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Resumo
Resenha de Wilson Castello de Almeida, Elogio a Lacan, São Paulo, Summus, 2017, 264 p.


Autor(es)
Camila Salles Gonçalves
é professora de filosofia e doutora pela FFLCHUSP; psicóloga, pela PUCSP, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e autora de Desilusão e história na psicanálise de Jean-Paul Sartre.

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 LEITURA

Um elogio que esclarece: Lacan – movimentos conceituais e a psicose [Elogio a Lacan]

A compliment that clarifies: Lacan – conceptual movements and psychosis
Camila Salles Gonçalves

A origem do elogio

     Psiquiatra, mestre em psiquiatria e psicoterapeuta experiente, com cinquenta anos de clínica, Wilson Castello de Almeida encontrou um turning point em seu ofício, a partir de leituras de Lacan. O hábito de se dedicar àquilo que julga não conhecer bem levou-o a estudar com efetividade a obra do psicanalista e a se matricular em um curso de especialização no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, denominado "Teoria, técnica e estratégias em psicanálise". Durante três anos, além dos estudos teóricos realizou atendimento clínico sob supervisão e escreveu uma dissertação, na qual expõe com clareza o resultado de suas pesquisas. Ampliada, resultou neste seu Elogio a Lacan. No prefácio, Mario Eduardo Costa Pereira destaca que este se volta para o "Lacan da linguagem, da escuta, da fala inapreensível, da singularidade pela qual cada um é responsável. Aquele que nos fez ver que o sujeito não se funde com a imagem que faz de si mesmo, mas é o que se exprime sempre de contrabando, de forma excêntrica, em momentos fugazes de abertura nos quais se manifestam seu desejo e fantasia" (p. 9-10).

     O autor tornou-se analisando de Carlos Augusto Nicéas. Depois de seis anos de análise, permaneceu seu interlocutor. Cheguei a entrar em contato com Nicéas, convidando-o para escrever a resenha para a Percurso. Ele me respondeu que o livro precisava sim ser resenhado, que era um livro muito bom, mas que não teria tempo para fazê-lo. Infelizmente não poderei submeter este texto à sua apreciação, pois faleceu há pouco, em 23 de outubro de 2018. Para Wilson Castello de Almeida, "elogiar um intelectual é numerar as suas admiráveis qualidades, a fim de apresentá-lo harmonioso em suas concepções" (p. 75). De certo modo, seu trabalho e a lembrança, insuperável, de minha própria análise com Nicéas, unem-se, agora, enquanto desejo de homenagear nosso analista, grande conhecedor da obra de Lacan.

 

Sobre algumas lições deste livro

     Preparando o caminho para transmitir sua compreensão dos conceitos lacanianos, o autor organizou datas da trajetória de Lacan, a linha do tempo das obras e, ainda, alguns momentos pontuais em que foram feitas citações de filósofos e escritores de ficção que nelas encontramos. Situou o Lacan psiquiatra, sua tese famosa sobre Aimée, a importância desta para a intersecção da psiquiatria com a psicanálise, o Lacan estruturalista, o Lacan ouvinte de Kojéve (intérprete de Hegel), o Lacan teorizador de modelos topológicos e o Lacan criador de uma nova concepção de psicose, que acrescentou o Caso Joyce ao Caso Schreber de Freud.

     Wilson Castello de Almeida não deixa de apresentar, para o leitor, algumas obras de literatura e seus autores, citados em seminários e textos de Lacan, como é o caso de Edgard Alan Poe e do autor de Ulysses. Ensina iniciantes ou oferece sínteses úteis para quem ensina. Também indica modos pelos quais a antropologia estrutural, a linguística, a literatura e a filosofia foram integradas em diferentes etapas do conjunto da obra lacaniana. E, com didática bem cuidada, faz a explicação progressiva de gráficos e de noções indispensáveis para que acompanhemos o uso da topologia.

     A tese de doutorado de Lacan é lembrada como abordagem original no campo da psicose e em relação à função que aí desempenha a concepção de narcisismo. Aimée e as irmãs Papin tornam-se figuras nítidas no estudo que, para o próprio doutorando, teria sido o primeiro a realizar "uma interpretação tão exaustiva quanto possível" (p. 77). O caso Aimée teria possibilitado indicar as primeiras causas da psicose, a saber, "a anomalia na estrutura e a fixação do desenvolvimento da personalidade" (p. 79) e nomear "a paranoia da autopunição" (p. 79), referida à teoria freudiana do superego. Esta concepção ter-se-ia oposto à explicação quantitativa adotada por psiquiatras, apoiada na ideia de insuficiência que afetaria uma suposta "função de relação para com o mundo" (p. 79).

     A maneira pela qual Lacan extrai a concepção de estágio do espelho da obra de Henri Wallon e esclarecimentos a respeito desta são expostos com simplicidade e consistência, assim como concepções da linguística estrutural e da topologia, relacionadas com a cunhagem de conceitos.

