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Resumo
Este texto pretende refletir sobre a relação entre psicanálise e política no atendimento a migrantes com base na experiência do Projeto Ponte. A clínica com migrantes contorna uma particularidade na escuta dos efeitos do deslocamento de um sujeito “entre culturas”, desafiando-nos a pensar naquilo que se repete na história, sendo, portanto, da ordem do sintoma, mas que se atualiza frente aos conflitos contemporâneos com as ferramentas que a cultura oferece no tempo presente.


Palavras-chave
psicanálise e política, clínica com migrantes, lugar do analista.


Autor(es)
Caroline Yu Yu

é psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), aprimoranda do curso de terapia psicanalítica familiar e casal, do Instituto Sedes Sapientiae.



Cláudia Sagula Sagula
é psicanalista, graduada em psicologia e pedagogia e com pós-graduação em psicopedagogia.


Heloisa Silva Silva

é mestre em psicologia escolar e do desenvolvimento pela Universidade de São Paulo (USP); graduada em psicologia pela mesma instituição.



Liliana Emparan Emparan
é doutoranda em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Mestre em psicologia e educação pela Faculdade de Educação da USP (FEUSP). Psicopedagoga, psicanalista e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Formada no curso de teoria psicanalítica de casal e família do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenadora do Projeto Ponte.


Lisette Weissmann

é doutora em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), especialista em psicanálise de casais e famílias pela Asociación Uruguaya de Psicoanálisis de las Configuraciones Vinculares (AUPCV). Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora da BSP. Consultora intercultural com expatriados.




Notas

1.O Projeto Ponte foi criado em 2010 e funciona na clínica psicológica do Instituto Sedes Sapientiae. Somos uma equipe de psicanalistas e atendemos refugiados, imigrantes, migrantes internos, exilados, indocumentados, brasileiros retornados, apátridas e todos aqueles que apresentam uma demanda de análise relacionada à migração.

2.A. Sayad, A imigração, p. 45-46.

3.Cabe apontar que temos pesquisado uma diferença nas diversas traduções do texto Psicologia das massas e análise do eu, de Freud, de 1921. Na tradução direta do alemão para o português de Paulo César de Souza (2011) consta a palavra "estranhos", assim como na tradução de Luis Lopez-Ballesteros para o espanhol (1973): "personas extrañas". Já Caterina Koltai (2000), que toma como base a edição francesa (1971), utiliza o termo "estrangeiros". Essa diferença dá conta da complexidade do termo e de nosso próprio trabalho no sentido de pensar o lugar do estrangeiro, conceito contido no universo dessas "pessoas estranhas", mas que não abrange completamente seu sentido. Ainda assim, assinalamos que a leitura psicanalítica do termo "estrangeiro" não se limita a sua acepção como pessoa de outro país, mas ao alheio, incluindo o sujeito do inconsciente como estrangeiro.

4.S. Freud, Psicologia das massas e análise do eu, p. 56-58.

5.S. Hall, A identidade cultural na pós-modernidade, p. 61-62.

6.C. Koltai, Política e psicanálise: o estrangeiro, p. 21.

7.M. Viñar e M. Viñar, Exílio e tortura, p. 82.

8.C. Koltai, Identidades mortíferas em tempos de vitimização, p. 175.

9.M. Debieux, Metáforas do deslocamento: imigrantes, migrantes e refugiados e a condição errante do desejo, p. 381.

10.    A. Costa, Trauma e diferentes relações à falta, p. 101.

11.    Paul Fustier, Le travail d´équipé en instituition. Clinique de l´instituition médico-sociale et psychiatrique.

12.    O. Nicolle e R. Kaës, A instituição como herança.

13.    J. Bleger, Psicohigiene y psicología institucional, p. 91, nossa tradução. "Por responder a las mismas estructuras sociales, las instituciones tienden a adoptar la misma estructura de los problemas que tienen que enfrentar."

