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Resumo
O texto sonda a necessidade de escrever e sua função: no processo de resolução de impasses subjetivos; na produção de teoria que esse processo pode desencadear; na escrita de uma estrutura escritora; na formação clínica e na atividade psicanalítica. Aborda o elo entre linguagem, constituição do sujeito e função paterna, detendo-se na palavra indizível e em seu poder criador.


Palavras-chave
escrever; sujeito; ser de linguagem; letra-corpo de pensamento; palavra; função paterna.


Autor(es)
Rosie Mehoudar
é pós-doutoranda em Letras, na usp, na área de Crítica Genética. Coordena grupos e projetos individuais de escrita.


Notas

1 S. Mallarmé, OEuvres complètes II, p. 23. Escritor e pensador francês, Mallarmé viveu de 1842 a 1898. Numa tradução literal da epígrafe acima: “Sabe-se o que é escrever? uma antiga e muito vaga mas ciumenta prática da qual jaz o sentido no mistério do coração. / Quem a cumpre, integralmente, se subtrai.”

2 Ou a um nome. Vale em outro momento precisar a diferença entre a palavra e o nome nesse contexto.

3 G. Scholem, “O nome de Deus e a teoria da linguagem cabalista”, p. 9-61. Cito e comento passagens desse texto (que mereceria uma boa revisão) em “Palavra e imagem na cosmogonia do Zohar”, arrolado na bibliografia.

4 Tradução anônima de um poema compilado pelo monge trapista William Meninger. O original inglês está em: W. Meninger, The loving search for God: contemplative prayer and the cloud of unknowing, p. xix.

5 Essa expressão que tem o interessante sabor da estranheza entre nós, como ela terá ressoado na cultura filosófica germânica, e europeia em geral, nas quais a palavra “coisa” é utilizada e ressignificada por pensadores tais como Descartes, Kant e Hegel?

6 J. Lacan, O Seminário, livro 7 – A ética na psicanálise, p. 69.

7 J. Lacan, op. cit., p. 73.

8 Eles passam principalmente pela teoria psicanalítica (incluindo Moustapha Safouan em O fracasso do princípio do prazer), mas também por Frege e Wallon via Julia Kristeva em La révolution du langage poétique. Esmiuço esses caminhos no artigo “O Nome-do-Pai e o circuito da significação em aberto”, citado na bibliografia.

9 J. Lacan, “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, p. 239-240.

10 J. Lacan, op. cit., p. 255. Vale aqui ir ao original francês: “Quel est donc cet autre à qui je suis plus attaché qu’à moi, puisque au sein le plus assenti de mon identité à moi même, c’est lui qui m’agite?”

11 O Zohar, o Livro do Esplendor, passagens selecionadas pelo Rabino Ariel Bension (1880-1932), p. 83-85. Analisei mais pormenorizadamente o tema do Yud no texto “Palavra e imagem na cosmogonia do Zohar”, citado na bibliografia.

12 J. L. Borges; M. Guerrero, O livro dos seres imaginários, p. 16.

13 S. Mallarmé, OEuvres complètes I, p. 871.



Referências bibliográficas

Borges J. L.; Guerrero M. (2000). O livro dos seres imaginários. São Paulo: Globo.

Freud S. (1976). Proyecto de psicologia. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, vol. i. p. 323-389.

Lacan J. (1966). L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud. In: Écrits. Paris: Seuil. p. 493-528.

_____. (1988). O Seminário, livro 7 – A ética na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

_____. (1996). A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In: Escritos. Trad. Inês Oseki-

Depré. 4. ed. São Paulo: Perspectiva. p. 223-259.

Mallarmé S. (1998/2003). Oeuvres Complètes, org. Bertrand Marchal. Vol. 1 e 2. Paris: Gallimard, Bibliothèque de la Pleiade.

Mehoudar R. (2006). O Nome-do-Pai e o circuito da significação em aberto. Revista unifieo. Série de Educação ii. Osasco, ano V, jul./ dez. 2006, p. 71-95.

______. (2006). Palavra e imagem na cosmogonia do Zohar. Agnes. (Cadernos de pesquisa em teoria da religião). São Paulo, n. 5, p. 97-125.

