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Resumo
Neste artigo apresentaremos os desafios do trabalho psicanalítico com migrantes realizado pelo Projeto Ponte na Clínica do Instituto Sedes Sapientiae. Aposta-se na potência do grupo e no interjogo entre línguas maternas e as tentativas de falar a partir da língua do país de destino. O analista assume também um lugar de estrangeiro ao escolher o idioma português como estratégia clínica para favorecer o trabalho de elaboração das heranças psíquicas da colonização.


Palavras-chave
clínica psicanalítica com migrantes; atendimento grupal; colonização; globalização; língua materna e estrangeira; subjetivação da diferença.


Autor(es)
Caroline Yu Yu

é psicóloga formada pela pucsp, aprimoranda do curso de Terapia Psicanalítica/Familiar e Casal do Instituto Sedes Sapientiae.



Cláudia Sagula Sagula
é psicanalista, graduada em Psicologia e Pedagogia, Pós-graduação em Psicopedagogia.


Heloisa Silva Silva

é mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento pela usp. Graduada em Psicologia pela mesma instituição.



Lisette Weissmann
é psicanalista, formada em psicologia e línguas, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Participante convidada do grupo Psicopatologia e Contemporaneidade do Departamento de Psicanálise do InstitutoSedes Sapientiae. Professora no CEFAS Campinas, Supervisora de AUDEPP (Asociación Uruguaya de Psicoterapia Psicoanalítica) e membro fundador de AUPCV (Asociación Uruguaya de las Configuraciones Vinculares).

Pablo Castanho Castanho
é professor doutor do Departamento de Psicologia Clínica do ipusp, membro do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares (nesme), Membro da International Association for Group Psychotherapy and Group Processes (iagp) e Membro da Réseau Groupe et Lien Intersubjectif (fundada pela Université Lumière Lyon 2).


Notas

1.B. Sousa Santos, A Globalização e as ciências sociais, p. 11.

2.L. Weissmann, Interculturalidade e vínculos familiares: uma intervenção psicossocial, p. 45-46.

3.M. D. Rosa, A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento, p. 51.

4.Aqui nos remetemos também ao texto freudiano Luto e melancolia.

5.A supervisão vem sendo realizada pelo prof. Dr. Pablo Castanho como uma das atividades de extensão do Grupo de Estudos "Clínica de Grupos e Instituições na abordagem Psicanalítica" (cligiap) do cnpq/usp.

6.R. Kaës, Um singular plural: a psicanálise à prova do grupo.

7.E. Pichon-Rivière, El proceso grupal: del psicoanálisis a la psicología social.

8.S. H. Foulkes, Introduction to group analytic psychotherapy.

9.Não estamos nos referindo ao conceito de real e simbólico de Lacan, mas à acepção da palavra na língua portuguesa.

10.    M. Viñar, "O reconhecimento do próximo. Notas para pensar o ódio ao estrangeiro", in C. Koltai (org.), O estrangeiro, p. 175.



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Abstract
In this article we present the challenges of the psychoanalytic work with migrants carried out by the Ponte Project at the Sedes Sapientiae Institute. It is based on the power of the group and the interaction between the mother tongue and the attempts to speak the language of the destination country. The analyst also assumes a place of foreigner when choosing the Portuguese language as a clinical strategy to favor the work of elaborating the psychic inheritance of colonization.


Keywords
psychoanalytic clinic with migrants; group attendance; colonization; globalization; mother tongue and foreign language; subjectivation of the difference.

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 TEXTO

A clínica com migrantes no projeto Ponte: a opção pela língua portuguesa e a análise das heranças psíquicas da colonização

Clinical work with migrants in the Ponte Project: the choice for Portuguese language and the analysis of The psychic marks of colonization
Caroline Yu Yu
Cláudia Sagula Sagula
Heloisa Silva Silva
Lisette Weissmann
Pablo Castanho Castanho

O presente artigo tem como objetivo apresentar e discutir os desafios clínicos do trabalho psicanalítico com migrantes, construídos pelo Projeto Ponte na Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae, que tem como particularidade a adoção da língua portuguesa como idioma nos grupos terapêuticos.

O trabalho clínico com este outro migrante duplamente estranho - estranho constitutivo e estrangeiro real[1] - torna necessário criar, propor e rever paradigmas e conceitos familiares instituídos pela metapsicologia freudiana.

