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Resumo
A partir da consideração da especificidade da escrita do analista, o presente trabalho propõe uma crítica ao modelo de avaliação dos periódicos de psicanálise. Utiliza a lenda de Procusto como metáfora da utilização de critérios rígidos para avaliação de periódicos da area da psicanálise.


Palavras-chave
Sistema Qualis; periódicos de psicanálise; método psicanalítico; escrita psicanalítica.


Autor(es)
Leda Maria Codeço Barone
é psicanalista, membro associado da sbpsp e do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia Educacional do Centro Universitário Fieo – UNIFIEO.


Notas

1.Disponível em: r

elatorio_atualizacao_qualis_2015

psicologia_23_06_15.pdf>.

2.  F. Marques , "A escala da discórdia".

3.  F. Galembeck e J. Bittencourt, apud F. Marques, op. cit., p. 2.

4.L. Velho, apud F. Marques, op. cit., p. 4.

5.L. Velho, apud F. Marques, op. cit., p. 5.

6.S. Freud, Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise.

7.S. Ferenczi, Diário clínico.

8.Sabourin in S. Ferenczi, op. cit.

9.J. Cremerius, apud Sabourin in S. Ferenczi, op. cit., p. 226.

10.      S. Freud, Dois verbetes de enciclopédia, p. 287.

11.      F. Herrmann, "Debate: o caso clínico, sua narrativa".

12.     F. Herrmann, op. cit., p. 20.

13.     P-L. Assoun, Metapsicologia freudiana. Uma introdução, p. 226

14.      P-L. Assoun, op. cit., p. 226.

15.      S. Freud apud Assoun, op. cit., p. 228.

16.      J. D. Nasio, Os grandes casos de psicose, p. 11.

17.      J. D. Nasio, op. cit., p. 11-12.

18.      J. D. Nasio, op. cit., p. 17.

19.      J.-B. Pontalis, Entrevista com J.-B. Pontalis.

20.     M. Viñar, Entrevista com Marcelo Viñar - Tornar-se analista.

21.     F. Herrmann, "Investigação psicanalítica".

22.     T. Ferris apud F. Herrmann, Pesquisando com o método psicanalítico. In F. Herrmann e T. Lowenkron, Pesquisando com o método psicanalítico, p. 50.

23.     Herrmann considera "o efeito de ruptura de campo o processo fundamental do método psicanalítico, tanto no que diz respeito à produção de conhecimento, como no que concerne à produção da cura" (F. Herrmann, O que é Psicanálise, p. 31). A interpretação é o processo pelo qual se produz a ruptura de campo. Herrmann denomina de campo (ou inconsciente relativo) tudo aquilo que determina qualquer relação humana (inclusive a relação analista paciente) e que é inapreensível do interior dessa relação. Pela ruptura do campo surgem as regras inconscientes que determinavam a relação.

24.     F. Herrmann, "Psicanálise, ciência e ficção", p. 69.

25.     F. Herrmann, Psicanálise, Pesquisa e Universidade (documento não publicado).

26.     F. Herrmann, Psicanálise, Pesquisa e Universidade (documento não publicado).



Referências bibliográficas





Abstract
From the understanding of the singularity of the analyst’s writing, this text aims to discuss the evaluation model used by psychoanalytic journals. In this essay, the Procrustes Mithology is used as a metaphor to describe the rigid criteria used to evaluate journals in the psychoanalytic field.


Keywords
Qualis system; psychoanalytic journals; psychoanalytic method; psychoanalytic writing

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 TEXTO

À procura de um leito para a escrita psicanalítica

Looking for a style in psychoanalaytical writing
Leda Maria Codeço Barone

Conta-se que Procusto era um bandido que oferecia sua hospitalidade aos viajantes perdidos. Ao receber seus hóspedes, Procusto deitava-os sobre uma cama de ferro, e se o viajante fosse maior que a cama, ele cortava o que sobrava. E se fosse mais curto, ele o esticava até obter o tamanho desejado. Procusto, como se pode ver, era um normalizador. Elejamos, assim, Procusto o patrono daqueles que utilizam critérios rígidos para avaliar produções humanas.

