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Resumo
A partir de uma perspectiva crítica que contextualiza e situa as condições da invenção do autismo, a autora mostra sua emergência simultânea com o behaviorismo. Problematizando a criação do próprio termo, questiona tanto a epidemia atual quanto as compreensões do fenômeno e a fabricação científica do “quadro clínico” por Kanner. É no caso a caso, ao empreender uma aventura psicanalítica com uma criança, que poderá articular-se algo dessa relação indizível com o gozo que se exprime no brincar.


Palavras-chave
autismo; Lacan; Bleuler; Kanner; caso a caso; brincar.


Autor(es)
Marie-Claude Thomas Thomas 

é psicanalista, doutora em Psychopatologie fondamentale et psychanalyse, membro da École lacanienne de psychanalyse.



Lucia M. Valladares de Oliveira Oliveira

é sicanalista, doutora pela Universidade Paris vii, professora do curso de Teoria Psicanalítica na cogeae (pucsp).



Adela Stoppel de Gueller
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


Notas
1. Palavras preliminares: É uma honra poder falar aqui na UNAM, Universidade do México, "a maior de todas que já vi", como disse Lacan quando do seu retorno de uma viagem turística ao México, em seu Seminário O objeto da psicanálise, em 23 de março de 1966, como me lembra Manuel Hernandez. Aproveito dessa atenção para lhe expressar o meu sincero e profundo agradecimento pela sua presença, enquanto tradutor desta conferência, antes e agora ao meu lado, presença necessária para aquilo que tenho a dizer, falar sobre o autismo, tema para mim de uma perplexidade inextinguível. Igualmente, agradeço a Teresa Ordorika Sacristán, professora e pesquisadora da UNAM, vinculada ao CEIICH (Centro de Investigación Interdisciplinaria en Ciencias y Humanidades), que acaba de apresentar meu percurso; Moisés Hernández, membro da ELP e do Conselho editorial da EPPLE, eixo da organização, e por fim, agradeço profundamente a Gloria Leff, que fez o convite e coordenou o evento.
2. Ver M.-C. Thomas, L´Autisme et le langues, 2011.
3. J. Lacan, "Petit Discours aux psychiatres de Sainte Anne" ou "Conférence sur la psychanalyse et sur la formation du psychiatre à Sainte Anne", Conferência de 10 de novembro de 1967, que infelizmente não está publicada no volume Outros Escritos, mas que pode ser lida no Pas-tout-Lacan, site da ELP (École Lacanienne de Psychanalyse).
4. Ver M.-C. Thomas, Genèses de l'autisme. Freud, Bleuler, Kanner, p. 124-138.
5. Essa introdução foi reescrita a partir do "Prólogo" à 2a edição de Autismo, Una lectura epistemológica, Seminario en Rosario, com tradução de Claudia Vinuesa e Marcos Esnal.
6. Ver a obra extremamente interessante de Dominique Ottavi, De Darwin à Piaget. Pour une histoire de la psychologie de l'enfant.
7. M. de Certeau, La possession de Loudun. Ver também os trabalhos de Lucien Fèvre e de Robert Mandrou.
8. Todas as discussões de diagnóstico, de descrição ou explicação psicopatológicas, com ou sem recurso a conceitos psicanalíticos, se situam exatamente no mesmo nível de contenção, ou seja, de tentativa de conter o fenômeno autista, suas infinitas singularidades. Além disso, alimentando a controvérsia, contribuem para o inchaço do fenômeno...
9. Organismo público autônomo e científico [N.T.].
10. Cf. Genèses de l'autisme, op. cit., p. 13.
11. Essas questões estão desenvolvidas em L'Autisme et les langues, op. cit.
12. E. Bleuler, Dementia praecox ou Groupe de schizophrénies.
13. J. Hochmann, "A la recherche d'un dialogue entre neurosciences et psychanalyse: l'exemple de l'autisme infantile", Revue française de psychanalyse n. 2, p. 416. Na sua conclusão, Hochmann diz: "O autismo é uma situação extrema, onde o pensamento, enquanto discurso endereçado a si-mesmo e a outrem, tende a se abolir. Abordagem mais hermenêutica que nomotética, doadora mais de sentido que de leis, a psicanálise ajuda a reiniciar uma narrativa fixada e a encontrar prazer em brincar com seus pensamentos.
14. Ver Genèses de l'autisme, op. cit., p. 80 e seguintes.
15. W. MacGuire (ed.), Sigmund Freud, Carl Gustav Jung. Correspondance, 1906-1914. p. 95. [Tradução brasileira: A correspondência completa de Sigmund Freud e Carl G. Jung, p. 81 (N.T.)].
16. Temple Grandin, Thinking in Picture and other reports from my life with autism. Versão francesa: Penser en images et autres témoignages sur l'autisme.
17. Na tradução brasileira, Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1973 [N.T].
18. E. Bleuler, La psychanalyse de Freud, défenses et remarques critiques.
19. J. Lacan, Le Séminaire livre VII. L'Éthique de la psychanalyse, p. 27-44 e p. 55-70 [Tradução brasileira: O Seminário livro 7. A Ética da psicanálise, p. 29-47 e p. 57-72 (N.T.)].
20. Ver capítulo IV, "Les destins de l'autisme de Bleuler" in Genèses de l'autisme, op. cit.
21. J. Lacan, Le Séminaire livre I. Les Écrits techniques de Freud, p. 81-83 e p. 95-103 [sessões de 17 e 24 de fevereiro de 1954]. [Tradução brasileira: O Seminário livro 1. Os escritos técnicos de Freud, p. 83-86 e p. 98-106 (N.T.)].
22. L. Kanner. Autistic disturbances of affective contact, Nervous Child, p. 217-250.
23. Cf. J. Hochmann, Histoire de l'autisme.
24. J. Lacan, Le Séminaire livre xvi. D'un Autre à l'autre, p. 13. [Tradução brasileira: O Seminário livro 16. De um Outro ao outro, p. 13 (N.T.)].
25. J. Lacan, Subversion du sujet et dialectique du désir dans l'inconscient freudien, p. 819. [Tradução brasileira: Subversão do sujeito, e dialética do desejo, p. 833 (N.T.)].
26. J. Lacan. Le Séminaire livre xvi. D'un Autre à l'autre, op. cit., p.327. [Tradução brasileira: O Seminário livro 16. De um Outro ao outro, op. cit., p. 317 (N.T.)].
27. Ver no final do meu artigo "Je joue, pas-je pense", SPY, p. 89-109, traduzido no número 30 de Me cayó el veinte por Jorge Huerta, "Juego, no-yo pienso". Esse artigo revisa as concepções de jogo na filosofia e apresenta a concepção freudiana do brincar. Ela permite situá-la no hiato de uma relação indizível e, portanto, linguageira, "atividade de pensar", ao gozo. A passagem para o castelhano perde o pas-je/page: o jogo que está por detrás do jogo, como o pajem que está atrás do rei.
28. Novamente me autorizo enviar para "Je joue, pas-je pense", op. cit.
29. J. Lacan, "La métaphore du sujet", in Écrits, p. 891. [Tradução brasileira: A metáfora do sujeito, in Escritos, p. 905 (N.T.)].
30. Austin M. DesLauriens, "Jeu, symbole et acquisition du langage", in L'autisme, une réévaluation des concepts du traitement, p. 380-396.
31. J. Lacan, Conferência em 19 de junho de 1968, em anexo do Seminário O ato psicanalítico [não publicado oficialmente (N.T.)]. Ver M.-C. Thomas, Genèses de l'autisme, op. cit.
32. Ver M.-C. Thomas, Lacan, lecteur de Melanie Klein, capítulos 8 e 9.
33. Ver Lacan, lecteur de Melanie Klein, op. cit.

