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Resumo
Resenha de Cristovão Tezza, Literatura à margem, Porto Alegre/São Paulo, Dublinense, 2018, 160 p.


Autor(es)
Renato Tardivo

é psicanalista e escritor. Mestre e doutor em Psicologia Social pela usp. Pós-doutorando em Psicologia da Saúde (Metodista/capes). Autor, entre outros, de Porvir que vem antes de tudo– literatura e cinema em Lavoura arcaica.




Notas
J. Laplanche; J.-B. Pontalis, Vocabulário da Psicanálise. Santos: Martins Fontes, 1979, p. 65.

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 LEITURA

O psicanalista e o narrador [Literatura à margem]

The psychoanalyst and the narrator
Renato Tardivo

O livro Literatura à Margem, do ficcionista Cristovão Tezza (autor, entre outros, do premiado romance O Filho Eterno), reúne em sete capítulos conferências proferidas entre 2008 e 2015. Uma delas, "Literatura e Psicanálise", apresentada em junho de 2009 como aula inaugural do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, já justificaria a resenha do livro em uma revista de psicanálise. Mas não só. Os demais temas abordados?- e o modo como o autor os conduz?- também podem ser do interesse de psicanalistas. São eles: o lugar da literatura, o lugar do escritor, questões acerca do narrador e da criação literária, relações entre literatura e biografia.

Sabemos que a relação da psicanálise com a literatura é marcada por ambiguidades. Em uma acepção, a psicanálise pode ser convocada enquanto ferramenta de leitura do texto literário. Mas, em outra, coloca-se a analogia entre psicanálise e literatura, considerando-se aí o potencial poético e disruptivo de ambas. Esta talvez seja a acepção mais interessante.

Nesse sentido, no capítulo "Literatura e Psicanálise", Tezza propõe pontos de aproximação entre as duas áreas. Para isso, o autor apresenta inicialmente um breve esquema temporal da literatura no qual acompanha a passagem do épico para o individual: "O herói épico está sempre à beira da divindade, e queremos que seja assim. [...] O épico existe para não ser contestado" (p. 68). Ocorre que esse herói intocável foi sendo desconstruído ao longo da História, o que deu origem a figuras mais humanizadas, até chegar ao "que hoje podemos chamar de anti-herói" (p. 69).

Com efeito, a partir da separação entre Igreja e Estado, no âmbito da Revolução Francesa, nasce o que chamamos de indivíduo moderno. Nessa perspectiva, não há mais a noção de deuses absolutos nem de um destino como "inimigo inescapável", e sim a de "indivíduos falíveis [...]. Há vários traços recorrentes na imagem literária desse indivíduo, que é a um só tempo a figura representada no texto, o personagem e o olhar que o representa, o narrador, e que, em última instância, o interpreta" (p. 73). Trata-se, portanto, de um indivíduo falível, fraturado, inacabado. E, como reconhece Tezza, de um ser necessariamente duplo: o indivíduo olha a si mesmo com algum distanciamento e, nesse movimento, assimila também o olhar dos outros.

Na literatura, esse movimento é exercido pelo narrador. E, com efeito, esse indivíduo multifacetado pode ser o objeto da psicanálise. Então, se a tarefa do narrador é recompor e dar sentido ao mundo, talvez não ocorra algo muito diferente quando pensamos o ofício do psicanalista: "o narrador que escreve o livro é, em alguma medida, o psicanalista distante que recompõe e dá sentido aos fragmentos disparatados do evento da vida" (p. 82). Assim, no campo amplo de possibilidades contidas entre a literatura e a psicanálise, ­Tezza propõe a seguinte analogia: o narrador como o psicanalista e, reversivelmente, o psicanalista como narrador.