Acreditamos que exista uma certa especificidade nesta clínica da migração, não no sentido de uma "especialização" do manejo clínico, mas na forma de contornar e suportar um não saber, um incessante repensar sobre a relação entre clínica, psicanálise e política nas suas articulações, desencontros e interrogações.

No atendimento a migrantes privilegiamos o trabalho em grupos terapêuticos apostando, assim, na potência do grupo, nas relações entre seus membros e não somente entre analista e analisando, na pluralidade de transferências, no interjogo entre a Babel de línguas que as origens nacionais representam e as tentativas de falar a partir da língua do país de destino que os sotaques e os lapsos revelam. Escutar sujeitos advindos de outros países, de culturas, por vezes, não ocidentais, que falam línguas diferentes e/ou desconhecidas por nós é um desafio que encanta e espanta. Frente a esta especificidade clínica adotamos o português como língua oficial e também como uma estratégia clínica a fim de favorecer o manejo das heranças psíquicas da colonização.

Observa-se que a problemática da colonização gerou importantes diálogos com a psicanálise, notadamente através de Frantz Fanon[2] e Albert Memm[3]. No que pese a importância fundamental destes autores nos estudos pós-coloniais e sobre relações étnico raciais, tais trabalhos conheceram poucos desenvolvimentos posteriores no campo específico da psicanálise. A noção de "heranças psíquicas da colonização", em desenvolvimento por um dos autores deste texto em anos recentes[4], busca resgatar este debate no âmbito das teorias psicanalíticas de grupo. No diálogo com autores de campos vizinhos como a psicologia social de Martin-Baró[5], a sociologia de Jessé Souza[6], e a pedagogia de Paulo Freire, sublinha-se a importância e centralidade da transmissão através da permanência da lógica do "exagero do poder"[7] nas instituições dos países com passado na colonização de exploração. A herança psíquica, neste contexto, põe em foco os efeitos da socialização primária e secundária nestas instituições. Neste campo, a metapsicologia que vem sendo desenvolvida para entendimento da transmissão psíquica em psicanálise, com conceitos como cripta e assombração[8] ou a discussão sobre a problemática da positividade e negatividade na transmissão[9] não ficam ausentes, mas possuem um papel secundário em relação aos efeitos atuais de subjugação e violência excessiva das instituições sociais em questão. Como tudo aquilo que permanece insuficientemente simbolizado e em sofrimento no psiquismo, há uma tendência a ser exteriorizado na forma de transferência[10]. Trabalhamos com a hipótese de que o retorno transferencial destas questões seja particularmente importante no processo migratório e se atualize com frequência e facilidade em grupos com pessoas de diferentes origens geográficas.

Globalização, migrações e interculturalidade

A riqueza da clínica é justamente estarmos atentos às mudanças que a contemporaneidade cria e impõe, fazendo com que nós psicanalistas repensemos nossa clínica e nosso estilo de escutar o sofrimento humano. O cenário da globalização vem provocando efeitos nas relações intersubjetivas e entre as nações, nas formas de organização e de convivência que precisam ser estudadas e analisadas. A Psicanálise pode oferecer sua escuta, ao constatar a existência de discursos contraditórios que apontam para a possibilidade imaginária de um "mundo sem fronteiras" e as radicais situações de exclusão em que os chamados "países periféricos" vivem.

Nesse sentido, nos alinhando à compreensão do sociólogo Sousa Santos afirmamos a globalização como um processo complexo que incrementa as desigualdades sociais, as migrações e novas práticas culturais e identitárias[11].

O fenômeno migratório tem causas multifatoriais que apontam para movimentos complexos do capitalismo tardio e que tem suas raízes no passado-recente da colonização. Para nós cidadãos americanos, a colonização implica exploração e extermínio de milhares de grupos indígenas de diferentes etnias e também a escravidão de diversos povos de países africanos por séculos. Como consequência desse processo temos os movimentos emancipatórios do nosso continente americano em relação ao continente europeu, especialmente ao longo do século XlX. Mais além, quando pensamos em colonização, consideramos especialmente a crueldade com que as potências europeias esfacelaram o continente africano e o Oriente Médio, o que continua produzindo efeitos devastadores, guerras e migrações na vida das pessoas e das nações.

Este longo processo colonizador imprimiu marcas que apontam para a ideia de binômios excludentes, tais como: dominador-dominado, superior-inferior, explorador-explorado, riqueza-pobreza, sujeito-objeto, espoliação-sustentabilidade, etc.; ou seja, remetem à impossibilidade de movimentação e de que estas categorias fixas e cristalizadas sejam questionadas ou convivam sem violência e exclusão. Trata-se do apagamento do outro como sujeito de direitos e do desejo, das suas insígnias na diversidade de línguas e culturas, do reconhecimento de suas formas de organização, convivência, crenças e valores, da sua autodeterminação.

