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Resumo
A autora aborda os traumatismos psíquicos provenientes do contexto social e da época em que vivemos, caracterizada por estarmos sujeitos a diversas crises, rupturas, onde o que parece prevalecer é um desassossego, um mal no ser mesmo da humanidade, tomando de Kaës (2012) o conceito de malêtre, que, diferente do mal-estar na cultura proposto por Freud (1929), parece considerar a falha na sustentação social. Propõe-se aqui, através da exposição clínica de duas vinhetas, valorizar os dispositivos-enquadres que levam em consideração o trabalho vincular e o uso do mediador terapêutico nomeado como pictograma grupal.


Palavras-chave
dispositivo-enquadre grupal; mediador terapêutico; pictograma grupal; malêtre; o violento.


Autor(es)
María Antonieta Pezo del Pino Pino


Notas

1. Berenstein e Kaës, Encuentros - Diálogo Berenstein-Kaës, p. 5.

2. R. Kaës, Le malêtre.

3. R. Kaës, op. cit., p. 4, itálico nosso.

4. Mantenho a palavra utilizada por Kaës como "garante" vinculados aos garantes metassociais. Termo emprestado por Kaës do sociólogo Alain Touraine, para abarcar a noção de sustentação do outro.

5. Kaës, Problemas planteados por la extensión del psicoanálisis. Obstáculos y aperturas clínicas y teóricas, p. 209.

6. Kaës, Investigaciones sbre el Preconsciente, pág. 11.

7. Puget, "Os dispositivos e o atual".

8. Utilizamos o violento e não a violência, para caracterizar que não se trata de um sujeito e objeto, um culpado e uma vítima, o violento caracteriza as ações quotidianas, muitas silenciosas que parecem até anestesiar o sujeito.

9.J. Puget, "Os dispositivos e o atual", p. 4, itálico nosso.

10. As consultas terapêuticas são introduzidas no Hospital Paddington Green Children's nas consultas que denomina de Psychiatric Snack Bar (cafeteria psiquiátrica), como uma modalidade de atendimento da primeira consulta, em casos que dificilmente indicarim uma psicanálise.

11. O militar em questão tinha buscado refúgio nos Estados Unidos, e retornado ao Peru para o juízo.

12. R. Kaës, "Investigaciones sobre el Preconsciente", p. 1.

13. A Marcha da Vida é um programa educativo organizado pelo Fundo Comunitário desde 2009. "Na viagem são apresentadas a história das comunidades judaicas pré 2a Guerra Mundial, na Polônia e em Berlim, visitando os diversos cenários da Shoá, entre eles campos de concentração e extermínio, incluindo o percurso entre Auschwitz e Birkenau, que era feito a pé pelos prisioneiros". Disponível em: <http://fundocomunitario.org.br/marcha-da-vida/>



Referências bibliográficas

Benhaïm D. Reflexiones acerca del Malêtre de René Kaës. Disponível em: <http://www.intersubjetividad.com.ar/website/articulop.asp?id=270&idioma=&idd=8>.

Berenstein I.; Kaës R. (2002). Encuentros?- Diálogo Berenstein-Kaës. Psicoanálisis APdeBA, vol. xxiv, n. 1/2.

Kaës R. (1997). Investigaciones sobre el Preconsciente. Conferência.

____. (2012). Le Malêtre. Paris: Dunod.

____. (2015). Problemas planteados por la extensión del psicoanálisis. Obstáculos y aperturas clínicas y teóricas. Videoconferência, 13 out. 2013. APA: Buenos Aires.

Pezo M. A. del Pino (2014). A cadeia associativa grupal e o pictograma grupal. Tese [doutorado]. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Disponível em: <file:///D:/Antonieta/Desktop/pino_corrigida.pdf>.

Puget J. (2010). Os dispositivos e o atual, Revista Brasileira de Psicanálise, vol. 44, n. 2, 35-43. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rbp/v44n2/a06.pdf>.

____. Subjetivación discontinua y psicoanálisis. Buenos Aires: Lugar Editorial.





Abstract
The author addresses the psychic trauma from the social context, and from the current time characterized by being subject to various crises, ruptures, where what seems to prevail and a restlessness, an evil in the very being of humanity, taking from Kaës (2012) the concept of malêtre. Different of the malaise in the culture proposed by Freud (1929), what seems to be in question is the fault in the social sustentation. It is proposed through the clinical exposition of two vignettes to evaluate the device-frames that take into account the binding work and the use of the therapeutic mediator named as a group pictogram.