 

Em nosso meio, os periódicos de psicanálise são avaliados segundo os critérios da área de Psicologia, que compartilha com outras áreas das Humanidades a concepção de o que é um periódico científico. O documento sobre os critérios do Qualis de periódico para a área da psicologia foi realizado por uma Comissão coordenada por Antônio Virgílio Bitencourt Bastos (ufba). O documento informa que a área é interdisciplinar,

...que faz interface com inúmeras outras áreas de conhecimento, tanto básicas quanto aplicadas. Assim, a publicação em periódicos mais claramente vinculados a outras áreas não pode ser desestimulada. Entretanto, considerando a diversidade de critérios utilizados pelas diferentes Áreas da Capes na construção dos seus Qualis específicos, não se poderia importar os conceitos de outras áreas sob o risco de gerar, dentro da Psicologia, diferenças no nível de exigências feitas a periódicos das suas diferentes subáreas[1].

 

Tais considerações, naturalmente, colocam questões quanto à escrita do analista e sua publicação que merecem nossa atenção, o que aliás acontece também em outras áreas. Neste sentido, o de considerar a especificidade de cada produção, é que este novo modelo de avaliação vem recebendo críticas de diferentes estratos da comunidade científica brasileira. Marques[2] informa que pesquisadores de áreas diferentes fazem críticas que vão desde apontar como perigoso o peso exagerado dado, nessa escala de avaliação, ao fator de impacto (fi) até a falta de critério na política de avaliação da Capes. Por exemplo, a revista "Química Nova", vinculada à Sociedade Brasileira de Química, em seu editorial assinado por dois dos pesquisadores da área mais produtivos do país, Fernando Galembeck da unicamp e Jailson Bittencourt de Andrade da ufba, lembra que a valorização excessiva da visibilidade e da inserção internacional dos periódicos, medida pelo fi, promove diferenciações artificiais entre publicações de subáreas da disciplina, afirmando o seguinte:

Considerando-se uma área específica como a química, a comparabilidade entre periódicos utilizando o fator de impacto (fi) incorre em sérios desvios. Por exemplo, o periódico Inorganic Chemistry dificilmente apresentará um fi maior do que Analytical Chemistry, o que não significa que não haja artigos de excelente qualidade nas duas disciplinas. Simplesmente a visibilidade das inovações metodológicas analíticas em outras disciplinas é maior do que a da química inorgânica[3].

 

Para esses autores, que reconhecem a importância de sistemas de avaliação para elevar a qualidade do ensino, a Capes deveria desenvolver critérios de avaliação mais sofisticados e complexos, pois o fator de impacto, efetivamente, não é uma medida absoluta de qualidade.

 

Outra crítica vem da socióloga da ciência Lea Velho, também da unicamp, que chama a atenção para o impacto que a perda de prestígio das publicações poderá acarretar caso se mantenham determinados critérios de publicação. Diz a professora:

Na maioria dos campos do conhecimento há uma diversidade de paradigmas e publicações que os contemplam - um economista marxista não publica seus papers em periódicos de orientação neoclássica, por exemplo. O risco é tirar a voz de paradigmas minoritários e exigir que se publique tudo no chamado mainstream. Isso é uma loucura para a ciência[4].

 

E mais adiante, dentro dessa mesma perspectiva crítica, faz outra ressalva: pesquisas de interesse apenas regional também sairão perdendo, pois "Já há uma tendência na pesquisa agrícola de prestigiar temas de interesse internacional em detrimento da solução de problemas da agricultura nacional, que sempre foi a tônica do Brasil nessa área"[5], completa a pesquisadora.

 

Voltando à nossa questão, as peculiaridades da escrita psicanalítica, seu método de produção de conhecimento, a confidencialidade exigida do analista, seu objeto de estudo, a relação sujeito e objeto, são elementos que convidam a maior reflexão, pois o modo de produção da Psicanálise é bastante diferente de outras áreas da Psicologia.

