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Resumo
Comentado por: Octávio Souza e Elisa Maria de Ulhôa Cintra


Autor(es)
Maria Laurinda Ribeiro de Souza
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e professora do curso Psicanálise, do mesmo Departamento. É autora de Mais além do sonhar (com aquarelas de Ada Morgenstern) (Marco Zero, 2003) e de Violência (Casa do Psicólogo, 2005), entre outras publicações.

Octavio Souza
é psicanalista, professor do Instituto Fernandes Figueira/FIOCRUZ e do Departamento de Psicologia da PUC/Rio.

Elisa Maria de Ulhôa Cintra
é psicanalista, professora da Faculdade de Psicologia da PUCSP e do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Clínica da PUCSP. Autora de Melanie Klein: estilo e pensamento.


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 DEBATE CLÍNICO

História de um homem só

The story of a lonely man
Maria Laurinda Ribeiro de Souza
Octavio Souza
Elisa Maria de Ulhôa Cintra

Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, se não terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro.


Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente.

 

Tinha cerca de 50 anos quando o vi pela primeira vez. Contou-me, nesse encontro, a história final de uma análise anterior. "Falei tantas vezes em suicídio que, um dia, a analista fez uma receita e me entregou. Era uma fórmula para efetivar o suicídio".


Deixou-me instigada com o que teria acontecido para que a analista fosse induzida a essa passagem ao ato (se de fato o foi). De qualquer forma, há desde o início uma ameaça e uma referência ao desejo de morte - dele e dos outros.


No segundo encontro perguntou-me o que pensava sobre a homossexualidade. Queria garantias de que poderia ouvi-lo. Estava em crise com uma relação que mantinha há cerca de 6 anos. Não sentia mais atração pelo companheiro e o silêncio se instalara entre eles. O companheiro se queixa desse silêncio, ele também, mas não conseguem falar do que acontece.


Logo depois do início desta análise, ele se separará. Já antes do término, empreendia uma busca compulsiva por companheiros. Esses parceiros, em verdade, eram apenas corpos com os quais tentava encontrar satisfação imediata e, segundo penso, uma forma de não se haver com o vazio provocado por essa separação. Cria-se um círculo repetitivo: procura por companheiros, exposição a situações de risco, temor da contaminação, avaliações médicas, novas relações, novos riscos...


O término efetivo da relação se dá quando o companheiro chega com a notícia de que comprara um apartamento. Projeto pensado pelos dois, ele se surpreende com o gesto do companheiro e com a exclusão. Isso lhe confirma a impossibilidade de manterem a relação. A falta de interesse sexual é determinante; nada mais conta da história que mantiveram.


Um tempo depois esse companheiro estabelece outra relação, mas nunca deixa de se preocupar com ele e de se fazer presente sempre que surgem dificuldades em sua vida. De fato, é a única referência de um relacionamento significativo que se manteve nos 8 anos de análise.


Seu sofrimento com a solidão e com a impossibilidade de construir amizades é agudo. O pânico de envelhecer sozinho está sempre presente. As pessoas com quem convive no trabalho ou fora dele "estão sempre comprometidas com outras coisas, com outras atividades, já têm família constituída e, portanto, não teriam interesse em sair com ele".


As muitas vezes em que tento instigá-lo a me falar de seu cotidiano, das pessoas com quem convive, do que se passa nessas ocasiões... terminam sempre com uma irritação de sua parte. Ele parece só querer a confirmação de que não há lugar para ele e de que ele não sabe qual a sua deficiência: ora é porque não é bonito o suficiente, ora é pela cor de sua pele, ora é porque as pessoas têm inveja do seu conhecimento... Se lhe digo que não se trata necessariamente de algo errado nele, mas antes que essa é uma construção antiga, de sua infância, em função de uma avaliação equivocada dos pais de que havia algo errado com ele, com seu comportamento sexual, e que eles precisavam afastá-lo de casa por conta disso. O interesse que isso lhe produz logo se dissipa. Profissional competente, convidado para palestras e participação em congressos, sofre para responder aos pedidos, mas se não é convidado, sofre ainda mais agudamente pela exclusão.


Minha compreensão é de que há uma reatualização constante de uma cena infantil da qual nada pode ser alterado ou relativizado; estamos frente a frente com uma cripta. Muitas vezes falamos sobre essa experiência e os efeitos que se disseminaram em outras vivências posteriores. A princípio ele resistiu muito a qualquer interpretação, depois, insistia numa fala de que de nada lhe adiantava falar sobre isso.