Mas, claro está, há especificidades significativas relacionadas à literatura e à psicanálise, tanto em relação ao método, quanto aos objetivos e às técnicas. Como lembra o autor, não se pode tomar um objeto estético por um evento da vida. A propósito, no capítulo "Literatura e Biografia", Tezza apresenta considerações importantes acerca das diferenças entre o texto de ficção e o texto biográfico: em uma autobiografia, parte-se do pressuposto de que autor e narrador praticamente coincidem. Em outra direção, o narrador de um texto de ficção só existe "sob moldura", quer dizer, trata-se de "uma voz de artifício" que se "destaca para sempre de seu criador", ou seja, que já "não deve obrigações ao autor biográfico" (p. 138).

Contudo, considerar as diferenças entre o registro da ficção e o da biografia também implica, em certa medida, atentar para a sua correspondência. A noção de aparelho psíquico formulada por Freud a partir de A interpretação dos sonhos tem "um valor de modelo, ou, como ele próprio dizia, de ‘ficção'"[i]. Assim, essa perspectiva não deve provocar a confusão entre realidade e ficção, senão considerar a comunicação que elas estabelecem.

É o que se depreende da seguinte passagem escrita por Tezza: "o elemento factual, ao entrar na moldura da ficção, perde o seu estatuto de realidade, a sua âncora diferencial, e passa a pertencer à família dos elementos ficcionais com exatamente o mesmo status" (p. 156). Uma vez mais, podemos pensar a analogia entre o trabalho do escritor?- que convoca o narrador?- e o trabalho do analisando?- que convoca o psicanalista.

Mas, antes de prosseguir, cabe uma consideração. Na literatura, o narrador está diretamente ligado ao escritor?- é um desdobramento dele. Ainda que, como vimos acima, em um texto autobiográfico narrador e escritor tendam a coincidir e que, na ficção, haja mais diferenciações entre eles, o ato de escrita é sobretudo um ato solitário. Já em uma situação de análise, como sabemos, é preciso a presença, no mínimo, de duas pessoas?- o analisando, que fala (associação livre), e o analista, que escuta (atenção flutuante). À primeira vista, portanto, soaria descabido considerar o analista (que escuta) análogo do narrador (que escreve, fala). Vejamos.

Algumas proposições do psicanalista W. R. Bion, mais notadamente aquelas relacionadas à teoria do pensar, podem auxiliar a encaminhar a questão. Sabemos que, segundo o autor, os elementos beta?- primitivos, carentes de simbolização e tóxicos por excelência?- demandam a transformação em elementos alfa?- úteis para o sonhar e o pensar. Isso se dá por meio da função alfa, metabolização que pode ser exercida pelo analista em sua função continente. Nessa direção, ao receber e metabolizar os conteúdos do analisando, o analista desempenha papel determinante na organização desses elementos e, por conseguinte, em sua escrita. Escutar é, a um só tempo, também escrever. Talvez por isso Tezza afirme mais de uma vez ao longo do livro que, se a infelicidade produz literatura, a literatura produz felicidade. Quer dizer, o ofício da escrita pode levar, por meio da função exercida pelo narrador, a transformações importantes de elementos que, sem a organização textual, não poderiam ser metabolizados.

E isso nos leva a outras reflexões sobre os lugares da literatura e da psicanálise, bem como dos personagens que os habitam. No capítulo "Literatura à Margem", escreve o autor: "Nascida sempre à margem, produzida pelo isolamento do olhar, a literatura contemporânea, paradoxalmente, abomina o isolamento" (p. 26). Quer dizer, ao ato solitário da escrita contrapõe-se o desejo de que a obra alcance leitores, seja traduzida, em suma, de que ela circule. Nesse sentido, o autor afirma: "Um pé na margem, outro no mundo?- assim escrevemos" (p. 26).

Com efeito, tensões da ordem do estranhamento e da familiaridade, implicação e reserva, solidão e compartilhamento, enfim, atravessam as vicissitudes encampadas pela literatura, pela psicanálise e pela relação entre elas. Ora, se muito já se falou sobre o tema, ainda há diversas possibilidades a ser exploradas. Nesse sentido, as reflexões propostas no livro de Cristovão Tezza configuram-se como um campo fértil.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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