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Resumo
Resenha de Sérgio Telles, Posto de Observação, São Paulo, Blucher, 2017, 382 p.


Autor(es)
Fernanda Fazzio Fazzio

é psicanalista formada pelo Instituto Sedes Sapientiae, mestranda em Psicologia Clínica e especialista em Semiótica Psicanalítica pela pucsp.




Notas

1.H. O'Dwyer Macedo. Os ensinamentos da loucura: a clínica de Dostoiévski: Memórias do subsolo, Crime e castigo e O duplo. São Paulo: Perspectiva, 2014.

2.P. 161.


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 LEITURA

Associações em torno do livro “Posto de observação”, de Sérgio Telles [Posto de observação]

Associations on the book "Posto de Observação", by Sergio Telles
Fernanda Fazzio Fazzio

As diversas manifestações do psiquismo humano dão notícias do inconsciente, desde singelos lapsos e atos falhos, até sofisticadas produções culturais, que podem ser capturados por uma escuta sensível e um olhar atento. Psicanalistas, dentro ou fora do consultório, seguem algumas pistas dos sujeitos ou mesmo de suas manifestações culturais e artísticas, buscando os sentidos e o desvendar dos enigmas dos diversos estados mentais.

Alguns psicanalistas são também artistas que espiam e brincam com as fendas de acesso ao inconsciente. Por trás dos mistérios das palavras, não raro, estão as satisfações de desejos inconscientes do escritor. As metáforas, as metonímias e tantos outros disfarces suavizam as possíveis aproximações das fantasias mais arcaicas dos escritores, permitindo um distanciamento entre artista e obra.

Sérgio Telles tem uma relação preciosa com as palavras. Se a arte é indissociável da cultura, Telles é indissociável da escrita. A relação íntima com a linguagem o acompanha no seu percurso como psicanalista e escritor, autor de diversos livros de psicanálise e literatura. Teoria e criação parecem brincar de costura, traçando, recortando e dando pontos de uma forma única e instigante.

As observações atentas do psicanalista sobre ética e política trazem chaves significativas para a compreensão dos fenômenos atuais. Assim, não é de se espantar que a escrita desenvolta de Sérgio Telles em Posto de observação: reverberações psicanalíticas sobre o cotidiano, arte e literatura dê vitalidade ao pensamento psicanalítico nos textos publicados no jornal O Estado de S. Paulo nos cadernos Aliás, Cultura, Sabático e Caderno 2. Os textos sociais de Sigmund Freud O futuro de uma ilusão (1927), O mal-estar na civilização (1930), Totem e tabu (1913) e Psicologia das massas e análise do eu (1921) permeiam toda a obra, alinhavando os eixos de referência do autor.

O refinado talento de Telles para abarcar com profundidade a realidade psíquica, as aflições e os conflitos nos faz lembrar, a todo instante, que a cultura dá cores e formas para as tantas manifestações que emergem na consciência individual e social, fruto de um tempo e de uma história da qual pertencem. Ainda que o tratamento psicanalítico alivie os sintomas e atenue o sofrimento, carregaremos sempre uma dose de mal-estar.

Como evidencia Sérgio Telles, traços perversos e pouco definidos, em momentos de tensões, podem aflorar de modo a não suportar quem não é igual. Desse modo, em seu avesso, a harmonia, a semelhança e a igualdade dão amostras de agressividade diante da ameaça do outro. Discutindo casos violentos e bizarros que causaram grande espanto e polêmica, Sérgio Telles mostra que a psicanálise encontra sentido na desrazão, trazendo aproximações com as questões mais arcaicas que em todos nós habitam.

Telles nos faz entender os processos inconscientes implicados nos laços sociais fundantes da cultura, encarando a opacidade constituinte dos sujeitos, salientando a dimensão imaginária do narcisismo e seu correlato, a agressividade. A ilusão da correspondência mútua dos desejos, espelho de similitudes sem ambivalências, marcas deixadas e nunca totalmente abandonadas pelo narcisismo, leva à briga por idênticos. Ao esbarrar no narcisismo das pequenas diferenças, compreende-se que as guerras, as segregações, o bullying e as tantas manifestações da intolerância evidenciam as dificuldades de suportar as ambivalências amor e ódio, o que muito contribui para a compreensão dos eventos sociais contemporâneos.

