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Resumo
Uma jornada através da poesia?– através de algumas poesias e de alguns poetas?– por sentido e pelo significado do tédio e uma tentativa de encontrar suas possíveis relações com a visão winnicottiana e com os estados de sofrimento mental/ esquizofrênicos, tendo em mente o princípio da singularidade.


Palavras-chave
tédio; vazio; agonia; psicose; poética.


Autor(es)
Ana Cristina Gomes Bueno Bueno

é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise com Criança, do Espaço Potencial Winnicott e do Grupo Acesso.




Notas

1. Aos meus amigos: Marcia Rosen, Adriana Maria P. de Deus, Willian Winkler, João Pedro Jávera, Jefferson Pereira e Silva, Rogério Santos e Ricardo Telles de Deus?- todos membros de um grupo de estudos que acontece há alguns anos e que nos denominamos Círculo de Vila Mariana. Um agradecimento muito especial ao professor Rodolfo José Ferraz pela leitura cuidadosa e valiosa. E mais que um agradecimento, minha inteira devoção à Paulina Ghertman.

2. D. W. Winnicott, "O medo do Colapso", in Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott, p. 70.

3. A. Bosi, O ser e o tempo da poesia, p. 141.

4. W. Benjamim, "O narrador. Considerações sobre a obra de Nicolai Leskov", in Magia e técnica, arte e política, p. 204.

5. "Free-floating attention" foi traduzido para português por "atenção errante"; considerando que se trata de um termo usual em Psicanálise, nos permitimos fazer a correção.

6. A. Phillips, "Sobre o tédio", in Beijo, cócegas e tédio, p. 99.

7. Penso que é importante afirmar que Adam Phillips usa de modo bastante pessoal os termos e a teoria de Winnicott. Apesar de ser um autor muito criativo e original, de quem gosto muito, nem sempre concordo com suas colocações.

8. A. Phillips, op. cit., p. 99.

9. A. Phillips, op. cit., p. 103.

10. A. Phillips, op. cit., p. 106.

11. Caso o leitor desconheça o que é objeto transicional, seria interessante ler o artigo de Donald W. Winnicott "Fenômeno e objetos transicionais".

12. O. Paz, O arco e a lira, p. 21.

13. C. Baudelaire, As flores do mal, p. 99-101.

14. D. W. Winnicott, "O medo do colapso", in Explorações psicanalíticas: D. W. Winnicott, p. 72.

15. D. W. Winnicott, "O medo do colapso", in Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott, p. 72.

16. D. W. Winnicott, "Preocupação materna primária", in Textos Selecionados: Da Pediatria à Psicanálise, p. 496.

17. D. W. Winnicott, "O medo do colapso", in Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott, p. 73.

18. D.W. Winnicott, op. cit., p. 73.

19. M. Khan, "Introdução", in Holding e interpretação, p. 1.

20. M. Khan, op. cit., p. 2.

21. M. Sá-Carneiro, Dispersão, in Obra completa, p. 69.

22. M. Sá-Carneiro, op. cit., p. 69.

23. D. W. Winnicott, Natureza humana, p. 136-137.

24. F. Espanca, "Livro de Mágoas", in Melhores poemas, p. 56.

25. F. Espanca, op. cit., p. 56.

26. D. W. Winnicott, "O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil", in O brincar e a realidade, p. 154-155.

27. D. W. Winnicott, "O medo do colapso", in Explorações Psicanalíticas, p. 75.

28. Ver G. Safra, in Hermenêutica na situação clínica, p. 42.

29. Bíblia de Jerusalém?- Evangelho Segundo São João, p. 1842 e 1843.

30. A palavra poética, os símbolos não verbais de acordo com as colocações de Marion Milner.

31. D. W. Winnicott, "A criatividade e suas origens", in O brincar e a realidade, p. 99.

32. F. Pessoa, Livro do desassossego, p. 262.

33. F. Pessoa, op. cit., p. 263.

34. D. Alighieri, A divina comédia.

35. M. Khan, "Introdução", in Holding e interpretação, p. 3.

36. D. W. Winnicott, Os bebês e suas mães, p. 76.



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____. (1999). Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes.





Abstract
A quest through poetry?– through a handful of poems and poets?– for meaning and the sense of boredom and an attempt to establish possible relations with winnicottian thought and mental suffering/schizophrenic states, bearing in mind the principle of singularity.


Keywords
boredom; emptiness; agony; psychosis; poetics.

