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Resumo
Comentado porAnna Maria Amaral e Nelson da Silva Jr. Em Debates Clínicos, a revista Percurso convida três psicanalistas preferencialmente de correntes teóricas e instituições diferentes, um deles como apresentador e dois como comentaristas. Além dos imprescindíveis cuidados referentes à proteção da confidencialidade, solicitamos que o material e os comentários se atenham o mais possível à clínica, de modo que dela se depreenda a teoria e não o contrário. Cada convidado só conhece os outros dois participantes no final do processo. Com isso, visamos diminuir os fatores paratransferenciais que poderiam inibir a livre e descompromissada manifestação de opinião. Nosso objetivo é superar as divisões em nosso campo, proporcionar movimentos integrativos e estimular a reflexão sobre convergências e divergências na prática clínica.


Autor(es)
Barbosa Coutinho Coutinho

é membro efetivo e analista didata da Sociedade Psicanalítica de Fortaleza. Professor e fundador da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza. Ex-membro efetivo e analista didata da Sociedade Psicanalítica de Recife.



Anna Maria do Amaral
é psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde foi professora e supervisora do Curso de Psicanálise.


Nelson da  Silva Jr.

é psicanalista, doutor pela Universidade Paris vii. Professor Titular do Departamento Social do Instituto de Psicologia da usp. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise. Autor dos livros Patologias do Social (Autêntica, 2018) e Fernando Pessoa e Freud: diálogos inquietantes (Blucher, 2019).




Notas
1. S. Freud, L´interpretation des rêves, Paris, puf, 1967, p. 520 [Tradução Anna Amaral].

2. M. Montrelay, "Être Complice", in P. Guyomard (Dir.), La Disposition Perverse. Paris, Editions Odile Jacob, 1999, p. 31 [Tradução Anna Amaral].

3. A. Green, La Penseé Clinique. Paris, Editions Odile Jacob, 2002, p. 10.


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 DEBATE CLÍNICO

Caso Hilda ----

The case of Hilda ----
Barbosa Coutinho Coutinho
Anna Maria do Amaral
Nelson da  Silva Jr.

Em Debates Clínicos, a revista Percurso convida três psicanalistas preferencialmente de correntes teóricas e instituições diferentes, um deles como apresentador e dois como comentaristas. Além dos imprescindíveis cuidados referentes à proteção da confidencialidade, solicitamos que o material e os comentários se atenham o mais possível à clínica, de modo que dela se depreenda a teoria e não o contrário. Cada convidado só conhece os outros dois participantes no final do processo. Com isso, visamos diminuir os fatores paratransferenciais que poderiam inibir a livre e descompromissada manifestação de opinião. Nosso objetivo é superar as divisões em nosso campo, proporcionar movimentos integrativos e estimular a reflexão sobre convergências e divergências na prática clínica.

Ao escolher o material a ser enviado para a seção "Debates Clínicos" da revista Percurso, que será submetido a comentários de dois outros psicanalistas, procurei ater-me, como solicitado por seu corpo editorial, ao processo analítico de uma paciente, aqui chamada de Hilda, que, entendo, oferece elementos para a discussão da prática clínica.

A narrativa de uma história clínica, como aqui me proponho, sempre foi uma questão ética para a psicanálise. De todas as soluções, acredito que a solicitação de autorização ao paciente para uma apresentação seja a pior. Todavia, o psicanalista ao fazê-la não se furta de ver-se frente ao dilema de disfarçar os dados do paciente, com grave prejuízo de sentido, tanto para quem lê o material quanto para quem o escreve, ou de proceder a uma narrativa um tanto novelesca, em razão da natureza da matéria.

No caso Hilda, cuidei de me desvencilhar desses desígnios, procurando, o mais possível, sem descuidar de preservar a identidade da paciente, fugir da falta de sentido da narrativa e do modelo novelístico, ao buscar apresentar um material analítico que permitisse outras reflexões, compreensões e interpretações na prática clínica, tal o objetivo proposto.