Diante de um inimigo comum, aquele estranho que é diferente e, por isso mesmo, inassimilável por sua falta de igualdade, leva à coesão do grupo frente à exclusão de um rival. Historicamente, as lutas pelo poder e dominação de povos estabeleceram a questão colonizador-colonizado, assim sintetizada nas palavras do autor: "Os colonizadores projetaram nos povos ‘primitivos' uma violência e uma selvageria (simbolizada pela antropofagia) que exerceram com uma destrutividade muito mais potente, em função de uma superioridade tecnológica" (p. 182). Ou seja, a imposição dos padrões culturais e o exercício do poder dos países colonizadores sobre os colonizados adquiriram uma conotação antropofágica, na medida em que praticamente exterminaram os povos que supostamente iriam civilizar. Buscando compreender a relação dos povos colonizados com o colonizador, o autor questiona se este ocupou efetivamente o lugar de pai e portador da Lei e as possíveis formas de identificações envolvidas.

Sérgio Telles centra algumas discussões sobre a lei da castração, evocando questões sobre o Complexo de Édipo e o parricídio nas versões do pai trazidas por Freud: Édipo Rei (Sófocles), Hamlet (Shakespeare), Pai da Horda e Moisés.

Em um dos seus textos, constrói observações sobre a angústia de castração com o sintoma do Koro, manifestado pelos povos africanos e asiáticos. Os acometidos desse sintoma sentem uma angústia intensa diante da aflição de uma possível retração de seus órgãos genitais, sendo afetados ao ponto de não o verem nem o sentirem, ainda que nenhum exame clínico confirme alguma alteração orgânica do órgão em questão. A etimologia da palavra Koro não é qualquer uma. Com a origem malaia, a palavra Koro significa cabeça de tartaruga, referindo-se, justamente, à metáfora da retração da sua cabeça ao casco. Como aponta Telles, "os órgãos da percepção perdem a sua função quando invadidos por desejos inconscientes" (p. 226), demonstrando, assim, a universalidade dos desejos inconscientes e as suas diversas roupagens.

Se a angústia de castração recai sobre o significante do falo, trazendo à tona as questões da diferença sexual, meninos e meninas não somente atravessam a trama edípica de modo diferente, como também não reconhecem a castração da mesma forma. Considerando o percurso edípico como fundamental para o sujeito organizar sua personalidade psíquica ao se ver frente não somente aos enigmas da diferenciação entre os sexos, mas, sobretudo, diante da angústia de castração, Sérgio Telles traz discussões sobre o desconcerto provocado pelo quadro de Gustave Coubert A Origem do Mundo (1866). Sem mitigar, a pintura coloca o enigma da diferença sexual de forma visceral e (des)nudada, acarretando, como mostra Telles, "o efeito perturbador sobre nós, como algo arcaico de tempos imemoriais que nos atingem profundamente, sem que possamos evitar". Criatividade ou destrutividade? Quanto desse infantil ainda faz pulsar no pintor e em cada um de nós?

O declínio do Édipo e a angústia de castração acontecem em um só tempo no menino, enquanto, na menina, o enigma da feminilidade ganhará força na puberdade. A angústia produz seus efeitos: o menino aceita a interdição da mãe como objeto de desejo e reconhece a lei paterna, investindo, posteriormente, a sua libido em identificações e tendo o Supereu com herdeiro da travessia do Édipo. Como mostra o autor, o pavor da castração não passou despercebido pelos artistas. Buscando apreender o abismo psíquico e explorar sentidos que transcendem a razão, Telles reflete acerca da dimensão psíquica rica e ambígua da pintura Cabeça de Medusa (1597) de Caravaggio. Quão tênue é a linha que separa a Medusa dos homens? O impacto, aqui, não parece outro senão da dimensão do terrível e do mortífero que a todos assombra.

Telles aponta como o infantil do artista parece impregnar suas obras, trazendo à tona questões muito primitivas e, de alguma forma, familiares aos sujeitos de diferentes culturas e tempos históricos. Condensações, deslocamentos e figuras de linguagem dão vivacidade às experiências que mobilizam os artistas e fornecem material para sua criação. A partir de textos emblemáticos de Freud como O Moisés de Michelangelo, Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen e Escritores criativos e devaneios, Sérgio Telles alinhava aproximações entre arte e psicanálise. Na sua escolha de obras artísticas a serem interpretadas, o psicanalista privilegia criações preciosas, enigmáticas e pungentes que convidam ao encontro com as manifestações do inconsciente em um só tempo.

Além disso, o autor estabelece preciosas articulações entre as obras artísticas apresentadas, a história da arte (momentos e contexto sociocultural aos quais pertenceram) e aspectos biográficos do autor, o que muito ajuda o leitor curioso a acompanhar as interpretações psicanalíticas propostas. Não à toa, Sérgio Telles escolhe com atenção os detalhes a serem recortados das obras artísticas. Que sofrimentos e segredos podem esconder as delicadas bailarinas de Edgar Degas? Quais os destinos do Retrato de Adele Bloch-Bauer I de Gustav Klimt durante e após o Nazismo?