Keywords
group-device; therapeutic mediator; group pictogram; malêtre; the violent.

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 TEXTO

Intervenções pontuais em situações de crise com pacientes traumatizados

Punctual interventions in situations of crisis with traumatized patients
María Antonieta Pezo del Pino Pino

O sujeito falado pelo grupo

O grupo, com sua história, suas leis, precede ao nascimento do sujeito. A criança ao nascer advém sujeito no encontro com o corpo do outro, com a palavra que vai significando seu sentir, desejar, e quando através dessa palavra acede ao grupo, comunidade que o acolhe. Serão as alianças, contratos e pactos sociais que vão se tecendo, que irão constituindo o sujeito, como um sujeito, sujeito do grupo. É no encontro com o outro, com a outredade, com o outro da alteridade, com aquele que deixa traços do diverso, do novo e do diferente, que o sujeito vai constituindo uma subjetividade social.

O que Freud distingue falando do sofrimento psíquico de origem social é o campo social, que tem uma autonomia e que não é simplesmente uma extensão do psiquismo. A vida social tem suas próprias exigências que lhe impõe ao psiquismo[1].

A tradição psicanalítica com ênfase no atendimento individual, a valorização do mundo intrapsíquico levou a considerar o sofrimento psíquico de origem social como se fosse uma "extensão do psiquismo", ou uma projeção do mundo interno, embora Freud houvesse considerado que se tratava de um estatuto diferente. O social tem presença através das manifestações próprias da natureza humana, a cultura, com seus mitos e rituais; suas organizações sociais, suas instituições educativas, religiosas, jurídicas, de saúde. O social marca, interpela, questiona, produz, provoca, permite desenvolver, crescer. E, em circunstâncias adversas, no lugar de crescimento e criação, o social impõe sofrimento devido a experiências do violento na ordem social, ou, devido a desastres da natureza. Existe outra ordem de sofrimento que é inominável devido à perplexidade causada por alguns tipos de violência que remetem à sensação do "não humano", devido à retirada de alguns direitos fundamentais de convívio social, ou por falhas ambientais. Como marca fundamental, a impossibilidade do meio de servir de continente, de sustentação.

Kaës[2], quando pensa o mundo em que vivemos, considera que aquelas características próprias do mal-estar na cultura proposto em 1929 por Freud são insuficientes para descrever o atual. Vivemos num tempo de dor, de desamparo, um "mal" no ser mesmo da humanidade, que produz a sensação do insubstancial, da inquietação, desassossego, um mal do ser, que ele denomina como "maletrê". Ao criar esse neologismo, descreve a sensação de insatisfação, descontentamento caracterizado por estar "remexida" a vida psíquica devido ao enfraquecimento dos vínculos sociais, o que coloca em questão a capacidade mesma de viver, de existir. Penso que se trata de um existir propriamente humano, porque o que parece ir se perdendo é a capacidade de empatizar, nos comover, nos solidarizar com o outro. Desta maneira, o que parece que vamos perdendo é aquilo que seria o propriamente humano.

Formo o neologismo "malêtre", sem traço, como se diz maltrato, ou malformação ou "deser" (désêtre), porque se trata de dor, de desamparo e de mal no ser mesmo da humanidade. Sem dúvida grandes palavras, mas também grandes males que obrigam a coexistir a análise clínica, a construção metapsicológica e a interrogação ontológica[3].

O mal-estar na Cultura, escrito entre duas guerras por Freud, para Kaës não é atual, devido à radicalidade de algumas mudanças próprias às condições sócio-históricas do mundo, apontada por inúmeros pensadores, que dividem um antes e um depois de Auschwitz. De acordo com Kaës, "o contrato intersubjetivo e intergeracional" que poderia funcionar como garante[4] ou metaenquadre, se sentir pertencente a um grupo, um coletivo, hoje se encontra debilitado, "estraçalhado" "feito pedaços"[5]. Os espaços sociais, os contratos, os relatos organizadores próprios dos mitos, as crenças que poderiam servir de amparo estão quebrados.