Hilda, professora universitária, procurou análise no momento de separação do seu terceiro casamento. Do primeiro casamento, ela tem uma filha adolescente, chamada Lu. Pedro, de quem agora está se separando, esteve presente nos outros casos de separação. Hilda conta que tem o mesmo nome de uma tia paterna que, aos nove anos, morreu de um processo infeccioso. Tal morte passou a fazer parte da tragédia familiar paterna, que teve início quando sua avó, enamorada de um outro homem, abandonou a família, deixando para trás o marido e os filhos. O marido abandonado obrigou os filhos, entre eles seu pai, ao rompimento definitivo com a mãe, o que foi cumprido com extremo rigor. Recentemente, após muitos anos da ocorrência do fato, sua avó paterna retornou, na esperança de encontrar seus filhos, e estes se recusaram a revê-la. Hilda, no entanto, às escondidas, visitava-a e se desdobrava em cuidados à mãe não perdoada pelos filhos.

Desse relato, considerei muito importante o encontro com a avó. Com ele, pareceu-me que Hilda estava reescrevendo sua história familiar com um novo roteiro. Por trás da assiduidade com que Hilda cuidava da avó, penso que ela condensava duas personagens: a Hilda morta que agora reencontrava a mãe, papel que lhe delegara o inconsciente do pai ao lhe dar o nome da irmã morta, e a Hilda neta viva que procurava se aliviar do compromisso de ser a filha morta. Ou seja, ao cuidar da avó às escondidas do pai, Hilda submetia-se ao desejo do pai que a identificava com a irmã morta, ao mesmo tempo que mostrava seu desejo de se firmar como a filha viva, deixando de lado as identificações traumáticas com a morta. Numa fala, Hilda diz: "minha avó está tão velhinha, tão frágil, eu abraço ela e fico pensando que ela foi uma mulher corajosa. Ela me beija e sempre diz: minha filha, não deixe de vir amanhã. Ela diz sempre que fica feliz por eu ter o nome da filha dela". O fato de considerar o comportamento da avó não escandaloso ou condenável e sim corajoso também pareceu-me apontar nessa direção?- um desidentificar-se das concepções do pai e da familia paterna. Hilda estaria, assim, lutando em duas frentes, sair da identificação com a tia e discriminar-se das ideias do superego ou ideal do ego do pai.

De sua infância, Hilda relatou que guarda a lembrança de um pai muito violento, que costumava ameaçar, com arma de fogo, os filhos e sua mãe que, em atitude passiva, e temendo a violência do marido, estimulava-o a se ausentar de casa, desejando que ele continuasse a levar sua vida de muitas amantes. Vê-se que Hilda está presa à imagem de dois homens?- o avô e o pai?- ilimitadamente poderosos e autoritários.

Hilda, na minha compreensão, se vê compelida a repetir em seu casamento o padrão familiar. Além da identificação com a tia morta, Hilda também depara com as identificações com a mãe e a avó, mulheres submetidas à violência dos homens da família. Parece repetir a avó que se enamorou e abandonou o lar. Pedro, o eterno namorado, causa do rompimento de suas outras relações de casamento, tal qual seu pai fazia com a sua mãe, trata-a com violência: "sua vagabunda, vadia, você saiu hoje com seu amante, você tem de fazer análise para tomar consciência do quanto você é má, mesquinha, narcisista e injusta".

Sua análise é cansativa; exige muito do analista que, às vezes, não tem como se esquivar do fato de que parece estar a praticar uma terapia de casal. Quando a paciente fala da loucura de Pedro, com quem tem diálogos ofensivos a toda hora, esconde a sua própria loucura. Seu maior temor é ter que enfrentar mais uma separação, por receio de ter de se haver com sua participação no processo, com sua parte doentia.

Quando o analista concorda com suas opiniões sobre Pedro, a paciente se retrai. Já que é o analista quem faz essa demonstração, a paciente se alivia do próprio julgamento. Mas, se o analista parece fazer objeção a Pedro, estimulado por ela, e, de alguma forma, incomodado com suas agressões e violência, Hilda se ausenta de suas questões com o marido trazidas para análise e, nesse momento, adota um ódio silencioso ao analista que demonstrou desaprovação ao comportamento dele. A paciente ora procura envolver o analista em suas brigas com o marido, como a procurar proteção amorosa, ora, contraditoriamente, devolve seu ódio ao analista por este se ter oposto a Pedro, de quem ela quer preservar as coisas boas da relação.