O ataque que sentia em seu cotidiano era atualizado na análise: de que ela não servia para nada, de que só vinha falar comigo porque eu era a única pessoa com quem ele podia contar, de que ele continuava num estado de solidão insuportável. A agressão à análise era vivida também em outras situações e nas cenas fantasiadas muito semelhantes às do filme "Um dia de fúria". Imaginava, por exemplo, ter um carro que se abria em lâminas que matariam todos que o atrapalhavam no trânsito e de que poderia destruir qualquer um que o desconsiderasse... Às vezes a fúria assassina se manifestava num discurso cru e intimador. "Nada é leve para mim. Minhas fantasias são de esquartejar, matar, dar tiros, destruir...". O ódio surgia em estado bruto como resposta a qualquer gesto ou palavra que ele entendesse como "rejeição"; não havia outras formas de representação ou simbolizações possíveis.


Muitas vezes pensei em interromper o atendimento vislumbrando o risco de estabelecermos um par sadomasoquista na análise, mas não o fiz. Talvez por entender que havia uma provocação à exclusão que eu não queria atuar. Talvez porque apesar das ameaças ele, de fato, não atuava essa agressão. E, ao lado delas, também havia um pedido insistente e infantil de que eu o ajudasse a entender o que ele não entendia. Interessava-se pela literatura, pela poesia, pelo cinema, mas tudo era relatado literalmente e com uma queixa de não entendimento.


Uma mudança aconteceu na análise quando começou a sonhar. A princípio a fala era a mesma: eram coisas incompreensíveis sem sentido nenhum. Minha intervenção foi no sentido de reconhecer que algo novo acontecia: ele estava sonhando. Talvez tenha sido meu reconhecimento que fez com que ele fosse me contando seus sonhos e se interessasse pelo que eu poderia lhe dizer a respeito.


Esta análise se aproxima, para mim, daquilo que Giacometti fazia com seus trabalhos. Impressionou-me o relato de que ele era capaz de produzir várias esculturas que destruía no dia seguinte. E recomeçava, recomeçava, numa tentativa de encontrar uma essência do humano, impossível de alcançar.


João de Barro, esse o nome pelo qual posso representá-lo , nasceu numa pequena cidade do interior do país. Seu pai era proprietário de um pequeno negócio na cidade e conhecido por todos. Era muito reservado no contato com os filhos, mas especialmente com ele. Filho mais velho, ainda criança foi surpreendido em jogos sexuais com os amigos. Isso provocou cenas de humilhação e críticas na família. Logo em seguida é mandado para a casa de parentes, com o argumento de que era um menino inteligente e que em outra cidade, mais desenvolvida, teria melhores condições de estudo. Essas duas cenas não encontram conexão psíquica. Ele investirá no desenvolvimento acadêmico toda sua energia. Torna-se um menino solitário e com muitas dificuldades em se relacionar. Fará um esforço constante para se destacar intelectualmente.


No estudo secundário aproxima-se de dois meninos que eram discriminados sexualmente na escola e o diretor o orienta a não manter essa proximidade. Novamente, a segregação, que ele entende como devida a uma possível escolha sexual, o atemoriza e o faz permanecer mais isolado.


Após a graduação vem para São Paulo continuar sua formação. Cientista, pesquisador, mantém o isolamento na profissão escolhida. Ele me diz que pensou em fazer administração, mas isso não lhe parecia muito promissor. No entanto, não chegou a abandonar essa ideia; ela permaneceu como uma forma de ligação aos negócios da família; como tentativa de se ver reconhecido pelos pais. Nos últimos anos faz um movimento de retomar essa escolha e empreende vários cursos de especialização nessa área.


A exclusão da casa dos pais foi bastante marcante. Quando voltou para a casa seus objetos pessoais não estavam mais lá. Momento tocante onde ele me fala dessa paixão, das cenas que via nos filmes de acetato que colecionava. "Cine Paradiso" marca presença em minha lembrança, mas ele não tem como objeto interno construído a figura do projetor de filmes que se encantava com a presença do menino. Falo com ele sobre o filme, que desconhece. Mas, as sessões começam a incluir relatos literários e fragmentos de filmes e peças de teatro. Fala dos textos da mesma forma que me fala de alguns fragmentos de sonhos de que consegue recordar: "não consigo entender, é tudo sem sentido, não sei interpretar...". Procura peças e filmes que tratam da questão gay e tenta encontrar reconhecimentos.