Assumir que somos efeito deste passado-presente colonial nos coloca em um lugar de questionamento e reconhecimento desta história que nos constitui. Faz-se necessário, portanto, perceber as fortes marcas colonizadoras nacionais, mas também suas sutilezas, esse trabalho minucioso de filigrana, muitas vezes inconsciente, que atravessa nosso pensamento, nossas ações, nossas crenças, o reconhecimento da alteridade e da própria posição com relação ao desejo. Pensamos aqui nos aspectos subjetivos da colonização nas nossas vidas, mas principalmente nas suas influências no ofício da Psicanálise: nos atravessamentos na escuta, interpretação e na transferência, nos manejos dos grupos, na língua que falamos, na cultura que nos constitui, na forma como reconhecemos a diferença do outro, na maneira como lidamos com os migrantes que atendemos na sua dupla estrangeridade.

Como efeito da globalização, as migrações atuais, especialmente as forçadas, vêm impondo um tipo particular de convivência entre as culturas, o que incrementa conflitos de forma violenta, promovendo segregação e exclusão. Todavia, como psicanalistas consideramos que a relação com o outro implica sempre a sustentação da singularidade, da diferença e da alteridade, e o necessário diálogo entre culturas que o acolhimento do fenômeno migratório coloca em cena.

Nesse sentido, compartilhamos em nosso trabalho o conceito de interculturalidade trazido por Weissmann, que o descreve como: "as culturas em conflito e em diálogo, ao mesmo tempo, que não tentam obstruir as diferenças e sim fazer com que elas conversem e se entrelacem. Essa ideia do sujeito intercultural, contemporâneo em conflito, é compartilhada pela psicanálise, porque Freud parte do pressuposto de que o ser humano é um ser em conflito, sendo o conflito inerente à vida"[12].

A interculturalidade inclui o conceito de mestiçagem e hibridização que apela à combinação ou montagem de elementos heterogêneos na migração, em que cada um conserva sua particularidade, com a permanência da diferença. Essas diferentes culturas em diálogo apelam à descolonização, na medida em que apontam a pluralidade de culturas em paridade. Interculturalidade, portanto, implica a inclusão da diferença em interação com o desigual.

O trabalho clínico no Projeto Ponte

O Projeto Ponte foi criado em 2010 e funciona na clínica psicológica do Instituto Sedes Sapientae. Somos uma equipe de psicanalistas que atendemos refugiados, migrantes, migrantes internos, exilados, indocumentados, brasileiros retornados, apátridas e todos aqueles que apresentam uma demanda de análise relacionada à migração.

Atendemos pacientes de diferentes origens, majoritariamente de países latino-americanos e africanos, e oferecemos dispositivos de atendimento psicanalítico em português, preferencialmente em grupos, que também abarcam poder falar e ser escutado na língua materna.

Sustentar uma clínica com migrantes na cidade de São Paulo, Brasil, implica gerar um movimento de amparo e reconhecimento da violência que provocou, em muitos casos, a saída desses sujeitos de seu país de origem. Uma das principais rupturas é a dos laços que estabeleciam uma rede, especialmente na sua terra e com seu povo, como também seu pertencimento social, laboral e familiar. Por isso, o restabelecimento do laço social é um dos objetivos do trabalho com migrantes.

Neste sentido, Rosa nos diz sobre a necessidade de um trabalho com "sujeitos afetados diretamente por fatores sociais e políticos que levam à exclusão, à segregação e à consequente imigração ou ao exílio do país de origem e à busca de refúgio em país estrangeiro [...] apontando diferentes possibilidades de reconstituição de laços sociais, favorecendo os vínculos afetivos e de trabalho"[13].

O grupo de atendimento oferecido se estrutura como importante referência, já que quando o migrante chega ao país de destino tudo é novo para ele. Falamos de situações concretas, como encontrar moradia, emprego, documentação, aprender a nova língua, ter acesso a rede de saúde e educação, conjuntamente com a vivência subjetiva que estas urgências representam. Os migrantes relatam sentimentos de insegurança, de estrangeiridade e uma sensação de estranheza, de perda e luto que têm diferentes tempos internos para serem elaborados. Às vezes atendemos sujeitos que há 10 anos vivem em São Paulo e ainda referem sentimentos de provisoriedade, o que encena uma vivência de um tempo subjetivo, da sua transitoriedade, de estar com um pé aqui e outro lá, entre a vida e a morte, entre a origem e o destino. Fazemos referência aqui ao texto freudiano de 1916 Sobre a transitoriedade. Frente ao provisório da existência, o deslocamento migratório pode promover uma reorganização psíquica que leve o sujeito a abandonar identidades fixas a respeito do país de origem, liberando a libido para novas ligações com e no país de destino[14].