A análise desta paciente tem uma transferência aparentemente amistosa, um vínculo de colaboração, um investimento sublimado para com o analista; só raramente a transferência aparece na forma negativa, carregada de elementos hostis, como resistência, quase sempre após alguma interpretação. Ainda assim, a paciente mantém uma aparente neutralidade afetiva com o analista. Seu amor e desamor estão circunscritos aos encontros/desencontros e prazeres/frustrações no casamento.

Nos fragmentos de sessão que serão apresentados, Hilda, de uma maneira histriônica e regredida, coloca-se muitas vezes como uma criança em busca de amor e amparo. O analista não reproduzirá aqui, de forma extensiva, o que foi falado por ele em cada momento da análise, mas de seus comentários se pode evidenciar a forma como compreendeu, interpretou e transmitiu sua compreensão do material clínico à paciente.

 

1. Fragmentos de sessão

Paciente:
Nada mudou em minha vida. Passo o tempo me lembrando do Pedro. Só as coisas boas. Faço tudo que tenho para fazer, mas só Deus sabe! Fui com a S., o marido dela e outros amigos, para o sítio. Não foi horrível. Mas bom não foi. Sábado, uma amiga que se separou há pouco tempo me ligou para irmos a uma boate. Levei a Lu porque a filha dela também ia. Eu nunca tinha ido a uma boate. A gente ficou até as cinco da manhã. Para onde me chamam eu vou. Mas não gosto. Mas ficar em casa é pior. O Pedro telefonou perguntando se a Lu não ia voltar ao psicólogo, porque ele estava achando ela muito triste. Que absurdo! Além de ele não ser pai dela, ... ela tem um pai cuidadoso e muito presente. No domingo teve o jogo do Brasil, ele ficou mandando mensagens para o celular dela: ... "te amo", "Me espere, sinta como se estivesse ao seu lado vendo o jogo", "beijos, te amo minha lindinha".

Disse à paciente que ela cria uma atmosfera de luto e sofrimento que, até certo ponto, não há. Que fala de uma dor, uma solidão, uma perda, que também não houve na dimensão dada por ela. Que ao dizer ser sempre Pedro o motivo de suas separações, sua história demonstra não ser bem assim. A paciente nega as mudanças que estão ocorrendo, pelo prazer infantil que os estados regressivos lhe proporcionam. Ela, identificada com sua filha Lu, não percebe seus próprios desejos eróticos (por seu pai, pelo analista), mas registra Pedro como perverso. No desenrolar da sessão, quando o analista faz colocações que Hilda entende como críticas e censuras a Pedro, estabelece-se uma parceria amorosa transferencial entre Hilda e o analista. Pedro e Lu estão num jogo sensual e incestuoso que, ao ser apontado, provoca um outro jogo sensual e amoroso entre a paciente e o analista. Ela diz o que Pedro deseja, mas não diz o que Lu deseja, porque seria registrar não o desejo de Lu, mas o seu mesmo na relação com o analista.

 

2. Fragmentos de sessão

Paciente:
Estou sozinha em casa. Minha filha viajou. Vou passar o fim de semana sozinha. Assisti ao jogo do Brasil sozinha. Não vou fazer o almoço no sábado que sempre faço para a família. Ah! Meu pai ligou convidando para ir à casa de praia com ele. Eu disse a ele que não ia sozinha. Ele disse que o casamento com o Pedro não ia mesmo dar certo. Ele disse que tinha um remédio natural para o intestino, e que ia levar para mim. Eu só sei que é péssimo ficar sozinha. Eu já me casei muitas vezes, mas sempre me separava pelo Pedro. Só no primeiro casamento não foi por causa dele.