Um fragmento de sonho: está numa fila e alguém comenta que ela é só para gays. Ele se inquieta. No dia seguinte o sonho se repete com modificações: há várias pessoas e vai ser organizada uma fila. Ele pede para ser colocado na fila dos gays. A fala surge como uma brincadeira - algo extremamente raro em seus relatos.


Apesar das diferenças que iam surgindo em sua fala sobre os lugares familiares, logo se seguia uma racionalização de que lá onde moravam as coisas eram assim mesmo; não havia proximidades ou conversas. Qualquer intervenção minha no sentido de reconhecer a exclusão e a injustiça era escutada e abandonada sem que surtisse efeito durador.


Após a doença e morte do pai, que ele acompanhou, começa a construir o desejo de retornar para a terra natal. Seu argumento era de que precisava ajudar a mãe a cuidar dos negócios da família, que também eram dele. Tinha a ilusão de que poderia ter maior reconhecimento profissional lá do que o que tem em São Paulo. Vou lhe dizendo que esse era um desejo antigo: retornar à casa dos pais e ser reconhecido com todos os seus direitos.


Foi uma mudança difícil. Não encontrou o que esperava. Não se sentiu reconhecido como imaginava nos locais em que foi trabalhar e, em casa, meteu-se numa disputa familiar com os irmãos que o manteve isolado de todos os laços possíveis. Descobriu uma herança mal distribuída, onde ele praticamente era deserdado. Apesar disso, a ligação com a mãe se mantém intocável. Ela se interessa por ele, mas nunca assumiu a injustiça cometida.

 

A análise continuou por skype. Esporadicamente em presença - quando ele vinha para São Paulo. Num dos encontros presenciais, um momento especial: ele se emociona quando, após um comentário seu sobre a possibilidade de ter vindo, eu lhe digo que há uma diferença significativa entre poder estar de corpo presente ou não.


Na terra natal as dificuldades nos contatos continuam. No trabalho sente-se injustiçado por considerar que tem uma formação muito melhor e não encontra o lugar que esperava. Desconsidera sua própria rivalidade e na certeza de exclusão cria situações que lhe confirmam o fantasma.


Na vida amorosa estabelece relações com jovens desprotegidos e em situações de risco que não têm possibilidades de continuidade. Mas ele os protege e incentiva a estudar, cuidando deles como gostaria de ser cuidado. Por um tempo. Depois perde o interesse e se afasta. São histórias que mantém em segredo apesar de garantir que não tem nenhum problema com sua escolha sexual, que só lastima não ter podido viver isso antes. Muitas vezes sente-se ameaçado e perseguido justamente por essas escolhas.


Seu interesse desaparece quando o companheiro lhe conta sobre outras estórias de relacionamento. Perde o tesão. Surpreendo-me quando o ouço perguntar: "Por que será?". Responde: "quero ser especial; se não for assim não quero nada". Momentos de calmaria onde o ódio não é o primeiro afeto a fazer presença. Mas, ele logo reaparecerá em muitas outras cenas: "neguinho filho da puta, passou por cima de mim"; "veadinho de merda, quem pensa que é"; "por mim, matava todos os bandidos, punha num paredão e eliminava". Mas há uma diferença: começa a reconhecer o peso do ódio e dos enredos assassinos que fantasia. "Não sei ser diferente; queria ser como a música: o barquinho vai, o barquinho vem". Há um tom de deboche, mas há, também, um pedido dirigido a mim sobre o que fazer com esse ódio. Ódio que sempre entendi como uma espinha dorsal desta análise.


Nos últimos tempos conseguiu uma mobilidade maior - organizou-se para fazer as viagens sempre sonhadas e nunca realizadas. Aventurou-se a conhecer outras terras. Iniciou um movimento de poder sair e voltar. Um sonho anuncia esse movimento:


Está com alguém, talvez o companheiro citado no início deste relato, caminhando. Uma pessoa à frente dirige o caminho que vai ficando estranho, perigoso. Ele decide não continuar. Para e diz que não vai prosseguir.


Peço associações. Responde o de sempre: que não sabe o que significa, que os sonhos são sem sentido... Espero. Ele continua: "acho que tem a importância de poder dizer não. A gente pensa que é fraqueza dizer não". E me fala de várias situações onde não disse o não; cenas em que isso era impensável para ele, cenas em que tinha medo de ser excluído...


Um não que, assim como as perguntas que esporadicamente faz sobre si, me surpreende.


Sem se despedir, deixou a análise. Pode ser que volte...