Conferência ministrada na Universidad Atónoma de México (UNAM), intitulada "Autismo", invención y consecuencias de um término, proferida em 17 de abril de 2018.

 



Referências bibliográficas

Bleuler E. (1909/1994). La psychanalyse de Freud, Défenses et remarques critiques. Paris: Grec.

Bleuler E. (1911/1993). Dementia praecox ou Groupe de schizophrénies. Paris: Epel/Grec.

Certeau M. de (1970/2005). La possession de Loudun. Paris: Folio/Histoire.

DesLauriens A. M. (1978). Jeu, symbole et acquisition du langage. In: Rutter M.; Schopler E. (1991) L'autisme, une réévaluation des concepts du traitement. Paris: Puf.

Grandin T. (1996). Thinking in Picture and other reports from my life with autism. Londres: Bloomsburys. Versão francesa: (1997), Penser en images et autres témoignages sur l'autisme. Paris: Odile Jacob.

Hochmann J. (2007). A la recherche d'un dialogue entre neurosciences et psychanalyse: l'exemple de l'autisme infantile, Revue Française de Psychanalyse, 2.

Hochmann J. (2009). Histoire de l'autisme. Paris: Odile Jacob.

Kanner L. (1943). Autistic disturbances of affective contact, Nervous Child vol. 2, p. 217-250.

Lacan J. (1966). Écrits. Paris: Seuil.

____. (1967). Petit Discours aux psychiatres de Sainte Anne. http://ecole-lacanienne.net/wp-content/uploads/2016/04/1967-11-10.pdf.

____. (1967-8). L'acte psychanalytique [anexo não publicado oficialmente].

____. (1975). Le Séminaire livre i. Les Écrits techniques de Freud. Paris: Seuil.

____. (1986). Le Séminaire livre vii. L'Éthique de la psychanalyse. Paris: Seuil.

____. (2006). Le Séminaire livre xvi. D'un Autre à l'autre. Paris: Seuil.

MacGuire W. (ed). (1992). Sigmund Freud, Carl Gustav Jung. Correspondance, 1906-1914. Paris: Gallimard [Tradução brasileira: (1993), A correspondência completa de Sigmund Freud e Carl G. Jung. Rio de Janeiro: Imago].

Ottavi D. (2009). De Darwin à Piaget. Pour une histoire de la psychologie de l'enfant. Paris: CNRS éditions.

Thomas M.-C. (2011). L´Autisme et le langues. Paris: L'Harmattan.

____. (2012). Lacan, lecteur de Melanie Klein. Toulouse: Editions Erès.

____. (2014). Genèses de l'autisme. Freud, Bleuler, Kanner. Paris: EPEL.

____. (2014). Je joue, pas-je pense, SPY, p. 89-109.

____. (2016). Autismo, una lectura epistemológica, Seminario en Rosario. Rosario: Una piraña ediciones, 2o. ed.

 





Abstract
From a critical perspective that contextualizes and situates the condition from the autism invention, the author shows its emergence simultaneously with behaviorism.   Problematizing the creation of the term itself, she questions the current epidemics as much as the phenomenon understandings and Kanner’s scientific construction of the “clinical picture”. It’s case-by-case, by undertaking a psychoanalytical adventure with a child, that is possible to articulate something from this unspeakable relation to the jouissance which is expressed in the play.


Keywords
autism; Lacan; Bleuler; Kanner; case-by-case; play.

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 TEXTO

Perturbar a denominação “autismo”

Disturbing the name “autism”
Marie-Claude Thomas Thomas 
Lucia M. Valladares de Oliveira Oliveira
Adela Stoppel de Gueller

"Perturbar a denominação ‘autismo'", "Autismo, invenção e consequências de uma denominação", será o foco da conferência de hoje[1]. "Dissipar as falsas compreensões do autismo" seria ainda outro título possível, que me veio à mente ao reler uma intervenção de Lacan, em 1967, para preparar o que vou lhes apresentar. Tantos títulos, tantas indicações, para a orientação crítica que quero dar, crítica no sentido kantiano, ou seja, uma investigação sistemática, um exame das condições de emergência de um fenômeno ou de um conjunto de conceitos.

 

A propósito desse terceiro título possível, garanto, desde já, que existem tantas "verdadeiras compreensões" do autismo quanto falsas! Garanto que afirmar isso nos libera do peso de ter uma única compreensão do autismo: é porque abrimos o campo da compreensão que alguma coisa pode surgir, pode se inventar na experiência da análise.

 

De fato, é invalidar completamente o jogo analítico trabalhar nesse registro da compreensão, acreditar que a análise deva jogar nesse plano, "... a psicanálise não é, de forma alguma, uma técnica cuja essência seja a de disseminar a compreensão", dizia Lacan. A psicanálise não é do domínio "do patético da compreensão", no sentido de "compreender" o paciente, o louco, domínio de toda uma corrente existencialista e fenomenológica da psiquiatria que conduz e faz derivar, em diversas direções, a uma psicanálise hermenêutica.

 

Não é porque eu não coloco minhas proposições sobre o autismo no campo da compreensão - ou seja, mantenho isso que Freud, Klein, Lacan, Allouch e Foucault, entre outras referências, avançaram sobre a loucura e sobre o qual oriento minha experiência em Hospital-dia para crianças - que eu não tenha nada a dizer sobre o autismo. Caso contrário, não estaria aqui!