Nesses fragmentos de sessão, a paciente mostra a repetição que se dá numa relação idealizada (Pedro) e apresenta um pai cuidadoso e protetor (o remédio natural para o intestino) e ainda sugere uma situação de solidão e abandono para, desse modo, obter o amor do analista e sua companhia nos solitários fins de semana: "Ele me disse que o casamento com Pedro não ia dar certo", referindo-se à opinião do pai. No âmbito da relação analítica, o analista é frequentemente colocado por Hilda no lugar daquele que critica e não acredita em Pedro, obedecendo ao desejo inconsciente de ver repetir-se a reprovação do próprio pai às suas alianças amorosas.

 

3. Fragmentos de sessão

Paciente:
Minha vida está muito ruim. (Após longo silêncio) Estão organizando uma grande festa e me convidaram. Vai ser muito animado. Eu não tive ânimo para responder. A minha vontade é não ir.

Paciente:
Meu ex-marido me telefonou e conversamos sobre a Lu. Ele ficou irritado com os problemas que ela está criando no intercâmbio, mas disse que eu não me preocupasse.

Paciente:
Minha viagem para visitar Lu está a maior confusão. Nunca vi tanta desorganização numa agência de turismo. Eu já fui lá várias vezes e eles não resolvem porque eu quero modificar uns trechos da viagem. A moça me vendeu a passagem de forma errada e eu tive que gastar um tanto a mais desnecessariamente.

 

Paciente:
(Depois de fazer silêncio) Eu não dormi nada essa noite. Até aquilo que gosto, correr, eu não fui... Eu queria mesmo era arranjar um namorado... bem bom... (silêncio). Este final de semana pensei em ligar para o Pedro, mas não vou fazer isto nunca... (silêncio).

 

Paciente:
Eu estou falando pouco porque as coisas que estou pensando nada têm a ver com coisas daqui. Pensei nas aulas de ginástica que vou perder e não quero pagar. Pensei quando sair daqui passar na agência. O doutor L disse que estou mais gordinha e voltei a ficar bonitinha.

 

Toda essa sequência de falas pertence a uma mesma sessão, sem interrupção do analista.

A paciente revelou que estava falando pouco porque o que estava "pensando nada tem a ver com coisas daqui". "Eu queria arranjar um namorado bem bom"... "A aula de ginástica que vou perder e não quero pagar".

Ela omitiu a sedução ao analista ("eu queria arranjar um namorado, bem bom") voluntariamente (Unterdrückung).

O analista disse à paciente que ela parece sufocada pelo luto de Pedro e também pela ausência de Lu. Sem Pedro e Lu, não tem ânimo para ir à grande festa para a qual a convidaram, nem de fazer o que mais gosta, correr. Ela precisa registrar a falta de Pedro, mas sem lembrar seus aspectos ruins o luto não se dissolve. No registro original de sua história o pai a maltratava, mas ficava com ela. Ela procura parcerias que repitam o trauma de violência familiar.

A problemática que Hilda vive na relação com o analista tem aspectos amorosos, mas também traços hostis. Pensando nesta linha, ela responsabiliza o analista por sua solidão, seu desânimo e até mesmo pela separação de Pedro. Ela tanto não deseja pagar as aulas de ginástica que irá perder quanto não lhe agrada a ideia de pagar sessões não realizadas. Ela precisa garantir que está silenciosa porque "tudo o que está pensando não tem nada a ver com coisas daqui", em uma atitude clara de negação. Sua viagem para encontrar a filha no intercâmbio é fundamentalmente um distanciamento do analista. Por outro lado, ela procura uma aproximação buscando ser também a "bonitinha" dele, como é a "bonitinha" do doutor L.

Depois de muitas dificuldades no percurso da análise, a paciente aceita convite de uma importante universidade e decide afastar-se por um mês. Apesar dos ganhos profissionais da viagem, há nítidos sinais de repetir, como atuação, a viagem da filha para o intercâmbio. No momento do retorno de Lu, Hilda decide fazer o seu "intercâmbio", deixando a filha na condição de abandono em que antes se encontrava. Também parece querer vingar-se do analista a quem culpa pela separação de Pedro, ao mesmo tempo que toma distância de Pedro, deixando com este o peso do luto por sua partida.