Um dos grandes desafios que descobrimos na clínica com migrantes é que, como analistas, temos também que nos deslocar. Os pacientes vêm até a clínica do Sedes e também nos mobilizamos a diferentes espaços públicos. Desenvolvemos trabalhos grupais de escuta a profissionais que atendem migrantes em uma proposta de clínica ampliada; participamos em eventos abrindo um espaço de discussão e escuta social sobre a questão migratória que aponta para a relação de convivência entre locais e estrangeiros.

Paralelamente, fez-se necessário articular uma rede de organizações que trabalham com migrantes em geral. Este dispositivo de trabalho vincular oferece uma rede de apoio, tanto ao sujeito migrante como aos profissionais, um espaço para elaborar as intensas angústias que este trabalho nos provoca. Por isso também o valor de um espaço de supervisão do trabalho grupal que vem acompanhando o projeto Ponte desde 2013[15].

Diante do exposto, visando ao desafio dos migrantes em estabelecer novos laços, privilegiamos o trabalho psicanalítico em grupos, ancorados na perspectiva de René Kaës[16] com aportes importantes de Pichon-Rivière[17] e de Foulkes[18] no que tangem algumas particularidades do dispositivo clínico de grupo.

A posição do analista na clínica com migrantes e a escolha da língua portuguesa

O migrante que se encontra em situação de vulnerabilidade e precariedade, por vezes, demanda direitos no país de acolhida. Diante dessas necessidades, o psicanalista deve se ater ao risco de ocupar a posição de colonizador - aquele que provê - e sim poder considerá-lo como um sujeito potente, ator de sua própria história.

Dessa forma, é importante atentar para a vitimização do migrante, o assistencialismo frente a sua extrema vulnerabilidade, patologização ou medicalização do migrante como um sujeito sempre em situação traumática, e higienização como uma grande tendência a harmonizar, neutralizar o diferente, procurando "adaptá-lo".

Consideramos que é imprescindível a criação e multiplicação de serviços de ajuda humanitária e cidadania a migrantes. Todavia, a nossa especificidade é outra: oferecer um espaço de escuta e fala por excelência onde nossa função, neste sentido, seria colocá-los em contato com essa rede de assistência e cuidados oferecida pelos nossos parceiros, incentivando o estabelecimento de laços de pertencimento e reivindicação de direitos. Sustentar a posição de que não podemos tudo oferecer e deixar espaços não preenchidos é abandonar o lugar etnocêntrico do colonizador, que seria dar o que imaginamos que os migrantes precisam. Portanto, se nos colocamos como analistas em um lugar de estranhamento (Unheimlich), a partir do qual não sabemos exatamente do que os migrantes precisam, isto significaria nos abrir para uma escuta psicanalítica do estrangeiro na sua dupla dimensão real e simbólica[19], uma escuta da diferença.

Em nosso trabalho compartilhamos a posição do outro que Marcelo Viñar traz quando afirma que

o próximo, meu semelhante, coloca-me desafios para os quais não tenho uma resposta clara, mas sim hesitações contraditórias. [...] somente nos resta o caminho árido, difícil e espinhoso de tematizar e gerar narrativas que permitam simbolizar a presença do semelhante e do diferente em duas existências não excludentes, sabendo que a metáfora conciliadora e a metáfora da exclusão sempre rondam por aí e culminam no aparecimento de um entendimento, ou na monstruosidade de um sacrificado e um torturador.[20]

Viñar descreve assim um árduo trabalho de reconhecimento do outro, tanto no lugar do familiar quanto do estranho, oscilando entre a inclusão e incorporação daquilo que nos pertence por familiar, até a expulsão daquilo que é estranho e estrangeiro. Desse modo se desenha um processo contínuo de ir e vir que nos conduz à possibilidade de tolerar a diferença, constituindo-se como um trabalho inesgotável, no reconhecimento do conhecido e desconhecido. Na procura do reconhecimento do outro como estrangeiro e próximo - ao mesmo tempo - é que circulam as narrativas nos grupos terapêuticos no Projeto Ponte.