Ao escolher o título para esta apresentação, percebi seu duplo sentido: um homem que perpetua sua solidão, mas também um homem que, mesmo na análise, apesar de acompanhado, permanece só. De fato, talvez o que tenha ocorrido seja mesmo da ordem do acompanhamento. Foi o possível.


Comentário de Octávio Souza
Ao término do relato do caso de João de Barro, a analista - não conhecendo sua identidade escolho tratá-la no feminino - pergunta se o que aconteceu não teria sido mais da ordem de um acompanhamento do que de uma análise. Por mais que a pergunta permaneça no ar, devo responder dizendo que há, certamente, um tom de análise que percorre todo o relato e que deixa sua assinatura numa observação final: "Sem se despedir, deixou a análise. Pode ser que volte...". Esse "pode ser que volte" é muito importante: traduz o desejo da analista de continuar, de persistir. Se o tratamento de João de Barro se revelou ao fim - quem sabe? - apenas um acompanhamento, foi, certamente, o de uma analista que persistia no desejo de transformar o acompanhamento em análise. O que transforma um acompanhamento em análise? Qual a transformação que deixou de acontecer e que faz a analista desejar que ele volte?


Com o conceito de cripta de Abraham e Torok, a analista busca balizas para a compreensão das dificuldades que seu analisando encontra para simbolizar o núcleo traumático do seu sofrimento. Para Abraham e Torok, o reencontro do sujeito consigo mesmo se dá no reconhecimento da poesia contida na palavra que endereça ao outro. Esse outro, eventualmente, pode vir a ser o analista. Mas, observam: "quantos percalços nesse caminho! Será que o analista tem orelhas para todos os ‘poemas'? para todos os ‘poetas'? Seguramente não. Mas aqueles dos quais ele falhou em escutar a mensagem, aqueles dos quais ele tantas vezes escutou o texto mutilado, lacunar, as charadas sem pistas, aqueles que o deixaram sem lhe ter revelado a obra emblemática de suas vidas, esses, sempre retornam, fantasmas [fantômes] de seus destinos não realizados, assombração de suas próprias lacunas" .


Pode ser que ele volte. Volte para fazer escutar e lavrar sua poesia fora da cripta. O que atormenta a psicanalista é o tormento do analisando, enterrado, sem sepultura legal, numa cripta. No interior da cripta a analista vislumbra alguns contornos. João de Barro, ainda criança, "foi surpreendido em jogos sexuais com os amigos. Isso provocou cenas de humilhação e críticas na família. Logo em seguida foi mandado para a casa de parentes, com o argumento de que era um menino inteligente e que em outra cidade, mais desenvolvida, teria melhores condições de estudo". Essas duas cenas, observa a autora, não encontram conexão psíquica. Para Abraham e Torok, a vergonha da humilhação captura as palavras de um acontecimento idílico da vida do desejo, impedindo que seu recalcamento siga a via dinâmica do retorno simbolizante do recalcado. Ao analista cabe desenvolver sua sensibilidade para a escuta das palavras encriptadas que insistem em se fazer ouvir pela via do retorno dos fantasmas em sua desolação melancólica, seus enredos masoquistas, suas roupagens fetichistas, suas feridas psicossomáticas.


A noção de cripta enriquece a clínica com uma imensa gama de aspectos sobre os destinos mais graves de processos defensivos que atingem a própria função simbolizante do deslocamento no inconsciente. Sua imensa importância não está em questão no que segue. Apenas me proponho comunicar algumas associações feitas a partir de uma rotação nas referências clínicas e teóricas, de modo a realçar alguns aspectos da relação entre transferência e contratransferência que a situação analítica, tal como nos é apresentada, deixa entrever. A ideia de cripta remete a uma topologia na qual o sujeito se encontra intrapsiquicamente enclausurado em um espaço clivado, que o analista, de fora, busca sintonizar e reconhecer, mas sem ser sugado centripetamente pelos efeitos contratransferenciais do turbilhão emocional encriptado.