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 TEXTO

Viagem ao deserto do tédio na nau poética: Winnicott e a cartografia da agonia

Journey to the desert of boredom in the poetic ship: Winnicott and the cartography of agony
Ana Cristina Gomes Bueno Bueno

[...] se o que digo tem em si verdade, esta já terá sido tratada pelos poetas do mundo, mas os clarões de insight, que surgem na poesia, não podem absolver-nos de proceder à penosa tarefa de afastar-nos passo a passo da ignorância, em direção ao nosso objetivo[1].

O poeta é o doador de sentido[2].

 

O que é o tédio?

Antes de tudo e nada é preciso dizer o que é o tédio. Nada li sobre o tédio em uma abordagem psicanalítica; se existe algum texto, artigo ou livro sobre o tema, desconheço. Afirmada minha ignorância teórica, saio em busca de argamassa que me permita construir ao menos uma fieira de tijolos e possa ser minha linha de prumo ao escrever esse ensaio. E não é que encontro muita massa de construção? Em tempo! Encontro um livro de Adam Phillips que fala de tédio. Vou ler... Mas encontro também um texto do Masud Khan dos bons. Mãos à obra.

Primeiro busco no Aurélio, no Houaiss e eles falam quase que a mesma coisa. Tédio: aborrecimento, fastio, nojo, desgosto, sensação de vazio, cansaço causado por algo árido. Um fastio essa minha busca. Desisto dos dicionários. Tédio poderia ser qualquer coisa, desde depressão até melancolia. E já vi muita gente boa falando de tédio como se fosse melancolia, no sentido que Freud deu à palavra.

O tédio, como o vejo, é uma colmeia, com vários casulos e variáveis quase infinitas. Walter Benjamin afirma que "[s]e o sono é o ponto mais alto da distensão física, o tédio é o ponto mais alto da distensão psíquica. O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência"[1]. O tédio, para Benjamin, é o momento de espera para que a experiência possa vir a ser, os ovos só se transformam em pássaros se puderem viver a espera e serem chocados, aquecidos, segurados. O momento de hesitação que permite o ser criativo, tecido e entretecido. No meu entendimento, Benjamin está falando de um estado de relaxamento ou, em uma linguagem winnicottiana, num estado de não integração. Aqui o tédio é colocado como uma necessidade para que a vivência possa acontecer.

Adam Phillips também fala do tédio?- subtrai da obra de Winnicott um tédio que se relaciona com os estados tranquilos, de relativa quietude. Um tédio ligado a um estado não integrado, um estado de espera, uma experiência de expectativa. Phillips encontra em Winnicott um tédio que "está tanto à espera como à procura de alguma coisa, e no qual a esperança está sempre sendo negociada em segredo; e, nesse sentido, o tédio é similar a uma atenção flutuante livre[2]" [3].

Para Phillips, que baseia suas afirmações em Winnicott[4], "O tédio tem início como uma crise usual no desenvolvimento da sua capacidade para ficar sozinho em presença da mãe. Em outras palavras, a capacidade de se entediar pode ser uma conquista no processo de desenvolvimento da criança"[5]. Entre outras afirmações interessantíssimas, Adam Phillips coloca o tédio, no sentido em que ele o está usando, como um "autêntico estado transicional"[6], provocado por interrupções entre uma coisa e outra coisa, poderíamos dizer entre um fazer e outro fazer. Uma interrupção e não uma ruptura, parte da ordem do fazer e não do ser. Segundo ele, o tédio não é reativo a alguma grande perda.

Sem sombra de dúvida, este é um dos casulos possíveis, o estado de hesitação, e de espera como uma espécie de precursor da esperança, "O tédio, está claro, é a pré-hesitação..."[7], e que em muito conversa com a colocação de Benjamin, até onde posso compreender, e que encontramos também no consultório. Essa proposta de Adam Phillips do tédio como um fenômeno transicional[8]?- um estado intermediário?- por si só mereceria uma reflexão importante; porém, não é esse o tédio de que queremos falar. Queremos falar de um outro casulo do tédio, cada vez mais presente no consultório e mais próximo das ressonâncias da teoria do amadurecimento em Winnicott.

Em contrapartida, como Winnicott diz na epígrafe acima, alguns poetas modernos falaram sobre e até criaram uma estética do tédio. Vamos percorrer algumas dessas veredas e ver se encontramos algum tijolo útil para nossa construção. Talvez o tédio não seja passível de ser abordado e conceituado metapsicologicamente, entendemos que só podemos ancorá-lo num registro fenomenológico e poético.