14.    J.-P. Pinel, Les fonctions du cadre dans la prise en charge institutionnelle.

1.O Projeto Ponte foi criado em 2010 e funciona na clínica psicológica do Instituto Sedes Sapientiae. Somos uma equipe de psicanalistas e atendemos refugiados, imigrantes, migrantes internos, exilados, indocumentados, brasileiros retornados, apátridas e todos aqueles que apresentam uma demanda de análise relacionada à migração.

2.A. Sayad, A imigração, p. 45-46.

3.Cabe apontar que temos pesquisado uma diferença nas diversas traduções do texto Psicologia das massas e análise do eu, de Freud, de 1921. Na tradução direta do alemão para o português de Paulo César de Souza (2011) consta a palavra "estranhos", assim como na tradução de Luis Lopez-Ballesteros para o espanhol (1973): "personas extrañas". Já Caterina Koltai (2000), que toma como base a edição francesa (1971), utiliza o termo "estrangeiros". Essa diferença dá conta da complexidade do termo e de nosso próprio trabalho no sentido de pensar o lugar do estrangeiro, conceito contido no universo dessas "pessoas estranhas", mas que não abrange completamente seu sentido. Ainda assim, assinalamos que a leitura psicanalítica do termo "estrangeiro" não se limita a sua acepção como pessoa de outro país, mas ao alheio, incluindo o sujeito do inconsciente como estrangeiro.

4.S. Freud, Psicologia das massas e análise do eu, p. 56-58.

5.S. Hall, A identidade cultural na pós-modernidade, p. 61-62.

6.C. Koltai, Política e psicanálise: o estrangeiro, p. 21.

7.M. Viñar e M. Viñar, Exílio e tortura, p. 82.

8.C. Koltai, Identidades mortíferas em tempos de vitimização, p. 175.

9.M. Debieux, Metáforas do deslocamento: imigrantes, migrantes e refugiados e a condição errante do desejo, p. 381.

10.    A. Costa, Trauma e diferentes relações à falta, p. 101.

11.    Paul Fustier, Le travail d´équipé en instituition. Clinique de l´instituition médico-sociale et psychiatrique.

12.    O. Nicolle e R. Kaës, A instituição como herança.

13.    J. Bleger, Psicohigiene y psicología institucional, p. 91, nossa tradução. "Por responder a las mismas estructuras sociales, las instituciones tienden a adoptar la misma estructura de los problemas que tienen que enfrentar."

14.    J.-P. Pinel, Les fonctions du cadre dans la prise en charge institutionnelle.



Referências bibliográficas

Bleger J. (1966/1999). Psicohigiene y psicología institucional. Buenos Aires: Paidós.

Costa A. (2013). Trauma e diferentes relações à falta. In M. Debieux; T. Carignato e S. Alencar. Desejo e política: desafios e perspectivas no campo da imigração e refúgio. São Paulo: Max Limonad.

Debieux M. (2007). Metáforas do deslocamento: imigrantes, migrantes e refugiados e a condição errante do desejo. In A. Costa e D. Rinaldi. Escrita e psicanálise. Rio de Janeiro: Cia de Freud.

Dicionário Online de Português. Disponível em: https://www.dicio.com.br/entretanto/. Consultado em: 15/2/2020.

Freud S. (1914/1974). Recordar, repetir e elaborar. In Obras psicológicas de Sigmund Freud (vol. XlV). Rio de Janeiro: Imago.

Freud S. (1917/1974). Luto e melancolia. In Obras psicológicas de Sigmund Freud (vol. XlV). Rio de Janeiro: Imago.

Freud S. (1921/1973a). Psychologie des foules et analyse du moi. In Essais de psychanalyse. Paris: Petite Bibliothèque Payot.

Freud S. (1921/1973b). Psicología de las masas y analisis del yo. In Obras completas. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva.

Freud S. (1921/2011). Psicologia das massas e análise do eu. In Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.

