reveladores do que foi temporária ou definitivamente esquecido.

No lembrado/esquecido há sempre um deixar lembrar, deixar esquecer para que nesses intervalos se possa imaginar, ficcionalizar e inventar os liames de continuidade do perdido. Mas no esforço freudiano teórico-empírico, consagrado aos fenômenos da memória, revelam-se não apenas as elaborações técnicas apropriadas de memorização, como também as de recordação.

A constatação de que, em termos clínicos e durante o tratamento, lembrar não é tudo ou nem é o mais importante teve de experimentar transformações decisivas nos trabalhos de Freud desde o período pré-psicanalítico e depois.

O neurótico sofrer de reminiscências aludiria ao mesmo tempo a algo que persiste mal lembrado, mas também ao que é lembrado de modo a provocar contínuo sofrimento psíquico. É justamente o fracasso do esquecimento absoluto que perpetua o impossível de lembrar (o ilembrável, a in-memória)[9] e o impossível de esquecer (in-quecer)[10], efeito do trabalho psíquico que imobiliza o psiquismo enquanto repetição. A repetição como ato (acting out) seria, portanto, o que mantém cativo o corpo do sujeito enquanto um trabalho psíquico não se realiza. A compulsão que revela uma insistência e fracasso mil vezes revelado de modo oblíquo e obscuro.

A primeira clínica de Freud, que conhecemos como pré-psicanalítica, ao mesmo tempo anterior e fundante da psicanálise, pensava o esquecimento como um limbo da memória, cuja inscrição seria não consciente e que poderia ser reencontrada a partir de técnicas de busca apropriadas: resgatar do esquecido para o lembrado. Portanto, um olhar e uma crença bastante tradicionais e médico-neurológicas sobre o trabalho da memória.

Como neurologista, para Freud, a memória ainda figurava em seus trabalhos e em sua clínica como um armazenamento de conteúdos, experiências, percepções e sensações potencialmente evocáveis. As primeiras reflexões e experiências freudianas, ao menos até 1899, deixavam praticamente intocada a ideia da memória definida nas dinâmicas entre o lembrar e o esquecer; o evocável e o não evocável. A descrença para com suas neuróticas não revelaria que a paciente mente, mas que porta uma verdade outra para a qual ainda não havia se constituído escuta.

Freud trabalhava no campo da memorização, distante dos fenômenos da recordação, para ele, ainda invisíveis. O trabalho, a técnica da hipnose nas mãos de Freud evidenciaram esses impasse de modo flagrante. Freud adotava obsessivamente a hipnose em seus primeiros casos, buscava na crença na memorização sua salvaguarda, ao mesmo tempo que insistia no caráter expulsivo do conteúdo tóxico.

Monique Schneider[11] esclarece essa matriz biológica e médica presente nas crenças de Freud que circundavam a hipnose, e que residiam no modelo que preconiza a expulsão, a retirada cirúrgica do agente patogênico. Lembrar e dizer o lembrado significava, portanto, uma operação que reestabelecia entre a justa representação e o afeto a restauração de um elo que, por sua vez, reconstituía a lembrança tornada, a partir de então, palavra, ex-pressão conduzindo o conteúdo expelido "para fora" do psiquismo.

A técnica da hipnose revelaria esse mesmo aspecto, porém redobrado em convicção. Existiria um fulcro, um ponto zero da memória que se revelaria num conteúdo finalmente encontrado e não imediatamente evocável. A técnica da hipnose faria o hipnotizado revelar, finalmente, o que lhe provocava sofrimento psíquico e as palavras seriam os veículos da manifestação dos afetos, que acompanhavam tal lembrança, ab-reagindo-os. Expulsar, extirpar, remover, pôr para fora o excesso não digerível, desembuchar, expectorar o conteúdo perturbador para enfim dar início à convalescença. Limpeza de chaminé (chimney swepping) como assim batizou a célebre primeira paciente da psicanálise Bertha Pappenheim (Anna O.).

