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Resumo
Resenha de Eliana Rache e Bernardo Tanis (organizadores), Roussillon na América Latina, São Paulo, Blucher, 2017, 228 p.


Autor(es)
Julia Eid Eid
é psicanalista, membro efetivo do Departamento Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientiae e aluna do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

 



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 LEITURA

Navegando pelas águas de René Roussillon [Roussillon na América Latina]

Sailing the waters of René Roussilon
Julia Eid Eid

A leitura de Roussillon na América Latina nos oferece um mergulho na obra desse expressivo nome da psicanálise contemporânea. Organizado por Eliana Rache e Bernardo Tanis, o livro é fruto do esforço de psicanalistas latino-americanos que trabalharam a obra de Roussillon e estiveram com o pensador no Congresso da Federação Psicanalítica da America Latina - FEPAL, filiada à International Psychoanalytical Association - IPA, realizado em Cartagena em 2016. A aproximação entre analistas de diversos países do continente contribui para enriquecer o que poderíamos nos atrever a pensar como uma "psicanálise latino-americana".

A obra reúne excelentes artigos marcados pela força e pela consistência do trabalho de cada um de seus autores, que, além da intimidade com o pensamento de Roussillon, mostram-se sensivelmente afinados com o fazer da clínica psicanalítica. São contribuições que sublinham como o pensamento de Roussillon sustenta um hiato vivo e arejado entre teoria e clínica, ponto abordado cuidadosamente por Bernardo Tanis.

René Roussillon se dedica, há décadas (Roussillon, 2006, 2011, 2012), ao estudo das patologias-limite, com especial atenção ao que o autor nomeia por sofrimento narcísico-identitário, modalidade de sofrimento que desafia os psicanalistas a encontrar e criar caminhos de trabalho que diferem do que podemos chamar de análise tradicional, tanto no que diz respeito ao dispositivo analítico (setting) quanto ao modelo clássico de interpretação.

A leitura dos diversos artigos que compõem essa coletânea leva-nos à compreensão de que o indivíduo com configurações narcísico-identitárias não vive uma coesão interna. Sofre porque não se encontra com um sentimento de Eu, por estar preso num impasse existencial. Para tentar proteger-se de algo da ordem do traumático, por vezes defende-se desligando-se de si mesmo. O analista vê-se diante de dois funcionamentos psíquicos: um que se insere na lógica do princípio do prazer-desprazer, e outro que obedece à urgência da compulsão à repetição, buscando incessantemente a atualização do traumático. Os desafios impostos por essa clínica não são pequenos. Não à toa, os artigos da coletânea procuram apresentar tanto aspectos da metapsicologia de Roussillon, quanto seus ecos na clínica, propondo caminhos para pensar o trabalho com esses pacientes.

No artigo que abre o livro, Bernardo Tanis nos leva do macro ao micro - das questões culturais à singularidade de um recorte clínico -, trabalhando a inserção das modalidades de sofrimento da contemporaneidade dentro da cultura. Tanis levanta uma questão pertinente: "será que as condições de excesso, fragmentação e paradoxos vinculares, entre outras da chamada condição pós-moderna, guardam alguma correlação com a dominância do ato-sintoma em lugar de favorecer a capacidade de simbolização e a função onírica?" (p. 33). Seguindo tal hipótese, propõe que o trabalho com a clínica da não neurose - marcada pela escassez de representação, pelas compulsões e passagens ao ato - consiste em inscrever o sintoma-ato numa cadeia de sentidos. Em suas palavras, "estará em jogo estabelecer um tecido simbólico capaz de cerzir o desgarrado" (p. 32).

No segundo capítulo, Eliana Rache nos convoca a refletir em profundidade sobre o pensamento de Roussillon: expõe, de modo primoroso, conceitos-chave do autor. Apresenta pontos em relação ao enquadre e ao que ele nomeia como enquadre interno do analista; mostra-nos o entrelaçamento do autor com Winnicott, sem deixar de sublinhar seu extenso conhecimento da obra freudiana, sobretudo os desenvolvimentos a partir de 1920. Em constante articulação entre o pensamento de Roussillon e a clínica dos dias de hoje, Eliana destaca a importância que o autor confere à necessidade de o analista ir em busca da verdade histórica do sujeito, como forma de transformar o traumático em algo da ordem do representável. Afirma, assim, que "as realidades históricas traumatizadas estão em sofrimento, em carne viva, sem o envoltório do símbolo para protegê-las - precisam ainda ser ligadas e narradas" (p. 72).