Fustier P. (2001). Le travail d'équipé en instituition. Clinique de l´instituition médico-sociale et psychiatrique. Paris: Dunod.

Hall S. (2006). A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora.

Koltai C. (2000). Política e psicanálise: o estrangeiro. São Paulo: Escuta

Koltai C. (2012). Identidades mortíferas em tempos de vitimização. In S. Pastori e R. Nicolau. Encontro transcultural: subjetividade e psicopatologia no mundo globalizado. São Paulo: Escuta.





Abstract
This text intends to reflect on the relation between psychoanalysis and politics in the migrants’ clinic, based on the experience of the Projeto Ponte. The clinic with migrants circumscribes a particularity in listening the effects of the displacement of a person “between cultures”, challenging us to think about what is repeated in history, being, therefore, of the order of the symptom, but which is updated in the face of contemporary conflicts with the tools that culture offers in the present time.


Keywords
psychoanalysis and politics, migrants’ clinic, position of the analyst.

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 TEXTO

Desafios e especificidades da clínica psicanalítica com (i)migrantes e refugiados. Somos todos migrantes?

Challenges and specificities of the psychoanalytic work with (im)migrants and refugees. Are we all migrants?
Caroline Yu Yu
Cláudia Sagula Sagula
Heloisa Silva Silva
Liliana Emparan Emparan
Lisette Weissmann

Este texto pretende refletir sobre a relação entre psicanálise e política no atendimento a migrantes com base na experiência do Projeto Ponte[1]. Nós nos sentimos convocados a partilhar nossas reflexões, discussões e vivências que circulam no "entre": entre muitos, entre pares, entre diferentes. Esse significado do "entre" nos remete, primeiramente, ao lugar do analista, bem como à sua posição e comprometimento ético, político e social. Mais além, nos faz refletir sobre o Projeto Ponte como termo que escolhemos para nos nomear e representar, fazendo alusão também a um entre: entre duas margens do rio, dois lados da fronteira, como um caminho a percorrer. Nesse sentido, tampouco podemos nos furtar de incluir em nossa reflexão as possibilidades e as falhas no atravessar desses percursos com as quais deparamos no trabalho com migrantes e refugiados.

É preciso refletir a respeito dos atravessamentos nesses percursos no trabalho com essa população, considerando suas possibilidades de ligação ou não.

Assim inauguramos os temas de nossa reflexão a seguir, apresentando mais adiante algumas vinhetas clínicas e referências teóricas.

 

O mundo globalizado, as migrações e a psicanálise

O aumento do fenômeno migratório e a produção de sujeitos migrantes, refugiados, exilados, retornados, "sem papéis"?- como efeito político e multifatorial da globalização?- têm provocado intensas discussões na sociedade em geral. Os diferentes discursos que procuram dar conta desse mal-estar contemporâneo revelam, para nós psicanalistas, fortes ambiguidades. Por um lado, observamos discursos que apontam para o desamparo, a perplexidade e as tentativas assistenciais de aplacamento da angústia que o estrangeiro provoca e, por outro lado, nos preocupamos com os movimentos de segregação, violência, xenofobia e exclusão da estranheza e da realidade disruptiva que o migrante e, especialmente, o refugiado delatam.

Percebe-se no fenômeno migratório a manifestação latente de um conflito entre a constatação das condições precárias de vida do migrante no país de origem e a possibilidade de acolhida no país de destino. A migração implica uma condição de estrangeiro, tanto no país de origem quanto no de acolhida. Essa ambiguidade é aprofundada pelo filósofo argelino Abelmalek Sayad ao se referir a uma contradição fundamental do processo migratório:

Da mesma forma que se impõe a todos?- aos imigrantes, é claro, mas também a sociedade que os recebe, bem como a sociedade da qual provém?-, essa contradição fundamental, que parece ser constitutiva da própria condição do imigrante, impõe a todos a manutenção da ilusão coletiva de um estado que não é nem provisório nem permanente, ou, o que dá na mesma, de um estado que só é admitido ora como provisório (de direito), com a condição que esse "provisório" possa durar indefinidamente, ora como definitivo (de fato), com a condição que esse "definitivo" jamais seja enunciado como tal.[2]