João de Barro começa se queixando de sua solidão, do medo de envelhecer sozinho. "Ele parece só querer a confirmação de que não há lugar para ele e de que ele não sabe qual a sua deficiência". A analista lhe responde, dizendo que não se trata necessariamente de algo de errado com ele, mas de um sentimento que se repete em função do preconceito dos pais com sua sexualidade. Essa interpretação desperta um pequeno interesse que prontamente se dissipa. Na sucessão do relato, o analisando passa a atuar na transferência os ataques de que se ressentia na realidade de sua vida. Passa também a ter fantasias generalizadas de agressão, em fúria assassina contra todos que o discriminavam. A analista, por seu lado, começa a ter pensamentos de interromper a análise para evitar uma relação sadomasoquista, o que ela avisadamente não faz por perceber a qualidade contratransferencial desses pensamentos, que seriam uma resposta a uma "provocação à exclusão". Observa também, em exame acurado de seu próprio estado de espírito, que outro fator que talvez tenha pesado em sua opção por não interromper a análise teria sido a constatação de que João de Barro, apesar das ameaças, não chegava a atuar as agressões. Esse fator, diga-se de passagem, traz consigo uma significação crucial, que será abordada mais adiante. Por fim, observa que ao lado das agressões havia também um pedido infantil de ajuda na compreensão do que não conseguia entender.
Esse momento da situação analítica me parece crucial. Foi a partir do que ali aconteceu que a análise pôde se tornar palco das significativas transformações que sucederam. Por um lado, fica claro que o turbilhão emocional que enredava analista e analisando necessitava, para sua elaboração, de algo mais do que a interpretação reconstrutiva do fator traumático da cena de exclusão da casa paterna em seguida à descoberta dos jogos sexuais. Alguma coisa de outra ordem precisava acontecer e que dizia respeito à regulação da qualidade das respostas da analista aos ditos e agitos de seu analisando. As atuações transferenciais de João de Barro certamente guardavam em si um valor de interpretação da contratransferência do analista. A meu ver a psicanalista acolhe essa interpretação ao escutar, nessas atuações, um pedido infantil de compreensão. Isso não pode ter deixado de ser acompanhado por um certo enternecimento em sua postura, o que, por sua vez, permitiu que logo a seguir o analisando começasse a sonhar.


Por outro lado, esse turbilhão transferencial-contratransferencial deixou restos, restos estes que vieram a se constituir em enclaves não analisados que contribuíram para a posterior interrupção abrupta da análise. Identifico vestígios desse enclave na escolha do nome do analisando, João de Barro. João de Barro é um pássaro, observa a autora, que é expulso ou abandona os ninhos que constrói. Efetivamente, João de Barro foi, por uma primeira vez, expulso realmente da casa dos pais, e depois, em análise, essa expulsão se repete nos pensamentos contratransferenciais da analista que pensa interromper a análise. Em resposta às expulsões, também abandonou, por duas vezes, o ninho que construía com sua analista. Na primeira, quando retorna à casa paterna e prossegue sua análise por Skype. A esse respeito, vale ressaltar uma posterior sessão presencial fortuita, na qual o analisando reconhece, emocionado, que a qualidade dos dois tipos de encontro, em presença ou via Skype, não pode ser comparada. Na segunda, quando, ao final, interrompe a análise sem se despedir.


Sobre o primeiro abandono, a analista não chega a dizer como foi trabalhada em análise a decisão do retorno à casa paterna. Talvez João de Barro tenha se ressentido intimamente por sua analista não se opor mais vigorosamente a seu afastamento. Talvez tenha fantasiado que lhe era indiferente, ou que até mesmo o desejasse. Tanto é assim que logo após esse primeiro abandono, já de volta à terra natal, observa, a respeito das relações amorosas que tenta estabelecer, mas que logo em seguida abandona: "quero ser especial, se não for assim, não quero nada".


O segundo abandono foi anunciado pelo sonho que, no relato, antecede a interrupção final: "Está com alguém, [...], caminhando. Uma pessoa à frente dirige o caminho que vai ficando estranho, perigoso. Ele decide não continuar. Para e diz que não vai prosseguir". Quem será que poderia ser esse alguém, sua analista? Na análise o sonho foi interpretado por João de Barro na perspectiva da importância de poder dizer não. Associa com diversas ocasiões em que para ele era impensável dizer não, por medo de ser excluído. Se a analista tivesse interpretado a ponta transferencial do sonho talvez a subsequente interrupção do tratamento pudesse ter sido evitada. Talvez, também, ele só possa ter dito não para a analista por ter obtido a convicção interna de que não seria excluído e que ela ficaria esperando por ele... Pode ser que ele volte... Talvez ele não tenha ido embora tão só assim.


Há ainda outro aspecto das questões presentes na análise que a perspectiva contratransferencial da escolha do nome de João de Barro torna visível. Os filhotes do João de Barro, reza a descrição transcrita pela autora, "pouco depois do nascimento já apresentam comportamento defensivo, silvando como cobras e atacando intrusos com os bicos abertos, mas sem qualquer pontaria efetiva". João de Barro ladra, mas não morde. Foi até mesmo a percepção dessa espécie de fraqueza - "apesar das ameaças ele não atuava a agressão" - que deu tranquilidade à analista para prosseguir o tratamento em momentos que sofria ataques do analisando. Falo em fraqueza porque me parece que essa inibição da agressividade não tem o valor de uma efetiva inibição, não é fruto de qualquer função continente adquirida por João de Barro ao longo do seu desenvolvimento emocional.