Comentário de Anna Maria Amaral

Para bem compreender a vida psíquica é indispensável cessar de superestimar a consciência. [...] Não pode haver fato consciente sem estádio anterior inconsciente, ao passo que o inconsciente pode prescindir do estádio consciente e ter, entretanto, um valor psíquico. O inconsciente é o psiquismo ele mesmo e sua essencial realidade. Sua natureza íntima nos é também desconhecida tanto quanto a realidade do mundo exterior, e a consciência nos ensina sobre ele de uma maneira tão incompleta quanto nossos órgãos de sentido sobre o mundo exterior[i].

 

A questão da exposição de um "caso" é um problema desde o nascimento da psicanálise. Freud, ele mesmo, relatou-nos vários de seus casos clínicos. Como revelar a narrativa de uma análise sem identificar o analisando? A psicanálise além de clínica e teoria é também um método e uma "tecné", isto é, um saber fazer?- que se impõe. Um relato clínico, em geral, nos revela mais sobre o analista que o escreveu, sua técnica e a escola a que pertence do que sobre o seu analisando. É no relato que a criatividade literária do analista nos apresenta seu pensamento clínico. Apesar de Freud ser o nosso tronco mestre, muitos galhos fecundos surgiram após ele: Lacan, Melanie Klein, D. W. Winnicott, para citar apenas alguns, sabendo que muitos pós-freudianos deixaram contribuições inestimáveis.

Na psicanálise, uma escrita clínica deve levar em conta não apenas a apresentação do "caso", mas também a metapsicologia que o envolve?- uma escrita em que a clínica está presente, assim como um pensamento clínico. Há sempre uma certa distância entre o pulsional de uma análise e a escrita, pois é impossível dar a ver o que se passa na intimidade de uma sessão. Mas toda transformação, se for bem descrita, mostra a "verdade do caso".

Como podemos pensar um relato clínico que aborde o inconsciente?

Podemos recorrer ao que Michele Montrelay chama de "campo flutuante":

Pensá-lo não em termos de um determinismo, de relação de causa e efeito, que se encadeariam, que se repetiriam de um modo inexorável no tempo, mas em termos de probabilidades [...] mais um conjunto de pulsões é posto em interação no seio de uma cumplicidade, mais os microssistemas auto-organizados que eles formam com seus representantes entram em ressonância, menos nós podemos prever com certeza, mesmo se conhecermos as condições iniciais e seus limites, a maneira na qual ele vai se representar e menos ainda seu devir[ii].

Uma das questões que mais me chamaram atenção nessa apresentação foi a da transferência-contratransferência (transferência do analista). Em vários pontos do trabalho, o autor pensa nele mesmo como polo erótico ou falta dele, e quase se queixa de que a paciente não faz esta ligação com ele:

No desenrolar da sessão, quando o analista faz colocações que Hilda entende como críticas e censuras a Pedro estabelece-se uma parceria amorosa transferencial entre Hilda e o analista. Pedro e Lu estão num jogo sensual e incestuoso que, ao ser apontado, provoca um outro jogo sensual e amoroso entre a paciente e o analista.

A transferência erótica é vista por Freud como transferência negativa, levando a análise a um compasso de espera, ou até mesmo, a um recrudescimento das defesas do analisando. Apenas um acolhimento silencioso por parte do analista mobilizaria o psiquismo de Hilda. A questão que se impõe é o que o analista deseja com o desvelamento da transferência erótica.

Outro ponto discutível da transferência do analista é o que se faz sentir em descrições como esta:

Disse à paciente que ela cria uma atmosfera de luto e sofrimento que, até certo ponto, não há. Que fala de uma dor, uma solidão, uma perda que também não houve na dimensão dada por ela. [...] A paciente nega as mudanças que estão ocorrendo, pelo prazer infantil que os estados regressivos lhe proporcionam.

Segundo Fédida, a sessão de psicanálise é um "lugar de fala", ou, dito de outra maneira, "o psiquismo tem seu lugar na análise". O analista trabalha com significantes que podem ser frases, traços, lapsos, sonhos, e tudo isso ocorre na superfície da linguagem, e vem se alojar na escuta do analista; se é "mentira" o sofrimento dela, não cabe ao analista denunciar. É a escuta do analista, suas pontuações e interpretações que vão permitir ao analisando se sentir responsável pela sua história sem tantas identificações e projeções. No decorrer de uma análise, o sujeito desliza por vários outros lugares prescindindo das interferências do analista. Como já receitava o velho médico de Macbeth, citado por Green, à mulher louca de seu Senhor: "Nesse caso o paciente ele deve se curar ele mesmo"[iii].