A angústia diante do estrangeiro pode encontrar na higienização uma possibilidade de restabelecimento do conforto, tendo como medida a aculturação na tentativa de anular a alteridade, obturando o horror que a singularidade provoca. A psicanálise, contudo, caminha na contramão, acolhe o conflito em vez de eliminá-lo, como Sigmund Freud anuncia: "eu trouxe a peste". O autor pensa o conflito como constituinte do sujeito e, ainda assim, não se propõe a excluí-lo, mas fazer deste uma oportunidade de romper com o status quo, na medida em que diversas ideias?- ainda que contrapostas?- possam emergir e dialogar.

Sobre o lugar do estrangeiro/estranho e o sobre o ódio e repulsa a ele, Freud reflete em seu livro "Psicologia das massas e análise do eu":

Nas antipatias e aversões não disfarçadas para com estranhos[3] que se acham próximos, podemos reconhecer a expressão de um amor a si próprio, um narcisismo que se empenha na afirmação de si, e se comporta como se a ocorrência de um desvio em relação a seus desenvolvimentos individuais acarretassem uma crítica deles e uma exortação a modificá-los. Não sabemos por que uma suscetibilidade tão grande envolveria justamente esses detalhes de diferenciação; mas é inegável que nesse comportamento dos indivíduos se manifesta uma prontidão para o ódio.[4]

Podemos, dessa forma, fazer um paralelo entre o lugar que a psicanálise ocupa e o migrante reivindica, enquanto estranhos/estrangeiros que trazem questionamento e ruptura da suposta homogeneidade subjetiva e social; ambos insistem em habitar antigas-novas terras e territórios recalcados-acessíveis. Sendo assim, tanto a psicanálise quanto a migração?- seja pela cultura, língua, pelo estranhamento frente a esse "diferente"?- promovem uma ruptura no encontro com o instituído, por vezes naturalizado, que ambos vêm questionar.

Tomamos como premissa que a psicanálise se propõe a escutar, acompanhar e sustentar o discurso do outro, estranho, diferente por excelência, independente se vem de terras estrangeiras ou se habita territórios locais. A escuta e o manejo do estranho-familiar permitem que se encene o conflito existente no jogo entre inscrição do desejo versus renúncia. Estranho que se contrapõe ao familiar irrompendo e causando o desconforto daquilo que fora banido da consciência e que retorna; estrangeiro que pressupõe uma cultura diferente, frente a uma suposta "identidade nacional e homogênea". Stuart Hall aponta para a ilusão de unificação de um suposto sujeito não dividido e de uma imaginária cultura nacional única. E nos alerta:

Em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las como constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade. Elas são atravessadas por profundas diferenças internas, sendo ‘unificadas' apenas através do exercício de diferentes formas de poder cultural. Entretanto?- como nas fantasias do eu ‘inteiro' de que fala a psicanálise lacaniana?- as identidades nacionais continuam a ser representadas como ‘unificadas'.[5

 

A clínica com migrantes: psicanálise e política

Decorrente dessa complexidade do estranho-estrangeiro, sustentamos a ideia que o migrante porta uma dupla diferença que precisa de uma escuta atenta pela estranheza e alteridade radical que encarna. Dessa maneira, consideramos que os deslocamentos atuais dos sujeitos migrantes nos convocam como psicanalistas de três formas principais:

- pela necessidade de estudar e pesquisar as migrações atuais como fenômenos sociopolíticos que provocam efeitos na subjetividade;

- pela criação de diferentes formas de escuta e intervenção clínica desses sujeitos deslocados articulando migração, política, psicanálise, pela especificidade do lugar do analista;

- na construção de teorias que sustentem nossa clínica com migrantes.