 

Penso que há duas coisas a dizer sobre isso:

Fenômeno autismo                                                                      Caso a caso
(sua genealogia, Internet)     (quadro clínico)          (o brincar em análise)

 

São esses dois blocos que coloquei acima. à esquerda o "fenômeno autismo", à direita o "caso a caso", e entre os dois, um vazio. Poderíamos colocar ali o "quadro clínico", a descrição psicopatológica do autismo difundida de maneira inconsistente nas publicações e na Universidade. Não o farei e direi por quê.

 

Pode-se inicialmente desdobrar, examinar o fenômeno autismo do ponto de vista da sua construção, da sua genealogia. Desde a da própria palavra "autismo", neologismo cuja criação criou numerosos mal-entendidos plenos de ensinamentos. Pode-se trazer precisões quanto à construção da entidade "autismo infantil precoce", aspecto que esclarece o leque desse fenômeno que nos é contemporâneo: basta ir à internet, seguir os enlaces, para constatar a amplitude, seu aspecto espectral, ou seja, a diversidade que vai de conferências científicas a testemunhos dolorosos ou ao desempenho de crianças excepcionais, assim como as diversas associações de pais - blogs surpreendentes de mulheres jovens no Youtube, que se descobrem autistas (como, por exemplo, o caso da Super Pépette, aliás Julie Dachez), ou mesmo o show-biz dissonante de J. Schovanec, além de numerosos testemunhos escritos e publicados. Surpreender-se com esse fenômeno foi o que me aconteceu em 2000, quando o diagnóstico "autismo" proliferou, e me perguntei o que o tornava possível... Esse exercício do surpreender-se pôde então transformar-se em uma prática assídua de "nascimentos", pensamentos e fenômenos.

 

Eu gostaria que vocês pudessem apreciar, como testemunhas ou atores, esse fenômeno como algo absolutamente inédito da civilização pós-moderna. Não digo "nossa civilização" conotando apenas os ocidentais, porque o "fenômeno autista" é mundial. É um dos traços comuns daquilo que permanece em diversas culturas. Enigma...

 

Em seguida, a segunda coisa que se pode abordar é "o método", o como-fazer com as crianças ou adultos ditos autistas, um como-fazer regulado pela posição analítica, de acordo com o rigor metodológico do caso a caso. Isso implica algo não sistematizado e, ao mesmo tempo, constrangedor - uma abstinência frente ao fascínio das coortes e estatísticas e... de quadros ditos clínicos que na realidade são oriundos da taxinomia psicopatológica e alimentam o fenômeno. Urge afirmar a especificidade do caso a caso diante da onda cognitivo-comportamental, do cientificismo, que tem na palma da mão e globalmente esse "fenômeno autismo". Também os pacientes, os ditos autistas, a tal ponto que é possível questionar a coexistência, a constituição simultânea, do behaviorismo e do autismo[2].

 

Vocês verão que o primeiro ponto esclarece o segundo na medida em que suspende dificuldades inúteis, havendo o suficiente nesses casos mesmos, embaraçosos, se não tivermos em mente a construção do "fenômeno autismo".

 

Foi, portanto, ao reler uma conferência de Lacan e suas críticas à compreensão, que tive a ideia de "dissipar as falsas compreensões de...". Em seu "Pequeno discurso aos psiquiatras de Sainte-Anne"[3] pronunciado em novembro de 1967, Lacan não havia dito "dissipar as falsas compreensões do autismo", fui eu que, inspirando-me nesse discurso, acrescentei "do autismo". Porque não há teoria do autismo em Lacan, há em alguns lacanianos, mas certamente não em Lacan, e sua utilização do termo "autismo"[4] permanece na zona semântica e clínica estabelecida por Bleuler. Retornarei a isso.

 

Bleuler, justamente, contava com a psicanálise de Freud para compreender, para atribuir sentido, aos sintomas dos pacientes que havia classificado em seu "Grupo de esquizofrênicos". É precisamente isso que Lacan questionava:

 

"Se há algo que a psicanálise pode colocar em evidência para valorizar, certamente não é o sentido - no sentido de que as coisas de fato fazem sentido - onde acredita-se poder comunicar um sentido, mas justamente de marcar em quais fundamentos radicais de sem-sentido, e em que lugares existem os sem-sentidos decisivos sobre os quais se funda a existência de um certo número de coisas que se chamam os fatos subjetivos. É antes na localização da não compreensão, pelo fato que se dissipa, se apaga, se pulveriza o campo da falsa compreensão, que algo vantajoso pode se produzir na experiência analítica" (Grifos meus)[5].

 

Eu convido vocês a ler esse discurso que é extremamente atual, porque ao se querer pôr "o autismo" goela abaixo do campo freudiano, está sendo esquecida sua origem que é a psiquiatria, de onde as numerosas dificuldades e impasses.

 

Genealogia do fenômeno autismo

Nomeio desta maneira, para manter alguma tranquilidade, aquilo que certamente poderia ser chamado mais precisamente de "epidemia". Uma epidemia de autismos que surgiu na França, para os meus contemporâneos, nos anos 1995-2000, momento em que passamos a receber nas instituições, hospital-dia ou outra qualquer, cada vez mais crianças com diagnóstico, não mais de "psicose infantil", aliás, igualmente eclético, mas agora de "autismo". Aproveito dessa constatação de duas décadas atrás para assinalar que os diagnósticos aplicados às crianças provinham até então de diagnósticos atribuídos aos adultos e, portanto, para colocar a questão quanto ao método pedo­psiquiátrico que verte assim as entidades psicopatológicas de adultos em crianças, por exemplo, as psicoses.

 

Há aqui um verdadeiro vício epistemológico que, me parece, tem sido pouco questionado. Em contrapartida, com a entidade autismo infantil precoce se concretiza especificamente uma abordagem científica da infância, uma abordagem pautada em conhecimentos científicos que vai além da patologia[6].

 

Autismo, pedopsiquiatria e comportamentalismo parecem coexistentes.