 

Os traumas, os traumas sociais

A concepção de trauma que aqui desejamos enfatizar não é o trauma descrito por Freud, que tem produções no intrapsíquico e na psicopatologia da histeria. Nos interessa reconhecer a existência de experiências compartilhadas por um grupo determinado ou uma comunidade que se caracterizam pelo rompimento daquilo que as tornava seguras, sustentadas. Em 1979, Kaës afirma que a vida do homem transcorre entre crises, rupturas e suturas e que será nesse espaço que estarão em jogo as transformações do social, o mental e o psíquico[6]. Nas situações de crises, observa Kaës, o articulado e o vinculado se rompem; a continuidade se torna descontínua; perante as formações paradoxais e de compromisso surge o incremento dos antagonismos, desordens e conflitos catastróficos; perante a ambivalência, a cisão; no lugar da organização, a desorganização; no lugar da criação, a dispersão; no lugar de unir, juntar, agrupar, a individuação. Ao comentar sobre a subjetividade social, Puget[7] enfatiza como características: a sensação de descontinuidade, fragmentação, incerteza, indeterminação, imprevisibilidade própria dos vínculos no mundo atual. Talvez possamos dizer que aquilo que Kaës caracterizava como "crise" na década de 1970, parece ser na atualidade uma vivência quotidiana, à medida que vivemos constantes rupturas, descontinuidades e um aumento dos antagonismos.

Outro aspecto do trauma social é que pode ser um acontecimento social de caráter político que afeta um povo, ou um evento repentino ou recorrente e mesmo um acidente da natureza que irrompem inesperadamente e desorganizam um coletivo. A impossibilidade de nomear o vivido é uma característica própria desse tipo de vivência, o corpo é tomado, capturado, e parece que não há palavras para enunciá-lo. Outra forma é viver como se a existência tivesse apenas um sentido ou significado, algo que circula, "matraca" (faz ruído) na mente, paralisa, impede de dormir, domina. O sujeito vive como se não houvesse uma multiplicidade de sentidos para o viver, como se estivesse congelado ou houvesse sido levado pela ruptura. Os depoimentos daqueles que sobreviveram no campo de concentração mostram como essa sobrevivência passava por não registrar alguns sinais como, por exemplo, a ausência de companheiros, o violento[8], para de pronto só concentrar o esforço mental em ingerir um determinado pedaço de pão, ser o último da fila que espera por uma concha de sopa, e assim ingerir o mais nutritivo.

Evidentemente que os traumatismos sociais trazem consigo lembranças, uma memória intra­psíquica e uma memória compartilhada, coletiva que é necessário que seja ativada, com o objetivo de elaborar o vivido e criar estratégias para que o que foi vivido não se repita. Poder circular a palavra e romper o silêncio é fundamental quando realizamos uma intervenção psicanalítica. Construir conjuntamente o vivido, poder produzir algum alívio, porém é essencial favorecer o surgimento de formas de pensar, sentir e fazer que permitam continuar vivendo. Tomar o significado do viver ampliado para a multiplicidade, o diverso, não só para aquilo que se cortou e se interrompeu com o evento traumático. Conviver com a dor não significa esquecer, é construir com o vivido algo da ordem do criativo, do produtivo, de vida.

 

Intervenções pontuais:
dispositivos-enquadres grupais

Essencial no nosso fazer quotidiano é pensar dispositivos que permitam abordar a dor e o sofrimento que tenham sua origem no social. Sem dúvida, se o sujeito se constitui como tal graças à presença do(s) outro(s) e é, no dizer de Kaës, sujeito do grupo, será justo lhe ofertar espaços de acolhimento grupal, suficientemente continentes, como um grupo capaz de restituir aquilo que falhou, ou que deixou feito pedaços.

Consideramos necessário oferecer intervenções pontuais que possam ter como modelo as denominadas por Winnicott como "consultas terapêuticas", só que estendidas a grupos e/ou famílias. Utilizo a proposta winnicottiana da consulta terapêutica caracterizada por ser um breve, intenso e profundo encontro terapêutico, com o uso de um mediador terapêutico. O mediador proposto por Winnicott nas consultas terapêuticas com crianças denomina-se "squiggle game" ou "jogo do rabisco". Inspirados nesta brincadeira, introduzimos o pictograma grupal, como um mediador terapêutico, que facilita, através do desenhar, construir e criar junto com outro(s) desenhos, cenas que falam, trazem lembranças, sonhos singulares e compartilhados.