A poesia como doadora de sentido

Por que a poesia? Não sou eu quem responde, mas eu assinaria embaixo sem pestanejar:

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de mudar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela esse mundo; cria outro. Pão dos escolhidos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; retorno à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Prece ao vazio, diálogo com a ausência: o tédio, a angústia e o desespero a alimentam[9].

Paz, mantendo o paradoxo, nos fala ao seu modo dos vários casulos da colmeia e do fio que a poesia costura criando fluidez.

Não se pretende analisar os poetas e nem fazer uma análise de crítica literária. Estamos pedindo socorro aos que poetaram o tédio, e nos socorrendo de fragmentos da fala de seres humanos em profundo estado de sofrimento, e em estados agônicos, colhidos e acolhidos na minha clínica.

A escolha recai sobre poetas do fim do romantismo e começo do modernismo, basicamente do começo do século xx. A imagem poética que vem das entranhas do poeta?- cravada, entranhada em vísceras poéticas?- nos fala da condição mais humana. A poesia presentifica o verdadeiramente humano, por isso ela pode desvelar o originário, o primordial, mesmo que forjada em um tempo outro.

Lembro de Baudelaire, que fala sobre o tédio, em Ao leitor[10]. Fragmentos:

 

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,

Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,

Aos monstros ululantes e às viscosas feras,

No lodaçal de nossos vícios imortais,

 

Há um mais feio, mais iníquo, mais imundo!

Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,

Da Terra, por prazer, faria um só detrito

E num bocejo imenso engoliria o mundo;

 

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,

Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.

 

Baudelaire coloca o tédio entre os piores monstros, horríveis, rastejantes e nojentos, que em um só abrir de boca engole o mundo. O pior dos vícios, o mais devastador. Vício imortal, portanto sem fim, interminável. Soa uma campainha... será que podemos estabelecer alguma relação entre Agonias Primitivas e Tédio? Será que Winnicott tem uma lanterna? Será que o tédio é a ponta de um iceberg que nos levaria a fazer contato com agonias consideradas impensáveis? Se elas são impensáveis, só os poetas podem nos salvar. Só a trama da linguagem poética pode nos tirar do labirinto, o fio de Ariadne. Vamos garimpar em lugares obscuros e talvez nunca percorridos, mas em alguma medida já sabidos, e correndo o risco de encontrar o Minotauro. Vamos precisar da lanterna winnicottiana, vamos percorrer a insanidade, vamos andando por outras rotas poéticas e encontrar o que puder ser encontrado.

Qual a importância do meio ambiente? Eis a primeira resposta:

O meio ambiente facilitador pode ser descrito como sustentação (holding), evoluindo para o manejo (handling) ...

[...]

E num meio ambiente facilitador desse tipo, o indivíduo passa por um desenvolvimento que pode ser classificado de integrador, ao qual se acrescenta a personalização, e depois o relacionamento objetal.

[...]

A mãe ou cuidador principal, durante a época da dependência absoluta deve emprestar seu ego ao bebê na função de ego auxiliar e ter clareza de que o bebê não separa não-eu do eu[11].

As falhas do holding (sustentação) ou no handling (manejo) em momentos em que o bebê está vivendo em absoluta dependência o jogam em estados de agonia. Ambientes que falham reproduzem labirintos em que o Minotauro se esconde. As agonias estão relacionadas a uma sensação de aniquilamento; qualquer que seja a integração, por mínima que seja, fica ameaçada de se desfazer. Winnicott muitas vezes usa os termos agonia e ansiedade como sinônimos, porém também nos informa que ansiedade não é um vocábulo suficientemente forte para designar o fenômeno que ele está tentando descrever. Mesmo quando usa ‘ansiedade' ela está, quase sempre, acompanhada da adjetivação: primitiva?- ansiedades primitivas ou agonias primitivas, o que significa dizer que estamos em terreno muito precário, portanto muito longe das claves da angústia e da ansiedade, que exigem uma integração mais consistente.

Em seguida, ele nos lista alguns exemplos do que considera vivências agônicas:

É possível listar as agonias (ansiedades, aqui, não é uma palavra suficientemente forte), entre as quais apresentamos as seguintes:

Retorno a um estado não integrado (defesa: desintegração).

Cair para sempre (defesa: sustentar-se).

Perda do conluio psicossomático, fracasso na habitação (defesa: despersonalização).

Perda do sentido do real (defesa: exploração do narcisismo primário).