 

Uma precisão a propósito do termo "epidemia". Certamente, vocês sabem, caso tenham interesse pela história, que já ocorreram ondas de epidemia, não aquelas confirmadas como virais ou bacterianas - mas epidemias de bruxaria, de possessão, de conversão, de suicídios como, por exemplo, o "efeito Werther" após a publicação do romance epistolar de J.-W. von Goethe (Os sofrimentos do jovem Werther, em 1774), epidemias que Jean-Jacques Rousseau, com justeza, chamou de "epidemia do espírito". Essas epidemias evocam diversas causas, de acordo com as épocas: possessão pelos diabos, imitação de patologias (epilepsia). Elas designam seus supostos culpados: as bruxas (a mãe de J. Kepler que, graças a ele, escapou da fogueira), padres (Urbain Grandier, que foi queimado na fogueira em Loudun, França), epidemias das quais fazem parte, e aqui temos um paradoxo notável, os mecanismos que deveriam explicá-los racionalmente, reprimi-los ou contê-los ao registrar depoimentos, deposições, acusações. Tantas imagens clínicas de uma época.

 

E de fato, esses movimentos assinalam graves fraturas em uma civilização. Por exemplo, o crescimento das bruxarias e possessões, no fim do século xvi e início do século xvii, que se manifestam na fronteira da ciência moderna, ou ainda o Discurso do método de Descartes, datado de 1637. Esses fenômenos são ao mesmo tempo sintomas e soluções transitórias de processos de mutações culturais em sentido amplo, de acordo com a pertinente análise de Michel de Certeau em sua obra sobre Loudun[7]. Com base nessa homologia, quem dentre os especialistas do autismo possibilita a este uma passagem como esta, ao mesmo tempo subversiva e retentora, freando e acelerando o processo de mutação?

 

Subversiva, ao menos questiona a nossa civilização pós-moderna (mercado de trabalho no século xix, mercado monetário no século xx). Isso que os políticos de gestão do fenômeno - na medida em que um diagnóstico oficial é imposto: "perturbação do neurodesenvolvimento"[8] - poderiam sugerir, através de dispositivos grandiloquentes como a "enésima jornada nacional do autismo" ou então de diretivas da has (Haute Autorité de Santé)[9]. O que essas políticas tentam refrear?

 

Uma pista. Esses fenômenos complexos podem ser articulados aos quatro discursos escritos por Lacan, principalmente um dos discursos, o discurso histérico, isto é, a uma posição discursiva e subjetiva - ainda que ela possa ser coletiva - que é a do desafio dos poderes: da igreja de outrora; dos saberes, saber da medicina, da ciência, ao qual se devem acrescentar os da psicologia da criança e da psicanálise quando ela se dedica a dar uma "imagem interna da criança"[10]. Tanto desafio quanto resistência. Lacan mostrou perfeitamente os funcionamentos giratórios e interativos entre os discursos da histérica, do mestre e do universitário. Sob essa perspectiva, o "autismo" seria o sintoma e a solução transitória do quê? Questão que obriga a contextualizá-lo, a localizar em qual episteme se constituiu: Quais mutações no campo das ciências e das culturas são contemporâneas do fenômeno? Por exemplo, e desordenadamente: a governamentalidade dos humanos que seria não mais através da religião, mas das ciências e de uma economia neoliberal? A cibernética e a informática de onde se originou uma concepção de linguagem? A linguística mecanicista, dita estruturalista? O behaviorismo, psicologia científica da qual o animal é o modelo (cf. os postulados de Watson e de Skinner)? A criança como objeto de estudo? O nascimento da pedopsiquiatria? O domínio da reprodução humana? As técnicas de investigação do corpo que pretendem mostrar o real de um cérebro, ao passo que é de uma matematização algorítmica que procedem as imagens? O peso da indústria farmacológica? Tantas interrogações[11] agora repetidas invalidam qualquer certeza quanto ao "autismo", ele mesmo apresentado como restrito a um transtorno do neurodesenvolvimento...

 

Eu gostaria de assinalar isto: uma coisa é tentar situar o "fenômeno autismo", mutatis mutantis, em relação ao que os historiadores (de Certeau, Foucault) captaram na ocasião de fenômenos similares; outra coisa é explicar, teorizar o "psiquismo autista" desses pacientes.

 

Esse fenômeno sobre o qual espero poder apontar-lhes a amplitude e a complexidade necessária (caso queiramos obter uma certa liberdade e eficiência senão da sociedade, ao menos dos pacientes que apostam em nosso trabalho) obriga-nos a retornar, ainda que de maneira mais modesta que as visões precedentes porém imantadas por elas, à origem e à própria gênese da palavra "autismo".

 

Como surgiu a palavra "autismo"

Eu não conseguiria, no quadro desta conferência, conduzi-los minuciosamente pelas peripécias complexas ocorridas por ocasião da invenção dessa palavra entre a Suíça, em Zurique, onde Eugen Bleuler era psiquiatra, diretor da Clínica de Burghölzli, e Carl Jung, seu assistente de um lado, e Viena de outro, onde Sigmund Freud e seus discípulos trabalhavam. Eu precisei ler as correspondências entre Freud, Bleuler, Jung, artigos destes, estudos e teses feitas sobre o assunto. Vocês podem tomar conhecimento disso através do que escrevi no capítulo III de Genèses de l'autisme, "L'autisme de Bleuler".

 

Foi entre 1906 e 1911. Freud havia publicado a Traumdeutung que interessou muito a Bleuler, a ponto de iniciar seus assistentes na psicanálise. Ele mesmo estava escrevendo um dos volumes intitulado Dementia praecox ou Groupe des schizophrénies [A Demência precoce ou o grupo das esquizofrenias], grupo onde cabe de tudo, se me permito dizer, posto que ia da histeria à demência precoce, passando pela hipocondria entre outros, portanto, um dos volumes do grande Tratado de psiquiatria dirigido pelo psiquiatra alemão Gustav Aschaffenburg, feroz opositor da psicanálise. O volume de Bleuler[12] apresenta sua concepção da esquizofrenia: um sinal primário, denominado Spaltung ou Zerspaltung, isto é, uma alteração basal, orgânica das funções associativas, um deslocamento que Bleuler em vão procurou nas numerosas dissecações que realizou; sinais secundários compostos das reações psicológicas do doente a essa alteração. Era aqui que Bleuler contava com a psicanálise para compreender as estratégias de defesas, como o voltar-se para si (autismo), o delírio (como reconstrução da realidade), a fuga e a dessocialização ou a hipocondria. Entre parênteses, Jacques Hochmann reproduziu em 2007 o mesmo esquema bleuleriano dualista corpo/espírito na sua concepção do autismo: um ataque orgânico, neuronal ou cromossômico, um comportamento autístico, tendo a psicanálise como hermenêutica[13].