O dispositivo proposto se baseia principalmente na sustentação do lugar de estrangeiro assumido pelo coordenador de grupo ao falar em português com os pacientes, não recorrendo ao apoio do intérprete. Assumir esta posição clínica tem provocado efeitos nos atendimentos que procuram apontar para um lugar do migrante como sujeito "entre culturas" e a criação de um espaço clínico onde o paciente possa, eventualmente, falar na sua língua de origem.

A nossa aposta é que esta intervenção psicanalítica tem um efeito de subjetivação nos estrangeiros, já que procura devolver-lhes algum traço de subjetividade questionada no processo migratório. Problematizar analiticamente o que significa falar numa língua que não nos constituiu, a língua do país de destino, trabalhar com os impasses de falar a partir deste lugar estrangeiro implica contornar as vicissitudes do lugar de fala do migrante como um sujeito "entre línguas". Ao ter que deixar o contexto compartilhado, o migrante perde os referenciais que o constituem. Com isso, neste processo, a sua identidade sofre mudanças - tem que se construir uma nova história. Se o sujeito não revisita esta identidade, não consegue fazer esta travessia. O migrante precisa admitir que perdeu a possibilidade de falar e ser entendido na sua língua de origem e isso acarreta uma crise de identidade, ao precisar elaborar o conflito de ter que falar a partir de uma língua que não sabe, de uma língua que "falha" para se construir novamente como um sujeito "entre línguas". Aos poucos, ser escutado e escutar a outros começa a ser vivido como uma oportunidade de ajuda subjetiva, para estreitar os laços com outros e compartilhar vivências.

Ao mesmo tempo, o migrante que fala na língua do país de destino explicita sua estrangeiridade pelo seu sotaque e "erros", ou seja, atos falhos. Pode, assim, ser alvo de projeções persecutórias e hostilidade como a de que o estrangeiro é sempre uma ameaça para os locais. Consideramos que este aspecto é fundamental de ser trabalhado em um grupo terapêutico onde o terapeuta ao falar português representa em parte este imaginário ameaçante. Desta forma, precisamos ter cuidado para não reproduzir esta postura social frente à estranheza e a alteridade que o estrangeiro provoca, mas sim problematizar um certo nível de "desentendimento" entre os membros do grupo e o terapeuta, falantes de várias línguas e sotaques.

Afirmamos com Emparan, "O imigrante precisará, de alguma forma, assumir-se como um ‘nômade idiomático', no sentido de conseguir ir e voltar à sua própria língua materna e à língua adotada no país de imigração, para poder, dessa forma, construir um lugar de imigrante, um lugar de fala, uma ponte entre o lugar de origem e o lugar de estrangeiro"[21].

Cenas grupais[22]

A.: Meu nome é A. e sou peruana. Mas, estou há muito tempo no Brasil.

O.: Quase cochichando diz: também sou do Peru, eu sou do interior.

A.: Sou da capital do Peru. Vim para o Brasil acompanhando o meu marido que lá trabalhava em uma multinacional e foi transferido para o Brasil. Tenho muitos amigos aqui. Aliás, a maioria deles são brasileiros. Não sei bem por que estou aqui (no grupo).

S., originária de outro país latino-americano: Eu também trabalhava em uma multinacional e vim transferida para o Brasil.

A. e S. se cumprimentam com um: "hola".

G.: Eu vim do Djibuti (precisa explicar onde fica o seu país dentro do continente africano), me mudei para o Brasil por uma necessidade de tratamento de saúde.

A.: Nossa, coitado. Como você conseguiu chegar até aqui?

A. vem ao Brasil com um status de expatriada de uma multinacional "muito adaptada, sem muitos sotaques". A. parece presa (ou segura?) neste papel que julgamos se apoiar sobre o atravessamento de valores e papéis de uma lógica socioeconômica presente no grupo. Para ela, G. é o "coitado", vindo deste distante país da África, permitindo que se afaste, se esqueça e se silencie sobre as situações de violência, guerrilha e mortes que vivenciou no Peru, motivos que também a fizeram sair de seu país. O "coitado" africano remete certamente ao "coitado" peruano, que ela evita (e parece encontrar certo suporte intersubjetivo para tal) na figura do expatriado de uma multinacional. O estilo de migração parece ofertar-lhe não só um lugar seguro economicamente, mas também psiquicamente, apoiado que parece estar em uma lógica disjuntiva entre "coitados" e "estrangeiros com poder" encontrada na cultura.

