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Resumo
Resenha de Daniel Kupermann, Por que Ferenczi?, São Paulo, Zagodoni, 2019, 175 p.


Autor(es)
Alfredo Naffah Neto Naffah Neto

é psicanalista, mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professor titular da PUC-SP no Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Clínica?- núcleo "Método psicanalítico e formações da cultura". Publicou vários livros e artigos sobre psicanálise e música.




Notas

[1]  P. Roazen. Como Freud trabalhava: relatos inéditos de pacientes. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[2]  Fala-se muito da autoanálise de Freud, mas, ao que tudo indica, pelo relato de seus pacientes, não foi suficiente para possibilitar a ele um maior controle de seus afetos contratransferenciais ao longo das análises praticadas. Vale a pena, nesse sentido, ler o relato de seus pacientes?- todos tornados psicanalistas, após análise com Freud?- nas entrevistas realizadas por Roazen (op. cit.).

[3]  Essa ênfase nas fantasias inconscientes?- aliada a certa desconsideração pela problemática do trauma?- seria seguida e desenvolvida por toda a linhagem kleiniana, incluindo Wilfred Bion.

[4]  "Thalassa?- ensaio sobre a teoria da genitalidade" foi um artigo importante, escrito por Ferenczi em 1924, no qual retomou teses lamarckianas e afirmou a existência, no ser humano, de uma tendência à regressão ao ambiente aquoso da vida intrauterina, em função de uma suposta condição filogenética humana de ter advindo de um meio aquoso. Muito embora Kupermann associe a proposta ferencziana da regressão terapêutica a teses propostas no artigo citado, tenho uma leitura um pouco diferente. Tendo a ver "Thalassa" como um texto anterior à guinada de 1928 e vejo a proposta da regressão terapêutica muito mais associada à noção de orfa (orpha), cunhada por Ferenczi já no final de sua vida e que designa: "o conjunto de forças vitais, organizadoras e inconscientes que nutrem as pessoas e as protegem de sucumbir em momentos de graves crises emocionais, [...] uma espécie de inteligência inconsciente superior" (H. C. Khatuni & G. P Sanches. Dicionário do pensamento de Sándor Ferenczi: uma contribuição à clínica psicanalítica contemporânea. Rio de Janeiro: Elsevier/Campus, 2009, p. 272). Nessa direção, vejo as regressões terapêuticas ferenczianas como conduzidas pela função orfa (mais que associadas à tendência thalássica), com a finalidade de possibilitar?- graças a um meio terapêutico continente e capaz de referendar e testemunhar os traumas sofridos pelo sujeito?- uma reconstituição do ego cindido e um recomeço existencial. Mas, obviamente, uma leitura não desmerece a outra.


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 LEITURA

Ferenczi, o marginal imprescindível [Por que Ferenczi?]

Ferenczi, the indispensable outsider
Alfredo Naffah Neto Naffah Neto

É notável e, por vezes, quase incompreensível, que um psicanalista clínico do porte de Sándor Ferenczi tenha sido marginalizado do campo psicanalítico por tantos anos. Tendo sido considerado por Sigmund Freud um dos seus discípulos mais bem dotados e mais criativos, Ferenczi, entretanto, somente teve as suas obras traduzidas do húngaro para outra língua (o francês) a partir de 1968 e por esforço do seu discípulo Michael Balint. Isso, ao que consta, em função de maledicências lançadas por um dos seus analisandos, Ernest Jones (que o acusara de perturbações mentais nos seus últimos anos de vida), além, é claro, das dissidências com o mestre Freud. Mas Ferenczi talvez tenha sido o primeiro a se preocupar incansavelmente com as limitações e o desenvolvimento da recém-criada terapêutica psicanalítica.

Quanto ao criador da psicanálise, tornaram-se bastante evidentes?- com base no relato de alguns de seus pacientes[1]?- o quanto ele estava muito mais interessado em utilizar a clínica para fundamentar as suas teses teóricas e difundir a psicanálise pelo mundo do que para amenizar o sofrimento psíquico daqueles que analisava. Frequentemente tomado por grandes simpatias (ou por grandes antipatias!) por seus analisandos, o que aparece, por meio dos relatos, é o quanto Freud, de fato, não praticava a suposta neutralidade analítica por ele tão apregoada. Talvez isso se deva ao fato de ter sido um psicanalista não analisado?- pelo fato de ter sido o primeiro deles e o criador da técnica?- e, portanto, ter menor contato com as suas inclinações inconscientes, passíveis de acting out[2].

Ao contrário do mestre, a maior preocupação de Ferenczi era o sofrimento de seus pacientes e o quanto teria de desenvolver e transformar a técnica psicanalítica para trazer-lhes alguma saúde psíquica. E esse talvez seja o maior mérito de toda a sua obra.

É, pois, extremamente oportuno o livro de Daniel Kupermann, produto de sua tese de livre-docência na Universidade de São Paulo, que realiza uma descrição cuidadosa e minuciosa das principais realizações teóricas e clínicas de Ferenczi. Um livro, pois, indispensável para todos aqueles que pretendam mergulhar nas filigranas de tão importante?- e imprescindível?-, obra que propõe, pela primeira vez na história da psicanálise uma ética do cuidado.