O pictograma grupal permite fazer surgir aquela palavra que, antes impedida, pode dizer da dor, dizer sobre aquilo que se viveu, que não tem registro na memória e também aquilo que não aconteceu, aquilo que poderia ter acontecido, ou como seria um ato de amor, de cuidado ou de sustentação. Os mediadores terapêuticos têm a função de permitir que a palavra possa circular, graças à presença do outro e ativação do pré-consciente que o grupo favorece. Assim, a palavra, os sentimentos saem de seu encapsulamento para ir ao encontro do múltiplo, do diverso, do polissêmico.

Quando trabalhamos com mediadores terapêuticos, é importante facilitar o dizer, entredizer, o dizer junto com, refletir sobre o que vivemos, sentimos, pensamos e fazemos com a experiência. A atenta escuta, o perceber, associar junto com, indagar cuidadosamente substituem o que comumente seria a tarefa psicanalítica, interpretar. Winnicott sugere que mais importante que interpretar é que o paciente possa chegar a algum ponto essencial. Intervir, interferir como propõe Puget é: "interferir na mente do outro, no seu sistema de pensamento sem que isso implique explicar, que tão somente produza uma ação que questione e interrompa um tipo de pensamento"[9].

 

Dispositivos-enquadres grupais

Trabalhamos em intervenções que utilizam dispositivos-enquadres grupais que têm dupla finalidade: acolher os sujeitos que consultam e mobilizar intensa e profundamente o psiquismo. Utilizamos mediadores terapêuticos com grupos em populações que vivenciam situações de crises, traumatismos sociais, vulnerabilidade psicossocial, pacientes psicossomáticos, jovens que cortam o próprio corpo, para assim exaurir sentimentos dolorosos. Em geral, sujeitos que viveram experiências inomináveis, sem registro, traumáticas se beneficiam da experiência vincular. Nestes grupos é necessário produzir questionamentos que permitam ampliar a experiência vivida, que propiciem o surgimento de sentimentos e pensamentos, a escuta de si mesmo e do outro. Suscitar um dizer, em entredizer polissêmico, criativo, próprio da diversidade e multiplicidade discursiva que permita poder sair do sopor do "pouco sentido" do viver.

Entendemos o grupo, como Kaës propõe, um lugar da conjunção de três espaços da realidade psíquica, o espaço do:

 

Sujeito singular, inicialmente constituído como sujeito de grupo e como membro de um grupo.

Grupo enquanto entidade específica.

Dos vínculos intersubjetivos que ali se formam.

 

O trabalho com grupos é considerado segundo Kaës uma extensão da psicanálise, já que utilizamos nas intervenções grupais os pressupostos fundamentais do método psicanalítico. Propomos aos membros do grupo que falem, desenhem, façam, dramatizem o que desejem de acordo com o princípio da livre associação. Do lado do terapeuta, uma escuta em atenção flutuante e o cuidado com os processos transferenciais e contratransferências. Buscamos e favorecemos a emergência de processos interdiscursivos, com o uso da palavra, o gesto, a linguagem corporal, a criação dramática. Prestamos atenção às cadeias associativas grupais e os processos intermediários, com seus pontos de articulação. As cadeias associativas grupais são produzidas pelo encontro e articulação desses três espaços psíquicos de produção inconsciente: o intrapsíquico, o intersubjetivo e o grupal. E, quando introduzimos um mediador terapêutico, a cadeia está vinculada também ao estímulo provocado pelo mediador.

