EDIÇÃO

 

TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
  
 

voltar
voltar à lista de autores

Resumo
Num dos seus últimos livros, o psicanalista americano Christopher Bollas sustenta que, através das práticas das redes sociais, a fobia do mundo interno e o pensamento operacionalista acabaram por se apresentar como uma (falsa) resposta universal e automática à necessidade de significação manifestada pelo ser humano. O que pode a psicanálise diante de tal hipótese? De que conceitos ela dispõe para pensar o empobrecimento psíquico e o ódio que parecem cristalizar a dor de pensar que caracteriza nossa época?


Palavras-chave
pensamento operatório; função psicanalítica da personalidade; ódio; paixão-triste; subjetivação; redes sociais; sujeiticídio.


Autor(es)
Ana Helena de Staal

é psicanalista e psicossomatista, membro da Société de Psychanalyse Freudienne (spf). Ex-chefe de edição da revista Chimères, fundada por G. Deleuze e F. Guattari, ela dirige atualmente Ithaque, editora parisiense especializada em psicanálise e filosofia. Ela traduziu e publicou em francês a maior parte dos seminários de W. R. Bion, assim como o trabalho de autores contemporâneos importantes como Christopher Bollas, Thomas Ogden e André Green. Vive e trabalha em Paris.

 

 




Notas

1.Esse texto é a transcrição de uma palestra dada no Instituto Sedes Sapientiae, dia 30 de março de 2019, em homenagem aos 30 anos da revista Percurso. Agradeço especialmente a Lili Quintão a interlocução para a minha participação nesse evento, assim como ao Dr. Roberto Oliveira, tradutor dessa palestra, originalmente escrita em francês.

2.Cf. Meaning and Melancholia. Life in the Age of Bewilderment [trad. francesa: Sens et mélancolie. Vivre au temps du désarroi].

3.Quando Bollas fala de operacionalismo, é impossível não pensar também nas contribuições da Escola psicossomática de Paris, que, desde os anos 1960, descrevia as fissuras e os disfuncionamentos no aparelho de pensar os pensamentos. De fato, deve-se a Pierre Marty a noção de "pensamento operatório", distúrbio atribuído a um defeito de qualidade e de espessura no pré-consciente e presente na etiologia da chamada "depressão essencial" (uma depressão com sinais clínicos "brancos", na qual o paciente altamente depressivo continua "funcionando", por assim dizer, normalmente, sobretudo nas tarefas mecânicas ligadas ao trabalho e a vida cotidiana). Cf. P. Marty, Les Mouvements individuels de vie et de mort.

4.A neurociência e os psicofármacos se apresentam como os únicos a terem as respostas para estas questões que serão então abordadas sob as categorias de "déficit da atenção", "agitação", etc.

5.E vê-se aí toda a atualidade do trabalho de um analista como Antonino Ferro, que, pensando em termos de "cartilha emocional", criou ferramentas psicanalíticas específicas para a abordagem desse problema que é a alfabetização emocional do pensamento operatório.

6."Faits et croyances" (1840).

7.A. Ferro, Le Viscere della mente. Sillabario emotivi e narrazioni, p. 72.

8.A. Badiou, France Culture, 5 abr. 2001; podcast disponível em: <https://www.franceculture.fr/emissions/les-nuits-de-france-culture/les-chemins-de-la-connaissance-a-lecoute-de-jacques-lacan-45-avec-alain-badiou-1ere-diffusion >.

9.Segundo Jean-Pierre Le Goff, o slogan atribuído ao Movimento do 22 de março expressava sobretudo um desejo de "ruptura com um passado museificado e um presente desencantado. [Uma chamada] para que se se arrancasse do tédio das aulas catedráticas, do vazio e da repetição do cotidiano." Cf. J.-P. Le Goff, Mai 68. L'Héritage impossible.

10.    S. Freud, "Considérations actuelles sur la guerre et la mort" (1915).

11.    G. Civitarese, "L'in/conscient comme fonction psychanalytique de la personnalité", Revue Française de Psychanalyse, 2011/3, vol. 75, p. 840.