O sentido e o entendimento dos processos de memória estavam, nesse caso, inteiramente ligados ao paradigma do tempo linear e do caráter evocativo da memória. Era preciso chamá-la, acordá-la, despertá-la para depois expulsá-la, colocá-la para fora, excrementá-la. Residia aí também a vocação da técnica da hipnose. Técnica de perscrutação capaz de encontrar a lembrança, ou o conjunto de lembranças patogênicas, e extirpá-las. Técnica de captura mnemônica, persistência da evocação e trabalho de investigação comandado por um especialista e mestre hipnotizador.

Contudo de que se lembra a histérica após o choque e o trauma sexual? Como se lembra? Por que adoece? Em que o prazer na neurose obsessiva se translada para pensamentos e atos repetitivos ilegíveis? Freud já trabalhava na determinação sexual do recalcamento desde ‘O Projeto'. Ali, na descrição do mecanismo que mutila, altera, transforma o conteúdo da lembrança, o tratamento psicanalítico poderá encontrar um princípio, cuja verdade íntima repousa num desejo que o próprio sujeito, de certo modo, ignora.

A reconhecida carta de Freud a Fliess de 21 de setembro de 1897 condensa uma série imensa de pontos de chegada e partida do pensamento de Freud. Do ponto de vista do que é lembrado, fica evidente que tudo o que é lembrado, durante o tratamento, pode e deve encontrar um novo horizonte de escuta, impossível para Freud até então. Tratar-se-ia de escutar a verdade inconsciente do paciente; da memória não como memorização, mas como recordação, testemunho e verdade de si, algo como uma pós-memória.

Ainda ouvimos o alerta de Emmy: "Fique quieto - não diga nada - não me toque"[12]. Impressionantemente retomado e inscrito no que mais tarde o tratamento psicanalítico assimilará como o negativo da posição e da escuta do analista, a neutralidade clínica e a abolição do ato (e do corpo) na posição deitada sugerida pelo divã. Uma escuta que, enfim, se convertesse no difícil ofício de ouvir.

O assolamento do mundo pelos pais perversos, "sem excluir o meu", dirá Freud, revelou o quão longe pode chegar uma fantasia teórica em nome da resistência à mudança de paradigma exigida por um modo inteiramente novo na compreensão, tratamento e escuta do sofrimento psíquico.

Daí Freud trabalha para constatar que "[...]não se pode distinguir entre a verdade da ficção que foram catexizadas pelo afeto"[13]. Há em tudo o que se recorda uma ficção que recorta e instrui.

A sexualidade se organiza de modo a construir, inventar e navegar entre ficções sem o solo firme das verdades unívocas nas quais o jovem neurologista Freud aprendeu a acreditar. A ciência psicanalítica rumaria para o mais ignorado dos fenômenos estudados pela ciência médica: os sonhos. Lá onde tudo é verdadeiro e tudo é falso; tudo aconteceu e nada aconteceu; tudo é lembrado e tudo é esquecido. Como escreve ao final da carta de setembro de 1897:

Tenho que acrescentar mais uma coisa. Neste colapso de tudo o que é valioso, apenas o psicológico permaneceu inalterado. O livro sobre o sonho continua inteiramente seguro e meus primórdios do trabalho metapsicológico só fizeram crescer em meu apreço. É uma pena que não se possa ganhar a vida, com a interpretação dos sonhos![14]

Os sonhos são sempre ou esquecidos ou mal lembrados. Trechos, detalhes, sentimentos ou afetos são retidos enquanto perdura a sensação de que outros tantos são perdidos; aqueles que poderiam reservar a inteireza, a completude e a explicação última dos sonhos, jamais alcançadas. Sua pretensa reconstituição, portanto, é sempre problemática e imperfeita. Serão precisamente dessas imperfeições dos sonhos que se falará ou se silenciará em análise. O que o material onírico oferece é a latência dos vazios.