Perda da capacidade de relacionar-se com os objetos (defesa: estados autistas)[12].

Nesse sentido, o tédio não seria apenas uma defesa, mas um sinalizador de que estamos no terreno das agonias e do aniquilamento. Terreno cheio de armadilhas, pantanoso, corre-se o risco de se afundar como na areia movediça.

Fracassos maternos produzem fases de reação à invasão e estas reações interrompem o "continuar a ser do bebê". Um reagir excessivo não produz frustração, mas sim uma ameaça de aniquilação. Esta, na minha opinião, é uma ansiedade primitiva muito real, que surge muito antes de qualquer ansiedade que inclua a palavra morte em sua descrição[13].

As doenças do grupo das esquizofrenias são sempre uma organização defensiva contra as agonias primitivas. As agonias não podem ser integradas pelo ego,

[...] a experiência original de agonia primitiva não pode cair no passado a menos que o ego possa primeiro reuni-la dentro de sua própria e atual experiência temporal e do controle onipotente agora (presumindo a função de apoio do ego auxiliar da mãe ou do analista). Em outras palavras, o paciente tem que continuar procurando o detalhe passado que ainda não foi experienciado, e esta busca assume a forma de uma procura deste detalhe no futuro[14].

Winnicott diz que o medo da morte, a futilidade, o sentimento de não existência e o vazio são todas organizações defensivas de algo que deveria ter acontecido, mas não aconteceu?- o que fica encapsulado num inconsciente significando "que a integração do ego não é capaz de abranger algo. O ego é imaturo demais para reunir todos os fenômenos dentro da área da onipotência pessoal"[15].

Na introdução que Masud Khan?- além de parceiro, paciente, supervisionando e editor de muitos textos de Winnicott, um interlocutor respeitado e ouvido ao longo da vida?- faz ao livro Holding e Interpretação, ele nos conta de uma conversa com Winnicott, na qual relata um diálogo com alguns pastores anglicanos, e que estes lhe perguntam: "como estabelecer a diferença entre uma pessoa que procura ajuda porque está doente e necessita de tratamento psiquiátrico e aquela que é capaz de obter ajuda simplesmente ao falar com eles", e que Winnicott após um momento de perplexidade frente a simplicidade da pergunta respondeu: "Se uma pessoa vem falar com você e, ao ouvi-la, você sente que ela o está entediando, então ela está doente e precisa de tratamento psiquiátrico..."[16].

Segundo essa história, o tédio seria um indicativo de que há sofrimento mental. Mas eu pergunto: o tédio seria do analista/ouvinte? E tenho que perguntar mais, o que estaria sendo mobilizado pelo interlocutor? Na minha experiência clínica, já atendi muitos pacientes graves e que despertaram em mim sentimentos e sensações muito diversos. Alguns despertaram tédio, é verdade, mas nem todos. Alguns, bem ao contrário, despertaram curiosidade e excitação. O tédio pode ser despertado pelo paciente, mas poderia ser também uma defesa do analista, ou um sinalizador de que o analista também está muito próximo de seus próprios estados de agonia?

Masud Khan nos indica uma trilha importante:

Para mim é importante fazer uma distinção entre causar tédio e sentir-se entediado. Minha hipótese é que o ato de provocar tédio possui a qualidade de "tendência antissocial" (Winnicott, 1956), e implica uma exigência e uma esperança, enquanto que sentir tédio é um estado organizado e defensivo de uma estrutura psíquica[17].

O tédio neste caso seria provocado no outro e não sentido pelo paciente, mas haveria um estado de paralisia produzido por quem entedia e pelo entediado. A dupla fica num estado de congelamento, podendo impedir que o processo de análise aconteça. Poderia o tédio ainda ser uma comunicação não verbal do paciente para o analista de sua falta de esperança, de seu vazio. É preciso um trabalho de renda miúda, cuidadoso e delicado, que discrimine o que é do paciente e o que é do analista e vá ao encontro do que é comum aos dois.

 

Almas ressecadas

Outro poeta, Mário de Sá-Carneiro, contemporâneo de Fernando Pessoa, morreu jovem em hotel em Paris. Sá-Carneiro brinca com a expressão Além Tejo, e escreve um poema Além Tédio. Fragmentos:

 

                Nada me expira já, nada me vive

                Nem tristeza nem as horas belas.

                De as não ter e de nunca vir a tê-las,

                Ecoando-me em silêncio, a noite escura

                Baixou-me assim na queda sem remédio;

                Eu próprio me traguei na profundura,

                Me sequei todo, endureci de tédio[18].