12.    Ver, entre outros, W.R. Bion, Aux sources de l'expérience, ou ainda "Contre mauvaise fortune, bon cœur" (1979), in W. R. Bion, La Preuve & Autres textes, p. 48-49. G. Civitarese, na sua comunicação para o 78o Congresso dos Psicanalistas de Língua Francesa, ocorrido em Gênova, em maio de 2018, dedica um longo e interessante capítulo ao tema do "Inconsciente como função psicanalítica da personalidade"; ele diz: "A teoria de Bion e, em seguida, a do ‘campo analítico' provêm de um conceito de inconsciente diferente do clássico: o inconsciente como função psicanalítica da personalidade (expressão que parece ter se inspirado da noção kantiana de faculdade da imaginação produtiva [produktive Einbildungkraft], ou seja, uma faculdade cognitiva do espírito) é um a priori do pensamento, não é inato mas adquirido".

13.    A. Green, "Le travail du négatif".

14.    T. Ogden, Cet art qu'est la psychanalyse, p. 157-158.

15.    A intersubjetividade, o diálogo introspectivo de si a si, mas também o "comércio", como dizia Freud, entre as instâncias psíquicas. Cf. Sigmund Freud, "L'inconscient" (1915), in Métapsychologie, p. 100.

16.    Cf. C. Bollas, Sens et mélancolie, op. cit., p. 99.

17.    C. Bollas, op. cit.

18.    C. Bollas, op. cit., p. 102.

19.    Entrevista concedida a Le Magazine Littéraire em 1994; republicada na mesma revista em 28 de fevereiro de 2019.

20.    Escarificação entendida como gesto contra o sentimento de letargia do Ego.



Referências bibliográficas

Badiou A. (2001). À l'écoute de Jacques Lacan. Programa de rádio, France Culture, 5 abr. 2001; podcast disponível em: <https://www.franceculture.fr/emissions/les-nuits-de-france-culture/les-chemins-de-la-connaissance-a-lecoute-de-jacques-lacan-45-avec-alain-badiou-1ere-diffusion>.

Baudrillard J. (1994). La Haine. Entrevista concedida ao Magazine littéraire n. 323, 1o jul. 1994; republicada na mesma revista em 28 fevereiro de 2019.

Bion W.R. (1962/2001). Aux sources de l'expérience, Paris, PUF.

____. (1979/2007). Contre mauvaise fortune, bon cœur. In W.R. Bion, La Preuve & Autres textes. Paris: Ithaque.

Bollas C. (2018). Meaning and Melancholia. Life in the Age of Bewilderment. New York & Londres: Routledge. [Trad. franc.: Sens et mélancolie. Vivre au temps du désarroi. Paris: Ithaque, 2019.]

Civitarese G. (2011). L'in/conscient comme fonction psychanalytique de la personnalité, Revue Française de Psychanalyse, vol. 75, p. 840.

____. (2018). Rapport au 78e Congrès des Psychanalystes de langue française, Gênova, maio 2018: "Traduire l'expérience: le concept de transformation dans Bion et la théorie post-bionienne du champ analytique".

Deleuze G. (1978). Curso na Universidade Paris viii : "Spinoza: passions tristes et passions joyeuses", disponível em: <http://www.univ-paris8.fr/deleuze/article.php3?id_article=44>.

Ferro A. (2014). Le Viscere della mente. Sillabario emotivi e narrazioni. Milão: Raffaello Cortina Editore. [Trad. franc.: Les Viscères de l'âme. Alphabet des émotions et narrativité. Paris: Ithaque, 2019, no prelo.]

Freud S. (1915/1951). Considérations actuelles sur la guerre et la mort. In S. Freud, Essais de psychanalyse. Paris: Payot.

____. (1915/1968). L'inconscient. In Métapsychologie. Paris: Gallimard, Idées.

Green A. (2008). Le travail du négatif. Conferência em Lyon, maio 2008, inédito.

Hugo V. (1840/2002). Faits et croyances. In Œuvres complètes: Océan. Paris: Robert Laffont.