 

Agradeço a Luciana Miranda Penna pela leitura atenciosa e sugestões.

Comentário de Nelson da Silva Junior
Hilda e os três tempos de uma repetição

Gostaria, antes de mais nada, de agradecer aos colegas da editoria da sessão "Debates Clínicos". Gostaria igualmente de expressar o meu respeito e admiração pelo sensível trabalho de análise e pelo relato preciso do analista de um caso particularmente difícil de sua clínica. Difícil, pois a estrutura e a intensidade dramática da repetição transferencial se revelam como particularmente recalcitrantes, apesar da relativa clareza dos movimentos que esta repetição introduz na situação analítica. Retomemos a história construída em análise por Hilda e seu analista, buscando sublinhar os elementos de sua estrutura singular de repetição.

O pai

A história de Hilda se inicia muito antes de ela nascer, na infância do pai e seus impasses. O evento inaugural dessa história ocorre quando sua avó se enamora por outro homem e se separa, deixando marido e filhos para trás. O avô de Hilda, marido traído, impõe aos filhos uma ruptura definitiva com a mãe. Uma primeira confusão de gerações acontece nessa imposição: a traição que sofreu como homem passa a ressignificar e tornar definitivo o abandono que seus filhos sofreram. A imposição de ruptura, ao se apresentar como castigo merecido à mãe desnaturada, vela a violência que ela implicava para estas crianças. De certo modo, essa violência se reverte em vingança, quando estas crianças são alçadas à categoria de "marido traído", quando poderiam ser apenas filhos de pais separados. Algum tempo depois, a morte de uma criança acontece: uma das irmãs do pai de Hilda morre, vítima de uma infecção fatal. A "causa oficial" dessa morte será aquela do abandono da mãe. Esta "causa oficial", uma vez que é incompleta e violentamente parcial em relação à história toda, já prenuncia toda a complexa trama que virá a seguir: como um fantasma, a morte da irmã dará voz à dor fatal que a separação da mãe causou ao pai de Hilda, assim como à impossibilidade de obedecer e de se identificar com seu pai, rompendo definitivamente com sua mãe. Desta irmã morta, porta-voz fúnebre de sua dor, virá o nome de Hilda. Tal homenagem póstuma à irmã vale, portanto, como um sintoma, solução singular de desejos incompatíveis: por um lado ela é um traço da dor recalcada e um apelo ao retorno da mãe, por outro, uma acusação de homicídio endereçada a esta mãe. O pai de Hilda permanece preso nesse impasse. Outra faceta desse mesmo impasse é a imposição feita por seu pai de ruptura com a mãe e a impossibilidade de se submeter a essa imposição. O nome de Hilda resume e reedita esse impasse e suas diversas facetas.

A filha

Retomemos a "causa oficial" da morte da primeira Hilda, tia da analisanda. Nem a imposição, nem a infecção serão causa da morte da menina, há apenas uma única culpada: a mãe/mulher arrebatada pela paixão e seu abandono da família. Uma equivalência entre mulher apaixonada e morte se esboça aqui, resultado de uma história mal contada. Sabemos que o pai de Hilda remeteu essa história mal contada à próxima geração, à sua filha. Vimos que, ao batizá-la com o nome da irmã morta, é feita uma demanda do pai à Hilda. Trata-se da demanda de um filho que foi incluído à força em uma vingança que não era a sua, um filho que, ainda que ressentido com o fato de a mãe tê-lo abandonado, possivelmente não estava decidido a nunca mais vê-la. O rompimento definitivo com a mãe era uma exigência de seu pai, exigência assumida ao preço de um soterramento de seu desejo de revê-la. Os efeitos desse desejo são claramente parte, por exemplo, da decisão de Hilda em visitar a avó às escondidas. Além disso, sabemos que, nesta nomeação, ele sublinha seu lugar de irmão enlutado e de filho rancoroso ("- Está vendo mãe, o que sua paixão causou?). São estas as "demandas" paternas a Hilda, demandas feitas do lugar de um filho e do lugar de um irmão. Quando a criança inconscientemente pergunta aos pais quem eles querem que ela seja, juntamente com as falas explícitas ela obtém outras respostas, as inconscientes, que trazem consigo os lugares infantis dos pais. Poderíamos dizer que há, nas respostas que Hilda tem de seu pai, uma segunda confusão de gerações. Pois Hilda, ao formular essa pergunta a seu pai, herda, junto com seu nome, um outro lugar na composição familiar: ela não tem apenas o lugar de filha, mas também o de irmã morta-viva, como bem cunhou o analista, morta pois foi a vítima trágica de um abandono que todos sofreram, viva pois encarregada de expressar eternamente esse rancor/amor paterno para sua própria mãe.