 

Em Mário de Sá Carneiro encontramos a irrealidade da vida, a vida seca, endurecida. Não há sentimento de tristeza nem beleza. O tédio não é tristeza, ele deixa claro. Ao existir tristeza e beleza, há vida. O tédio é a não vida, há ausência de vida, é o vazio. Há um despencar em queda sem remédio, tragado pela profundura do abismo.

 

                É uma alma esquecida,

                Cansei da vida

                De tanto divagar em luz irreal[19].

 

Há criação literária de roldão. Ao mesmo tempo que há uma agonia sem fim e de uma tal profundidade que resseca. Resseca a alma. Uma das agonias citadas por Winnicott é a falha na habitação da psique no corpo. Psique que não se aloja no corpo deixa o corpo ressequido.

A partir do estado de não integração se produz a integração por breves momentos ou períodos, e só gradualmente o estado geral de integração se transforma em fato.

[...]

A integração também é estimulada pelo cuidado ambiental. Em psicologia, é preciso dizer que o bebê se desmancha em pedaços a não ser que alguém o mantenha inteiro. Nestes estágios o cuidado físico é um cuidado psicológico[20].

Florbela Espanca nos dá uma outra dica, no poema Sem Remédio:

 

                Aqueles que me têm amor

                Não sabem o que sinto e o que sou....

                Não sabem que passou, um dia, a Dor

                À minha porta e, nesse dia, entrou[21].

 

A denúncia de um ambiente que apesar de amar não vê, não sabe de sua dor, nem sabe quem "eu sou". Ela avança trazendo o terror que envolve o tédio. Não sabem de seu pavor, e da:

 

                ...tortura infinda, que é a demência

                É sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio[22]

 

O tédio, espacialmente ao lado de loucura, pavor e dor, onde há um não olhar, sem a possibilidade de um compartilhar. É uma agonia funda, quiçá sem fim, sem a sustentação sequer de um olhar.

Espanca fala em sua obra de dor, sofrimento, falta de vida e futilidade. Branca e morta, traz um frio na alma que gela e corta. Todas as referências remetem para uma não vida, um estado agônico. Um olhar que não espelha...

Muitos bebês, contudo, têm uma longa experiência de não receber de volta o que estão dando. Eles olham e não se veem a si mesmos. Há consequências. Primeiro, sua própria capacidade criativa começa a atrofiar-se e, de uma ou de outra maneira, procuram meios de obter algo de si mesmos de volta, a partir do ambiente. [...] Depois, o bebê se acostuma à ideia de que, quando olha, o que é visto é o rosto da mãe. O rosto da mãe, portanto, não é um espelho[23].

O bebê que não recebe o olhar materno como reflexo de si mesmo, em casos em que o fracasso é reiterado inúmeras e incontáveis vezes, fica sujeito a ameaças de desintegração?- ainda que seja mínima a integração?- e organizará um sistema defensivo, gerando dificuldades relacionadas a torturas infindáveis.

O tédio pode ser visto como a imagem viva de um organismo sem alma, uma catedral abandonada, sem religiosidade, sem fé. Letárgico, aniquilado. Um corpo sem sonho, abandonado ao sono, um sono sem vida, sangue gelado e carne fria, morta. Um corpo que não sonha e não foi sonhado. Alma sem desejo. Tédio é isso? A falta de uma alma? O vazio?

Ao vazio várias referências estão colocadas por Winnicott:

Em alguns pacientes, o vazio precisa ser experienciado, e este vazio pertence ao passado, ao tempo que precedeu o grau de maturidade que tornaria possível ao vazio ser experienciado.

Para entender isto, é necessário pensar não em traumas, mas em nada acontecendo quando algo poderia proveitosamente ter acontecido[24].

Em Winnicott, mais que a palavra, há o gesto. Não é só o gesto do paciente, mas também o gesto do analista, o gesto criativo, o gesto que humaniza o outro, que o retira dos estados agônicos, gesto que sustenta. Ainda que o verbo seja uma palavra, ele é uma palavra que indica ação, ato. É a palavra que cria, que dá vida, não é a palavra que representa e sim a que apresenta[25].

 

                No princípio era o Verbo

                e o Verbo estava com Deus

                e o Verbo era Deus

                [...]

                E o Verbo se fez carne,

                e habitou entre nós[26].