Lacan J. (1971-1972/2011). ... Ou pire. Le séminaire, Livre xix. Paris: Seuil.

____. (1975). Encore. Paris: Seuil.

Le Goff J.-P. (1998). Mai 68. L'héritage impossible. Paris: La Découverte.

Marty P. (1976/1998). Les Mouvements individuels de vie et de mort. Paris: Payot.

Ogden T. (2005/2012). Cet art qu'est la psychanalyse. Paris: Ithaque.





Abstract
In a recent book, American psychoanalist Chistopher Bollas defends that through social media inner world phobia and operational thinking present themselves as an (unfaithful) universal and automatic answer to the need of signification manifested by human beings. What can psycoanalysis against such hypothesis? What concepts does it have to think psychic impoverishment and hate that seem to crystalize the pain of thinking characteristic of our times?


Keywords
operative thinking; psychoanalytic function of the personality; hatred, social networks; subjectivation; subjecticide.

voltar à lista de autores
 TEXTO

Contra a máquina de descerebrar. O que (ainda) pode a psicanálise?

Against the machine of destroying the mind. What can Psychoanalysis still do?
Ana Helena de Staal

A Tunga, que sabia o que fazia quando criou o Espaço Psico-Ativo.

É uma honra e um privilégio poder compartilhar com vocês esta celebração dos 30 anos da revista Percurso. Gostaria de agradecer a Renato Mezan e ao conselho editorial da revista pelo convite para esta reunião[i]. A todos vocês, muito obrigada pela presença.

Gostaria também de desejar feliz aniversário à equipe da revista que conseguiu por três décadas manter um nível excepcional de exigência editorial e bibliográfica. Infelizmente, esse cuidado nas publicações tem sido negligenciado na Europa, nos últimos quinze anos.

Lá, de certa forma, internalizamos a crise das ciências humanas a ponto de torná-la uma doença, cujo principal sintoma é o abandono puro e simples do rigor editorial: salvo raras exceções, publicamos quase mecanicamente o que nos é dado, tal como nos é dado, com a mesma neurastenia com a qual passamos, sem qualquer correção ou comentário, o comentário de um comentário que acabam de nos passar no WhatsApp.

Essa inércia quase anestésica, que contamina cada vez mais todas as áreas de nossas vidas?- e que é também induzida pelo automatismo ao qual nos forçam as redes sociais?-, foi recentemente conceituada pelo psicanalista americano Christopher Bollas[ii]. Inspirado pela ideia de "pensamento-ação" de Heinz Kohut, Bollas chama de "operacionalismo"[iii] este comportamento de execução automática de um programa que vem substituir imediatamente o que poderia ter surgido em nós como pensamento, ideia ou tentativa de verbalização. Em suas palavras, nos tornamos "Selfs transmissivos", compartilhando compulsivamente "objetos transmissivos". Esse gesto psicofóbico, essa aversão ao mundo interno?- que nos leva a expulsar de modo mecânico qualquer conteúdo, na tentativa de evitar sua elaboração ou integração?-, à medida que vai se tornando uma maneira de pensar (ultrapassando o âmbito do comportamento), contribui para o empobrecimento de nossas atividades intelectuais internas e sociais[iv]. Então, não é estranho que nossas publicações reflitam (e, num círculo vicioso, alimentem) tal estado de coisas.

O fato é que nosso espaço-tempo, e com ele nossas mentalidades, foram completamente transformados com o advento da tecnologia digital; os espaços-tempos mentais e privados ligados ao nosso mundo interno (a nossa vida afetiva íntima) foram quase todos colonizados e redesenhados pelas redes sociais e pelo comércio eletrônico. É assim que, pouco a pouco, expulsos de nós mesmos, nos tornamos moradores de rua psíquicos, vagando entre as lixeiras da era pós-industrial. Para falar em termos bionianos, à medida que os continentes (as formas e as mediações) se degradam, os conteúdos se desarticulam e perdem o sentido?- sobram cacos de significação, deixados ao abandono no mural do Facebook de cada um.