Julgo que esse fator de agressividade impotente e sem alvo conjuga o principal do sofrimento psíquico que está no cerne da análise de João de Barro. Tudo gira em torno das consequências das falhas do narcisismo primário para o posicionamento do sujeito face às situações rivalitárias. Ao longo de todo o seu relato, a analista faz preciosas observações a esse respeito.


João de Barro começa a expressar, em análise, seu desejo de retorno à casa paterna. Relembra a exclusão de casa. Quando, por uma vez, retornou, seus objetos já não estavam mais lá. Lembra de sua coleção de filmes de acetato que adorava. Analista e analisando ficam tocados enquanto conversam sobre a paixão do analisando pelos filmes que relembra. A analista menciona "Cine Paradiso", que João de Barro não conhece. A analista conta o filme ao mesmo tempo que, acertadamente, pensa: "ele não tem como objeto interno construído a figura do projetor de filmes que se encantava com a presença do menino". Depois dessa conversa começam a aparecer em análise relatos literários e de fragmentos de filmes. João de Barro começava a ter em sua analista uma projetora de filmes que se encanta com sua presença. Essa posição da analista como projetora de filmes encantada com João de Barro é tão ou mais importante do que a da analista procurando estabelecer conexões entre os fragmentos dos filmes e as memórias encriptadas da história traumática de um sujeito que se queixa de nada entender. É claro que as duas posições não se excluem e podem se superpor. Mas é fundamental que o analista tenha consciência da relevância de seu papel como outro do sujeito numa dimensão narcísica, não interpretativa.


A consideração da dimensão narcísica da relação analista-analisando é crucial para a modulação do tipo de intervenção do analista em várias situações de fracasso dos processos de simbolização e, particularmente, em situações de rivalidade intrusiva como as trazidas por João de Barro. Muito apropriadamente, a analista observa que João de Barro, já de volta à terra natal, ao sentir-se injustiçado em seu ambiente de trabalho, "desconsidera sua própria rivalidade e na certeza de exclusão cria situações que lhe confirmam o fantasma". A esse respeito eu teria a dizer, de forma sucinta, que João de Barro desconsiderava sua rivalidade porque até então não havia conseguido entrar em nenhuma relação efetivamente rivalitária. Para isso lhe faltava estofo narcísico. O início do processo de aquisição desse estofo foi, certamente, o que mais contou para João de Barro ao longo de toda a sua análise. Para tanto, lhe foi fundamental o enternecimento de sua analista com seu pedido infantil de compreensão, assim como o encantamento de sua analista-projetora-de-filmes com sua presença. No que diz respeito às situações rivalitárias de intrusão que trazia para as sessões, terão sido de grande alento as ocasiões em que sua analista pôde fazer as vezes do auxiliar do boxeador, o "segundo" que o acolhe no canto do ringue após cada round. Que cuida de seus machucados, que ajuda a entender o adversário, que aconselha sobre como fazer para vencer a luta. Não é de tão grande ajuda, nesses momentos, trabalhar no sentido de atravessar fantasias para se dar conta de que as situações de exclusão, intrusão e rivalidade vividas não são mais do que repetições de cenas traumáticas não simbolizadas. Muito de uma análise se decide também nas provas da vida. Com um "segundo" a seu lado, se ele voltar, poderá vir a continuar em seu caminho para sentir e pensar que não está só.


Comentário de Elisa Maria de Ulhôa Cintra

O paciente relata, na primeira consulta, a história final de uma análise anterior. Que histórias terá ele contado? Essas primeiras comunicações são, a meu ver, importantes, e ainda mais quando dizem respeito à história final da análise anterior, pois são comunicações ligadas a temores e expectativas ligados à nova situação analítica. A autora do relato escolhe mencionar a seguinte frase do paciente: "Falei tantas vezes em suicídio que, um dia, a (antiga) analista fez uma receita e me entregou. Era uma fórmula para efetivar o suicídio".


