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Resumo
Resenha de Sigmund Freud, Manuscrito Inédito de 1931, edição bilíngue, São Paulo, Blucher, 2017, 120 p.


Autor(es)
Berta Hoffmann Azevedo
é psicanalista, mestre em psicologia clínica pela PUCSP, professora e supervisora clínica da Faculdade de Psicologia da Universidade São Marcos, membro filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de São Paulo e autora do livro Crise pseudoepiléptica: corpo. histéria e dor psíquica (Coleção Clínica Psicanalítica) da Casa do Psicólogo.


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 LEITURA

Freud e a religião cristã [Manuscrito Inédito de 1931]

Freud and the Christian religion
Berta Hoffmann Azevedo

Apostar em uma pista e percorrê-la é mérito de um bom pesquisador. A obra que agora temos em mãos é produto de um achado casual que Alexandre Socha animadamente rastreou num trabalho investigativo que nos apresenta no prefácio do livro.

Graças a isso é possível, em 2018 - quem diria? - oferecer uma resenha de um texto de Freud inédito em português.

O recém-lançado manuscrito de 1931 havia sido escrito por Freud com o destino de tornar-se o primeiro capítulo do livro Thomas Woodrow Wilson: a psychological study, realizado em parceria com William C. Bullitt. Ele de fato, em sua versão com cortes, compôs o livro que veio à luz em 1966. O manuscrito na íntegra foi encontrado por Paul Roazen apenas em 2004 em meio a outros documentos de Bullitt depositados na Universidade de Yale, Estados Unidos. O que descobrimos no posfácio de Luís Carlos Menezes é que os cortes da versão original não haviam sido poucos nem sem consequências. Eles quiçá sejam responsáveis pela dificuldade da comunidade analítica em reconhecer aquela como uma produção freudiana e justificam a recepção entusiasmada dessa nova versão.

O livro se apresenta em versão bilíngue (português e alemão), tradução realizada por Elsa Vera Kunze Post Susemihl, que também oferece suas "Notas sobre alguns verbetes", e é ainda bem arrematado com a orelha de Renato Mezan, que afirma ser essa a exposição "mais concisa e clara feita por Freud dos conceitos fundamentais da psicanálise".

O projeto para tal escrita chegou a Freud quando, abatido, recebeu a visita de Bullitt enquanto se encontrava em tratamento para pneumonia no Sanatório de Scholoss Tegel, nas redondezas de Berlim. O jornalista e diplomata americano, com quem Freud mantinha correspondência regular na década anterior, havia sido conselheiro do então presidente Thomas Wilson na ocasião do Tratado de Versalhes, e pretendia escrever uma biografia crítica a seu respeito. O tratado de paz assinado após o fim da Primeira Guerra Mundial impôs aos derrotados medidas que aprofundaram a crise financeira e o clima de revanchismo que criaram as condições para a ascensão do nazismo e a Segunda Guerra Mundial.

A escrita sobre o homem que, a despeito de seu poder, fracassou em levar a cabo seus planos de paz, tendo sucumbido à neurose, se realizou em meio à turbulência do início da década de 1930, quando já estava claro que este fracasso implicava contundentemente no destino da Europa e do mundo.

O manuscrito se dirige ao público norte-americano e apresenta, em linguagem clara e despretensiosa, não apenas um resumo de suas ideias, no estilo do que publicaria em seu Compêndio de Psicanálise (1940 [1938]), mas também ideias originais, como lemos nas linhas sobre a figura de Jesus Cristo.

Um texto causador de certa sensação de unheimlich, ao mesmo tempo estranho e familiar, que se destaca pela simplicidade com que aborda temas complexos e espinhosos mesmo diante da pressão de não publicar. A querela que se criou com Bullitt, e fez postergar a publicação do livro em conjunto, se deu ao redor de temas com tais características, e levou a impasses quase incontornáveis. As discordâncias entre ambos possivelmente centravam-se nas hipóteses oferecidas por Freud a respeito da religião cristã: a identificação à figura de Jesus Cristo conciliaria duas inclinações antagônicas "ser totalmente passivo e submisso em relação ao pai e completamente feminino e, por outro lado, ser totalmente masculino, poderoso e dominador como o próprio pai" (p. 79). Como cristão devoto e em vias de envolver-se novamente com a política, como nos lembra Socha em seu prefácio, Bullitt preferiu adiar a publicação a prejudicar suas aspirações futuras com o envolvimento em tamanha polêmica.

O impasse chegou a uma solução quando, envelhecido e agradecido pelos esforços de Bullitt em favorecer sua fuga para Londres, Freud consente com a versão que suprimia tais passagens.