Meninger W. (1995). The loving search for God: contemplative prayer and the cloud of unknowing. New York: The Continuum Publishing Company.

O Zohar, o Livro do Esplendor. (2006). Passagens selecionadas pelo Rabino Ariel Bension (1880-1932). Prólogo de Miguel de Unamuno. Tradução das passagens do Zohar e Introdução: Rosie Mehoudar. Tradução dos outros textos: Rita Galvão. São Paulo: Polar.

Scholem G. (1999). O nome de Deus e a teoria da linguagem cabalista. O nome de Deus, a teoria da linguagem e outros estudos de cabala e mística: Judaica II, textos selecionados por Haroldo de Campos e Jacob Guinsburg. São Paulo: Perspectiva. p. 9-61.





Abstract
This paper investigates the urge of writing and its function in solving subjective impasses, and the production of theory resulting from this process. The creation of a structure for the text, the impact of writing for psychoanalytic training and practice and the links between language, constitution of the subject and paternal function are also discussed, as well as what the author calls “the creative power of the ineffable word”.


Keywords
Lacanian psychoanalysis; writing; subject; “being of language”; letter-body of thought; word; paternal function.

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 TEXTO

Para que escrever? (algumas possibilidades)

Writing – what for? (some possibilities)
Rosie Mehoudar

Sait-on ce que c’est qu’écrire? une ancienne et très vague
mais jalouse pratique, dont gît le sens au mystère du coeur.
Qui l’accomplit, intégralement, se retranche
. [1]
[S. Mallarmé]

A rigor uma palavra bastaria como fôrma para as atividades do dia. Quem a tem?

Alguns encontram-se em condições menos aflitas que outros. Alguns são quase tranquilos e descansam em si e na granulação anônima. Quando voltei de Paris, reparei nas pessoas que andavam nas ruas de São Paulo e a maioria pareceu-me saber descansar. Nada como o outro para vermos a nós – já dizia a Antropologia. Ter visto os franceses fez-me ver o brasileiro.

De qualquer modo, a situação pode ser bem difícil ou mais fácil, com todas as gradações possíveis: mas quem pode dizer vivazes as horas do dia? Aproveitar a vida, para mim, equivaleria a voltar-me para o presente (em seu jogo com o abismo), relaxar numa estrutura que me possibilite isso, encontrar um sujeito significante que não seja mais só eu e por isso meu mais legítimo e sem culpa eu. Um sujeito mote ou tema de variações infinitas. E isso tampouco seria suficiente. O caminho até o absoluto ou a iluminação, quando a vida parece render o que ela pode, envolve tantas operações mais e mais delicadas e fundas… A psicanálise ajuda nesse percurso, mas ela mesma se constrói. Não me parece que possamos dizer que a psicanálise seja um caminho completo de iluminação. Quais são seus impasses? Quais são seus embates? Ao mesmo tempo, quantos não foram ajudados por ela?

Tensões podem se formar no corpo mais e mais densas, afetando cartilagens, ossos, espaços interdiscais. Tensões, más posturas, movimentos repetidos. No geral tudo isso causa danos, fibras se embaralham e endurecem. Na mente, igual. O pensamento tem a velocidade do raio. Um pensamento se junta a outro, e o que era um pressuposto equivocado gerando reações se reproduz em cadeias mais e mais vastas. O resultado pode ser muitos; os sintomas, tão duros por vezes como uma pedra no ombro, uma corcunda. Como desmanchar isso? A pessoa às vezes quer. Mas são tantas as operações requeridas até desmanchar os nós… Muitas e muitas e muitas e muitas, antes que, por exemplo, uma obsessão seja desbastada e dê lugar ao deslocamento do sujeito…

Quem nos guia na escrita? Escrever o objeto, dar nascimento a ele, que seja tão visível quanto o amigo ou o filho que adoramos encontrar. Isso, uma coisa.

Em outros momentos, será necessário, no desespero, indagar e indagar, seguir os fios até que um puxe o outro sem que quase interfiramos senão como obedientes da compulsão de escrever. E um fio puxa o outro cada vez mais velozmente (talvez Freud dê pistas disso ao referir-se ao estado de atenção, no Projeto de psicologia). Igual pode se dar em sonhos. Um sonho traz uma resposta e uma questão. O do dia seguinte continua a elaborá-la e assim vai.