Ao ler essas palavras pela primeira vez, "ouvi" o seguinte: "Era uma fórmula para evitar o suicídio". Considerando a falha de minha leitura, pensei que tanto uma fórmula para efetivar quanto para evitar o suicídio seriam atuações do analista, maneiras de estar ou excessivamente implicado ou excessivamente alienado do conflito deste homem, sem conseguir manter uma atitude de verdadeira empatia e de uma relativa distância, ou reserva que permitisse pensar sobre os muitos significados dessa comunicação. O paciente comunica "ter falado tantas vezes em suicídio". Ouve-se quase um cansaço nesta formulação. Cansaço de sua repetição? Da ameaça de algo que nunca chega a se concretizar? Impaciência consigo? A reação curiosa da analista parece revelar isto mesmo: uma reação de impaciência. Muitas perguntas se abrem a respeito do que poderia ter acontecido entre eles, ligado a um assunto tão radical - o desejo de se matar - e que é, ao mesmo tempo, apresentado de uma forma tão trivializada.


Ao tecer meus comentários sobre o caso fui me lembrando de psicanalistas que poderiam vir em nosso auxílio para pensar e fui assinalando algumas referências bibliográficas, caso se deseje pesquisar mais.


No relato dessa primeira sessão, a analista acrescenta que "de qualquer forma havia uma ameaça de morte e uma referência ao desejo de morrer do paciente e dos outros". Isto ressoou em mim como um comentário distante, quase alienado da dor ali expressa, embora seja muito difícil saber se havia transmissão de dor, ou se o estado de alienação já não estava presente no paciente. Lendo o relato, me pareceu que entre os dois se instalou uma transferência paradoxal . Nesse caso, ou o analista fica muito ansioso para tirar a pessoa do sofrimento, ou, de forma paradoxal, se vê ignorando a dor ali evocada; ambas sendo atitudes defensivas perante uma angústia muito intensa.


A continuação do relato revela um paciente que se apresenta de um jeito a tornar-se sempre um pouco desagradável, agindo como se evocasse no outro o desejo de expulsá-lo. A analista diz: "...muitas vezes pensei em interromper o atendimento, mas mantive-o, para evitar uma atuação; talvez por entender que havia uma provocação à exclusão que eu não queria atuar". Acho que não bastava ter evitado uma nova rejeição. Seria preciso ter pesquisado com ele, com maior detalhe, o próprio movimento repetitivo de se tornar desagradável. Ao mesmo tempo que provoca uma expulsão ele esconde/revela a esperança de não ser rejeitado.


Ao atuar assim, o mais importante é que ele está contando algo à analista, em ato, como se dissesse: "se você não me fizer desaparecer, eu me encarrego disto". O que mais está em jogo aí? É uma história de morte que está em jogo aqui; algo que já aconteceu . Não acho que ele queira de fato morrer. De certa forma ele está dizendo que já morreu; a morte psíquica aconteceu há muito tempo, quando ainda era criança. É uma comunicação inconsciente, da qual se pode tirar partido: pois o que aconteceu está se repetindo agora, para não acontecer mais como no passado. Essa necessidade é muito insistente, por isso fica tanto tempo em análise, apesar de suas resistências. O trauma precisa muito ser reconhecido e desconstruído, de algum jeito.


Aqui seria muito importante que a analista reconhecesse a intensidade do traumático, apesar de a indiferença ao passado ter se instalado no paciente. Ferenczi está sempre sinalizando o risco de o analista reatualizar a indiferença que atravessou a cena infantil. Se fosse a supervisora do caso, diria: "o paciente está te comunicando algo muito intenso". Vive perseguido por um trauma que já aconteceu e continua acontecendo; ele não consegue fazê-lo parar de acontecer. Tentaria descobrir qual foi o impacto afetivo sobre a analista. Ela também ficou irritada, como a anterior? Quais seriam os múltiplos significados transferenciais dessa palavra de morte em um primeiro encontro? Será que ele está sondando? ..."não só a minha família, mas até a minha analista anterior tentou facilitar o meu desaparecimento". Disse: "vamos lá, se você quer se matar mesmo, para de ameaçar e vá em frente!". Ou ainda uma pergunta velada, agora dirigida à analista atual: "e você, agora, o que vai fazer?". "Será mais uma a encenar comigo a repetição dessa história de desamor e rejeição vivida por mim até agora e que carrego como um segredo fechado, sem saber muito bem que peso é este?"


Na sequência do relato vejo que a analista percebe muito bem a importância da cena infantil que está sendo evocada aqui; ela se surpreende de ver que ele não liga as histórias atuais de rejeição à história infantil. Uma rejeição muito difícil de engolir e de entender, e que tornou muito difícil engolir e entender uma grande quantidade de coisas em sua vida.