Costura, ainda, ponto por ponto, até chegar a questões significativas que parecem tocar na vida subjetiva íntima do artista em questão, ampliando assim perspectivas sobre a criação de sua obra. Por que as sensações despertas por John Singer Sargent ao pintar As filhas de Edward Darley Boit, exposto em 1883, deram voz aos comentários quatro cantos e um vazio? Quais possíveis relações familiares orbitam os quadros do ilustrador e pintor francês Édouard Vuillard?

Da mesma forma, o conto O artista da fome de Franz Kafka (1883-1924), como Sérgio Telles bem o mostra, talvez se relacione de perto com o lado mais sinistro do escritor tcheco, uma estranheza familiar que o assombra no momento de sua morte. A análise de Telles nos remete à dissipação das fronteiras entre fantasia e realidade, evocando um retorno pouco convidativo de algo que deveria permanecer oculto, mas que volta com sede de elaboração. Inquietantes estranhamentos e seus duplos não passam despercebidos ao autor, mostrando que há um conflito de imagem e identidade, unheimlich.

A estranheza e a beleza provocada pelo cinema também não escapam aos olhos atentos de Telles, lembrando o leitor sobre as aproximações possíveis entre os sonhos e os filmes, que muito nos dizem, na sua linguagem predominantemente visual, do trabalho do sonho. Com sensibilidade, Sérgio Telles tece comentários, bem como contextualiza social e politicamente, os filmes Cisne Negro (2011) de Darren Aronofsky, o documentário Pina (2012) de Win Wenders e o Filme socialismo (2010) do cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard.

A inspiração literária de Sérgio Telles e sua busca por desvendar as formações inconscientes nos fatos da cultura e nas obras de arte constroem uma narrativa em que a Psicanálise e a Literatura andam de mãos dadas em uma indissolúvel união. O requintado dinamismo psíquico dos personagens de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) revela aproximações surpreendentes com o inconsciente. Não por acaso, Freud inquieta-se com a brutalidade dos desejos e a intensidade pulsional dos personagens dostoievskianos, bem como o masoquismo e o ideal cristão como saída frente ao desamparo. Considerada como a obra mais célebre por Freud, Os irmãos Karamázovi o inspiram a escrever o texto Dostoiévski e o parricídio em 1928, onde a própria pulsão assassina aparece, sem disfarces, nos três irmãos. Não somente a complexidade da realidade psíquica dos personagens de Dostoiévski evidencia a sensibilidade clínica do autor russo, como também não hesita em caracterizar os seus personagens sem cinismo, mostrando, por vezes, a dimensão mais nua e crua da alma humana. O escritor russo também não escapa ao posto de observação de Sérgio Telles. O psicanalista conversa com o livro de Heitor O'Dwyer Macedo[1] sobre as suas análises das obras Memórias do subsolo, Crime e castigo e O duplo, dialogando com a afirmação do psicanalista D. W. Winnicott de que a psicose estaria mais próxima da saúde psíquica do que dos ideais da normalidade.

Refletindo sobre as dificuldades da clínica na atualidade, Sérgio Telles analisa o risco de a psicoterapia ser tratada como um item de consumo, correspondendo a uma lógica de mercado que visa, a qualquer custo, negar as impossibilidades dos sujeitos. Frente ao contexto mercadológico contemporâneo, como mostra o psicanalista, há uma aproximação perigosa do tratamento medicamentoso com o objeto fetiche, levando, não raro, ao excesso desnecessário de medicação psicotrópica no tratamento de sofrimento psíquico e de distúrbios mentais. Dialoga, também, com as contribuições de Renato Mezan e Christian Dunker sobre a história e a prática da psicanálise, mostrando que, na sua condição de rompimento e descontinuidade das lógicas do marketing, o método de escuta criado por Freud continua compreendendo a alma humana.

Sobre o trabalho analítico, Sérgio Telles se inspira nos relatos da poetisa, romancista e memorialista Hilda Doolittle (1986-1961), analisada por Freud nos períodos de 1933 e 1934: "De fato, resgatar as ‘crianças vivas', simultaneamente vítimas e algozes, que vivem no inconsciente de cada um é uma tarefa de libertação e superação da psicanálise"[2]. Daí que o livro Posto de observação de Sérgio Telles convida o leitor, a todo instante, a (des)costurar ou a (des)construir pontos de observações fixos, como sujeitos mais livre das amarras, dos ideais e das expectativas sociais de seu tempo.

 


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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