 

É a palavra encarnada. A compreensão do significado do vocábulo palavra, principalmente nas modernas filosofias ocidentais, nos levou a entendê-la como representação, tal como fez Freud e radicalizou Lacan. No entanto, não é a palavra adjetiva ou substantiva, mas a palavra-gesto que permite o acesso ao originário[27]. O gesto espontâneo seria o acontecimento ou movimento do que necessita acontecer.

Em casos extremos, Winnicott nos avisa:

[...] tudo o que importa e é real, pessoal, original e criativo, permanece oculto e não manifesta qualquer sinal de existência. Nesse caso extremo, o indivíduo não se importaria de viver ou morrer[28].

Tudo que lemos e vimos até agora nos mostra o jardim oculto nos caminhos da Quinta da Regaleira em Cintra. Passamos pelos Guardiões do Portal. Será que chegaremos ao poço místico das revelações? O aniquilamento, o sem sonho, o sem desejo, o sem pensamento anunciam uma ausência de vida psíquica; em outra linguagem, talvez, pudéssemos falar até mesmo da ausência de um aparelho psíquico.

 

Sem Locus para o desejo e para o querer

Por último, o poeta maior?- Fernando Pessoa. Em várias de suas poesias e em todos os seus heterônimos encontramos referências ao tédio. Só Pessoa já nos teria levado ao ritual de iniciação. No Livro do Desassossego, Pessoa tem um gomo (263) inteiramente dedicado ao Tédio.

Tão dado como sou ao tédio, é curioso que nunca, até hoje, me lembrou de meditar em que consiste. Estou hoje, deveras, nesse estado intermédio da alma em que nem apetece a vida nem outra coisa. E emprego a súbita lembrança, de que nunca pensei em o que fosse, em sonhar, ao longo de pensamentos meio impressões, sempre um pouco factícia, do que ele seja[29].

Uma alma sem ilusão, um vácuo áspero que não sonha, delira. Sem locus para o desejo e para o querer. O sentir se resume a dor e o tédio é interminável, solapa toda e qualquer aspiração. Um mero alento é vão. E o tédio é o inferno derradeiro. Uma das agonias listadas por Winnicott refere-se ao despencamento interminável. É o sono sem sonho, como a catedral abandonada, como a frieza do viver em Espanca, ou o olhar esquivo à mínima emoção, de Baudelaire. Todos e cada um a seu modo falam da não vida, da ausência de emoção ou sentimentos. De um lugar de agonia. De uma ausência de esperança.

Para Pessoa:

O tédio... Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o ceptiscimo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade[30].

A hipótese de Winnicott para que a criança possa desenvolver "confiança" e a "crença em" deve-se à capacidade dos pais ou cuidadores em criar condições para que isto ocorra de uma forma contínua, de modo que possa haver fidedignidade?- Fé. A perda da ilusão precocemente joga o indivíduo numa realidade crua, sem possibilidade criativa. O objeto subjetivamente criado de acordo com as necessidades do indivíduo não acontece ou acontece de forma muito precária, com consequências as mais diversas: enrijecimento da capacidade de fluidez, não constituição de tolerância para as instabilidades e oscilações da vida, e a não constituição da capacidade de "crer em", acarretando o congelamento da esperança. Pessoa tem razão, pois quem tem "uma mitologia" pode ter fé, pois teve continuidade de ser. Apesar de só, está acompanhado por Deuses. Pessoa está em consonância quase que perfeita com Winnicott.

No final das contas, o que se sente é que a preservação de algo que é não vida não vale a pena. A morte do que é realmente importante já aconteceu. Mas devemos pensar que há gradações em tudo que foi dito e que nem sempre estamos lidando com os extremos. No entanto, o tédio é cimento que tampona e oculta as rachaduras estruturais, mas a infiltração acaba por acontecer.

A proposta deste texto é apenas de levantar reflexões sobre um tema tão recorrente na atualidade. Não tem a menor pretensão de propor respostas. As respostas seriam insuficientes. O tédio de cada um constrói seu próprio casulo, cada paciente e seu analista, ou cada dupla terá que sentir, viver e comunicar o próprio tédio, seja ele defensivo ou sinalizador?- provavelmente ambos.

Fragmentos clínicos

Deixai, ó vós que entrais, toda esperança[31].

 

Ao atender um paciente esquizofrênico muito grave, usei vários tipos de manejo. Inicialmente brincamos com massinhas de modelar. Ao brincar com massinha de modelar, ele sempre apresentava formas perfuradas e atravessadas, juntava massinhas coloridas de modo que elas pareciam muito esgarçadas. Não conseguia formar uma unidade com elas. Pouco a pouco, uma unidade foi acontecendo.