Acho que todos nós, psicanalistas, sentimos que a subjetividade da nossa época tem sido bastante maltratada. E ela tem se tornado mais desumana, mais estreita, mais superficial e analfabeta quanto as suas próprias emoções[v]. Entretanto, assim como a proteção da Amazônia é essencial para a sobrevivência do planeta, a proteção dos territórios psíquicos e subjetivos do indivíduo é decisiva para a sobrevivência do que temos de humano em nós. A psicanálise, que sabe instituir um quadro, animar o mundo psíquico, abrir espaço para uma democracia interna (da alma) e reconstruir a palavra, pode ser uma ferramenta avançada na realização dessa tarefa, desde que leve em consideração os problemas de sua época e interrogue sempre o sentido da sua função.

Em outros termos, hoje é necessário pensar a essência mesmo desse esvaziamento da significação?- que é inédito?-, e que engendra montanhas de lixo psíquico, entre os quais o ódio de massa, os insultos robotizados e o sofrimento crônico mental do indivíduo. É esse programa de trabalho difícil, começado por Bion num outro contexto, no fim dos anos 1960, que toda uma parte da psicanálise contemporânea vem tentando realizar. Na França, André Green foi o primeiro a nos orientar nessa tarefa importante.

Vivemos uma época difícil no mundo inteiro. No Brasil, teme-se regredir aos piores momentos da ditadura de 1964; na Europa, com o aumento sem precedentes do nacionalismo e dos racismos (basta pensar no Brexit, nos cemitérios judaicos profanados, nos migrantes deixados para morrer afogados no Mediterrâneo), é comum a referência ao pior populismo da década de 1930. Mas, tanto lá quanto aqui, o projeto ultraliberal, a forma mais virulenta do capitalismo, parece agonizar, e sabemos que essas referências ao passado surgem apenas para nos tranquilizar, para acalmar o nosso medo do futuro. Na verdade, estamos no meio da travessia, sem saber o que nos espera do outro lado. Um novo mundo? O fim do mundo? Naturalmente, buscamos então nas imagens e modelos já conhecidos algo capaz de nos orientar e nos dotar de uma grandeza de alma que nos apoie; falamos também de resistência. Ora, em matéria de resistência e de grandeza na defesa da nossa humanidade, peço que me deixem citar o poeta francês Victor Hugo[vi]. Ele diz: "A grandeza consiste de dois elementos que são a própria essência do gênio: adivinhar e ousar. Entregar-se ao que será, apesar da resistência do que é".

Hugo falava de gênio literário, gênio político, gênio humano. Ele propunha que cuidássemos do que queríamos nos tornar. E de fato nos convidava a desenvolver uma visão política do mundo: viver em diálogo com o presente e ousar sonhar com o futuro para que este não ficasse abandonado à pura força predatória do homem.

Eis aí uma problemática que não parece totalmente estranha, para nós psicanalistas, que hoje nos encontramos cheios de perguntas sobre quem somos, o que fazemos e como devemos agir. A psicanálise ainda tem como pensar o futuro e seu próprio futuro? Pode ter uma influência em seu tempo? Os psicanalistas ainda detêm as ferramentas certas para responder aos problemas contemporâneos? Curiosamente, ao ouvir Hugo, tenho a impressão de ouvir Bion, que num estilo menos poético, já na década de 1960, fazia uma crítica cerrada contra uma psicanálise muito dogmática que ritualizava nossa prática e engessava nossas teorias, acabando por tornar sua clínica insensível ao tempo que passa e, por isso mesmo, aos sofrimentos do homem ultraindustrializado.

Como Bion em sua época, ainda hoje ouvimos, por exemplo, Antonino Ferro criticar a relação de negação que, muitas vezes, os psicanalistas têm com o tempo. Ironizando sobre os colegas que falam daquele "jovem analista em formação com 45 anos", ou daquele "jovem clínico de 65 anos", Ferro comenta que "o mais preocupante ainda é colocar as teorias psicanalíticas em um tempo imóvel, ou melhor, circular, no qual tudo já foi dito [...]". Para ele, "os pesquisadores da psicanálise que deveriam trazer a peste dos novos conhecimentos se transformaram em sacerdotes"[vii] e disseminam agora teorias ultrapassadas e sem efeito sobre as patologias contemporâneas.