     O autor nos diz que, para que o psiquiatra clínico enfrente o "aranzel dos conceitos" (p. 191), ele precisará de paciência para que "não se perca com ingenuidade no cipoal teórico de Lacan" (p. 191). Com modéstia, assume as perguntas: "O que sabemos de Parmênides, Jakobson, Peirce, Frege, Rimbaud, Santo Agostinho, Platão, Russel? E do próprio Freud? Conhecemos a Ética a Nicômaco, de Aristóteles?" (p. 191).

     É claro que o índice onomástico da obra completa de Freud também é extenso. Entretanto, em grande parte das vezes, Freud facilitou a compreensão das citações por ele feitas, o que não é o caso de Lacan. Seja como for, Wilson Castello de Almeida dá-se ao trabalho de dar indicações a respeito de pensadores evocados em seus textos. Detenho-me, à guisa de exemplificação, no capítulo 15, "O caso Joyce" (p. 157), em que há uma biografia sintética do escritor. Do resumo, destaco: "À leitura de sua biografia, não há como deixar de identificar, no seu fracasso como estudante de medicina por abandono do curso, no uso abusivo de bebida que fazia dele um alcoólatra, nas noitadas com as prostitutas e em outras referências de tal naipe um cenário de vida escatológico" (p. 158). Mas não nos enganemos: as referências à vida de Joyce constituem tão somente cortesia para com o leitor, evocando as circunstâncias históricas e sociopolíticas da vida do escritor, pois o autor não pretende a partir delas propor ilações e, muito menos, sugerir que fazê-lo foi o objetivo de Lacan. Wilson Castello de Almeida esclarece o conceito de sinthome de Lacan, no Seminário 23, relacionado com Joyce.

     A literatura, para Joyce, teria funcionado "como suplência à forclusão do nome do pai" (p. 60). Em capítulos anteriores, já havíamos sido esclarecidos a respeito de nome do pai e de forclusão.

 

Exemplo de como funcionam as lições

     Em relação à convocação lacaniana para a volta a Freud, o autor de Elogio relembra: "Refere-se, nosso autor, ao número de impropriedades metodológicas existentes nos textos psicanalíticos, seja por erros de tradução ou pela má compreensão do que Freud quis dizer" (p. 171). O devido destaque aos quatro conceitos fundamentais da Psicanálise, segundo Lacan, é retomado: "perfilam-se como o inconsciente dinâmico, a compulsão à repetição, a transferência/resistência e a pulsão (Trieb)" (p. 172).

     Lacan teria posto que o nome do pai é a metáfora paterna, "pois é o que fica no lugar, o que substitui a figura e a função do pai. Pode ser a sociedade, a lei etc." (p. 149). O conceito de forclusão (Verwerfung) "indicaria a falta de inscrição no inconsciente da experiência simbólica da castração - experiência normativa que ajudaria na definição sexual da criança, no reconhecimento de seus limites e na evolução do sentimento de realidade" (p. 148).

     Assim, o nome do pai estaria relacionado, como em Freud, com a castração simbólica e com "a hipótese libidinal" (p. 148), mas abordado pela via do significante. Para tirarmos proveito dos esclarecimentos a respeito desta via, voltemos para páginas mais anteriores.

     Sublinho o seguinte: "tendo a linguagem conquistado o status de objeto científico, é com ela que a psicanálise lacaniana vai trabalhar, tomando a letra como suporte do discurso concreto, suporte que se chama significante" (p. 136). O significante não representa o significado. Só pode apontar em direção a significações quando integra uma cadeia. Semeia significações "ao longo do deslizamento (metonímia)" (p. 137).

     Passemos para o tema da utilização por Lacan do Cours de linguistique générale de Saussure (1916), que ele subverte, para deixar claro que "para além da fala, é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente" (p. 136).

     Tratar o inconsciente como linguagem possibilitou a Lacan falar no famoso grande Outro, inseparável da redefinição de desejo, e no pequeno a. O Outro é inscrito "na gênese e na história do desejo" (p. 87). O autor de Elogio entende que ele "Pode ser Deus, o clã familiar, a escola, a expectativa pública, as leis simbólicas de uma tribo, as normas sociais, o Estado totalitário ou democrático, a luta política etc." (p. 61).

     Contudo, faz-nos ver que estas significações listadas não podem ser tomadas como um aglomerado de expressões sinônimas, pois "No grande Outro é que estão estabelecidas a ordem da linguagem, a ordem simbólica e as ordens filosóficas, religiosas e culturais" (p. 61).