 

O pictograma grupal?- mediador terapêutico

Winnicott, interessado em ampliar a escuta psicanalítica para âmbitos pouco explorados[10], encontra uma maneira de se comunicar profundamente com uma criança, em um espaço que denomina consulta terapêutica. Nesse contexto, Winnicott utiliza o jogo que denomina "squiggle game"?- jogo do rabisco. Esse jogo do rabisco consiste em que cada um dos membros do par terapeuta-paciente alternem e realizem rabiscos, de olhos fechados, que logo são transformados em desenho. Nesse vai e vem, nesse ir e vir de rabiscos-desenhos, surgem palavras, lembranças, sonhos que irão sendo associadas com os desenhos. Ou, como anos depois uma paciente depõe, "esses desenhos dele e os meus foram falando" ... "E, hoje quando eu vejo um desenho eU falo com ele, e sinto que também ele fala comigo". Assim as imagens, os pictogramas, falam como nos sonhos, dizem sobre si mesmos e sobre aquilo que se constrói no encontro junto com o outro (intrapsíquico e intersubjetivo). Aqui Winnicott destaca que o importante não é uma interpretação "brilhante" e sim que o paciente possa chegar a algum ponto importante de si.

Inspirados neste modelo da consulta terapêutica, de construção conjunta de desenhos, introduzimos uma brincadeira grupal, útil em intervenções institucionais, em situações de crise, em atendimentos familiares, grupais. Um mediador terapêutico que denominamos pictograma grupal.

O pictograma grupal consiste em convidar os membros de um grupo para desenharem juntos em uma mesma folha de papel, construir desenhos, narrativas, histórias, sonhos singulares e compartidos. Nesse encontro vincular?- grupos ou famílias?- solicitamos que "desenhem juntos nesta folha de papel". É usual que ante o pedido surja a pergunta de que se cada um faz seu desenho ou se fazem juntos um só desenho. E respondemos que seja o que eles desejem. Abrimos assim o espaço à associação livre, às diversas modalidades de trabalho, criação, co-pensar, co-construção e ao desejo. Enquanto desenham, os membros do grupo vão estabelecendo conexões entre os traços, os desenhos, os dizeres e entredizeres, as histórias e narrativas que vão surgindo em cadeias associativas, ao falar e associar os desenhos aos sentimentos suscitados, lembranças individuais e compartilhadas. Enquanto os membros do grupo vão associando, verificamos que se produzem encontros surpreendentes, inéditos, muitas vezes comentários que não teriam surgido se não fossem mediados pelo pictograma grupal.

O estabelecimento de associações com fatos recentes, com momentos impensados, com lembranças ou sonhos vividos singularmente ou comuns é muito característico. O fundamental é que o mediador facilite a comunicação entre os membros do grupo de tal forma que possam falar sobre aquilo que a partir do mediador surge, sobre aquilo que convoca o desenho do outro, mas que talvez estivesse presente sem acesso a palavra. E, assim, elaborar vivências traumáticas, lembranças que pareciam esquecidas, recalcadas, desmentidas, negadas; articular o que estava desarticulado, conectar o interno com o externo, o passado com o presente. Deste modo, encontrar palavras para nomear a dor, em geral facilitadas pelo encontro com o outro, aquilo que o uso do mediador introduz, o encontro com o alheio, o empréstimo do pré-consciente do outro. Processos facilitados pelo encontro vincular.

Gostaríamos de ilustrar uma situação grupal de criação conjunta de desenhos e de associações que foram sendo tecidas e formando uma construção que permitiu elaborar o vivido e sofrido. As cadeias associativas grupais mostram de que maneira, enquanto desenham, vão surgindo lembranças, conversam sobre o que viveram e aquilo que podem construir agora conjuntamente, evidenciando processos de co-criação, co-produção, co-associatividade.

Apresentamos um grupo composto por pessoas que viveram diversas situações durante o conflito armado que se deu no meu país, o Peru. No contexto de uma intervenção grupal, dentro de uma instituição que os acolhe e propõe diversas atividades, como um centro de atenção psicossocial, desenvolveram um desenho, que parecia algo em princípio estereotipado, uma paisagem. Ao serem convidados a falar sobre o produzido manifestaram:

 

Teresa: Aqui o sol. Que ilumina, há um entardecer, há um sol e de repente brilha. Nós somos assim, cada um terá passado em suas vidas e histórias e talvez nós estejamos aqui unidos, compartilhando.

Maria, a seguir: Sol, esperança, mas não devemos esquecer que somos perdedores, mesmo se nos escondermos, mesmo se encontrarmos justiça, e alguém diga, fulano de 9 anos, fulano de tal 10.