Naturalmente e ao longo do tempo, começamos a brincar com uma câmera fotográfica. Ora eu tirava fotos dele, ora ele me fotografava. E ele se exibia, fazia pose e parecia se divertir muito. Às vezes, ele me pedia para levar a câmera e tirar fotos, e as trazia em nosso próximo encontro. Inúmeras vezes tirava fotos de lugar nenhum. Apenas flashes de luz. Um dia fotografou a boca de um copo de plástico, fazendo aproximações cada vez maiores, até que a boca desaparecesse e se diluísse em um enorme buraco negro. Foi a forma que ele encontrou para mostrar o quanto ele ficava diluído e jogado em um abismo sem fim.

Um dia, ao tirar fotos dele deitado no divã, e ele fazendo poses para mim, e nós dois nos divertindo muito com essa brincadeira, eu disse:

"Você gosta quando tiro fotos de você".

Ao que ele respondeu:

"Você tira um enorme buraco negro da minha cabeça".

Uma das consequências terapêuticas do manejo foi poder criar zonas de não tédio e não vazio no qual o paciente podia ser criança, podia aparecer para a mãe/analista e, como consequência, ser visto por ela. Promover um acontecer que o paciente não tinha vivido anteriormente. Ver e ser visto, pois aqueles que lhe tinham amor não puderam nem ver nem saber de sua dor.

Outro fragmento:

Conversávamos sobre ele não querer tomar os remédios e sempre pedir para que eu falasse com o psiquiatra para interromper os remédios e a injeção. Assunto recorrente em nossos encontros.

Perguntei: Você prefere os delírios e as alucinações a ter que tomar a injeção?

Ao que ele respondeu:

"Esse vazio é insuportável. Essa é a verdadeira loucura".

O vazio é a profundura sem limites de Sá-Carneiro, que traga a alma, seca e endurece o todo.

Mais fragmentos de outros pacientes:

Essa é uma paciente que chegou muito articulada e com tudo centrado em uma vida mental. Tudo ela sabia e sempre tinha uma explicação racional para qualquer coisa que eu falasse. Muito rápida e defendida. Eu não via brechas para ajudá-la. Veio para a conseguir lidar com o filho que, segundo ela, estava usando muita droga. Um dia, sugeri que fôssemos para sala de criança e brincássemos com argila. Surpreendentemente, ela aceitou.

Ela usava a argila de um modo inusitado. Pegava pedaços de argila e colocava nas articulações, entre as mãos e o antebraço, e dizia que era curativo. Durante meses fez uso da argila deste modo, fez algumas peças, todas muito primitivas. Nunca fiz qualquer comentário a esse respeito. Apenas observava o que ela fazia atentamente. Gradualmente, passou da argila para a pintura. Pediu papel e aquarela e começou a pintar. Dizia que buscava movimento nas figuras que pintava, muito livremente. Um dia me disse que fora convidada para ir aos Estados Unidos fazer um conjunto de palestras, mas que ela não sabia inglês. Pediu um intérprete, o que foi aceito e lá foi ela. Quando voltou, apesar de tudo ter corrido suficientemente bem, entrou em um forte colapso. Não conseguia sair da cama e estava absolutamente sem sentido de vida, com uma sensação de fracasso e vazio. Uma paciente que vinha apenas uma vez por semana, passou a vir três e assim pudemos viver juntas a sensação de tédio, medo e irrealidade.

Antes do colapso, para mim, os nossos encontros eram muito cansativos e o tempo se arrastava de forma interminável. O colapso pôde ser vivido em uma situação transferencial e a qualidade emocional dos nossos encontros tomou um colorido que não tinha antes. E o movimento que ela buscava ao pintar pôde acontecer dentro dos nossos encontros. A estagnação, o tédio deram lugar a um movimento ritmado. Talvez, tenha acontecido isso porque ela tenha se sentido vista e ouvida, sem maiores explicações, o que a levaria a racionalizar ainda mais as experiências vividas.

 

Outro fragmento, outro paciente.