No capítulo 1, Kupermann já inicia o seu percurso procurando evidenciar o quanto a proposta analítica de Ferenczi se distingue daquela de Freud. Tomando o caso do "Homem dos Lobos" como exemplo, tenta evidenciar as limitações da técnica freudiana, eminentemente interpretativa, quando o que está em análise é um paciente difícil. Isso porque ela frequentemente se perde em ruminações intelectuais?- como se tudo se resumisse à montagem de um quebra-cabeça?-, deixando em segundo plano a problemática dos afetos e o tempo necessário à perlaboração do paciente. Assim, Kupermann nos diz:

Uma análise que não respeita o tempo exigido pela perlaboração do paciente se tornará um mero exercício intelectual, cujo resultado será um analisando que sabe muito, mas para o qual o saber adquirido nada acrescentará de significativo para sua experiência existencial (p. 34).

Assim, não é à toa que Serguéi Pankejeff (o "Homem dos Lobos") tenha tido de passar por outras análises, posteriores à realizada por Freud.

O capítulo 2 do livro inicia, então, a descrição da caminhada ferencziana pela criação da técnica ativa, suas controvérsias e seus limites. Baseada na ideia de que o paciente em análise tem de ser mantido em abstinência de qualquer tipo de gozo e de descarga pulsional, exigindo uma postura ativa?- e, por vezes, diretiva?- do analista, a técnica ativa peca exatamente por aquilo que havia de insuficiente na técnica freudiana: um desrespeito pelo tempo necessário de perlaboração do paciente. E Ferenczi logo percebe isso, abandonando-a, porém, sem abandonar a importância do princípio de abstinência.

No capítulo 3, Kupermann entra, então, no cerne das descobertas ferenczianas, que trazem, novamente, para o foco a importância do trauma nas constituição das psicopatologias, em grande parte encoberta nas teorizações freudianas pela ênfase dada às fantasias inconscientes, após a postulação de que as histéricas não tinham, de fato, sido abusadas sexualmente, mas tinham desenvolvido fantasias sexuais[3]. Resgatar a importância do trauma e da noção de Verleugnung?- que Kaufmann opta por traduzir por desmentido?- constitui o cerne da teorização ferencziana, que adentra, então, a problemática da confusão de línguas (a do adulto, da sexualidade genital; a da criança, da ternura e do jogo), da identificação com o agressor/sedutor e da clivagem defensiva do ego. Em poucas palavras, Ferenczi deparava-se, na sua clínica, com pacientes abusados sexualmente por adultos e/ou submetidos a castigos cruéis ou, mesmo, obrigados a uma maturação forçada e prematura, para cuidar dos pais, em vez de serem cuidados por eles. Como mecanismos de defesa, tinham se identificado com o agressor/sedutor (a fim de internalizá-lo e poder melhor manipulá-lo por meio do processo primário) e realizado uma clivagem defensiva do ego. Além disso, ao buscarem outro adulto como testemunha do seu sofrimento, tinham sido frequentemente desmentidos em suas queixas e relegados à pura solidão. Constituíam, assim, um tipo de paciente que viria a ser classificado, mais adiante, como borderline (pela escola inglesa) ou como paciente-limite (pela escola francesa).

No capítulo 4, Kupermann trata justamente da guinada da obra de Ferenczi, a partir de 1928, em direção à construção de uma ética do cuidado, na qual os principais conceitos cunhados são os de tato e empatia. A partir de então, a psicanálise deixa de ser uma busca detetivesca por sentidos encobertos para se montar um quebra-cabeça de peças que ligam a história sexual do sujeito à formação dos seus sintomas, para se tornar, antes de tudo, uma ética do cuidado. Importa mais, a partir daí, que se ofereça ao paciente um bom ambiente terapêutico?- mediado pelo tato e pela empatia?- e que se respeite o seu tempo subjetivo de perlaboração do que todas as ruminações intelectuais interpretativas do analista.

O quinto e último capítulo do livro faz uma bela descrição do método terapêutico de Ferenczi?- o último a que ele chegou, depois de várias experimentações?-, denominado neocatarse. Trata-se, então, de criar condições terapêuticas propícias para que o paciente possa entrar num profundo relaxamento, capaz de propiciar?- em função do nível de confiança criado?- uma regressão terapêutica. Diz Kupermann:

No setting, a neocatarse se manifesta por meio da regressão thalássica[4] e do jogo compartilhado, duas balizas do estilo clínico ferencziano que fornecem a via de acesso aos núcleos clivados do analisando. Desse modo, o processo analítico favorece o exercício da ambivalência necessária para livrar-se da identificação tirânica com o objeto incorporado, condição para a emergência da autenticidade do analisando (p. 20-21).

O capítulo de conclusão retoma, enfim, o percurso realizado e as consequências principais das propostas ferenczianas, em termos psicanalíticos.

De forma geral, podemos afirmar que o livro de Kupermann é bastante bem escrito, tendo clareza e elegância, possibilitando ao leitor acompanhar as aventuras psicanalíticas de Ferenczi com bastante fluência, mas sem incorrer em superficialidade em qualquer momento do seu percurso. Nesse sentido, serve tanto ao leitor menos conhecedor de Ferenczi e que queira ter uma primeira entrada na sua obra como ao leitor mais experiente, que queira localizar, na obra do psicanalista húngaro, algum tema importante.

Por todas essas razões elencadas, damos as boas-vindas a mais esse volume da Coleção Grandes Psicanalistas, também coordenada por Kupermann e publicada pela Editora Zagodoni.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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