Assim, essa nomeação traz efeitos perturbadores quanto ao lugar de Hilda em sua família, pois, se ela é filha de seu pai, a nomeação a coloca simbolicamente no lugar de irmã, o que implica uma horizontalização de lugares na interdição do incesto. Na experiência de Hilda, o pai possui assim dois lugares discrepantes e inconciliáveis: inconscientemente, irmão desamparado e, conscientemente, homem violento. Nenhum desses lugares é o melhor para sustentar uma interdição ao incesto. De fato, a mãe, acuada com as ameaças e a violência do pai de Hilda, o incentiva a ter amantes. Não é difícil para uma criança nessa situação entender que a submissão da mãe estava fundada no medo, mas que disto não se origina respeito pelo pai. Com efeito, nenhum desses lugares?- filho enlutado, irmão a ser vingado, homem violento e sem limites, marido temido e silenciosamente desprezado?- é propício para representar e sustentar a função paterna típica da interdição edípica, que organiza o proibido e o permitido ao sujeito em matéria sexual segundo uma ordem social à qual está submetido e que assume como sendo sua. Em outras palavras, em sua infância, Hilda teve um pai fraco, no sentido metapsicológico do termo. Estava lá, mas não era em si mesmo dotado de nenhuma potência digna de admiração. Apenas um outro homem foge na história de Hilda destas alternativas sem saída de seu lugar junto ao pai: o amante da avó.

Este outro homem pode funcionar em vários papéis. Não apenas como amante digno do amor de uma mulher, na medida em que junto dele o desejo de uma mulher é legítimo e reconhecido como tal, mas também como pai idealizado, capaz de estabelecer uma família. Ele existe, desde que seja vislumbrado através da fórmula negativa: não é esse que tenho. A fórmula essencialmente negativa constrói o lugar de uma figura sem rosto, que se contrapõe às figuras conhecidas, mas impossíveis, do masculino no imaginário de Hilda. Podemos ver aqui um dos polos de sua repetição, o polo objetal.

Trata-se de um arranjo precário aquele inventado por essa repetição, pois, tanto a proximidade de um homem como sua distância são vividas como a condição de seu oposto: esse homem e o outro homem são mutuamente definidos em um maniqueísmo que organiza sua vida amorosa de modo mecânico, aparentemente automático, sem opções fora desse binarismo. Paralelamente, suas identificações oscilam entre aquela de mulher enamorada e frágil, à espera de ser salva de um homem violento, para aquela de mulher fatal, capaz de seguir seu próprio desejo sem medir as consequências. Hilda, no polo identificatório da repetição, oscila entre dois papéis: seja aquele de encenar e reencenar o enamoramento da avó por um homem que não é seu marido, terminando corajosamente seus casamentos sempre por esse outro homem. Seja aquele da mulher infiel, que merece castigo e sofrimento pelo seu desejo excessivo.

A transferência

O desafio da análise de Hilda é o de, a partir da transferência e das intervenções, ajudá-la a se descolar desse sistema sem saída, no interior do qual ela busca uma solução para ser um sujeito e ser uma mulher. Mas em princípio uma repetição envolve estruturas psíquicas que incluem o ego e a consciência do sujeito em seu próprio movimento. Assim, desde já, gostaria de sublinhar a importância de diferenciar dois níveis do discurso de Hilda: o imaginário, narcísico, egoico, e aquele automático da repetição.