Um jovem profissional liberal, que veio procurar análise porque tinha problemas no casamento. Ele chegou me dizendo que tinha uma amante e estava muito apaixonado por ela, mas que cada vez que pensava em se separar, se afastava dela e ficava muito entediado. É um profissional muito bem-sucedido, mãe dona de casa e pai também profissional liberal, único filho homem. Apesar de a família ser de classe média, com a morte prematura do pai, ficaram numa situação bastante difícil e José estudou em colégio de classe social bem alta, mas com bolsa de estudo integral. Na atualidade, frequenta círculos sociais muito acima de seu poder aquisitivo, exibe signos de riqueza que de fato não possui. Na análise, regateia o preço e quer vir apenas uma vez por semana. Nunca esquece ou deixa de pegar o recibo para pedir o reembolso, e está sempre reclamando de como seus "amigos" são falsos e do quanto ele não se sente satisfeito com a vida que tem. As conquistas logo perdem o valor e assumem um caráter de irrealidade. "A minha vida é um tédio". Ele não sofre de depressão, apesar de ter tudo que se poderia querer de uma vida, sente uma insatisfação inexplicável. Fez outras análises antes de vir para o meu consultório e reclama que foram úteis, mas não resolveram este sentimento de inutilidade da vida. A vida para ele não vale a pena ser vivida.

Ele se separa. A nova companheira é muito simples e sem sofisticações. Não gosta dos ambientes que ele frequenta. E se queixa de ele trazer as crianças no fim de semana e contratar babá para ficar com eles. Ela pergunta: "Por que você pega as crianças e não fica com elas?". Ela gosta de coisas boas, mas não está preocupada com rótulos. Ele gosta disto, ao mesmo tempo que o assusta terrivelmente. Não tolera a dependência. Não suporta o vazio vivido depois de um orgasmo e tem que sair correndo da cama.

É parte de minha experiência que alguns pacientes trazem um contato árido e desértico para o encontro, mas no deserto também há vida, é preciso garimpar.

 

Mais um fragmento:

Paciente chega e despeja: "Eu fui abusado sexualmente pelo meu pai. Nunca contei isso para ninguém". Não olha para mim, não faz contato visual e nem parece esperar uma reação minha. Fica em silêncio olhando como que para o vácuo. Depois pergunta se eu conheço um filme francês chamado "Tudo numa noite". Digo que sim. E ele me diz que se sente como o personagem principal. Nossos encontros são descontínuos e, recorrentemente, fico no vácuo. Há, quando nos encontramos, uma aridez cortante. Fico sempre pensando que não vale a pena falar nada, como se o que fosse falado caísse na areia movediça e fosse tragado sem fazer germinar absolutamente nada. Vez por outra, ele traz algo horripilante e conta com um ar blasé. Penso que precisa criar impacto e busca meu olhar assombrado, perplexo e interessado nele, apenas nele.

Não posso deixar de citar Khan:

O paciente que oferece uma narrativa entediante não está permitindo que a linguagem e a metáfora elaborem ou modifiquem a sua experiência. Ele cria um espaço de comunicação onde ambos?- ele e o analista?- ficam paralisados pela técnica da narrativa, assim como pela monotonia e pela repetição do conteúdo[32].

O tédio, no sentido que o lemos aqui, não se refere a uma perda de objeto, como na melancolia ou em outras formas depressivas, mas a uma perda de um objeto que nunca se teve, um objeto que deveria se constituir e nunca chegou a ser um objeto constituído, por paradoxal que isso possa ser e, de fato, é. O tédio encobre e anuncia o vazio em uma parte do Self.

É o não encontro com o objeto subjetivo por falhas muito precoces no período da dependência absoluta, como proposto por Winnicott. Ao mesmo tempo, é absolutamente surpreendente como alguns desses pacientes não desenvolveram uma esquizofrenia aberta.

 Para encerrar esse ensaio, penso que esse tédio de que falamos se aproxima de um indicador terrível e acobertador de agonias primitivas. O tédio nem sempre será uma organização defensiva, mas um sinalizador do impensável. Ou quiçá ambos se apresentem simultaneamente?- uma organização defensiva que serve como um sinalizador da falta de esperança, tal como considerado por Winnicott, mas não totalmente desenvolvido por ele. No livro Os bebês e suas mães, Winnicott afirma:

Por de trás destas necessidades há o fato de que os bebês são sujeitos às mais terríveis ansiedades que se possa imaginar. Se deixados a sós por muito tempo (horas, minutos), sem nenhum contato humano ou familiar, passam por experiências que só podem ser descritas através de palavras como:

Ser feito em pedaços

Cair para sempre

Morrer e morrer e morrer

Perder todos os vestígios de esperança de renovação de contatos[33].

O acesso a essas experiências se abre pela palavra do poeta. 


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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