     Para acompanhar o ensinamento, temos as explicações sobre os gráficos, os quais não cabem nesta resenha e nem teria cabimento reproduzi-los. Mas vale a pena, penso, seguir uma mínima descrição do Esquema de Lacan, também chamado esquema L, lambda ou Z (p. 100): "O esquema pretende representar graficamente os vários movimentos e lugares ocupados pelo sujeito, de seu tempo de constituição inicial até a finalização, o que significa partir da relação imaginária para a relação simbólica" (p. 100). Os três registros, imaginário, simbólico e real, também são expostos e esclarecidos no domínio dos gráficos, explicados traçado por traçado.

     É preciso, entretanto, não deixarmos de considerar o seguinte:

     "Em 1975, com o nó borromeano, Lacan supera o Lacan de 1958 (quando o imaginário estava subordinado ao simbólico" (p. 116). Com efeito, na fase topológica em que ele utiliza a teoria dos nós, o nó de Borromeu, cujos elos não se podem separar individualmente sem desfazer a estrutura, não há sequência hierárquica e, ao tomá-los como componentes do nó, os três registros são relacionados segundo uma nova concepção. E Wilson Castello de Almeida postula algo que se tornará essencial na concepção lacaniana de sintoma: "Agora, os registros são autônomos, porém interligados pelo sintoma" (p. 116).

     Essa apreensão do sintoma é essencial para a clínica das psicoses, sobretudo na definição daquilo que ela não deveria fazer, ou seja, "interpretar na direção de uma busca de sentido é repetir e reforçar exatamente o que o paciente faz a partir da montagem de seu mundo delirante. Não caberia ao analista competir com o paciente" (p. 117).

 

O sinthoma, a psicose e o caso Joyce

     Apesar de o livro ter vinte e quatro capítulos, opto por destacar um deles. Wilson Castello de Almeida trata com dedicação de outros seminários de Lacan, em esforço, a meu ver, bem sucedido, para transmitir seu próprio aprendizado ao leitor. Escolhi deter-me neste porque exemplifica seu fascínio, em seu percurso das concepções psiquiátricas às lacanianas, pela genial visão de Lacan do sintoma, que também lança alguma luz sobre o sujeito. O capítulo 15 do livro, como referi acima, é dedicado ao caso Joyce.

     O escritor não seria psicótico segundo diagnósticos clássicos da psiquiatria e menos ainda, creio, segundo manuais contemporâneos que distribuem rótulos. Mas a ausência do nome do pai teria tido como resultado a formação de uma estrutura psicótica caracterizada pela impossibilidade de reunir os três registros, imaginário, simbólico e real (apresentados no uso da topologia do nó borromeano), a não ser por uma tentativa de uni-los por um sentido. Esta seria a literatura de Joyce, uma substituição ou suplência. O leitor encontra uma visão não só topológica, mas também dramática. E de um drama de ressonância universalizante (efeito conhecido desde os casos de Freud).

     Contamos com esclarecimentos: Primeiro, "Lacan é enfático: Joyce é o sintoma. E explica que na psicose existe sempre uma tentativa de ser o sintoma, o que impediria o sujeito de delirar. Se essa tentativa for falha, estabelece-se o delírio" (p. 161). Segundo, é necessário que aprendamos o seguinte: "Lacan usa o termo sinthoma, que, etimologicamente, significa ‘aquilo que mantém junto, o que suporta junto' e não o sintoma no sentido da psicopatologia clássica" (p. 161). Por fim, fica clara a utilização da topologia: Lacan é "fiel a seu esquema topológico do real, simbólico e imaginário, que devem estar juntos para evitar a desagregação. O sinthoma é, pois, o quarto elemento do nó de Borromeu" (p. 161). Constatamos pois que o sinthoma não implica haver loucura aparente ou evidenciada.

     O Caso Joyce representaria "um modo diferente e novo de transmitir a psicanálise" (p. 162), pois "na apresentação de Joyce, o sintoma não é só a estrutura psicótica apresentada, mas a psicose sem loucura aparente. Mais que isso, pode-se detectar uma forma de estabilização da psicose diferente da estabilização delirante de Schreber" (p. 142).

 

Ainda

     Apesar de Lacan sempre ter proclamado que não era filósofo, podemos acompanhar, com o autor deste livro, que aborda vários Seminários, suas elucubrações ontológicas sobre o sujeito, que não é apenas o sujeito barrado, mas aquele que fala (parle). Seu ser (être) é parlêtre.

 

Concluindo

     Mario Eduardo Costa Pereira, no Prefácio, não evita a associação do título deste livro com o de Erasmo de Rotterdam, Elogio da Loucura (1509), e comenta que não deixa de parecer "algo de um tanto... louco" (p. 9) nos tempos que correm. Para ele, num mundo em que a transvaloração dos valores de Nietzsche é palavra de ordem invertida, onde predomina a busca narcisista do sucesso do eu, um livro impulsionado pela paixão por transmitir "o vigor do pensamento de Lacan na forma de um elogio não deixa de ser uma loucura" (p. 10). E compartilha dessa loucura escrevendo o Préfácio. Leiamos, façamos essa experiência de loucura.


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