 

É sabido que uma das exigências para o estabelecimento de qualquer ciência diz respeito tanto à comunicabilidade dos meios de investigação quanto dos resultados alcançados. Por outro lado, para o psicanalista uma questão importante de sua investigação relaciona-se à manutenção de um espaço de intimidade, de confiança e de sigilo. Assim, um desafio constante para o psicanalista na construção de sua "ciência", ou na produção de seu conhecimento, diz respeito à necessidade de, por um lado, comunicar suas descobertas, e por outro lado, preservar o espaço de intimidade que a clínica lhe exige. Todo analista, em algum momento de sua clínica, deverá escrever e experimentar a tensão entre estas duas necessidades: comunicar com seus pares suas descobertas e dificuldades, e preservar o espaço de intimidade com seu paciente. A este respeito Freud[6], em seus escritos técnicos, defendia a importância de o analista escrever seus casos, salientando o dever com a ciência, mas ao mesmo tempo aconselhava a escrever somente após o término do tratamento para que o interesse científico não atrapalhasse a relação transferencial.

 

Muito instrutivo a este respeito é lembrar o "Diário Clínico"[7] de Ferenczi, escrito não propriamente para ser publicado, mas que, tendo sido publicado postumamente, revela a necessidade imperiosa da escrita para o analista que faz anotações de suas dúvidas, de suas descobertas, das dificuldades, de suas intuições e teorias ainda não elaboradas. Material este muito rico que podemos comparar à matéria-prima com que se constrói algo muito refinado ou como uma espécie de manancial que serviu, inicialmente ao autor e mais tarde a seus leitores, para a construção de seus arcabouços teóricos. Aliás, vale lembrar o comentário de Sabourin[8], no pósfácio do diário, ao citar o trabalho de Johannes Cremerius no qual relaciona uma série de autores cujos escritos devem muito a Ferenczi. Entre eles destaca: Winni­cott, Mahler, Little, Masud Khan, Spitz, Natch, Khout, Searles, Sullivan, Fromm, Reichmann, Rosen, Moreno, Fairbairn, Gruthrip. Segundo Cremerius, "...Ferenczi tornou-se para muitos a pedreira donde extraem o material para seus ‘novos' edifícios, muitas vezes sem indicar onde fizeram suas descobertas..."[9].

 

O mesmo se pode dizer da farta correspondência que Freud manteve com vários interlocutores. Nesse sentido é exemplar a correspondência que manteve com Fliess e, não menos importante, a mantida com Ferenczi.

 

Pode-se então considerar que a escrita é, para o analista, uma atividade inerente a seu ofício, quase uma necessidade, mas que nem por isso deixa de oferecer certos riscos e exigir cuidados.

 

Assim, é como psicanalista que me indago sobre as condições e possibilidades de comunicação da investigação psicanalítica. Como o analista investiga? Como cria seus conceitos, suas teorias? E como comunica a investigação clínica a seus pares? A escrita do analista, além de satisfazer um dos critérios importantes da ciência, a comunicabilidade de seus meios e resultados, a que outras necessidades atende e quais seus riscos e cuidados?

 

Freud considerava a psicanálise como ciência e investigação. Prova disso é o célebre verbete que ele escreveu para a enciclopédia:

Psicanálise é o nome de 1 - um procedimento para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo, 2 - um método (baseado nesta investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos e 3 - uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se acumulam numa disciplina científica[10].

 

Dessa definição de psicanálise podemos afirmar a tripla dimensão do mesmo gesto. É uma investigação que cura e produz conhecimento. Gesto multifacetado, portanto, complexo e sutil que requer certa delicadeza de apreensão.

 

Herrmann[11] afirma que Freud inventou a psicanálise por escrito. Escritor potente que era, ele inventou não só a psicanálise como a si mesmo e a nós, analistas e pacientes, seus personagens. Ele foi mestre em mostrar a imagem que criou para si mesmo. Imagem de desbravador, de conquistador e de profeta. Assim nunca teremos o material objetivo da vida íntima de Freud, pois esta está simultaneamente descoberta e encoberta por uma escrita criativa ficcional. As teorias psicanalíticas também são obras de ficção extremamente refinada. O que não as diminui como ciência, engrandece-as. [...] Se o fundamento da ciência é o fisicalismo, hoje dominante, não há lugar para a psicanálise. Mas se seu fundamento futuro for a ciência do homem, a interpretação, então teremos de estar preparados para reconhecer os direitos da ficção como fonte maior da verdade, coisa que Freud já antecipava e praticou. A sua, como poderia haver argumentado, é uma ciência empírica, natural, da natureza humana...[12]