Teresa: Embora eles te possam dar ouro, prata, nós continuaremos com lembranças, não é mais a mesma coisa, onde eles queimaram, quando eu saio eu me acalmo, mas você vê os assassinos, eles tiram a língua, continuam nos maltratando psicologicamente, "lave suas calças, não têm nada para fazer" é um maltrato que continuamos a ter.

 

Eu pergunto, para melhor localizar o que eles disseram, o que é que eles estão tentando dizer, eles respondem:

 

Tadeu: Nós fomos a uma audiência pública, eles deportaram o militar[11], mas sempre que nós acompanhamos, eles nos maltratam.

Celia: Eu não tenho justiça, se eu fosse um congressista, talvez, eles não mataram a pessoa que mataram, eles mataram os parentes. Quando eles falam sobre estupro, eles perguntam aos advogados, o que é estupro, eles até os defendem dizendo que as mulheres mostram suas pernas, ou perguntam como você sabe que foi estupro?

Teresa: Mesmo que eles nos paguem, nada disso vai pagar o que perdemos. A única coisa que queremos é que não haja outros assassinatos, denunciamos, para que sejam divulgados para que não haja outros assassinatos. Como não havia uma lei, que dissesse matem, assassinem, e minha mãe apenas era uma falante de quíchua, foi morta por essa fúria.

Mario: A tortura não tem explicação, eram abusivos. Coloca teu nariz, senão te mato.

Juan: Hitler era filho de um judeu, baixinho, porque ele tinha tanto ódio de seu próprio povo? Que tipo de lavagem cerebral ele fez aos militares, com todos esses nazistas, ele os manipulou; se ele não dava ordens, ele se sentia perdido, foi assim que ele perdeu. E, queimou a tantos, algo assim aconteceu em Ajumarca, mas ouvimos tantas coisas, um jornalista disse: "bem, eles foram estuprados", "sua mãe era uma terrorista", parece que eles queriam fazer você sentir o que eles nos diziam.

 

Assim foram juntando, co-pensando, co-criando, co-associando: lembranças, sonhos, desenhos.

Nesta consulta grupal, observamos que o grupo se organiza de forma a fazer um desenho único. A paisagem parece representar o que se sente, se perdeu, uma natureza aprazível que foi destruída. Quando falam que "não há mais animais, nem árvores produzindo frutos", parecem se referir ao quanto que essa natureza (penso que talvez estejam utilizando como metáfora da natureza, a natureza humana) foi destruída, que ao retornar para essa terra paradisíaca desenhada, nada é igual, que retornar aos espaços de origem traz o sentimento de que não há nada como era antes, o que se liga a sentirem-se perdedores. Assim, trabalhando em grupo?- e essa parecia ser uma experiência de que eles precisavam?- disse um deles explicitamente: "é muito bom poder compartilhar uma terapia juntos".

 

A dramatizacão de uma cena quotidiana

O brincar psicodramático se apoia sobre cinco polos do pré-consciente: polo perceptivo, o polo figurativo, o polo verbal, o polo motor, e eu acrescentaria o polo intersubjetivo. O psicodrama coloca em jogo simultaneamente representações e afetos mobilizados pela história pessoal de cada um e representações inscritas nas figuras complementares do mito e da fantasia[12].

Utilizamos a dramatização do quotidiano como um mediador que consiste em solicitar aos membros do grupo que criem uma cena do dia a dia, sem sugerir tema, papéis, que cada um deve desempenhar. O que interessa é a possibilidade da criação conjunta, o trabalho de distribuição de papéis, e o desenvolvimento de colocar em cena uma situação vivida.

Gostaríamos de resgatar duas pequenas vinhetas que mostram a potência de se dizer aquilo que se encontra recalcado, que perturba e que não consegue ser nomeado.