Na cena aparecem, portanto, diferentes movimentos de identificação e aliança de cada membro do grupo: ora idealizando e negando a sua cultura de origem, ao se apresentar como alguém "totalmente adaptado" e pertencente à cultura do país de destino, ora explicitando que existe uma diferença de classes sociais e condição econômica. Mais além, haveria também uma diferença hierárquica nas diferentes migrações entre países latino-americanos e países africanos. Diferenças marcadas socioculturalmente que parecem funcionar para A. como muros auxiliares a suas próprias marcas de inferioridade e sofrimentos.

Nesta confusão de línguas e identificações, existe uma ambiguidade presente nesta travessia da elaboração da migração e a angústia que ela provoca. Aqui o analista do grupo deve estar atento às alianças e exclusões que vão se formando, tendo como consequência o enfraquecimento e, talvez, o aniquilamento do grupo.

Se a primeira vinheta alude a um imaginário de uma diferenciação hierárquica entre países, na qual o desprestígio de países colonizados pode surgir como "batata quente" e metadefesa, na vinheta a seguir, a diversidade linguística hesita entre introduzir uma ambivalência nesta hierarquização e a idealização de uma antiga metrópole colonial. Nesta cena grupal, estão presentes M., de país caribenho; R., de país africano; O., europeu; E., retornado brasileiro e N., de um país andino.

M.: Falo francês, creole, espanhol, inglês e português.

O. mostra-se um pouco incomodado.

R.: Também falo inglês, francês, ibo e português.

O.: Só falo inglês e está bem difícil aprender o português (com muita dificuldade e um sotaque muito forte).

E.: Poderíamos falar em inglês. Para mim não teria problema.

M.: Por mim, também tudo bem.

N.: Não falo bem inglês, mas se todos decidirem, tudo bem para mim.

Coordenadora: Vamos relembrar que a nossa proposta para o grupo é falar português, mas é claro, se em algum momento for difícil se expressar, faltar alguma palavra em português, não é proibido que vocês tentem falar em sua língua de origem.

O que aparece nesta situação grupal é a necessidade da analista do grupo de retomar o enquadre, no caso, a língua a ser falada (o português), frente às angústias suscitadas pelas questões da multiplicidade de línguas. Vale primeiramente lembrar que a língua não é só um instrumento de comunicação. Concordamos com Fanon que "Falar é estar em condições de empregar uma certa sintaxe possuir a morfologia de tal ou qual língua, mas é sobretudo assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização. [...] Um homem que possui a linguagem possui, em contrapartida, o mundo que essa linguagem expressa e que lhe é implícito"[23].

Mas além de portar uma cultura, a língua porta traços das marcas distintivas de prestígio e desprestígio no imaginário social. Se Kaës[24] havia trabalhado com as marcas da história europeia que o uso da língua alemã despertava em um grupo multilíngue, Ruiz Correa[25] identifica como a diferença de língua evoca em seu grupo operativo multilíngue as marcas de prestígio e desprestígio ligadas aos países desenvolvidos e em desenvolvimento que representam. Por isso mesmo é interessante notar nesta vinheta como, a partir de um desconforto de O., o grupo propõe resolvê-lo aderindo ao seu idioma. Que angústias circulavam neste grupo neste momento? E que curiosa a solução proposta pelo grupo de equacioná-la falando o inglês. Pois aqui o enquadre do grupo, ao propor que se fale a língua do país onde estão, impede esta solução. A solução possível então diz respeito a transitar pelas dificuldades e mal-entendidos. O grupo precisa tentar se entender, auxiliando-se mutuamente quando algo do que é dito não é compreendido devido à língua de origem dos diferentes membros. Em paralelo, se desloca o acordo comum de primazia de uma língua estrangeira prestigiada. Pode-se abrir aqui caminho para o trabalho sobre as marcas de prestígio e poder que as línguas em jogo portam. Possibilidade para que cada um tenha legitimada suas línguas. De todo modo, como enfatizam Castanho e Fernandes[26], é fundamental trabalhar com os significados que a diferença de línguas porta em um grupo, com suas marcas históricas e sociais, evitando-se abordar o problema das línguas apenas como uma questão técnica de comunicação passível de ser resolvida por uma tradução (ou aqui, pela escolha de uma língua comum diferente daquela proposta no enquadre).