É verdade que o passadismo transcendentalista da psicanálise não larga o osso, pelo menos na Europa, e que ele às vezes tem algo de assustador. Todo mundo sabe que a bela pintura A Árvore da Vida de Klimt agora se tornou um jogo americano à venda nos sites online. Mas ninguém quer deixar Viena?- preferimos falar sobre a Gradiva e lançar a milésima interpretação do trabalho de Kafka. Um pouco como se o luto de Freud, o luto da Mitteleuropa, nunca tivesse sido feito, e que qualquer tentativa de atualizar a doutrina pudesse comprometer sua legitimidade ou essência. Como se a psicanálise pudesse ser pensada do lado de fora do mundo.

Ora, em 2001, em um comentário sobre Lacan, Alain Badiou se perguntava se a psicanálise teria alguma existência política. E respondia: de certo modo, sim. Lembrava que, nos anos 1970, Lacan, muito solicitado por seus discípulos de esquerda, viu-se em plena "interlocução com seu tempo", imerso na urgência de um contexto social agitado, que não era "o do progresso teórico lento e embasado". Lacan fez então duas proposições que hoje, meio século depois, parecem ainda surpreendentemente relevantes: a primeira é que a ideologia da ciência e do autoritarismo científico só poderia levar à supressão do sujeito (para dar um exemplo simples, o sujeito da psicanálise não era e nunca seria o sujeito do mercado da saúde mental, ou, se preferirmos: o sujeito da opressão psíquica não se lê como o sujeito do burnout é lido pela indústria farmacêutica); a segunda proposta é que "qualquer programa de emancipação ampliada e ilimitada do gozo [era] em realidade um programa mortal e desastroso"[viii] (por exemplo, o slogan dos situacionistas de 1968?- "gozar sem entraves e viver sem tempos mortos"?- poderia soar como uma verdadeira defesa maníaca, e um apelo nefasto, em um contexto capitalista no qual a satisfação e a felicidade se confundiam cada vez mais facilmente com o consumo e o poder aquisitivo). É verdade que Lacan não era um homem de esquerda e, do ponto de vista de 1968, pode-se considerar o aspecto imediatamente conservador dessas intervenções[ix]; mas a um olhar mais agudo fica claro que o que estava em jogo ali não era tanto um engajamento tático no sentido da escolha de um partido ou de um voto, mas uma tomada de posição política especificamente psicanalítica, no sentido de que, se tivesse que ser expressa, só o seria a favor de um sujeito integrado à vida social, claro, mas não menos dotado de uma singularidade tirada da luta psíquica constante com suas próprias contradições e exigências ontológicas e pulsionais. Assim, reivindicar o gozo total em nome de uma liberdade individual cada vez maior era um contrassenso?- não só porque era óbvio que o capitalismo esperava para dar o bote, mas também porque, uma vez posta em movimento, a ganância humana, o pulsional, o primário, só seriam contidos pela destruição e pela morte.

Nesse duplo sentido?- quero dizer, nesse funcionamento dialético da interlocução da psicanálise com o seu tempo?-, algumas das maiores contribuições à psicanálise vieram de textos que, longe de serem inspirados pela atmosfera secreta e almofadada dos consultórios, derivam sua força de um diálogo implícito mas vigoroso com a época.