 

Vinheta 1

No trabalho de preparação com jovens que realizariam a "Marcha da Vida"[13], atividade que tem como função estimular a memória coletiva sobre o extermínio nazista e propor aos membros da comunidade alertas para não se repetir situações semelhantes, depois de um intenso dia de preparação para a viagem, fomos convidados para realizar uma "dinâmica de grupo". Nos interessava poder construir juntos o significado da experiência que eles viveriam, falar sobre ela, o que teriam realizado com cada um dos animadores. Assim, pensamos no valor de criar juntos uma cena cotidiana, e lhes dissemos que brincaríamos de montar uma cena que falasse daquilo que eles quisessem, que poderia ser uma cena da vida quotidiana. Formamos dois pequenos grupos compostos por 7 e 8 participantes cada um. E, no momento de eles apresentarem as cenas, em ambos os grupos a dramatização se deu em atuações apenas gestuais, mostrando os gestos de horror, o medo, e sem palavras.

Uma vez concluídas as dramatizações, os participantes foram convidados para conversar, em roda, sobre o que eles tinham pensado, sentido enquanto preparavam e realizavam a encenação. Os jovens trouxeram associações a partir do "silêncio", ante o acontecido, como característica familiar. Silêncio mantido pelas vítimas e os filhos impedidos de questionar, mantendo assim um pacto de silêncio sobre esse assunto dolorido, aquilo que foi vivido pelos avós sobreviventes da Shoah. Mostraram o receio, o medo de enfrentar o temido, o reconhecimento do que seu povo havia vivido. Evidentemente, o pacto de silêncio que foi imposto intergeracionalmente estava ligado ao silenciamento do que nomeamos como inominável; haver vivido uma experiência "não humana" de ruptura da base que os sustentava.

 

Vinheta 2

Uma instituição que cuidava de crianças e jovens solicitou uma intervenção devido aos trabalhadores estarem vivendo um mal-estar, manifestado por receios, medo de serem demitidos, sentindo-se vigiados pela direção da instituição. Dissemos num segundo encontro que brincaríamos de dramatizar algumas cenas do dia a dia. Um deles pergunta se "acontecimentos da instituição". Respondemos que não, que seria para mostrar algo sobre o que se passava "fora, no dia a dia" algo que acontecesse quotidianamente.

Uma das cenas mostrada por um pequeno grupo é um ônibus desgovernado, que viajava entre ruas e avenidas, de maneira caótica, parava bruscamente, partia e parecia haver perdido o rumo que seguia. Então os passageiros corrigiam o trajeto, gritavam ao motorista pelo incômodo das paradas bruscas. Quando sentamos para conversar e trazer lembranças ou associações com o dramatizado, alguns deles relacionaram o motorista com o "diretor" da instituição. Nesse momento, puderam verbalizar que reconheciam na figura do diretor uma pessoa que não era responsável por tudo que ele determinava, já que existia acima dele um conselho diretivo que determinava "cortes", redirecionava o "caminho", os objetivos e funções e que ele apenas respondia e seguia a diretoria que administrava financeiramente as ações filantrópicas da instituição. Cabe destacar que a presença do diretor e dos funcionários da área técnica nessa intervenção?- como estratégia fundamental da nossa intervenção?- facilitou que esses sentimentos surgissem e pudessem refletir sobre seus medos e a "divisão" entre "técnicos-diretor" e funcionários da instituição.

 

Algumas considerações finais

Os dispositivos-enquadres grupais com o uso de mediadores terapêuticos se mostram fundamentais no trabalho em situações de crise, ruptura.

Os sujeitos colocados em grupo para "brincar" se sentem dispostos a entrar na atividade, já que os conteúdos que vão surgindo parecem não estar relacionados com a situação traumática.

A eficiência dos dispositivos-enquadres grupais com o uso de mediadores terapêuticos vem mostrando as vantagens de seu uso, já que eles permitem manifestar conteúdos psíquicos recalcados, negados, desmentidos. Favorecem a construção e criação grupal de estratégias e reflexões sobre o vivido, sentido e os pensamentos gerados pelas experiências traumáticas.

Seguindo algumas hipóteses levantadas na nossa pesquisa de mestrado e doutorado (2007-2014), e os trabalhos de Roussillon sobre associatividade não verbal, reconhecemos o valor associativo de expressões corporais, gestuais, dramatizações, desenhos. Assim, manifestações consideradas de pouco valor ou "sem sentido" (se jogarem de um lado para outro, perante as brecadas do motorista, o motorista perdido, os gestos, a não palavra, o silêncio) trazem uma potência quando pode se construir, co-construir junto com o outro, palavras, histórias, sentidos ao vivido, dramatizado, desenhado.


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