 

Todos, em Zurique e em Viena, estavam interessados na demência precoce e no autoerotismo, através dos sonhos e do simbolismo. Bleuler, interpelado pelo voltar-se para si de alguns doentes, quis utilizar o termo que Freud havia escolhido como sendo um dos tempos do circuito pulsional, a saber, o autoerotismo, que ele isola - primeiro contrassenso. A pulsão, seu circuito só se sustenta nessa declinação em três tempos:

 

1. eu chupo (todo gozo, ver mais adiante "o sujeito do gozo");

2. "eu sou o seio";

3. "eu me chupo" (o próprio corpo, mesmo sendo o da mãe, tomado como objeto - "eu tenho o seio" -, tempo do autoerotismo).

 

Eu especifico porque é aqui, entre esses dois primeiros tempos, que o brincar intervém como efeito de hiato; enfim, "eu me faço chupar" (um outro é introduzido como agente), tempo do aloerotismo.

 

Tomado entre seu interesse pela teoria freudiana e o academicismo do seu projeto, Bleuler opta então pelo termo "autismo", neologismo que torna patente a expulsão de "eros" e que, apesar disso, Bleuler diz ser quase equivalente ao seu modelo, para desgosto de Freud, como ele dirá mais tarde a Marie Bonaparte.

 

De fato, não apenas mudou a denominação, como também o sentido que Freud lhe havia atribuído: quando, no caso da demência precoce, menciona uma retirada do amor objetal, a pulsão retornando então ao estágio autoerótico (anobjetal). Jung e Bleuler compreendem que a libido se desvia do objeto real e se volta "para sua demarcação fantasmática do real com o qual ela começa seu jogo do autoerotismo clássico" (Jung[14]). Ao que Freud responde em 23 de maio de 1907: "Não penso que a libido se retire do objeto real para apegar-se à representação mental que ele sugere, passando a disputar com essa fantasia o seu jogo autoerótico. Desde que tenha um objeto, seja um objeto real ou imaginado, a libido por definição não é autoerótica"[15]. No caso do autoerotismo, é o próprio corpo que é investido pela libido.

 

Eis aqui um primeiro exemplo de uma série de mal-entendidos: o objeto real que seria externo e o objeto fantasmático que seria interno, de acordo com uma concepção empírica do corpo determinado pelo espaço euclidiano. Ora, imediatamente se entende que esse esquema não é adequado para a topologia do corpo pulsional que Freud está construindo. A divisão, o limite entre interno e externo, é regulada pela libido: se há libido e investimento, então é interno e são "sentimentos", "erotização" - no sentido amplo - e "representação", para permanecer na problemática freudiana. Se não há libido por desinvestimento, é externo, ou seja, percepção desafetada. É a base do aparelho psíquico que se tornará mais complexa.

 

Não vou entrar na construção desse andaime freudiano - e vocês sabem que Freud aconselhava não "tomar o andaime pelo próprio edifício". A "clínica do autismo" fundada na metapsicologia ou em conceitos lacanianos deveria se lembrar disso -, prefiro aproveitar esse mal-entendido e extrair as consequências quanto às novas concepções da linguagem e do corpo que Freud promove em relação às tradicionais de Bleuler e Jung.

 

Para Bleuler, há de um lado o corpo orgânico, corpo anatômico (Körper), de outro a psique/o pensamento, portanto um primeiro dualismo que se duplica em um segundo: de maneira imponente e em concordância com o meio psiquiátrico desse início do século XX, como, por exemplo, em alguns artigos de Pavlov sobre a histeria, a concepção da linguagem - mais precisamente do pensamento: somos nós que fazemos a equivalência -, na verdade também é dualista. O pensamento é dividido em um pensamento imaginativo, infantil, simbólico, um pensamento em imagens - ideia tenaz posto que se tornará o título de um livro de Temple Grandin, Penser en images[16] -, afetivo, mítico, poético. Em suma, um pensamento que Bleuler e Jung qualificarão de "pensamento autístico", de um lado; e de outro, um "pensamento racional", dirigido ou lógico, realista, orientado para o externo, a ação. É o pensamento da ciência e da técnica. Esse dualismo é comum a Bleuler e Jung, este último o esquematizou em particular em Métamorphoses et symboles de la libido[17], no capítulo ii "As duas formas de pensamento". Quanto a Bleuler, ele apresenta esse dualismo do pensamento, em 1910, em um artigo de mais de 100 páginas, "A psicanálise de Freud: defesa e observações críticas"[18].

 

Nesse artigo de Bleuler, onde faz uma apologia ambígua dos trabalhos de Freud, a "ambivalência" é lendária, ao fazer uma equivalência - errônea, novamente - entre pensamento autístico e princípio de prazer, de um lado; pensamento lógico e princípio de realidade, de outro. Esse amálgama, a ser bem pontuado pelo que nos interessa atualmente, obriga Freud a precisar rapidamente seu ponto de vista e sua concepção em "Formulações sobre dois princípios do acontecer psíquico", em 1911.

 

Em que Freud se baseia? Justamente na subversão do dualismo pelo aparelho pulsional: corpo e pensamento/linguagem estão intrincados: o corpo vivo (Leib) é erotizado no nível dos orifícios pulsionais, lá onde o Outro se insere, onde a língua se insere. Uma lembrança: o homem é um animal bizarro, é um neóteno (cf. Louis Bolk), a neotenia sendo essa particularidade da espécie humana, que Lacan assinala desde 1930, que é a prematuridade específica do nascimento no homem. Essa neotenia, esse ser tão incompleto no seu nascimento faz post partum da linguagem um dos seus principais órgãos, órgão que filtra toda a percepção/gozo da animalidade - essa dor que não se sofre e se torna insensível -, e o órgão que goza, é o que Lacan aqui prolongando Freud chamou de "gozo fálico" e se distingue de um gozo Outro, esse gozo além do logos que Lacan tenta capturar do lado A (barrada) mulher. Talvez da maneira mais crua, nós, do lado do "autismo"?

 

Portanto, para Freud o dualismo não se adequa à sua construção, isso é o que ele explicita nesse texto de 1911, ao precisar seus dois princípios: os princípios de prazer e de realidade se intrincam. O princípio de prazer permanece dominante, o princípio de realidade é apenas um desvio para satisfazer o prazer, o apaziguamento. Lacan, em seu seminário A ética da psicanálise (sessões de 25 de novembro e 9 de dezembro de 1959)[19], insistirá sobre o duplo entrelaçamento de efeitos respectivos do princípio de realidade e do princípio de prazer, um sobre o outro no movimento de substituição parcial que terá um efeito sobre o qual retornarei a propósito do brincar.