Há períodos, especialmente, em que não temos opção. Ou deciframos algo ou morreremos, perto disso, e é preciso trabalhar muito, muito mais do que nos disseram que seria necessário. Passei momentos em que eu tinha que escrever de madrugada, em ônibus, quaisquer intervalos porque era impossível viver daquele jeito. No limite, penso que a tarefa que nos foi lançada ao nascermos, aprender a jogar bem o jogo, é tão trabalhosa, que é uma sorte quando percebemos a urgência, quando podemos não nos acomodar.

Houve um tempo em que escrever tornou-se uma operação tão e tão reveladora de significantes que eu já nem queria ir à análise. Era ainda, talvez, o corpo do analista que me animava a não querê-lo mais… Escrever produzia milhões de vezes mais sentidos insuspeitos, lembranças entrelaçando- se ao presente e vice-versa…

Pude depois entender, em um viés dentre os possíveis, por que os professores budistas falavam sobre a complexidade das leis do carma. Trata-se bem das leis da linguagem: representações associadas à energia, como queria Freud no Projeto, interligando-se num átimo de várias maneiras e produzindo constelações e impasses. A escrita então como purificador do carma, ao desfazer nós… A escrita como auxiliar da psicanálise. A escrita como aquela que conduz o trabalho dos nós de nós aos nós dos seres humanos, pontos ainda não trilhados pela teoria psicanalítica, ou, antes que concluamos isso, pontos que temos que pesquisar em sua ou outras teorias, no pensamento desde que o mundo é mundo. A escrita na ponte entre a análise pessoal e a produção de teoria.

E, dentro do trajeto pessoal (mas não só), a escrita como higiene diária ou confissão, flagrando e dissolvendo abismos conflitantes antes de eles se transformarem em crônicos, em distância, impotência, desastre. A escrita-escuta como prevenção das doenças da alma e do corpo: salvaguarda do sujeito. A escrita aproximando- se de imagens que nos habitaram em sonhos e em pensamento, de sensações. A escrita não só como meio de cognição, mas levando a decisões e atos. Produção de seres de linguagem e produção, em níveis mais e mais íntimos e êxtimos, de uma escrita de nós mesmos que possa escrever seres de linguagem.

E, enquanto fazemos isso, sondamos a equação dos que de algum modo nos pedem ajuda: o que deve ser estimulado neles, o que tocar ou propor para que se simbolize o necessário à abertura do processo da criação. Procuramos auxiliar o outro a escrever e a se escrever (ou a reinscrever- se em sucessivas múltiplas operações) para que ele possa virar autor-sujeito. A escrita de casos ajuda a nos concentrarmos no analisando ou no aluno, a nos apropriarmos das percepções que temos dele, a mapear nossas dúvidas, nossa eventual perplexidade, e a levantarmos hipóteses, que testaremos, de maneira a enxergá-lo des-continuamente mais próximo – pois que mesmo a constância tentativa de nossa dedicação implica saltos dos dois lados.

E parece que nosso empenho de leitura da equação alheia, dos emperramentos e seus possíveis antídotos, já move o outro e aciona sua produção. Nossa busca secreta de palavras constitui- nos palavra para ele – uma transferência se faz – e palavra atrai palavra. Dito de outro modo, a função paterna da pessoa que está de certa maneira na posição de analista move a função paterna da que está na posição de analisando.

Em minha experiência dando aula para crianças com acentuados bloqueios de escrita, vejo que muitas vezes se trata de auscultar um vínculo incestuoso, em sua dimensão abstrata – a pessoa presa a si e uma mãe imaginária –, que se manifesta em cada um de modo absolutamente singular. Por meio de processos ficcionais não lineares e propostas específicas suscitadas por seu texto, a cada vez, busco estimular a emergência do pai simbólico. E seria possível falar horas, e de diversos pontos de vista, sobre a ligação entre este e a palavra…