Tomemos Freud, por exemplo, que, no contexto da Primeira Guerra Mundial e imediatamente no pós-guerra, reformulou sua teoria em profundidade, com textos como "Além do Princípio do Prazer" e "O Ego e o Id". A pulsão de morte, a compulsão à repetição, o luto patológico são alguns dos conceitos diretamente derivados de sua experiência com a guerra. Esta reformulação freudiana da década de 1920 arranca o indivíduo de um debate mais ou menos organizado com suas neuroses (sistema CS-pcs/luta-fuga/mecanismo de recalque), trazendo para a cena um ego irremediavelmente atolado no buraco negro, infinito e caótico do inconsciente pulsional (clivagem do ego/negação/somatização etc.). Com essa mudança, Freud ajusta a subjetividade romântica e requintada da Belle Époque à sociedade ultraindustrial, destrutiva e mórbida que acomodaria nossas mentalidades aos tempos democráticos, à cultura de massa e ao trabalho na linha de montagem. Notemos, a propósito, que Freud não viu um progresso inequívoco nesse estado de coisas. No entanto, é daí que vai tirar a ideia?- imediatamente aplicada à vida psíquica?- de que nada é adquirido para sempre, que "os estados primitivos podem sempre ser restabelecidos"[x]. Em outras palavras, a escolha de nossa humanidade psíquica e social deveria ser reafirmada por todos os homens em todas as situações. O que há de mais psicanalítico e político ao mesmo tempo?

Pensemos também em Bion e em seu engajamento com sua época; ele não só serviu ao exército em ambas as guerras, mas também viveu de perto os hippies da New Age californiana, no início dos anos 1970. Seu trabalho, marcado pelos sobressaltos da História, é sem dúvida um dos mais originais, criativos?- e difíceis?- nos anais da psicanálise desde Freud. Ao nos oferecer uma "visão [...] radicalmente social do nascimento do sujeito"[xi], ele nos deixa também uma teoria que permite compreender as formas de sofrimento psíquico que atacam hoje o indivíduo. Uma de suas contribuições mais valiosas é a ideia de uma "função psicanalítica da personalidade"[xii]. Apesar de essa noção ser pouco conhecida pelos psicanalistas, encontra-se na origem das melhores inovações teóricas propostas pela psicanálise contemporânea. Ela permitiu que Bion pensasse em termos de continente-conteúdo; contribuiu para a conceituação por André Green do trabalho do negativo, está abertamente presente na obra de Thomas Ogden, Christopher Bollas, Antonino Ferro e Giuseppe Civitarese, mas também implicitamente nos trabalhos de todos os que discutem distúrbios relacionados à simbolização e ao irrepresentável?- ou seja, a todas as disfunções da capacidade de pensar e as falhas do espaço interno. Como é uma daquelas noções que ninguém conhece, mas que todo mundo usa, parece óbvia. André Green, que a conhecia, descreveu a ideia de Bion à sua maneira em 2008, dizendo que:

Todo indivíduo que concorde em submeter o que vive, sente, pensa, ao exame do psicanalista, [...] admite a existência de um postulado, segundo o qual qualquer que seja a forma tomada pela superfície de sua comunicação, esta supõe que tal superfície retornará a uma organização de sentido diversa daquela superficialidade comunicativa[xiii].

Thomas Ogden, o primeiro em 2004 a chamar nossa atenção para esse aspecto importante da teoria analítica, explica que "com este termo, Bion quer sugerir que a personalidade humana é constitucionalmente equipada com um conjunto de habilidades mentais que, se utilizadas, possibilitam a elaboração psíquica [ao mesmo tempo] consciente e inconsciente da vida emocional [...]"?- trazendo assim à tona toda a problemática não tanto do consciente e do inconsciente, mas da simbolização e do pensamento operatório. Além disso?- prossegue Ogden?- "ao chamar essas atividades mentais de ‘psicanalíticas', Bion enfatiza que este trabalho é realizado graças a uma forma de pensamento propriamente psicanalítico: um pensamento que considera a experiência dos pontos de vista do consciente e do inconsciente ao mesmo tempo"[xiv].

Para simplificar, eu diria que a função psicanalítica da personalidade postula uma vida psíquica no ser humano?- uma vida psíquica que se desdobra em pelo menos dois pontos de ancoragem produtivos: o comércio com o Outro[xv] e a fabricação de sentido?- a criação de significado sob uma multiplicidade de formas e densidades, isto é, para falar como Green, uma organização de significado mais espessa, operando além da superfície comunicativa. É então a disfunção em um ou outro ponto deste sistema que vai se encontrar na origem dos sofrimentos psíquicos atuais, na forma, por exemplo, de distúrbios da alteridade, da subjetivação, da perda de significado, da perda do sentimento de si ou de falhas de simbolização. Todas em última análise, como já disse, desordens da atividade do pensar, relacionadas ao encolhimento e à superficialização da nossa vida psíquica.