Esta clínica, portanto, contorna uma particularidade na escuta dos efeitos do deslocamento de um sujeito "entre culturas", desafiando-nos a pensar naquilo que se repete de tempos em tempos na história, sendo, portanto, da ordem do sintoma, mas que se atualiza frente aos conflitos contemporâneos com as ferramentas que a cultura oferece no tempo presente. Consideramos que migrar é um fenômeno humano atemporal e, ao mesmo tempo, um produto histórico, de forma tal que as causas do deslocamento devem ser pensadas e articuladas à história de cada povo e de cada sujeito, sem, contudo, abandonar o pressuposto psicanalítico da escuta ficcional. Como analistas devemos considerá-los sujeitos de sua história e suas escolhas, e não cair na armadilha de vitimá-los.

Assim, nós nos apoiamos na fala da psicanalista húngaro-brasileira Caterina Koltai e na sua interessante articulação entre psicanálise e produções sociais para pensar na dupla incidência do sintoma enquanto produção singular do social e como mal-estar na civilização.

Por isso, como sujeitos e profissionais inseridos no social, nós nos sentimos convocadas como analistas a dar uma resposta teórico-clínico-política às migrações atuais e a seus efeitos nas relações entre os sujeitos e o laço social. Com base nessa premissa e na reflexão sobre uma articulação entre o singular e o social na clínica com migrantes, Koltai sustenta a ideia do estrangeiro como conceito-limite entre psicanálise e ciências sociais[6].

O trabalho clínico com migrantes consiste, portanto, na narrativa, construção e elaboração dos motivos e efeitos da migração, visando à apropriação da experiência migratória e desse duplo lugar de estrangeiro na transferência. Isso coloca o analista como testemunha do que acontece na contemporaneidade e implica a sustentação de um lugar de escuta dessa diferença que o migrante encarna, um lugar (des)colonizado. O lugar do analista comporta, assim, uma sutileza, qual seja, a sustentação de um lugar enquanto representante sociopolítico que dá voz ao que a sociedade insiste em abafar, dirigindo os holofotes para às construções dos muros, a arbitrariedade das fronteiras, ao caos dos campos de refugiados e às fraturas sociais que essa tenta camuflar. Também enquanto escuta da subjetividade velada do migrante, da angústia que este provoca, pois o estrangeiro faz barulho, incomoda, insiste, mobiliza o que é de mais arcaico no humano.

Ilustrativa da dificuldade de lidar com o estrangeiro foi a situação vivida por E, migrante do Quênia?- o quanto ele incomodou na sua chegada ao Brasil, por estar doente, ser africano, negro e necessitar de atendimento de saúde; sua presença e exclusão denunciaram a precariedade dos serviços e a falta de escuta. No serviço público acharam que, por sua procedência, teria ebola, deixando-o isolado no hospital. Ele não tinha essa doença: o desamparo o fez emudecer. No entanto, o grupo terapêutico pôde ajudá-lo a elaborar esta acolhida traumática; assim E. diz: "As pessoas não me dão informações corretas por acharem que eu não entendo muito bem o português. Vejo diferenças de tratamento no hospital entre brasileiros e estrangeiros".

Maren Viñar e Marcelo Viñar abordam o lugar do analista na acolhida do traumático, do inominável, sempre presente na clínica com migrantes. Diz:

Cabe ao analista sustentar o reconhecimento das duas cenas, do fora e do dentro, sem os confundir, sem fazer conluio entre fantasma e realidade, posição que garante que haja análise. O silêncio indica, assinala este outro fora, faltante, mas ativo, o que não é ainda simbolizável.[7

 

A especificidade desta clínica

Reconhecer nos nossos pacientes uma dupla diferença radical é o ponto de partida. Diferença dupla pela superposição entre o estranho ficcional da psicanálise e o estranho real desse migrante vindo de outro país. Radical por representar uma alteridade desafiadora que nos impulsiona a tentar conhecer algo da sua cultura original e compartilhada e os motivos da sua migração: há uma diferença fundamental de culturas, de línguas, de formas de organização social e uma diferença drástica entre as migrações livres e as forçadas.

