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Resumo
Resenha de Sylvia Loeb, Homens, São Paulo, Ed. do Autor, 2017, 94 p.


Autor(es)
Caio Liudvik
é cientista social com mestrado, doutorado e pós-doutorado no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo; jornalista, escritor e tradutor.



Notas

1.S. Loeb. Contos do divã- pulsão de morte e outras histórias. São Paulo: Ateliê, 2007.

2.S. Loeb. Homens. São Paulo: Ed. do Autor, 2017. 94p.

3.S. Loeb. Amores e tropeços. São Paulo: Terceiro Nome, 2010.

4.S. Loeb. Heitor. São Paulo: Terceiro Nome, 2012.

5.R. Fonseca. Ela e outras mulheres. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

6.www.dicionariodenomesproprios.com.br, consultado em 5 fev. 2018.

7.S. Loeb, op. cit., p. 11.

8.S. Loeb, op. cit., p. 8.

9.S. Loeb, op. cit., p. 25.

10.    S. Loeb, op. cit., p. 25.

11.    S. Loeb, op. cit., p. 27-28.

12.    S. Loeb, op. cit., p. 31.

13.    S. Loeb, op. cit., p. 67.


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 LEITURA

O sexo perplexo [Homens]

The perplexed sex
Caio Liudvik

Mais que escrever sobre a psicanálise, escrever a clínica, com o rigor mas sem os limites de um discurso teórico. E pela via da literatura, sensibilizar um público mais amplo para a atualidade dos conceitos e sobretudo da ética criada por Sigmund Freud, há mais de cem anos, como modo peculiar de desvelar a condição humana e a resgatar, senão do sofrimento inevitável do viver, ao menos da cota de mal-estar decorrente de uma relação impensada com as energias psíquicas que nos constituem.

Essa, grosso modo, era a motivação confessa da paulista Sylvia Loeb quando de seu livro de estreia, Contos do divã- pulsão de morte e outras histórias[1]. E é um diferencial que se mantém neste quarto livro de sua lavra - o quarto de ficção -, a coletânea de microcontos Homens[2]. Ela também é autora de outra coletânea no gênero, Amores e tropeços[3], e da novela Heitor[4], publicadas pela editora Terceiro Nome.

Em vez de personagens sob atendimento clínico, como no livro de 2007, porém, em Homens é a psicanálise que sai, por assim dizer, do consultório, desce ao meio do redemoinho em que as potências bem pouco celestiais do inconsciente moldam os destinos dos homens, mais especificamente de indivíduos do sexo masculino, cuja pluralidade de configurações se vê cada vez menos obediente a qualquer uniformização submetida ao cabresto da biologia e dos velhos estereótipos sociais.

O livro, espécie de réplica ao livro Ela e Outras Mulheres, de Rubem Fonseca[5], apresenta uma série de 36 narrativas, muitas delas não maiores do que uma página, e cujos títulos derivam do nome de seus protagonistas, dispostos de A a Z, isto é, de Adão a Zenon. Um dos sabores da leitura, aliás, está justamente em confrontar esses nomes e os respectivos perfis, pelo recurso à etimologia, como os que encontramos num simples dicionário de nomes[6]. Vide, por exemplo, o caso de Beltrão, nome que remeteria à imagem do "corvo brilhante", e que no livro batiza um personagem "negro como a meia-noite", e que "corveja pelas ruas vazias" à caça de carniça, ou seja, de aventuras sexuais de segunda categoria, em virtude das inabilidades de Beltrão, apesar do porte majestoso, para seduzir as presas jovens e frescas que gostaria de devorar[7].

Outro desventurado no amor é Cândido (alvo, ingênuo, imaculado). O flash de sua vida, registrado no conto com seu nome, mostra-o na companhia das pombas dóceis, todas femininas, com que povoa a solidão de seu apartamento. É quando surge a fatídica Paloma (palavra que em espanhol quer dizer pomba), cujo olhar de chuva (eco, talvez, dos olhos de ressaca de Capitu) é na verdade anúncio de temporal, que porá fim ao sossego da vida domesticada de outrora.

Esse conto é um exemplo de como Sylvia Loeb consegue transpor, para a carne e o osso de personagens e destinos literários, mas sem os artificialismos de uma mera literatura de tese, temas clássicos da psicanálise, como o enigma do feminino para o homem (afinal, o que quer uma mulher?).