O posfácio à versão que agora temos em mãos, escrita por Menezes, destaca as diferenças entre o que se lia em 1966 e o que podemos ler agora: a radicalidade da sexualidade e o incômodo que ela poderia despertar em seus leitores estavam lá subtraídas. Não apenas no que diz respeito ao cristianismo, como também ao complexo de Édipo e suas inclinações negativas. Passagens que mostram resistência a qualquer determinismo biologizante, que Menezes muito bem ressalta terem sido cirurgicamente retiradas do texto por Bullitt, poupando os leitores de 1966 do tema espinhoso da pulsão sexual.

Não é de hoje que a pulsão sexual cai vítima da supressão por parte dos autores que tentam transmitir uma psicanálise mais palatável - sacrificando, em nome disso, sua essência. As subtrações ocorridas na versão até então publicada não são inofensivas, elas retiram da obra sua complexidade em nome de uma simplificação que a tornaria mais aprazível. Freud não tendia a tais concessões: "Simplificar é muito louvável, mas não devemos sacrificar a verdade pela simplicidade" (p. 49).

Se é certo que Freud já marcava firme posição em seus Três ensaios (1905) quando afirma existir entre a pulsão e seu objeto apenas uma soldadura, ou quando responde contundentemente à carta da mãe de um homossexual em 1935, é admirável reconhecer mais uma vez sua capacidade de dialogar com temas contemporâneos. Lemos em sua pena: "todos os seres humanos são constituídos em dupla camada, são bissexuais. Cada indivíduo singular, seja homem ou mulher, é composto por elementos de masculinidade e elementos de feminilidade" (p. 39). "Masculinidade anatômica e masculinidade psicológica com frequência não se apresentam juntas [...] A psicologia precisa aceitar esses fatos, não precisa explicá-los" (p. 43).

Após expor toda uma gama de possibilidades de investimento, Freud ainda arremata "toda essa diversidade é sem importância diante do fato de que a libido, desde que não tenha se mantido narcísica, se distribui em relações objetais tanto masculinas quanto femininas" (p. 45). São posicionamentos que já se poderia depreender de seus textos, mas que explicitados no manuscrito corroboram a ideia de que Freud é capaz de responder a problemas atuais e, como que se levantando do túmulo, viesse marcar posição em discussões muito vivas em 2018.

Ao se referir à feminilidade, a descreve como "tendências que têm a característica de passividade a elas aderida, sobretudo a necessidade de ser amado, mas também inclinação a se submeter a outros" (p. 41). Conciliar essas tendências àquelas ativas tende a ser especialmente conflitivo para os meninos, como já demonstrava Freud em seus historiais clínicos ("Pequeno Hans", "Homem dos Ratos", "Schreber", "Homem dos Lobos") e volta a afirmar em 1931. A angústia de castração encontra então seu corolário, repercutindo no dilema edípico, "tarefa mais difícil colocada a uma criança no seu desenvolvimento psíquico" (p. 57).

Freud então retoma de maneira bastante contundente as teses já desenvolvidas em O futuro de uma ilusão (1927), onde aborda a tendência do homem à ilusão presente em qualquer doutrina religiosa.
 

Em muitos casos, um homem cuja posição passiva em relação ao pai não encontrou expressão direta pode consegui-la por meio da identificação com Jesus Cristo. Essa identificação é, por assim dizer, um acontecimento que se dá com bastante regularidade na vida psíquica de um cristão e pode ser demonstrada em pessoas totalmente normais [...] essa identificação é capaz de uma façanha: a conciliação como que por milagre de dois desejos extremamente potentes e absolutamente antagônicos por meio da satisfação simultânea de ambos (p. 79).

 

Já conhecíamos as linhas sobre o cristianismo publicadas em Moisés e a religião monoteísta (1939 [1934-1938]), e a analogia estabelecida por ele entre processos neuróticos e religiosos, mas foi pensando em Wilson, presidente americano com inclinações messiânicas e filho de pastor presbiteriano, que Freud encontrou ocasião para trabalhar a atitude erótica feminina que se pode depreender da identificação com Jesus Cristo, hipótese que não aparece repetida em nenhum outro texto conhecido.


Como vemos, as páginas que agora lemos apresentam não só um apanhado dos desenvolvimentos teóricos até 1931, e outras ideias originais, como também e fundamentalmente, transmitem uma ética no trato com a coisa psíquica. A ética da complexidade, que resiste a simplificações.


Uma bela porta de entrada para novos interessados em Psicanálise e um refresco para aqueles que não se cansam de encontrar em Freud inspiração para seguir pensando.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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