Tudo isso dá a impressão de que, hoje, essa função psicanalítica da personalidade é exatamente a mais atacada, a mais ameaçada por nosso sistema econômico e social. O indivíduo, transformado em máquina de consumir, é levado a assinar com um clique uma série de Termos e Condições de venda com centenas de cláusulas ilegíveis, delegando assim juridicamente a fabricação de sua subjetividade e o exercício de sua vontade aos algoritmos do Facebook ou Amazon. O "sujeiticídio"[xvi] não é apenas cometido em plena luz do dia, mas com o consentimento da vítima. Pai Ubu e sua máquina de descerebrar não pediam tanto.

Em um livro publicado em 2018, em Londres, Christopher Bollas coloca as bases para uma discussão psicanalítica dessa situação. Com coragem e inteligência, discute a eleição de Donald Trump, o Brexit, o processo de globalização, o ódio nas redes sociais, as novas formas de pensamento e as normopatias, a espoliação do mundo interno e o estado de desolação dos Selfs em geral. O título do livro, um tanto triste mas poético, é Sentido e Melancolia. Viver em tempos de desamparo[xvii].

Este texto, misto de ensaio, panfleto e reflexão teórica, é o que precisávamos para desempoeirar de vez as prateleiras da psicanálise contemporânea. Um texto criativo, mas principalmente cheio de generosidade, pois não teme ser o primeiro a se molhar para nos levar a perceber a degradação do nosso espaço psíquico. Não posso apresentar o livro em detalhes, mas aqui está o que diz Bollas em um trecho sobre os novos modos de pensar engendrados pela falta de sentido e pela melancolia que habitam os Selfs transmissivos?- em suas palavras:

Ao contrário de pulsões, afetos e lembranças, esses modos de pensar não são formações reativas que se opõem a certas forças intrapsíquicas: são mentalidades transmitidas pela cultura contemporânea. O ego se adapta a isso. Elas não apresentam o entrelaçamento complexo de elementos imbricados, como evidenciado pela dinâmica psíquica idiossincrática de um Self; mas, embora uma psicologia social particular esteja em sua origem, e embora não emanem das profundezas da vida psíquica individual, podem transformar-se em estruturas perenes de nossa mente. Daí em diante a civilização exigiria de nós que nossos Selfs fossem menos dominados por um Superego do que por um Ego que poda suas aptidões intrínsecas, porque adota modos de pensar degradados[xviii].

Este é o diagnóstico de Bollas, que nos remete mais uma vez ao caminho de um trabalho de extensão e de reelaboração de nossa disciplina?- e que requer, acima de tudo, um compromisso nosso menos clerical e mais franco com os assuntos do mundo.

Assim, antes de terminar, gostaria de tentar articular algumas ideias sobre essa vaga mundial de ódio que tem nos deixado bastante desamparados. Vou retomar então rapidamente alguns elementos do que disse até agora, mas sob a forma de uma quase-associação livre.

No caso, a noção lacaniana de "gozo" ("jouissance"), de gozo ilimitado?- ou seja, de descarga sem fim?- me parece extremamente útil, assim como certas noções diretamente ligadas ao funcionamento do aparelho de pensar, e, entre elas, aquelas tiradas das teorias psicossomáticas francesas (e que são bastante próximas das ideias de Bollas e de Bion). Vejamos.