Aceitando suas supostas imperfeições, como a plenitude de suas realizações, a psicanálise encaminha, à escuta desfeita das obrigações da memorização, a construção notável dos princípios ocultos que regem verdades definidoras do sujeito. É a própria criação que ocorre no sonhar. Um sujeito que recria seu próprio itinerário a partir de pistas aparentemente aleatórias e impossíveis de seguir.

Os sonhos rejeitam, todas as noites, a lógica linear e factual, as verdades últimas, definitivas e inexoráveis e as posições de consenso e de ordem. Os sonhos jogam com as certezas como cartas num baralho. Nos sonhos está a verdade singular, arranjada e rearranjada, enquanto se revela e se oculta o lembrado, para sempre mantido esquecido e o esquecido jamais inteiramente lembrado. No sonho não há o que buscar, o que ele revela é o que eventualmente poderá ser criado a partir dos traços que ele expõe, mas esses traços já são efeito de elaboração psíquica e onírica, de modo que a pureza do fato lembrado jamais poderá ser encontrada psiquicamente falando.

Entre a multiplicidade de formas fragmentárias, indefinidas e obtusas os sonhos instauram a criação psíquica e seu laço com a alteridade (transferência) que inauguram uma escuta possível, ela mesma desordenada, donde se constitui uma outra cena na qual, todavia, o sujeito se inscreve para além de toda ordem e de todo lembrado. Uma desordem na qual o sentido ultrapassa todos os outros indícios, e possibilita ligações impossíveis a partir da interpretação, revelada pelo encontro entre a fala possível do analisando e a escuta possível do analista que, por sua vez, se inscrevem no par analítico como tensão, criação e enunciação, perturbando, na experiência do sonho, a inércia da profusão perceptiva e do silenciamento[15].

A função das marcas mnêmicas é constituir o próprio psiquismo enquanto tal, como um acervo de memórias que continuamente se refazem e se organizam em função da intensidade dessas marcas, ordenadas e desordenadas pelas pulsões que a elas se ligam ou que delas são drasticamente desligadas, como provavelmente ocorre na gênese do trauma psíquico.

O sonho reservaria um lugar potencial de repouso dessas tensões, uma vez estando atenuados tanto o imenso manancial de percepções oriundas do mundo, quanto o agir e a motilidade como possíveis respostas a essas impressões. O sono procuraria resguardar o sujeito da inerência das tensões impostas entre o desejo e o mundo, ao mesmo tempo que realizaria um trabalho que livra o desejo de seus objetos possíveis para reapresentá-los psiquicamente, recriados a partir das marcas impressas no circuito pulsional redinamizado durante o sonho. Situação em que muitas peças voltam a ficar soltas para se reagrupar sem as exigências das sobredeterminações mundanas que, nesse momento, repousam à espera do despertar.

O sonho, a elaboração onírica, traçam um ponto culminante e pródigo nos estudos sobre a memória ao revelarem as invenções do desejo entre e além da lembrança e do esquecimento. Assunto que será sucessivamente retomado no pensamento de Freud e levado ao seu limite quando, uma vez mais, Freud retornar aos sonhos traumáticos e aos territórios nômades nos quais nada foi esquecido porque nada pode ser lembrado. Uma latência de 20 anos nos permite ver, na obra de Freud, as exigências do tempo da escuta do traumático[16].

Sonhos de Auschwitz

É conhecido o papel importante que os sonhos ocupam na obra de Primo Levi. Em ocasiões distintas apresentei alguns aspectos notáveis desses sonhos conhecidos lendo-os ao lado de sonhos de ex-prisioneiros da ditadura civil-militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985[17].

Quando examinamos a obra testemunhal e a escrita de Primo Levi[18] e suas reflexões sobre os sonhos de Auschwitz, encontramos pistas importantes sobre o papel que a criação, a invenção e o trabalho psíquico, que ocorrem como elaboração onírica, exercem diante das experiências liminares em que a ameaça à vida é corriqueira e o defrontar-se com a violência, extremo.