Pelas águas da clínica

Quando a dor e o sofrimento não encontram uma via de representação, podem se atualizar no corpo, no ato. Estamos no campo do não verbal, dos signos menos elaborados, das marcas sensório-motoras, do registro do corpo. Segundo Roussillon, o analista deve estar atento a essas "mensagens" que portam vestígios do traumático: são traços a partir dos quais poderá sonhar a história do paciente, como nos lembra Marion Minerbo, procurando, por meio do trabalho analítico, introduzi-los na lógica do princípio do prazer-desprazer.

Em seu artigo, a argentina Leonor Valenti de Greif apresenta um recorte clínico em que acompanhamos sua disponibilidade para escutar a linguagem pré-verbal que se apresentava por atuações da paciente. Na vivência caótica dessa paciente, a psicanalista escuta algo vindo dos primórdios da constituição subjetiva: é vivido, em ato, um jogo primitivo de presença e ausência, que a analista se dispõe a "jogar", procurando e encontrando sua paciente uma e outra vez. Vemos nesse caso como o dispositivo analítico vai enquadrando e organizando os tempos, os ritmos, e como a paciente aos poucos pode encontrar alguma organização em seus próprios processos internos.

Ao privilegiar o aspecto do enquadre, Ana María Chabalgoity - do Uruguai - reflete sobre os impactos das mudanças de ritmos das sessões para esse tipo de paciente, referindo-os ao ritmo vivido na relação com os primeiros objetos significativos e sua correlação com o desenvolvimento da capacidade de simbolização. O ritmo, comumente pensado em termos de presença-ausência e continuidade, traz marcas de invasão-abandono, descontinuidade e imprevisibilidade no sofrimento narcísico-identitário. A autora sugere que tal ritmicidade se atualiza na situação transferencial e pode ser trabalhada pelo analista não em termos de resistência, mas como uma nova vivência da ritmicidade experimentada caoticamente com o objeto primário, que assim tem a chance de ser ressignificada pela situação analítica.

Através do olhar dos distintos autores, formamos uma ideia do pensamento de Roussillon, que, sem perder suas raízes freudianas, revela-se próximo ao de Winnicott, como ao utilizar seu conceito de capacidade de usar o objeto ou quando, ancorado no jogo do fort-da, propõe pensar a situação analítica a partir do modelo do jogo, atravessado pela noção de transicionalidade - aspectos muito bem trabalhados no artigo de Eliana Rache. Em consonância com Roussillon, os autores dessa coletânea têm a habilidade de fazer uso de conceitos essenciais de Freud, Winnicott, Roussillon, dentre outros grandes psicanalistas. Dialogam com eles a partir da clínica e usufruem com liberdade daquilo que aprenderam com os mestres.

Sublinho esse ponto não por acaso. Encontramos nas problemáticas narcísico-identitárias as marcas da violência vivida com o objeto - e uma impossibilidade de fazer uso dele. A colombiana Martha Isabel Jordán-Quintero nos apresenta o modelo de Roussillon para descrever as problemáticas narcísico-identitárias, lembrando-nos dos tempos do traumático descritos por Winnicott. O traumático vivido nos primórdios da vida, num tempo em que ainda não há uma clara diferenciação entre eu/outro, leva tais indivíduos a lançar mão de defesas violentas: para sobreviver ao terror, abandonam-se de si mesmos, com graves consequências. Como diz Roussillon, "quando alguém abandona o próprio corpo, para onde vai?" (p. 100). Presos num impasse existencial, são indivíduos que vivem paradoxalmente fora de si mesmos e perdidos dentro de si mesmos. Segundo a autora, o que está em jogo é um desligamento do sujeito de sua própria cena interior. O norte do trabalho psicanalítico com tais indivíduos envolve, nas palavras de Roussillon, "procurá-lo em todos esses lugares onde ele se refugiou, para tentar trazê-lo novamente à cena, recuperá-lo" (p. 101).