 

Nessa mesma direção segue o comentário de Assoun no qual nos lembra que, embora o imperativo da verdade fosse radical para Freud, nos escritos das "Cinco psicanálises", ele não pode deixar de se curvar à exigência do sintoma. Diz então o autor: "Se o metapsicólogo procura explicar o processo, o clínico deve relatá-lo"[13]. O mesmo autor, fazendo referência ao lapso de Freud em "O homem dos ratos", em que escreve "Poesia e ficção" em vez de "Poesia e verdade", coloca em relevo algo muito caro a Freud: "conjugar poesia e verdade num destino de vida que mostra sua síntese feliz, a de sua própria história"[14]. Assim, o que se trata, para Freud, é a história-de-doente e não a história da doença. Tal atitude, segundo Assoun, gera suspeita quanto à exigência de cientificidade, ao que Freud se desculpa:

Eu mesmo me surpreendo com o fato de as histórias de doentes que escrevo serem legíveis como romances (Novellen) e de a elas faltar, por assim dizer, o carimbo de sério da cientificidade. Devo consolar-me disso pelo fato de esse resultado dever ser imputado à natureza do objeto, mais que a minha preferência[15].

 

Outra contribuição sobre a especificidade da escrita, e consequentemente de sua publicação, vem de Nasio. Este autor observa que a expressão "caso" designa para o analista "o interesse muito particular que ele dedica a um de seus pacientes"[16]. Observa também que o caso serve para trocas com colegas em discussões clínicas ou mesmo supervisão, mas que muitas vezes ele propicia uma modalidade de escrita que denominamos de caso clínico. O autor ainda faz uma distinção entre o caso clínico na Medicina e na Psicanálise. No primeiro modo o caso remete ao sujeito anônimo que é representativo de uma doença - diz-se por exemplo, "um caso de listeriose" -, para nós, ao contrário, o caso exprime a própria singularidade do ser que sofre e da fala que ele nos dirige. [...] Quer se trate do relato de uma sessão, do desenrolar de uma análise ou da exposição da vida e dos sintomas de um analisando, um caso é sempre um texto escrito para ser lido e discutido. Um texto que, através de seu estilo narrativo, põe em cena uma situação clínica que ilustra uma elaboração teórica[17].

 

Ainda no mesmo texto, Nasio propõe três funções de um caso: a função didática, a metafórica e a heurística. Destaca na função didática a particularidade que tem o caso para transmitir a teoria por meio da sensibilização da emoção e da imaginação do leitor. Na função metafórica, observa que nos célebres casos da psicanálise (O homem dos ratos, Dora, Scherber, Aimé, etc.) há uma espécie de imbricação entre a observação clínica e o conceito que ilustra de maneira a que a observação termine por substituir o conceito tornando-se metáfora dele. Já a função heurística, que supera as outras duas, consiste na capacidade do caso de gerar conceitos. Diz Nasio:

Às vezes, a fecundidade demonstrativa de um exemplo clínico é tão frutífera, que vemos proliferarem novas hipóteses que enriquecem e adensam a trama da teoria. Retomando a figura do presidente Schereber, foi justamente graças às espantosas Memórias de um doente de nervos, comentadas por Freud, que Lacan pôde conceber pela primeira vez a ideia de significante do Nome-do-Pai e a ideia correlata de foraclusão, noções que desde então renovaram a compreensão do fenômeno psicótico[18].

 

Partindo da colocação de Nasio de que um caso para um analista designa um interesse especial que o analista tem por um paciente, podemos nos perguntar: o que torna interessante um caso em particular e não outro? São os casos que corroboram as nossas teorias prévias, que alimentam nosso narcisismo, ou são precisamente aqueles para os quais não temos resposta (e eu até me pergunto para quais a temos de antemão?) que nos colocam a trabalhar? A este respeito lembro-me da colocação de Pontalis em resposta à questão; por que o analista escreve? Diz ele:

acho que um analista que jamais teria experimentado a necessidade de escrever, mesmo que para si próprio (se isso tem algum sentido, escrever pra si mesmo...), de transcrever em palavras, numa folha de papel, num caderno íntimo ou em folhas soltas, alguma coisa, estaria completa e problematicamente satisfeito. Um analista que poderia dizer que nas suas sessões não há resíduos, insuficiências, que suscitem a vontade de tentar resgatá-los sob outra forma, seria um analista, a meu ver, demasiado contente consigo mesmo[19].