Não é difícil perceber que o ódio, essa "paixão triste" como dizia Spinoza, é o que mais ataca e aplaina aquela nossa função psicanalítica que acabo de comentar. Por uma razão bastante simples: o ódio destrói a linguagem ao desarticular o discurso em nome da descarga imediata propiciada pelo insulto ou pela ação (em nome do gozo)?- ora, a linguagem é um continente/envelope robusto e bastante plástico, mas que, uma vez destruído, esparrama o conteúdo na reação física imediata (o movimento pulsional passa então a ser tratado menos pelos processos psíquicos e mais pelos processos análogos aos físicos reativos). Daí a instauração da negatividade, daí a justificação da necessidade desse gozo sem fim, desse esvaziamento perpétuo. Isso por um lado. Por outro, num de seus cursos na Universidade Paris-viii, Deleuze, explicando Spinoza, dizia que a paixão triste é "o efeito que faz no meu corpo um corpo que eu só posso entender como não tendo nada em comum comigo". E ele prossegue: "enquanto ele afetar você com uma paixão triste, é porque você concebe aquele corpo outro como incompatível com o seu". O que, traduzindo para uma outra esfera, não está nada longe de uma definição trivial da alergia. Ou seja?- num contexto de déficit de linguagem?- o surgimento, no âmbito do sistema imunitário (o sistema de defesa mais íntimo da pessoa, do Self), dos distúrbios psíquicos ligados à alteridade, à intolerância ao outro. Daí, também, a ideia do ódio como paixão triste sem dúvida, mas sobretudo sem objeto. Ou melhor, cujo objeto é si mesmo, na negação absoluta do outro. E é aqui que entenderemos mais alguma coisa, se pensarmos justamente em termos de alergia, no sentido de uma identidade precária que, tendo sido robotizada, comercializada e maltratada pelos algoritmos, se torna totalmente operatória e instável, e só consegue afirmar sua existência pela rejeição do outro, pelo vômito, pela aversão, pelo nojo, e pela evacuação permanente do corpo estrangeiro alergênico. Como dizia Jean Baudrillard: "A identidade hoje se constrói pela rejeição; ela não tem mais nenhum fundamento positivo. O único jeito é de se antideterminar pela expulsão do outro, em vez de criar uma relação afetiva e dialética com ele. [...] Os processos atuais são processos de rejeição, de desafetação, de alergia"[xix]. Em uma palavra: de evacuação.

Daí essa analidade exposta aos quatro ventos, esse vocabulário de esgoto que tanto vemos nas redes sociais, exprimindo o intuito aberrante de se purificar de si mesmo por meio da expulsão do outro. Esse ódio, que a psicanálise tem por dever entender e tentar teorizar, é, ao meu ver, o ódio profundo da identidade perdida, da identidade roubada por um projeto de sociedade que acabou excluindo o humano de seus planos, pois, citando mais uma vez Baudrillard, "o ódio é talvez também uma última reação vital".

As reflexões que apresento aqui vêm da Europa, onde a ideia do esgotamento da nossa parte de humanidade não é mais considerada simples fantasia de um continente decadente; muitos europeus pensam seriamente que, sem uma mudança radical nos nossos modos de vida e nas nossas mentalidades, o século xxi será o último a nos oferecer a possibilidade de um ser humano. De um ponto de vista europeu, as eleições catastróficas nos Estados Unidos e no Brasil, e a ascensão do populismo fascista na Europa ressoam como um canto de cisne. A negação da destrutividade, o ódio, a violência, os insultos desesperados, o desejo de devastação aparecem como se?- a Natureza tendo apitado o fim da partida?- o animal humano em seu orgulho ferido lançasse seu último grito de revolta e impotência.

Termino então dando boas e más notícias. O ruim é que, como os oceanos, as florestas e o espaço, nossa vida psíquica?- que garante a nossa humanidade e um certo tipo de sociabilidade?- está ameaçada pela falta de sentido, pelo ódio da introspecção e o ódio do Outro, mas também pelo ódio sem objeto como pura atividade de escarificação[xx]. Como diz Bollas, estamos nos tornando uma função de nossos celulares e tablets, e detestamos a globalização que nos capturou no navio negreiro do comércio on-line. Estamos em vias de dissociação?- e talvez de desaparecimento. A boa notícia é que a função psicanalítica da personalidade também é de alta tecnologia, e que ainda não ficou decidido se perderemos essa luta.


topovoltar ao topovoltar à lista de autorestopo
 
 

     
Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
Sociedade Civil Percurso
Tel: (11) 3081-4851
assinepercurso@uol.com.br
© Copyright 2011
Todos os direitos reservados