Para além dessa hostilidade-hospitalidade sentida pelos migrantes, no país de origem e destino, há um trabalho de luto a ser elaborado. No trabalho clínico, seja grupal ou individual, nossos pacientes estão situados entre o luto daquilo que fora perdido ao migrar e o que se apresenta como novo e possibilitador de mudanças no país de destino. Dessa forma, pensamos que a psicanálise é não só possível como também necessária ao sustentar o campo da linguagem em que trabalha a reconstrução da história do sujeito via seu discurso.

Vejamos o caso de dois pacientes que demonstram dificuldades e diferentes posições na elaboração do luto. C., chinesa, está há sete anos no Brasil, diz: "Eu me sinto refém no Brasil, pois sou obrigada a viver aqui. Não posso ir embora com os meus filhos". Com esta fala, C. se apresenta como se estivesse em uma situação de refúgio, embora sua migração tenha sido uma escolha familiar livre, evidenciando uma incidência do trabalho de elaboração tanto das migrações livres quanto das forçadas. Já o alemão, T., que está há quatro anos no Brasil, diz: "Meus amigos são muito brincalhões, fazem piadas com tudo. Essas coisas de brasileiro e, às vezes, minha namorada (brasileira) não entende e não gosta, fica muito brava". T., como estrangeiro, estaria negando o luto da sua própria migração, aparecendo como mais bem adaptado que sua namorada brasileira, não se permitindo nenhum tipo de estranhamento frente à complexidade de uma manifestação local como a piada e o humor, complexos em qualquer cultura. Os dois falam de uma perda e da dificuldade de atravessá-la, desde lugares e posições diferentes.

Nas palavras de Koltai:

Parte desses deslocados é muitas vezes incapaz de fazer o luto da pátria e língua de origem. Movimento necessário para poder se sentir à vontade na terra e língua do país de acolhimento. Razão pela qual acaba se instalando numa eterna nostalgia. Sonhando com um retorno às origens. Excedendo-se em reivindicações identitárias. Cada vez mais mortíferas.[8]

Como Freud nos relembra nos trabalhos "Recordar, repetir e elaborar" (1914) e "Luto e melancolia" (1917), o trabalho analítico supõe esse delicado trabalho de memória e narrativa, de alinhavo provisório de histórias. No nosso caso, relatos e narrativas ditas em línguas diferentes, em espaços geográficos diferentes e em tempos diferentes: antes e depois da migração.

O analista deve tornar possível o exílio necessário que cada paciente experimenta como condição do advento da sua palavra. Ser sujeito não é essência, mas movimento, errância, um caminhar incessante em seu pensamento, vida sem repouso, sem medir distâncias.[9]

Enquanto testemunha dessa narrativa, o analista precisa se encontrar com a própria castração, isto é, ficar de fora, ser excluído dessa costura que o migrante realizará entre as culturas de origem e a de destino, reconhecendo os limites do que não pode ser dito e compartilhado por conta dessa dupla estrangeiridade.

Ao submeter-se ao terceiro, o analista se discrimina, escuta a angústia, sustenta essa passagem e, principalmente, é capaz de realizar mediações para além do assistencialismo e vitimização, movimentos que, acreditamos, obturam a falta, impedem que se anuncie o sujeito desejante.

Um paciente de origem congolesa G. desafiou sua analista ao lhe perguntar sem rodeios: "Você vai me dar um real? Eu preciso de ajuda!!". Diante da posição da analista de não atender à falta para que ela possa circular, podendo deslocar para outros sentidos, G. suspira: "Bom, pelo menos você está sendo honesta... Todos me prometem coisas e não me dão!!". O que seria, afinal, o pedido de um real para um refugiado?