 

As elaborações de Freud e as de Bleuler deram origem a contrassensos, por exemplo em Piaget, que ergueu sua psicologia do desenvolvimento da criança sobre a premissa de um "pensamento egocêntrico" (transitório entre o pensamento autístico, que seria o primeiro, e o pensamento lógico[20]). Concluímos assim, no que se refere à palavra "autismo".

 

A entidade "autismo infantil precoce"

Agora, e uma vez mais muito rapidamente, como se constituiu a entidade "autismo infantil precoce" para Leo Kanner? E novamente, para um desdobramento específico que exigiu a leitura de numerosos artigos de Kanner em inglês e alguns traduzidos em francês, eu envio vocês para a Genèses de l'autisme, capítulo v, "Le syndrome de Kanner".

 

Cabe precisar de antemão o quadro científico no qual se situa a abordagem de Kanner, apenas para evocar um dispositivo implícito, o da fábrica científica do "quadro clínico" do autismo. Apresentando as onze crianças no artigo fundador de 1943, "Distúrbios autísticos do contato afetivo", Kanner realiza uma "imagem compósita", de acordo com o procedimento dos Composite Portraits de Francis Galton, que consiste em fundir em uma única imagem diversos clichês próximos de pais ou de criminosos, o que isola um retrato-tipo.

 

Os traços semelhantes das onze crianças, observadas pelos pais, ele mesmo ou seus assistentes, traços reunidos em uma síndrome, vão criar um protótipo da "criança autista". Protótipo que mais tarde, em 1983, Frances Tustin cedeu para o "Caso Dick" de Melanie Klein - lacuna que Lacan havia evitado quando fez um longo comentário em 1954[21]. Portanto um protótipo, uma imagem objetiva com seus efeitos de sugestão que encontramos em todos os clichês sobre o autismo em detrimento da singularidade de cada um.

 

Mas, acima de tudo, quero enfatizar este ponto que afirma o inatismo do autismo, a fim de destacar uma das maneiras pelas quais Kanner procede para construir sua entidade.

 

Está confirmado que há crianças que nascem com bizarrices neurológicas ou cromossômicas, cuja evolução leva ao diagnóstico de "autismo". Há outras para as quais não está em causa nenhuma anomalia orgânica, e que, no entanto, se tornam bizarras, autistas, dizem atualmente. Apesar do estudo das onze primeiras crianças observadas por Kanner, algumas das quais tiveram um início de vida satisfatório, ele sustenta o inatismo.

 

Sobre o que ele se apoiou para ter a mesma certeza que Kraepelin sobre a paranoia, ou seja, inata e irreversível, endógena e incurável? Comparação que ele mesmo fez em um artigo de 1965.

 

Para afirmar o inatismo do autismo, Leo Kanner se apoiou nos trabalhos de um importante psicopedagogo norte-americano, Arnold Gesell, que observando, fotografando, filmando milhares de crianças do nascimento à adolescência estabeleceu uma grade de crescimento médio. Ele publicou essas grades, onde estava especificado o que um recém-nascido, uma criança, deveria fazer em tal ou tal idade, hora por hora no início, depois dia após dia, semana a semana, em seguida mês a mês, etc. Eu pude ver a reprodução dessa tal guia publicada em 1925, Mental Growth of the Pre-School Child, anotada pelas mãos dos pais através de um sinal de mais ou menos (+ ou -), de acordo com a adequação ou não de seu filho à norma.

 

Gesell é mencionado - e é o único autor mencionado - no artigo de 1943, "Distúrbios autísticos do contato afetivo", mas para confirmar o que Kanner considera como o distúrbio fundamental do autismo, a saber: "a incapacidade das crianças para se relacionar com os outros e com situações desde o início da vida"[22]. Para isso, ele se baseia na observação de Gesell: aos 4 meses o bebê mostra "um reflexo de ajuste motor", ao estender o rosto e erguer os ombros quando um adulto o pega nos braços. Em 1925, Gesell formula a hipótese de que é possível perceber esse sinal mais precocemente. É isso que menciona Kanner, ao mesmo tempo que omite a conclusão de Gesell, de que essa observação era provisória posto que fundada em um número limitado de casos.

 

É aqui que Kanner exagera ao fazer do "reflexo de antecipação": 1) uma resposta universal, enquanto, para Gesell, é a estimulação parental que é universal: todos os bebês são erguidos; e 2) ao decretá-lo presente no nascimento, o que Gesell depois nunca confirmou: ao contrário, ele vai manter aquilo que havia chamado um "reflexo" às 16 semanas, o que dá tempo suficiente para o bebê aprender a se ajustar, a se preparar para ser tomado nos braços.

 

Dentre as onze crianças mencionadas por Kanner no artigo de 1943, apenas duas delas não teriam tido esse "reflexo" (entre aspas) sendo recém-nascidos.

 

Em seguida, os pais serão colocados nesse lugar de observadores de seu filho, já bem engajados na observação objetiva de Gesell. Nesse sentido, eles estão incluídos no dispositivo do diagnóstico. Ao mesmo tempo, são colocados no lugar de observados pelo próprio Kanner, que os julga frios em sua maior parte ("mãe-geladeira", expressão da qual ele mais tarde pedirá desculpas, o inatismo o compensando do descrédito). A expectativa desse "reflexo" tornado obrigatório pela ciência, certamente, inclina para uma atitude parental particular e de inquietação.

 

Eis aqui, em resumo, o que permite destacar um estudo textual dos procedimentos que levaram ao nascimento da palavra "autismo" e da entidade "autismo infantil precoce".

 

Do fenômeno autismo ao caso a caso

Por que pegar esse desvio pelo fenômeno autismo e alguns aspectos da sua genealogia? É um fenômeno que observamos em muitos países. E que consiste em diagnosticar "autismo" a dificuldades precoces muito variadas. Há uma espécie de universalização, na medida em que ela não resulta apenas do progresso do "sujeito da ciência" - progresso não no sentido que o humanismo lhe atribui, mas no da progressão, da epidemia, como já suficie,ntemente assinalei. É sobre esse tema da ciência que a psicanálise intervém e opera.