 

Creio que esta colocação abre o lugar da escrita do analista. O analista escreve para dar conta do resto, dos resíduos transferenciais e da insuficiência de seu saber que é construído na sessão e que logo se perde no momento seguinte, exigindo nova elaboração. Viñar, também em entrevista ao Jornal de Psicanálise, defende o papel da escrita do psicanalista com os seguintes argumentos:

Um dos pilares da psicanálise é a livre associação e a atenção flutuante, ou seja, matéria fluída e errática. É como o ar que está em toda parte, mas se tentamos pegá-lo com as mãos, não sabemos quando o agarramos. Penso que a escrita funciona para o analista como uma âncora, como o limite, como alguma coisa que pode dar um ponto, como o fio de uma agulha solta ao dar a pontada. A escrita é como dar a pontada a tudo isto que está voando, errático por todo lado. Ela reúne, dá forma ao informe. É como um momento de calmaria para depois poder reatar essa vertigem que é sempre estar em atitude de associação livre. É um momento de ancoragem, de pausa que implica ver onde estamos situados[20].

 

Outro aspecto que merece consideração na escrita do analista diz respeito à cientificidade. A questão: a Psicanálise é uma ciência? está posta desde os inícios da Psicanálise com Freud e está aberta a toda sorte de discussão. Há tanto aquelas que pretendem reduzi-la aos limites estreitos da ciência positivista quanto as que pretendem encontrar outro solo para abrigar nossa ciência-artística. Há coisas que se pode medir, pesar, contar. Há outras que não. E, como diz Herrmann[21] de maneira muito bem humorada, tentar medir o que não dá para ser medido é como usar luvas de boxe para desmontar um relógio: é possível amassá-lo, mas nunca entender seu mecanismo.

 

Vale a pena lembrar ainda a crítica formulada por Davis e Hersh, em The limits of mathematics:

O mundo interior da vida humana nunca será matematizável. É certo que alguns psicólogos e sociólogos aparecem com seus questionários e estatística de qui-quadrado, pretendendo estudar quantitativamente a mente humana; mas a maior parte dessas investigações está tão distante do alvo que basta ao crítico dizer Puuh! que caem sob o peso de seu próprio absurdo pomposo[22].

 

Proponho então refletir sobre o que entendemos por cientificidade; sobre quais são o objeto e o método de nossa disciplina. Somente uma análise séria e criteriosa dessas questões poderá oferecer subsídios para criação de um leito que, diferente do de Procusto, acolha e fertilize o pensamento psicanalítico.

 

Herrmann em sua extensa obra defendeu o desenvolvimento da psicanálise como forte candidata à posição de teoria científica da alma, estrategicamente colocada entre Filosofia, Psicologia, Medicina e Literatura. Este autor propõe que a principal dificuldade para a psicanálise ser considerada uma ciência reside na parcialidade com que trata seu objeto. Como gostava de dizer: A psicanálise não ocupa ainda o espaço inteiro a ela reservado por direito e por origem, não preenche o horizonte de sua vocação.

 

O autor tomou três pontos básicos como direção a este horizonte: uma rigorosa recuperação do método psicanalítico, que depois de Freud foi confundido com o tratamento clínico; a generalização das teorias metapsicológicas para que possam dar conta não apenas das condições psíquicas individuais, mas do real humano; e por fim que possa ampliar o espectro de temas que se consideram psicanalíticos, hoje limitados quase apenas aos já tratados pessoalmente por Freud.