Podemos compreender o interesse de Primo Levi pelos sonhos, em parte, devido à sua convicção de que devemos e podemos compreender as atrocidades a partir das experiências singulares que demarcam e confrontam as situações de massificação deflagradas nos campos, cujo corolário é o assassinato em massa e a resoluta decisão de exterminar comunidades, grupos e povos inteiros.

Nesse ponto extremo Primo Levi sempre insistiu em apontar para os sujeitos, suas particularidades, suas individualidades. Recusou definições mais ou menos genéricas sobre vítimas e algozes e não se prontificou a produzir uma literatura que se resumisse a descrever atrocidades, para ele, já bastante conhecidas até a publicação de seu primeiro livro É isso um homem? em 1947.

É nesse aspecto que o sonho, no seu duplo sentido, é uma peça enriquecedora na literatura do autor. Tanto como capacidade de sonhar o futuro, o além da morte e do extermínio quanto como expressões, narrativas e produções oníricas durante e após o sono, que seriam capazes de dizer algo mais sobre tantas almas absortas no vórtice de sua própria mortificação.

Acrescentaria ainda que o apreço de Levi pelo pensamento, mesmo nas situações em que se duvida da humanidade do homem, é também importante na relevância que ele confere aos sonhos e, nesse sentido, ele se aproximaria de Freud em sua compreensão de que um sonho é efeito de um trabalho onírico, de um trabalho psíquico, também ele, pensamento. Pensamento inconsciente que revela uma lógica diferida, profunda e que pode ser escutada, revelada e explicada, como se dedicou Freud a fazê-lo durante toda a vida. Alteridade da outra cena que, no sonhar, revela o si mesmo como outro.

Nesse ponto, mesmo sendo ambos homens formados nas ciências positivas, Primo Levi em química e Freud em medicina, foi no anverso das ciências biológicas que ambos puderam revelar aspectos fundamentais do trabalho do sonho. Primo Levi com a literatura e Freud com a psicanálise.

Nos sonhos descritos por Primo Levi predominam os sonhos traumáticos, sonhos de derrocada, para ele, pesadelos. Eles acompanham e perturbam o sono tranquilo e revelam que, mesmo durante o sono, o prisioneiro não encontra guarida e que o horror dos campos devassa as fronteiras entre a vigília e a experiência onírica. Para Levi, não há vida fora dos campos, mesmo durante a noite, mesmo enquanto se dorme. É como ele os descreve:

O sonho de Tântalo e o sonho de narração inserem-se num contexto de imagens mais confusas: o sofrimento do dia, feito de fome, pancadas, frio, cansaço, medo e promiscuidade, transforma-se à noite, em pesadelos disformes de inaudita violência, como, na vida livre, só acontecem nas noites de febre. Despertamos a cada instantes, paralisados pelo terror, num estremecimento de todos os membros, sob a impressão de uma ordem berrada por uma voz furiosa, numa língua incompreensível.[19]

E ainda:

Quando o pesadelo mesmo, ou o incômodo nos despertam, tentamos em vão decifrar seus elementos, rechaçá-los um por um fora da nossa percepção atual, para defender nosso sono de sua intromissão, mas, logo que fechamos os olhos, percebemos novamente que o cérebro recomeçou a trabalhar, independente de nossa vontade; zune e martela, sem descanso, constrói fantasmas e signos terríveis, sem parar os traça, os agita numa névoa cinzenta na tela dos sonhos.[20]

Essa natureza destrutiva dos sonhos, como pesadelos (sonhos traumáticos), entretanto, não é exclusiva nas situações extremas de violência e crueldade a que se encontra submetido o sonhador. Poderíamos discutir, mesmo nos pesadelos descritos por Primo Levi, o trabalho da elaboração onírica em busca da restauração de um estado anterior remetido às experiências longe do Lager, ao mesmo tempo que sua construção é invadida destrutivamente pelas experiências de desgraça nos campos que nem o sonho é capaz de debelar[21].