A partir desta vinheta observamos que a escolha da língua traz também questões relacionadas às heranças da colonização. Podemos perceber que O., europeu, originário de um país colonizador e potente, neste momento parece se sentir incomodado ao notar sua fragilidade de conhecimento diante dos outros membros, principalmente daqueles que vêm de países que foram colônias, uma delas inclusive do seu país de origem. Apesar disso, também notamos um movimento grupal de acolhimento das dificuldades apresentadas e de uma resistência coletiva a escutar o enquadre de falar português, língua estrangeira da nova cultura. A fala de N., andina, estaria expressando uma certa alienação à língua suposta de um colonizador ainda superior que falaria em inglês?

O que significaria eleger uma outra língua, que não a língua nacional?

Segundo Melman, "Saber uma língua é muito diferente de conhecê-la. Saber uma língua quer dizer ser falado por ela, que o que ela fala em você se enuncia pela boca, como destacado, a título do ‘eu' "[27].

Será que não estaríamos correndo o risco de replicar o desejo de colonização e domínio de um sujeito por cima do outro, de uma cultura por cima da outra, estabelecendo como premissa a colonização de um pelo outro como uma tentativa para obturar as diferenças e alteridade que outra cultura pode trazer?

Traremos uma outra cena grupal em que estavam presentes T., europeu, e E., brasileiro retornado:

T.: Este final de semana teve uma festa em casa, mas eu e minha namorada acabamos brigando. Meus amigos estavam em casa e tocamos bastante, bebemos, muito divertido. Mas, um amigo meu fez uma brincadeira com minha namorada. Ela é brasileira e ficou muito brava e foi dormir. Sabe como os brasileiros são muito brincalhões, mas, às vezes, ela não entende e fica brava. No dia seguinte fui tentar apaziguar e acabamos brigando.

E.: Brasileiros são muito sem educação! Quando morei na Europa, as pessoas sempre eram gentis e muito educadas.

A partir dessa vinheta, podemos perceber que por parte de T. parece haver uma identificação muito intensa com o novo país e a nova cultura, e em contrapartida, uma negação da sua cultura de origem europeia e de seu não saber, onde ele se sente mais compreensivo do jeito brasileiro de ser do que os próprios brasileiros com quem convive. Já E. parece apresentar uma identificação muito forte com a Europa, o continente onde viveu durante alguns anos, e ainda apresentava sotaques fortes em sua fala - enaltecendo ainda mais as qualidades do colonizador. Constatamos diferentes movimentos de identificação de cada membro do grupo, ora idealizando o país de origem, ora negando a sua cultura de origem - uma ambiguidade presente nesta travessia da elaboração da migração.

Palavras finais

Se para qualquer trabalho de análise entrar em contato com a língua enigmática do inconsciente é o eixo nodal, neste trabalho estamos num duplo desafio: como acessar os conteúdos recalcados via uma língua que não é familiar?

Ao revisar a literatura existente sobre a clínica psicanalítica multilingue, Castanho[28] evidencia diferentes arranjos de setting: falar-se a língua do país de destino, do país de origem, mudar ativamente de língua, escutar atentamente as mudanças e intrusões de línguas no discurso dos pacientes etc. Ao retomar tais dispositivos, evidencia a variedade de possibilidades, bem como alguns de seus complexos impactos sobre dimensões identificatórias, narcísicas, ideais e mecanismos de defesa (com destaque para a cisão e o recalque) etc. Esta literatura afirma a existência de efeitos de análise em dispositivos conduzidos em línguas diferentes da língua materna do paciente, por vezes, podendo-se supor que a diferença de línguas tenha tido papel importante neles. Ainda assim, insiste a questão sobre a possibilidade de existência de alguns limites à análise em língua estrangeira.

Nossa aposta consiste em que os membros do grupo, apesar das diferentes origens e línguas, ofereceriam um suporte imaginário uns aos outros para esse não saber falar. Circula então uma posição subjetiva entre o não saber falar e o saber falar, ofertada pela possibilidade de dizer também a partir da sua língua de origem (seja ela qual for) e ser amparado pelos outros membros, mas também de auxiliar na tradução do que o outro diz, o que põe de manifesto a posição de um sujeito entre culturas.

A opção pelo português ou qualquer outra língua está longe de afastar a problemática da diversidade da língua do atendimento, questão em relação à qual a escuta deve estar sempre atenta. Trabalhando com um grupo tão diverso em gênero, origem, identidade, língua, é inevitável não depararmos com o seguinte questionamento: que língua privilegiar em nosso atendimento? Inglês, espanhol, francês, creole, igbo?