Na tradição judaico-cristã, o tema da femme fatale remonta, é claro, à figura de Eva, que no conto de abertura do livro, "Adão", aparece representada pela prostituta Jakeline. Vale dizer que Jaqueline, nome de origem bíblica, feminino de Jacó, significa aquela que vem do calcanhar. Difícil não prosseguir a associação livre (ou, no nosso caso, o exercício junguiano da amplificação) que remeteria ao calcanhar de Aquiles, símbolo do ponto fraco de uma pessoa. E não de uma pessoa qualquer: Aquiles, um dos maiores heróis da mitologia universal, era um varão cuja vulnerabilidade de nascença foi, não por acaso, obra da mãe, que esqueceu de banhar apenas essa parte do corpo dele - a parte que ela segurou enquanto o mergulhava - nas águas da imortalidade.

Jakeline, o calcanhar de Aquiles de Adão, é "magrinha, tímida, de fala infantil, seus modos pediam proteção"[8], e não precisamos incorrer em maiores spoilers para aludir ao abalo que causará no paraíso de altas simetrias que regiam, não sem uma citação de Rui Barbosa em frente à cama, na parede do quarto, a rotina do policial Adão, quando se apaixona por ela. Ele baixou a guarda da severidade paternal habitual do seu trato com os maus elementos que era encarregado de reprimir. E, seguindo um velho script do quimérico heroísmo masculino, quis salvar uma pobre decaída, mas foi ele quem se viu desviado (para lembrar a etimologia do termo sedução) da rota.

Outra narrativa com densidade mítica subjacente é a que leva o nome do deus grego do vinho e do teatro, "Dionísio". O personagem homônimo, aqui, é retratado num instante crítico na vida de todo homem, a iniciação sexual.

No momento inicial da história, o vemos descrito como "um penduricalho de João. Aprendeu muito com ele: as artes da cantada, de enganar, de cometer pequenos furtos"[9]. A descrição talvez possa remeter à escultura Hermes com o infante Dionísio, tradicionalmente atribuída a Praxíteles (século IV a. C.). A célebre estátua, encontrada no Templo de Hera, em Olímpia, representa Hermes levando o pequeno Dioniso, seu irmão por parte de pai (o onívoro Zeus), em seu braço esquerdo e levantando a mão direita para lhe mostrar, provavelmente, um cacho de uvas, justamente o fruto que lhe seria consagrado.

Ora, Hermes, mais conhecido por seu nome romano, Mercúrio, era não só o mensageiro/mediador por excelência entre o céu e a terra, e guia das almas ao mundo subterrâneo, mas também protetor, por exemplo, dos ladrões, e inventor dos números e do alfabeto. Essas funções arquetípicas podem ser entrevistas na relação entre Dionísio e João, para voltarmos ao conto.

Dionísio era vítima de bullying, por conta da "testa achatada, os cotós curtos (cotó pode ser estilete, cutelo; designa também pessoa de pequena estatura, aleijado, rejeitado no amor), a coluna torta". E quando começavam a rir dele, "abaixava a cabeça imensa, dobrava o corpo sobre os braços curtos e sacudia as costas em soluço descontrolado. Os mais cruéis continuavam com a gozação. João foi o primeiro a respeitá-lo e Dionísio devotava ao amigo fidelidade total".

Tal fidelidade, não sem conotações libidinais que remetem à função pedagógica que a relação entre mestre e discípulo tinha na Grécia antiga, envolvia, por parte de Dionísio, gestos como engraxar os sapatos, comprar cigarros, trazer café forte e fazer massagem nas costas.

Que a mulher não seja, para a psique masculina, apenas a ameaça de ruína, mas também o prazer que salva, fica claro no impacto que tem para Dionísio, ser, enfim, desejado por uma certa Marluce. Ela ficou impressionada com o tamanho do seu documento, que a levou ao êxtase, do qual ele também retornou outro. "Catatau, baixinho, nanico, cara de duende. Mora numa casca de noz? Numa cova de dente? Andava com as mãos nos bolsos tocando de leve o novo penduricalho"[10].

Já "Domingos" nos conta a história de um personagem que nasceu com cardiomiopatia, distúrbio que gera fraqueza no músculo do coração. Aos dois anos recebeu um outro coração, de um bebê que acabara de morrer. Viveu 14 anos com dois corações. No início, tudo correu bem, mas os remédios interferiram na qualidade de vida, provocando tumores. As complicações decorrentes o levaram a ser desenganado pelos médicos. Mas ele sobreviveu. Contudo, os sofrimentos - seus e dos pais, sempre com o coração na mão, na pungente imagem do narrador - gravaram em sua alma feridas que também sobreviveram. "Sente uma espécie de buraco negro que não sabe bem onde, mas isso não preocupa seus médicos". Feliz, ri por qualquer coisa, virou celebridade, "só não entende uma sensação que se aloja lá, do lado esquerdo, entre as costelas, uma espécie de frio, uma espécie de não sabe o quê"[11].