Uma armadilha possível é patologizar o migrante devido a sua condição. A migração em si não é patológica, mas traz como efeito mudanças radicais que precisam de tempo e trabalho de elaboração.

Como diz Ana Costa: "a contribuição que a psicanálise pode dar às políticas públicas diz respeito especificamente a isso: considerar e apostar no sujeito e no seu tempo de elaboração"[10].

J., colombiano, começa a elaborar os laços perdidos no seu processo de migração, após quinze anos no Brasil. Ele diz: "As pessoas estranham que eu ainda tenho um sotaque tão forte...". O que essa colocação sobre "sotaque" revelaria sobre J.? E também começava a se questionar: "O que é vínculo de fato? Eu conheço pessoas diversas, mas não sei se tenho amizades formadas aqui no Brasil, e não mantenho muito contato com as pessoas na Colômbia. Será que é algo meu...?". Perguntas que trazem pela primeira vez a possibilidade de desdobramentos e de se questionar por que e para que está no Brasil.

 

Palavras finais

Podemos pensar então no lugar do analista e suas interfaces. Somos analistas que exercemos a clínica com migrantes numa instituição que tem sua história atravessada por migração, exílio e luta pelos direitos humanos. O Instituto Sedes Sapientiae acolheu perseguidos políticos brasileiros, bem como exilados políticos das ditaduras militares de diversos países latino-americanos, sendo que muitos deles constituíram o Departamento de Psicanálise. Portanto, a partir dessa história que nos constitui, podemos pensar nas superposições entre migração e psicanálise, tanto na fundação do departamento como na história da instituição e do nosso trabalho com migrantes. Vemos assim como trazemos em nossa bagagem as marcas da migração, do silenciamento, dos conflitos políticos e da intolerância.

Paul Fustier[11] concede um lugar central na vida psíquica das instituições para as narrativas sobre as suas origens que nelas circulam. Desde então, trabalhos importantes têm sido escritos sobre a problemática das origens e da transmissão psíquica nas instituições que enfatizam a centralidade do tema nos estudos psicanalíticos[12]. Nesses trabalhos é notável constatar como elementos da história institucional podem retornar e fazer impasse no cotidiano das instituições.

De outro lado, lembremos o célebre aforismo de José Bleger de que "as instituições tendem a adotar a mesma estrutura dos problemas que têm que enfrentar"[13]. Retomado e aprofundado por Jean Pierre Pinel[14] em termos de homologia funcional, tal efeito pode ser pensado como um dos destinos possíveis dos elementos psíquicos que os atendidos depositam nas instituições que os acolhem.

Ambos os eixos, o das origens e transmissão psíquica e o da homologia funcional, são centrais para as abordagens psicanalíticas contemporâneas das instituições. E ambos se sobrepõem no caso do Projeto Ponte no Instituto Sedes Sapientiae. Constatamos, assim, a complexidade do sintoma institucional e singular e a intrincada relação entre ambos. Como membros desta desafiadora clínica, percebemos que estudamos e trabalhamos com base naquilo que fora vivido e nos constituiu. Afinal, somos um desdobramento do próprio sintoma o qual nos dispomos a escutar e que novamente nos marca de forma perdurável.

Portanto, é uma clínica que aproxima a psicanálise da política, seja pelas evidentes causas que provocam as migrações, seja pela posição que o analista encarna, seja pelo compromisso com o sofrimento desses sujeitos, sua luta pelo acesso à cidadania, moradia, emprego, documentação, saúde e educação, e ao reconhecimento de sua existência como sujeitos entre a origem e o destino.

Nesse sentido, como psicanalistas, precisamos estar em movimento, deslocando-nos pelos espaços de cultura e cidadania por onde os migrantes transitam. Ao mesmo tempo, o conhecimento e o trabalho em rede com outros profissionais e instituições que recebem esses migrantes se tornam fundamental.

Somos todos migrantes.


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