 

A maior contribuição do pensamento deste autor, como ele próprio não cansou de dizer, consistiu na investigação cuidadosa do método psicanalítico, a interpretação, entendida como ruptura de campo[23]. E dele (do método) decorrem duas derivações cuja aceitação nem sempre é vista com bons olhos. A primeira delas diz respeito ao reconhecimento do objeto de estudo da psicanálise, ou seja, o Homem Psicanalítico. O Homem Psicanalítico, por não se tratar do homem concreto, mas de uma ficção, induz à aceitação da ficção dentro da psicanálise. A segunda derivação nos força a levar em conta o montante de desconhecimento que a ruptura de campo deixa à mostra. Nosso conhecimento é sempre provisório e parcial, construído e reconstruído a cada sessão com nosso paciente. Herrmann assim afirma no texto aqui comentado:

 

Na prática psicanalítica, esta é a função possível da teoria: operar como interpretante na ruptura de um campo, e é caso de desconfiar de qualquer teoria que passe incólume pela prova de ruptura de campo; ou não se trata de uma legítima teoria clínica, mas de uma especulação abstrata que não se deixar tocar, ou o analista a emprega com fé cega e não está disposto a teorizar por sua conta e risco[24].

 

Herrmann[25] reconhece o interesse daqueles analistas que trabalham em universidades - mas não só deles - em promover pesquisas e como consequência divulgá-las através de publicação. Analisando tais pesquisas conclui que elas são basicamente de três modalidades: pesquisa empírica; investigação teórica (ou pesquisa conceitual) e pesquisa clínica.

 

Sobre a pesquisa empírica, que imita a pesquisa das ciências da natureza, Herrmann chamou a atenção para o perigo quando se utiliza um modelo de pesquisa inadequado ao objeto de estudo. Se a linguagem matemática é importantíssima para o desenvolvimento do conhecimento moderno, seu sucesso depende da adequação ao objeto, o autor nos adverte. No caso da Psicanálise ela é aceitável como recurso auxiliar, nunca como o método principal, o que levaria sem dúvida ao absurdo.

 

Sobre pesquisa conceitual, Herrmann reitera a ideia de que os conceitos psicanalíticos não são dedutíveis uns dos outros, mas da escuta clínica. Para esclarecer tal ideia, compara os conceitos psicanalíticos aos fotogramas que compõem um filme afirmando que só fazem sentido em movimento no curso de uma análise. Assim, "discutir os conceitos da psicanálise em estado teórico, o oposto do estado nascente que a clínica e a análise da cultura proporcionam, pode levar rigorosamente a qualquer conclusão, pois estes não se derivam um do outro e nem todos se relacionam diretamente entre si. [...] A Psicanálise é o método interpretativo em ação, não uma teoria"[26].

 

E finalmente sobre pesquisa clínica o autor reconhece que o trabalho do dia a dia do analista em seu consultório é uma das formas mais elevadas da investigação. O analista, de cada análise deriva prototeorias que algumas vezes chegam a teorias elaboradas suficientemente para serem publicadas. E o conjunto desse trabalho de pesquisa é feito com o método psicanalítico. Diz Herrmann: "Não necessariamente a partir da técnica terapêutica padrão, é evidente, mas, tal como as psicanálises da cultura de Freud, obedecendo ao método interpretativo. Mais que um relato clínico, a pesquisa psicanalítica, além de apresentar a história de um tratamento, faz avançar decisivamente o conhecimento da psique humana. Um ensaio teórico, apoiado em material clínico ou na análise de certo recorte da sociedade e da cultura, constitui também uma pesquisa. Explorações técnicas, idem. Em suma, pesquisa é algo que os analistas estão sempre a fazer; bastaria saber transformar o trabalho diário em pesquisa comunicável".

 

Ainda no mesmo documento o autor reitera: "Na empiria clínica, a opção pelo método psicanalítico equivale a propor uma alternativa ao modelo usual de pesquisa psicológica, baseada em protocolos, estatística elementar, grupos de controle etc. Grosso modo, a investigação científica é composta por dois momentos fundamentais, de importância muito desigual. A dimensão de descoberta, a heurística, que constitui em essência a própria investigação. Já a comprovação, ou verificação, é um segundo momento complementar, um apêndice valioso, porém jamais central à pesquisa".

 

Tais são as questões que gostaria que fossem tomadas em consideração na construção de um leito para a psicanálise. Ou continuaremos a deitar em cama inóspita?


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