Significativos são os estudos da psicanálise concernentes a esse tema, acionados já por Freud, e bem antes dela a ciência do homem implicada em textos de variadas religiões focava esse vínculo, até chegar a uma palavra [2] sem som, produtora do sujeito, da fala, da escrita. É o que lemos no elo entre a fruição e a linguagem silenciosa que ocorreria mesmo na esfera mais alta e abstrata (e paradoxalmente a mais imediata) da realidade –Ein-Sof, ou vazio –, de onde emanam todos os outros níveis, segundo teorias da mística judaica enunciadas no excelente ensaio de Gershom Scholem “O Nome de Deus e a Teoria da Linguagem Cabalista”, pinçado por Haroldo de Campos e J. Guinsburg [3]. E é a “Palavra Não Dita” que é assim nomeada nesta oração do cristianismo ortodoxo:

Oração Bizantina [4]

Luz serena, que brilha no
Solo do meu ser,
Atrai-me para ti,
Tira-me das armadilhas dos sentidos,
Dos labirintos da mente,
Liberta-me de símbolos, de palavras,
Que eu descubra
O Significado
A Palavra Não Dita
Na escuridão
Que vela o solo do meu ser. Amém.

Voltando à psicanálise: é ainda no Projeto de psicologia que Freud formula a ideia de que buscamos nas percepções ao longo do dia um símile do objeto que propiciou uma vivência de satisfação e inscreveu-se em neurônios e ligações neuronais, a inscrição instituindo o inconsciente e a memória. No âmago do cérebro e do sujeito, a “coisa do mundo” [5] registrada equivaleria a um traço radical da alteridade. “O mundo freudiano, ou seja, o da nossa experiência comporta que é esse objeto, das Ding, enquanto o Outro absoluto do sujeito que se trata de reencontrar” [6]. No fim da mesma aula em que Lacan enuncia isso, ele se aterá ao pronome vocativo Tu em francês, “esse Tu de devoção em que, num dado momento, qualquer manifestação da necessidade de querer bem pode vir topar”, para concluir: “no momento em que é pronunciado, é inteiramente nesse Tu que reside aquilo que lhes apresentei hoje em das Ding” [7].

Por caminhos [8] que não é possível aqui trilhar, pode-se dizer que a letra é a metonímia que resguardaria a alteridade de um corpo de pensamento em relação ao corpo do sujeito, permitindo que ele não se engolfe em si mesmo e que se instituam ao menos duas posições sem as quais não há nem jogo simbólico nem deslocamento. Segue Lacan:

É verdade que a letra mata, como-se-diz, quando o espírito vivifica. Não discordarmos disso […] mas perguntamo- nos igualmente como sem a letra o espírito viveria. […] [9]

E é nesse mesmo texto que leremos uma definição implícita da extimidade:

Qual é pois esse outro a quem sou mais ligado que a mim, visto que no seio mais consentido de minha identidade a mim mesmo, é ele quem me agita? [10]

No Zohar (O livro do esplendor, do século xiii), a letra hebraica Yud, que se assemelha a um simples ponto, surge como a primeira manifestação do pensamento de Deus e permite que ele seja convocado pelo ser humano [11]. A formulação tem a qualidade de precisar o elo entre a letra e o corpo de pensamento. O menor e mais essencial corpo de pensamento surge como metonímia do Outro, entranhado ou estranhado no sujeito, e convocável também por uma sorte ou sina de amor. É possível daí vislumbrar uma palavra sem som permeando o discurso verbal ou, inversamente, fazendo-nos conceber como discurso experiências inefáveis. Numa metáfora disso, no Livro dos seres imaginários, Jorge L. Borges e Margarita Guerrero comentam dos dragões chineses: “São imortais e podem comunicar-se entre si apesar das distâncias que os separam e sem necessidade de palavras” [12]. E não é também assim a troca de olhares e risos entre a mãe e o bebê?

As relações e alternâncias necessárias entre um corpo de pensamento simples e a imagem corporal (também manifestação significante do Outro ou de si feito outro), que estruturam nossa percepção e uso da linguagem, constituem não apenas objeto da psicanálise, filosofia e religiões, mas da pesquisa de poetas provençais da Idade Média e de outros inventores como Dante, Rabelais, Mallarmé, Guimarães Rosa, dentre os muitos que poderiam ser citados, na estimulante tensão entre letra (“o equivalente da Ficção” [13]), pensamento e afeto.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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