Separar as elaborações secundárias do sujeito do mecanismo automático da repetição permitiria conceber a repetição como uma estrutura paradoxal, não coerente consigo mesma, e, portanto, inacessível em toda sua extensão à compreensão egoica, compreensão que, na verdade, está condicionada aos polos identificatórios e objetais da repetição. Contudo, todos sabemos que isto não é tarefa fácil. Frequentemente levamos ao pé da letra declarações dos analisandos como testemunhas de sua verdade interior. Desse modo, corremos o risco de pensar que estas declarações seriam independentes do mecanismo da repetição. Isso indica a importância de mantermos uma certa distância em relação ao lugar transferencial que os analisandos constroem em suas análises. Tais lugares assim como declarações egoicas são elementos parciais, mas inerentes ao ciclo completo da repetição. Nem sempre conseguimos levar em conta essa indissociabilidade entre o caráter repetitivo do lugar transferencial e as proposições egoicas dos analisandos, ainda que a tenhamos claramente diante de nós e que a percebamos com clareza. No relato do caso Hilda, a fineza e a fidelidade da observação do analista permitem que localizemos um desses momentos, ao qual restringirei meus comentários, em vista da restrição do espaço:

Quando o analista concorda com suas opiniões sobre Pedro, a paciente se retrai. Já que é o analista quem faz essa demonstração, a paciente se alivia do próprio julgamento. Mas, se o analista parece fazer objeção a Pedro, estimulado por ela, e, de alguma forma, incomodado com suas agressões e violência, Hilda se ausenta de suas questões com o marido trazidas para análise e, nesse momento, adota um ódio silencioso ao analista que demonstrou desaprovação ao comportamento dele. A paciente ora procura envolver o analista em suas brigas com o marido, como a procurar proteção amorosa, ora, contraditoriamente, devolve seu ódio ao analista por este se ter oposto a Pedro, de quem ela quer preservar ao coisas boas da relação. (meus itálicos)

Como vimos, a repetição de Hilda tem uma estrutura narrativa que envolve duas figuras masculinas opostas, mas mutuamente determinadas. Na repetição transferencial, estas figuras surgem em dois tempos: primeiramente quando esta se apresenta como vítima, demandando ao analista que a salve. Nesse primeiro tempo, o analista está no lugar do outro homem idealizado. Em seguida, quando ela identifica o próprio analista ao algoz e assume uma postura crítica em relação a ele. Nesse segundo tempo, o analista é colocado no lugar do homem opressor. Pedro, em paralelo e simultaneamente, é primeiramente o algoz, e em seguida o outro homem.

Talvez em vista de não levar em conta a inclusão do ego da paciente em sua repetição, o analista se vê envolvido nesta cena transferencial e acaba atuando, a cada vez, os papéis oferecidos pelos lugares transferenciais. De qualquer modo, vemos no trecho acima que a transferência é tomada como se lhe fosse pessoalmente endereçada e que o ego da paciente é tomado como um aliado: o analista ora sente pena da vítima, ora se enraivece contra Pedro. Desse modo, o analista encarna aqui um papel já descrito no roteiro de Hilda, e encenado anteriormente pelo próprio Pedro em seus dois lugares: primeiramente tem o papel do outro homem, cuja figura idealizada tem a função de salvá-la de um casamento opressor. Em seguida, ao assumi-la como sua mulher, Pedro deixa de ser esse outro homem, e, na falta de outros papéis, só lhe resta aquele do homem opressor.

Uma alternativa possível seria aquela de privilegiar, nas intervenções, a repetição como um todo, isto é, a indissociabilidade dos dois lugares do homem, aquele do homem opressor (marido/pai/avô) e aquele do outro homem (amante da avó/Pedro) em suas sucessivas encarnações. Talvez esse tipo de intervenção permitisse um certo grau de emancipação tanto do analista quanto de sua paciente em relação às repetições que os constrangem.


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