São alusões ao legado do trauma, nesse caso, mas que podem ser tomadas como figura desse buraco negro que a todos nos habita, o inconsciente, com suas dores irredutíveis ao orgânico, embora tantas vezes replicada nele, e que nossa sociedade medicalizante e pragmática tenta cada vez mais dopar, adestrar, silenciar.

Isso não deixa de ser, de certo modo, uma herança dos tempos patriarcais em que o homem podia se pretender a dignidade de o sexo forte. É cada vez menos o caso, apesar da resistência de setores conservadores, num arco de atitudes que vai da nostalgia idealizadora à raiva não raramente obscurantista, como na tentativa, ano passado, de se impedir a vinda ao Brasil da filósofa norte-americana Judith Butler, grande referência intelectual na discussão das questões de gênero na atualidade. 

Um conto como "Evandro" (homem bom, ou homem cheio de virilidade, valente) é especialmente interessante para pensar a contradição psíquica subjetiva como reflexo de um choque de valores vigente em nível coletivo.

A história, com a linguagem ágil e elíptica que dá o tom no livro todo, fala de um rapaz que, a despeito da insígnia viril imposta ao seu RG, sofria alguma espécie de bloqueio com as mulheres. Nada, de mandingas e promessas a sessões corretivas com o terapeuta comportamental, funcionou. Um chamado interior insistia em contradizer essas fachadas, assim como o tapete que Penélope, na Odisseia, desfazia em segredo para despistar a expectativa alheia (no caso, a dos pretendentes) e manter viva a esperança do reencontro do seu verdadeiro varão.

"À noite, sozinho em seu quarto, diante do espelho, tornava-se Evandro, o nomeado pela mãe. Seus olhos viam um homem musculoso, de olhar negro, que o olhava sem pudor, sem piscar. Da garganta, uma voz que acariciava seus ouvidos, modulada e grave. Sabia que se fosse olhado dessa maneira, sentiria calor no corpo todo e uma imensa vontade de ceder". E, num deslocamento de foco narrativo que traduz a brecha para que o sujeito enfim fale em primeira pessoa, ao invés de ser falado pelos outros: "Fecharia os olhos e me entregaria"[12].

É notável a capacidade da autora em colocar os conceitos a serviço da vida, e não o contrário, a ponto de operarem sem precisar ser explicitados para que o leitor familiarizado os reconheça. Vide a evocação tácita do conceito lacaniano de gozo, nesta reflexão silenciosa do personagem Samuel, um sacerdote: "Eu quis ser padre para ouvir as confissões do mundo. Esqueceria meus pecados. Qual o quê! Imerso nos dos outros, os meus se revelaram piores. Como não posso fugir de mim, me regozijo. É a forma que arranjei para me punir: ter nojo do meu prazer"[13].

Embora não falte também a denúncia de abusos sexuais contra menores - caso de "Professor Williams" - e agressão sórdida a mulheres, por exemplo em "Romero" e "Zenon", Loeb consegue se situar numa posição de equilíbrio nestes tempos em que, como efeito colateral de protestos e agendas políticas em si mesmas legítimas, o homem muitas vezes se vê criminalizado como uma besta-fera.

Com a extimidade, lembrando aqui o termo lacaniano, propiciada pela distância íntima de seu olhar de mulher e escuta de analista, mostra um caminho para além da ditadura do lugar de fala, mostra que as diferenças podem se comunicar, que o si-mesmo pode romper com a mesmice e se abrir à alteridade, tarefa ética, e até política, para a qual a psicanálise é instrumento essencial. Ainda mais se imbuída das virtudes da imaginação literária, caso de nossa autora, o que permite que o próprio discurso psicanalítico se renove no desafio de, no corpo a corpo com as paixões de homens inventados mas bastante verossímeis, ir além de si mesmo, de se abrir às dimensões da vida que a teoria pode ajudar a pensar, mas jamais aprisionar em algum estéril dicionário de símbolos junguianos ou num Freud explica reducionista e mecânico.

As tensões que nos marcam, como sujeitos e sociedade divididos, pedem esse tipo de humildade para que as opacidades do real e os novos enigmas da alteridade fecundem menos diabolizações mortíferas do que uma cultura do convívio e da compreensão. Um desafio tanto mais urgente no cotidiano de nós homens, que, depostos do trono de sexo forte, e tendo de lidar com a poderosa irrupção do arquétipo feminino, somos hoje - vemos nos sensíveis retratos de Sylvia Loeb - sobretudo um sexo perplexo.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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