 

Assim, esse itinerário pela maneira de considerar o "autismo" como um fenômeno construído, fenômeno de um "mal-estar da civilização", apresenta o interesse de saber como as coisas se produzem. Permite, com certeza, lhe atribuir uma forma diferente, um movimento menos brutal, e se preferirem, mais consciente do que quando não sabemos sobre o que estamos cedendo. Então possibilita ter à disposição, ainda que seja, uma pequena ideia da história do autismo - não uma história retro-organizada, onde tudo foi lido como se fez, por exemplo, com "o menino selvagem de Aveyron" rotulado autista, sob o prisma da concepção de autismo de Kanner[23]. Mas, uma história à moda de Michel Foucault, uma genealogia que inclua as condições de surgimento e contextualização. Ter essa chave, certamente, evita o entusiasmo - para não dizer a militância pelo autismo que adotam certos psicólogos comportamentais ou psicanalistas e alguns pedopsiquiatras. Permite combater, também, com mais eficácia os métodos cognitivo-comportamentais sem fazer deles os rivais do método analítico, uma vez que se trata de técnicas educativas por condicionamento - técnicas das quais, aliás, se faz necessário conhecer os fundamentos filosóficos, econômicos e políticos que são, certamente, muito diferentes dos da psicanálise.

 

Posto que evoquei no início desta Conferência a compreensão, o sentido e, em seguida, uma concepção do pensamento em Bleuler com relação ao de Freud, aproveito aqui para marcar essa diferença entre comportamentalismo e psicanálise ao precisar os efeitos da hipótese do inconsciente nesses domínios da compreensão e do pensamento, simplesmente ao citar uma passagem da primeira sessão do Seminário De um Outro ao outro:

 

"Uma regra de pensamento que tem que se assegurar do não pensamento como aquilo que pode ser sua causa: é com isso que nos confrontamos ao usar a ideia de inconsciente. É somente na medida do fora-de-sentido dos ditos - e não do sentido, como se costuma imaginar e como supõe toda a fenomenologia - que existo como pensamento"[24] (13 de novembro de 1968).

 

Nesse não pensamento, nesse entre-sentido ou não sentido como Lacan os designa, oculta-se "o ser do pensamento", seu Kern, e é isso que o comportamentalismo exclui por decisão metodológica (o antifreudismo de Watson).

 

Retomando o quadro apresentado no início do texto, notem que o bloco "fenômeno autismo" está separado do bloco "caso a caso" por um vazio. Esse vazio poderia incluir o que temos o hábito de nomear "clínica", no caso, "clínica do autismo". Ora a clínica analítica stricto sensu tem por base o que se diz em uma análise. No caso do autismo, temos "quadros clínicos" que muitas vezes recuperam observações de comportamentos, embriões de teorias ecléticas, vinhetas, testemunhos, todos completamente descontextualizados, o que dá ao quadro o aspecto de um fundamento objetivo e eterno. Minha decisão metodológica é a de excluir esses quadros, ainda que eu tenha a obrigação de conhecê-los.

 

Por exemplo, há artigos que promovem uma "estrutura autística": fundada na observação empírica do fenômeno autismo. Essa "estrutura autística" é uma construção feita a partir dos conceitos lacanianos que considera os normais, neuróticos - como de certa forma dizia um professor (Jean-Claude Maleval, para nomeá-lo) -, sob o regime do significante, ao passo que os autistas estariam sob o regime do signo: nova segregação! E que, mais ainda, é uma construção induzida pela observação de pessoas que saem de estado de coma (ver os trabalhos de Michel Balat e Pierre Delion!).

 

No que me diz respeito, uma vez constatado o fenômeno do autismo e após ter-lhe dado o valor de sintoma de mutações econômicas, societárias e civilizacionais que mencionei, me apoio sobre o seguinte princípio: somos todos irmãos no que se refere à língua; o método analítico fazendo a aposta de tratar caso a caso, onde isso funciona mal.

 

Esse trajeto permite não tensionar sobre a chamada "estrutura autística", sobre a etiqueta "autismo", sobre o diagnóstico - antes dissipá-la, dissolvê-la - porque, no face a face com o paciente, a etiqueta ou qualquer outra coisa, uma ideia psicopatológica, por exemplo, o distancia dele ao fixá-lo.

 

Protegemo-nos disso. Estar implicado com a loucura não significa necessariamente proteger-se dela, também não envolve o contrário, ou seja, ter impulsos generosos, mas certamente implica ter certas ferramentas.

 

Quais são essas nossas ferramentas? É sobre isso que vou encerrar esta minha Conferência após alguns esclarecimentos.

 

A psicanálise convém ao autismo?

Em primeiro lugar, uma questão que talvez vá surpreendê-los. Será que a psicanálise convém ao autismo? Esse poderia ser um contraponto lógico para a afirmação do método aba, por exemplo, que objetiva ser aplicado sistematicamente a todos que são designados autistas.

 

A resposta da psicanálise não é tão simples assim. Primeiro, não é necessário conhecer a etiologia exata para propor e iniciar uma terapia analítica. Em contrapartida, o que chamamos de "entrevistas preliminares" são necessárias, sejam elas quais forem, não há modelos. Nas instituições são possíveis muitas ocasiões de encontro com uma criança, onde poderá ocorrer uma aproximação, afinidade, eventual possibilidade de transformar esse encontro em um exercício regular. O que chamamos de transferência é a primeira condição desse trabalho.

 

Em seguida, contrariamente ao behaviorismo, não estamos tratando de indivíduos, mas de sujeitos: o sujeito enquanto sujeito não é identificável ao indivíduo e, mesmo se o sujeito estivesse separado, enquanto indivíduo, de toda e qualquer ordem que lhe diga respeito enquanto sujeito, essa ordem existe. O que me permite dizer que, no trabalho com crianças, o sujeito tem muitas bocas. Lembremos a proposição de Lacan para definir o sujeito, ainda que ela seja conhecida: "um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante"[25]. Com esse axioma, contundente, o significante é anterior ao sujeito, Lacan avança o Outro como lugar do significante, posto como necessário à primazia da cadeia significante. Será que esse aparato conceitual possibilita um exercício analítico com alguém mudo, agitado, angustiado, como se apresentam por vezes os autistas - ou ao contrário apático, recluso - quando é o processo de subjetivação que está em questão na sua relação com o Outro? Esta é uma questão.

 

Ora, no Seminário A Angústia (1962-1963), Lacan formula a hipótese de um "sujeito do gozo", precursor de toda operação de subjetivação, de um sujeito antes de tornar-se sujeito - e sem dúvida, é sobre esse ponto preciso que o sintagma "sujeito autista", pletórico teria alguma pertinência... para todos. Ao longo do Seminário De um Outro ao outro (1968-1969), extremamente importante pelos seus remanejamentos, a questão do gozo se torna determinante, o que leva Lacan a formular que o sujeito não surge do significante, mas "da relação indizível com o gozo"[26] (21 de maio de 1969). Retomada, me parece, daquilo que Lacan avançou da identificação surgindo da angústia, tal como afirmara Melanie Klein. O sintoma é então mais que uma metáfora, diz Lacan, é a maneira como cada um sofre em sua "relação indizível com o gozo". O que é essa relação?