Considerar uma língua não é apenas um saber da ordem do cognitivo, não se resume a signos decodificados, mas diz respeito à musicalidade e as marcas da relação do materno, do social e da cultura. Para pensar psicanaliticamente a relação com a língua, recorremos a Betts:

Ser falado por uma outra língua implica deixar-se atravessar pelos significantes dessa língua, dando lugar a um desejar "diferente". Implica deixar-se tomar pela sua musicalidade, pela melodia da língua e também pelos seus aspectos fonéticos, que trazem muitas vezes a dificuldade de articular novos sons, inexistentes na língua de origem.[29]

Apostamos que ao propor um dispositivo em português do Brasil, que tampouco é a língua da metrópole colonizadora, possibilitamos um espaço de descolonização, em que as relações de domínio e poder decorrentes do colonialismo a que todos nós fomos submetidos possam ter um espaço de escuta e fala. Desta forma, talvez seja possível reordenar algumas cenas de hierarquias globais e dar voz e potência ao lugar das colônias. A escolha do português no projeto não é imposta ao grupo de forma higienizadora e normativa, uma força de adaptação imperialista, mas é oferecida como uma possibilidade de espaço de emergir o que de outra forma não era valorizado.       

Mudar de lugar, deslocando-se geograficamente de um país a outro, corresponde a uma mudança de língua, de sonoridades, ritmos e palavras. Ao propor falar em português, marcamos essa condição de mudança, de travessia - um atravessamento da língua materna à língua paterna, de um país geográfico a outro, ainda que, quando eles não saibam falar em português fluentemente, a língua materna possa ter o seu lugar. Entendemos então a posição de um sujeito "entre culturas", uma vez que acolhemos também o "não saber falar", aquilo que não se entende - representando um passado ainda presente e que se faz circular pela palavra, muitas vezes traumático, e que pode encontrar através de um processo de sublimação a possibilidade de elaboração, um ir e vir em que se pode regredir para poder progredir.

Sobre o desafio de trabalhar no "entre línguas" e "entre culturas", Weissmann[30] propõe retirar o estigma das diferenças, aceitando a estranheza que o outro gera em cada um de nós e a recusa das diferenças pela deposição, no outro, daquilo que negamos em nós mesmos. Ao nos integrar, apesar das discrepâncias, talvez se propicie a passagem da exclusão à conexão e à intercomunicação, dentro da interculturalidade, o que abriria a possibilidade de maior disponibilidade para conseguir viver com as divergências ao lado das coincidências do sujeito intercultural globalizado.

Numa perspectiva interdisciplinar, trazemos ao diálogo contribuições do antropólogo García Canclini[31], que enfatiza a necessidade de buscar uma interculturalidade que permita a continuidade dos pertencimentos étnicos, grupais e nacionais, ao lado do acervo transnacional. Ele afirma que conhecer significa se socializar na aprendizagem das diferenças e na possibilidade de levar à prática os direitos humanos interculturais. Aceder à diversidade implica então articular diferença e conexão, abrangendo o conhecimento do outro na aprendizagem de lidar com a sua diferença. Canclini salienta a necessidade de criar um espaço no qual possa se organizar a diversidade, dentro da globalização, para que esta não crie desglobalização, na exclusão de alguns e a inclusão de outros mais favorecidos.

Acreditamos, então, que a cultura e a língua estão em movimento e em construção - não defendemos a ideia de que o imigrante precisa "reforçar" a cultura do país de origem ou que necessite se "adaptar" à cultura do país de destino às custas de uma renúncia forçada da própria identidade em busca de uma nova filiação no país de destino. Compreendemos que é um processo em que há uma dupla pertença - o migrante é filho de uma língua e da outra - e que cada cultura tem um lugar de existir.

Será que a migração traz uma disjuntiva e/ou?

Há uma ambiguidade presente no migrante, que deve ser respeitada, assim como as resistências da língua e o tempo necessário, subjetivo, para o movimento de elaboração do processo de migração. Fazemos constantemente a interlocução entre clínica e cultura em nosso trabalho: na clínica com migrantes, devemos considerar não somente o plano simbólico, ficcional, mas também devemos escutar a realidade, a cultura de cada povo, para não correr o risco de interpretar a partir de um lugar etnocêntrico e colonizador. Na tentativa de quebrar as amarras da colonização, no grupo, oferecemos um espaço para que cada sujeito e cultura tenha o seu lugar de fala e escuta.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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