Mesmo nas mensagens precárias que Primo Levi[22] ressalta nos pesadelos sobre a restauração da experiência do estar em casa, entre a família e os amigos, comendo um pedaço de pão, para depois tudo ser devastado pelo sentimento de privação e precariedade poderíamos indagar se, mesmo aí, não se revelam as sucessivas tentativas do trabalho do sonho, de restituir alguma informação, mil vezes perdida, sobre uma história, uma experiência e algum indício sobre elementos identitários que o psiquismo procura restaurar, mas que são cotidianamente desfigurados nos campos, onde todos estão irreconhecíveis entre si e para si e onde não há espelhos.

Nos dois tempos da reflexão freudiana sobre os sonhos, o primeiro apresentado em 1900 com o texto A interpretação dos sonhos e o segundo em 1920 em Mais além do princípio do prazer, Freud efetua uma passagem entre as funções do trabalho do sonho. Do sonho como realização de desejo, portanto, como restituidor de um prazer pulsional alucinado, para o sonho como mera repetição perceptiva na qual o princípio do prazer foi colocado de lado e que, portanto, repete o intolerável infinitamente, alojando o psiquismo em penúria e imobilidade. Essa passagem em Freud é confirmada por Primo Levi, mas também desconfirmada.

Nos pesadelos de Levi, a promessa do prazer é anunciada e aguardada (o pedaço de pão, o estar entre familiares e amigos, o voltar ao lar...) para depois ser desfeito. A intensidade desse desejo se manifesta da mesma maneira como a destruição desse mesmo desejo. Não poderia o sonho querer revelar, precisamente, o que está sendo perdido para emular o que não foi completamente destruído e sobrevive como experiência lembrável, ficcionalizável e, assim, como experiência que ainda pode ser revivida, ainda que brevemente, mas perenemente, nos sonhos?

Não poderíamos incluir isso na imagem dos afogados que Levi atribuiu aos muslims (muçulmanos), aqueles que chegaram a tal grau de submissão que até seu absoluto e incondicional submetimento tornara-se indiferente aos seus algozes? Aqueles que se renderam aos crematórios e viam as cinzas como seu único e inexorável destino? Não apenas aqueles em cujo olhar, em cujo rosto não se possa ver o ‘menor pensamento'[23], mas também um único sonho?

Do mesmo modo é possível, também, notar hiâncias e intervalos no trabalho teórico e clínico de Freud e seus seguidores que só o testemunho, oral ou escrito, viria a esclarecer, particularmente no que se refere aos sonhos traumáticos, ou se quisermos, sonhos de prisão, sonhos concentracionários.

No que se denominou de sonhos traumáticos haveria o longo caminho de pesquisar os matizes, as formações e experiências diversas possibilitadas pelos sonhos de prisão, sonhos de sobreviventes e vítimas que se elaboram psiquicamente no seio de experiências de ódio, destruição e ruína. Eles não se esgotam em sonhos de realização de desejos e nem em sonhos-pesadelos nos quais o prazer foi inteiramente abolido e tornou-se psiquicamente impossível.

As investigações sobre esse fenômeno dependem da importância dada ao sonhador e a voz noturna que, com ele, atravessa e persiste entre as frestas abertas na total escuridão. A riqueza dessas experiências só nos é acessível hoje a partir da produção testemunhal, da literatura de testemunho e dos arquivos sucessivamente criados que ensejam e indicam que a temporalidade perdida do trauma é acolhida na elaboração onírica, porque nela o tempo sequestrado da experiência traumática não impossibilita o devir da narrativa, nem de um sujeito que, onde quer que esteja e de onde quer que parta, suscita linguagem.

É sobre a gênese da linguagem que um sonho se elabora e é como mal de arquivo[24] que ele também tanto existe quanto padece.



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