 

É o que tentarei explicitar ao formular a hipótese de que essa relação indizível com o gozo se "diz" pelo brincar.

 

Eis o estabelecimento da concepção psicanalítica do brincar como marca, lugar salto, hiato[27] dessa relação indizível com o gozo, como "linguagem" que goza, como "não-eu penso". Essa formulação em termos lacanianos (lembrando do que já afirmei sobre o órgão que se enxerta no ser neóteno), na sequência, me parece, está no prolongamento do que Freud afirmava em 1911 em "Formulações sobre dois princípios do acontecer psíquico". Eis-nos de volta a esse momento de verdade, isto é, de separação entre Bleuler e o academicismo psiquiátrico de um lado, e de outro, por aquilo que Freud avançava de inovador ao dar um passo para o lado.

 

O artigo de 1911, portanto resposta a "O pensamento autístico" de Bleuler, é difícil, nada óbvio, se não tivermos o cuidado de restituí-lo no seu contexto de combate. Ora, é precisamente a sua posição de resposta que lhe dá todo o seu valor e merece uma leitura atenta da qual farei alguns lembretes[28].

 

Há, portanto, um primado do princípio de prazer, como tendência à diminuição da excitação - primado estrutural e não temporal. Mas, a decepção pela satisfação obtida, no sonho ou na evitação falaciosa de uma situação desagradável, posto que a satisfação é apenas virtual, sob a forma de descargas do próprio corpo (exteriorização de afetos, mímicas), ou alucinatória, obriga a abandonar essa via. De onde a necessidade para o aparelho psíquico de ter uma percepção real da realidade para de fato modificá-la - isto é, aceitar o agradável e o desagradável - com modificações do aparelho (memória, atenção, julgamento, etc.). E repito, não para suprimir o princípio de prazer, porque é, ao contrário, uma forma de assegurá-lo. O efeito do abandono dessa via é uma suspensão da descarga motora (mímicas). Essa suspensão é garantida pelo processo de pensamento, isto é, a inscrição de traços, que se forma a partir da atividade de representar: livres, os traços se tornam ligados.

 

Essa atividade do pensamento, escreve Freud, é clivada, e é aqui que devemos estar atentos: uma parte se dedica a realizar o prazer levando em conta a realidade; outra parte da atividade do pensamento permanece sob a dominação do princípio de prazer. É do domínio do brincar das crianças, depois dos devaneios. Essa "criação de fantasias", a imaginação, cessa de se apoiar em objetos da realidade real.

 

O brincar na sua concepção analítica está nesse parêntese da suspensão da descarga motora, concepção paradoxal para quem cederia ao empirismo (ver as crianças brincar, portanto, se movimentar) ou a uma concepção linguístico-intelectual da linguagem na qual certo lacanismo se adequou. Eu insisto em ressaltar a tensão dessa operação, na mudança de registro que ocorre ao passar do estado de "sujeito de gozo" para outro estado imerso na articulação linguageira. Se o brincar, do qual apreendemos a topologia complexa, não é da ordem de uma descarga motora, é porque trata-se de uma operação de substituição, que já é máquina linguageira, sem o referendo da realidade, com efeitos de subjetivação. Aqui seria necessário reler a primeira sessão do Seminário O ato psicanalítico (15 de novembro de 1967) na qual Lacan distingue a motricidade do ato, sessão preciosa naquilo que oferece da análise do pavlovismo sob o significante!

 

Apenas mencionarei uma dessas operações de substituição apontadas por Lacan: "‘O gato faz au-au e o cachorro faz miau-miau'. Eis como a criança soletra os poderes do discurso e inaugura o pensamento"[29]. É também nesse lugar da nova concepção de sintoma de Lacan, como forma de relação indizível com o gozo, que é a escrita de James Joyce... e nosso jogo em análise, sua eficácia!

 

Dentre a literatura dedicada ao autismo do lado dos comportamentais, encontrei, em um volume intitulado O autismo, inteiramente ditado pelo método Teacch, um artigo extremamente interessante de um aluno de Leo Kanner que toma a brincadeira pela via da fisiologia. Segundo o artigo de Austin DesLauriers, "Jeu, symbole et acquisition du langage"[30], que resumo, o limiar elevado de percepções sensorio-afetivas da criança dita autista leva a um baixo nível de estado de vigília da parte mesencefálica do sistema límbico. O brincar na terapia provocaria então um estado de despertar global susceptível de ocasionar uma resposta afetiva significativa.

 

Desse artigo, mais do que o fato de ser descompassado em relação aos outros da obra dirigida por M. Rutter e E. Schoppler, o que já é muita coisa e que comento em Genèses de l'autisme (p. 50 e seguintes), quero enfatizar aqui, hoje, a afinidade intrínseca do corpo vivo, da fisiologia, do gozo e da linguagem que se misturam no e pelo brincar. Repito que para a psicanálise não há esse dualismo corpo/espírito: o corpo vivo (fisiológico) é espiritual. Releiam a Conferência de Lacan em Genebra sobre o Sintoma, em 1975, entre outras numerosas lembranças desse princípio.

 

Em suma, no que diz respeito ao caso a caso e ao brincar, ao trabalhar com uma criança (ou não, já que, em um tratamento de adulto, o jogo de Eros, a interpretação, são dessa ordem), se opera um deslocamento de registro a partir do ato analítico que Lacan diz vir, paradoxalmente, "do que há de mais opaco, mais fechado, mais ‘autista' na palavra do analista"[31]; que é suspensão da descarga motora. Portanto, não é uma resposta a uma estimulação no estilo da teoria S-R do condicionamento - mas é atividade de pensamento. Para nós analistas o brincar é da ordem do linguageiro e os objetos do brincar que aparecem de forma insistente devem ser tratados como significantes[32]. Se o princípio do prazer domina, é com o princípio de realidade (exit do autismo no sentido de Bleuler).

 

Isto dito, fica para cada um, no quadro da "técnica analítica do brincar"[33], a possibilidade da imensa abertura à inventividade, o acolhimento, diversificadamente colorido, daquilo que faz uma criança. Nesse quadro onde não se trata nem de brincar com ela, nem de observá-la, nem de emplacar conhecimentos psicológico-psicanalíticos, mas de pontuar, assinalar e, para dizer do meu sentimento, de estar vivo: o surgimento do "vamos nessa" do analista que fica acordado nesse momento distinto do brincar!


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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