As situações clínicas - generosas nesse livro - nos carregam para os impasses e caminhos que cada analista encontra no trabalho com seus pacientes. No artigo escrito pelas uruguaias Ana María Chabalgoity e Ema Ponce de León Leiras, podemos acompanhar recortes do atendimento de um paciente em extremo sofrimento, no qual, aos comentários das autoras, se acrescenta os do próprio René Roussillon, a quem o caso foi apresentado no Congresso da Fepal de 2016. Sensível aos movimentos do paciente, Roussillon escuta o impasse existencial em que ele se encontra ao dizer à analista, na primeira entrevista, "a vida me vive". As autoras apontam que na clínica do sofrimento narcísico-identitário o sujeito está perdido pois "se retira da experiência, dominado pelo terror e pela angústia extrema" (p. 131). O vazio, herança dessa retirada, é preenchido pela incorporação de um objeto melancólico - teorização de Roussillon detalhadamente exposta no capítulo de Jordán-Quintero, que aproxima o sofrimento narcísico-identitário da melancolia.

O artigo de Jani Santamaría Linares, do México, é um sensível relato clínico com uma paciente imersa em um ambiente psíquico árido, desértico. Intimamente ligada às suas vivências contratransferenciais, a analista encontra meios de manter-se viva diante de uma quase-morte psíquica da paciente. O caminho dessa análise, impossível de ser sintetizado neste espaço, nos remete às marcas das relações com os objetos primários e ao lugar fundamental que estas ocupam na constituição subjetiva. Muitas vezes exercendo funções do objeto primário - aspecto bastante trabalhado por Roussillon no que tange às especificidades do lugar do analista na clínica do traumatismo narcísico-identitário -, a analista narra uma abertura que esta paciente passa a viver para seu mundo interno e para o outro. Enfatiza, ancorada em Roussillon, que "o caminho de si mesmo para si mesmo passa pelo outro, por esse primeiro outro que é geralmente a mãe" (p. 194).

Navegando pelas sombras
Essa passagem pelo outro, descrita de forma precisa por Linares, pode ter impactos nefastos. Marion Minerbo nos oferece uma formulação sobre as origens do supereu cruel, encontrando suas raízes nos aspectos abusivos e paranoicos do objeto primário. A autora, com sua escrita organizada e sistematizada, nos aproxima das relações e reações que estariam nas origens do supereu cruel, conversando com algumas ideias de ­Roussillon. Por meio de um exemplo clínico, seu trabalho nos mostra, como se pudéssemos ver em camadas, as projeções e identificações envolvidas na formação do supereu cruel e ilumina alguns caminhos para o trabalho analítico.

Seguindo pelas sombras, o artigo de Luciane Falcão apresenta ideias de Roussillon sobre o conceito de pulsão de morte, percorrendo pontos importantes e por vezes ambíguos de Além do princípio do prazer. Uma das questões expostas pela autora é a proposta de Roussillon de deslocar o princípio do prazer do lugar de princípio fundamental do aparelho psíquico. A autora argumenta que o que é reinvestido alucinatoriamente no aparelho psíquico "são os traços mnésicos da experiência com o objeto, quer este tenha sido satisfatório ou não satisfatório. Há um efeito de marca - empreinte -, da qual o sujeito não consegue se libertar" (p. 169). Assim, uma vez que o encontro com o objeto produz satisfação, o aparelho psíquico se organiza sob a primazia do princípio do prazer; quando o encontro com o objeto produz um traço de não satisfação, o reinvestimento da experiência ficaria fora do princípio do prazer. Proposta ousada e, no entanto, fiel ao pensamento de Roussillon, que jamais se volta para o sujeito sem olhar para o objeto e seus efeitos na constituição subjetiva.

Navegar é preciso...

A leitura dessa coletânea nos convoca a navegar pelas águas de Roussillon a bordo das embarcações desses distintos psicanalistas - experiência que nos leva para dentro de seus consultórios, nos aproximando da experiência e do pensamento clínico de cada um dos autores. Aquele que se dispuser a transitar por essas águas - por vezes sombrias - não desfrutará necessariamente de uma viagem tranquila e harmoniosa. Tal empreitada nos coloca diante de realidades conturbadas, desertos psíquicos, pobrezas simbólicas e grandes desafios clínicos. Apesar disso, navegar pelas águas de Roussillon por meio do olhar desses psicanalistas pode ser prazeroso e, por que não dizer, propiciar certo alento, já que esses textos não são apenas exercícios teóricos, mas ilustram e propõem caminhos de trabalho para as problemáticas narcísico-identitárias. Não estar só nessa empreitada pode ser um bom começo.

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