Esse homem tornou-se um acadêmico bem-sucedido, cumprindo a profecia familiar "você é muito inteligente para ficar na cidade pequena". Mas sua inteligência ficou bloqueada para tirar as consequências do que acontece no plano das emoções, para entrar na associação livre, articular passado e presente. Ele recusa as interpretações da analista, não acredita que tais insights poderiam ter algum efeito sobre a dor de viver.


A cena infantil de rejeição aparece meio velada por um elogio e uma racionalização, sugerindo que ele fosse para uma cidade grande por ser inteligente e porque poderia encontrar melhores condições para se desenvolver em um centro urbano maior. Quanta hipocrisia! E quantos não ditos ficam aí concentrados e emudecidos nesta expulsão da proximidade - vergonha, rejeição, violência, desamor, desamparo, ignorância e toda uma gama de afetos negativos que só poderiam evocar o ódio que ardia dentro dele contra tudo e todos.


A descrição do seu ódio é muito nítida em suas fantasias de esquartejar, matar, dar tiros, destruir, "ter um carro que se abria em lâminas que matariam todos que o atrapalhavam no trânsito e de que poderia destruir qualquer um que o desconsiderasse".


Ele acabava ficando como o único responsável por seu ódio e continua ignorando a violência que havia explodido sobre ele no passado. Um dos trabalhos da análise seria desconstruir esta situação imaginária de ser o único responsável pelo ódio; seria preciso revelar a trama confusa de relações que faziam parte de sua história. A analista tenta aproximá-lo disto, mas encontra o terreno fechado, por ataques aos vínculos que poderiam estabelecer ligações de sentido.


O ódio sinaliza a impossibilidade de realizar o luto da rejeição infantil; encobre uma dor muito difícil de ser admitida, que se encontra presente, mas foi silenciada; está encriptada. "Minha compreensão é de que há uma reatualização constante de uma cena infantil da qual nada pode ser alterado ou relativizado; estamos frente a frente com uma cripta." Cena que se repetia nos relacionamentos amorosos, nas relações de trabalho, e na análise.


A noção de cripta, onde os acontecimentos infantis estariam sepultados em uma forma indizível, foi algo pensado por Nicolas Abram e Maria Torok . São acontecimentos que escaparam à narração, foram engolidos sem mastigação e sem passagem à palavra. Dão origem a passagens ao ato maciças e não podem ser integradas ao psiquismo; estão dissociados. A cripta é o nome de um lugar psíquico onde os afetos estão congelados: a vergonha, o preconceito, os afetos negativos; nada tem acesso a alguma palavra justa. O que ficou na cripta fica se repetindo, se repetindo...; precisa ser des-encriptado. A procura compulsiva de sexo dissociado da emoção é uma repetição mortífera de um desejo de proximidade, de intimidade. Um sexo que não tem nada a ver com prazer; ou um prazer rodeado de desprazer por todos os lados.


Aquilo que não pode ser lembrado, já nos dizia Freud em 1914, será repetido e se manifestará em atuações repetitivas, que não podem ser transformadas e que, ao contrário, deformam o eu e se transformam em reações terapêuticas negativas.


Neste homem solitário os traumas não puderam ser chorados e as palavras depreciativas dos familiares transformam-se em vozes interiores de autorrecriminações e autodepreciações. Estão em seu psiquismo sem que ele saiba muito bem de onde vêm, neste lugar que torna a perda inconfessável: para proteger-se da dor, a palavra é sepultada através de uma clivagem do eu. Algo mais intenso que uma angústia foi apagado - vamos chamá-lo de agonia - e gerou um silêncio que faz muito barulho.


Ele vive uma agonia impensável, tal como descrita por Winnicott e Roussillon . A analista percebe com clareza que a agonia não é analisável, ela solicita apenas uma presença e um compartilhar de afeto, para que se torne um pouco mais tolerável.


"Embora a agonia não seja interpretável, tudo o que puder torná-la inteligível para o paciente deve ser cuidadosamente reconstruído. Tolerar e tornar inteligível a agonia, pode, ao longo do tempo, permitir que saia do centro do estado emocional do analisando e que se torne interpretável e integrável nas coordenadas clássicas do funcionamento psíquico" .


A associação livre, embora seja um convite dirigido ao paciente desde o início, é com frequência algo a ser conquistado, lentamente, através dessa primeira escuta. Nesse caso, buscar a inteligibilidade da vivência de agonia psíquica é o essencial da tarefa psicanalítica.


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