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Resumo
Resenha de Rodrigo Lage Leite, O búfalo no laranjal, São Paulo, Ed. Patuá, 2018, 99 p.


Autor(es)
Miriam Chnaiderman Chnaiderman

é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise, doutora em artes, documentarista.

 




Notas
    M. Chnaiderman. O hiato convexo: literatura e psicanálise. São Paulo: Brasiliense, 1989.

    M. Chnaiderman. Narrativa e imagem, movimentos do desejo. Percurso, n. 1, 1988; n. 35, 2005

    J. Derrida. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973.

    J. Derrida. La double séance. In La Dissémination. Paris: E?ditions du Seuil, 1972.

    M. Schneider. O tempo do conto e o não tempo do inconsciente. São Paulo: Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, 1991.


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 LEITURA

O noturno de todos nós: o conto-sessão [O búfalo no laranjal]

The nocturn of us all: the “short story session”
Miriam Chnaiderman Chnaiderman

Um psicanalista escreve um lindo livro de contos. Um psicanalista que é contista ou um contista que é psicanalista? Sempre pensei que a literatura de modo específico e a arte mais amplamente muito teriam a dizer sobre o ofício do psicanalista. Nós, psicanalistas, trabalhamos com a fala, mas buscando o afeto, a pulsão. Esse não dito, esse silêncio que permeia a palavra, essa busca do desenho da palavra, da origem da linguagem, é isso que borbulha em nossa escuta. Uma escuta do não dito. Uma escuta de dois canais de rádio simultâneos, esse ruído imperscrutável porque múltiplo, em que manifesto e latente estão sempre simultaneamente presentes no esfumaçamento de uma atenção flutuante que se esparrama como neblina.

Há aqui uma inversão de vetores: não é mais a psicanálise que tem a verdade sobre a obra artística; pelo contrário, aprendemos muito da psicanálise e nos transformamos a partir de nosso mergulho na arte e no mundo. No questionamento dos parâmetros cotidianos perdemos permanentemente o chão rígido onde muitas vezes nos movemos. É preciso suportar o lodaçal, é preciso suportar os ondulares borbulhantes e, por vezes, assustadores do mar. A água escorre e muitas vezes refresca.

Rodrigo Lage Leite sabe disso. E é como escritor que lança seu surpreendente livro de contos O búfalo no laranjal. É um livro de contos. Quem lê o livro desavisadamente está lendo um livro de contos. E é um lindo livro de contos. De fato, não precisamos saber que ele é psicanalista. Mas, como sei que Rodrigo é psicanalista, o livro me despertou inúmeras reflexões sobre a relação entre psicanálise e literatura. Pois, em sabendo da inserção do autor, surpreende a riqueza de sensações e as múltiplas possibilidades de linguagem que a escrita vai propiciando. A escuta psicanalítica não teria também a ver com a escrita? Em livro que publiquei baseado em meu mestrado, O hiato convexo: literatura e psicanálise[1], na minha busca que perdura até hoje de compreender o que constitui a escuta em psicanálise, eu propus que o psicanalista deveria ler como um poema a fala de seu paciente. Eu afirmei, em artigo que é uma síntese do livro:

É sobre estas questões que gostaria de pensar, sobre a convergência entre literatura e psicanálise, pois penso que, ao nível do que é específico da escuta psicanalítica, há algo que tem a ver com a produção literária em geral. Se assim for, a literatura poderia esclarecer-nos sobre o que constitui a escuta psicanalítica.[2]

O livro O búfalo no laranjal, enquanto literatura, e na radicalidade de uma escrita, faz pensar sobre a escuta psicanalítica. Muitas vezes, em diferentes contextos, indaguei-me sobre a especificidade dessa escuta. No que ela diferiria de um papo entre amigos ou em mesa de bar... Sempre pensei que transformamos o discurso em imagem; é preciso ter uma escuta que olha. O psicanalista transformaria a fala em uma sessão de análise, em uma escritura. Escritura no sentido que Jacques Derrida desenvolve[3], escritura enquanto possibilidade de instituição de qualquer linguagem. Na sua escrita que produz deslocamentos na ordem do mundo, Rodrigo quebra um ordenamento que banaliza nosso cotidiano. Tratando muitas vezes de paisagens cotidianas, introduz a estranheza. No dia a dia, o olhar que busca o que não é visto. E que, se é visto, é apagado. O conto que abre a coletânea é lindo exemplo. Madruga, figura de uma rua que só tinha como eira e beira as flores na calçada. Observada maldosamente, monstruosamente pela vizinhança medíocre. Cito esse trecho:

 

Foi quando não mais se aguentavam nos seus suores as velhas onanistas carlota e ermelinda e o velho narciso afogado Malaquias e então veio o carro do cabo Valmir que tentou primeiro uma abordagem discreta a fazer dispersar a velha Madruga da calçada limpando de dúvida limpando de horror de medo e desespero a calçada calma secularmente calma da arruda alvim e ao perceber que a velha Madruga não entendia e que a mendiga perplexa apática afásica muda e triste não compreendia a ordem... (p. 16).

 

No fluxo, na ausência de pontuação, o discursivo é explodido em uma falta de ar insuportável que vai nos invadindo. A linguagem é ultrapassada em direção a sensações de dor e perplexidade.

Assim é no decorrer do livro, em cada um dos contos. Nesse primeiro conto, o comum de uma cidade onde quem se recorta é sufocado. Mas somos nós os sufocados. Lembro-me de um texto de Rodrigo que li no Facebook, em que conta de sua caminhada pelo centro depois do incêndio e desabamento daquele prédio/ocupação no Largo Paiçandu, centro de São Paulo (SP). É muito tocante. Rodrigo transforma-se na dor daqueles que acamparam em torno de seu antigo lar. Assim faz com todos os personagens de seus contos. Conseguimos viver, nós, cada um dos personagens. Há uma comunhão leitor/escritor/personagem.

Derrida muito nos ensina, ao realizar uma importante crítica à linguística e a um foneticismo vigente a partir de Saussure, propondo a gramatologia como o trabalho com a escritura, condição da possibilidade de instauração de qualquer signo. A escritura sempre ameaçaria ao trazer a questão do corpo como constituição de seja lá o que for. Rodrigo expõe seu corpo em sua escritura e traz para primeiro plano o corpo de todos nós. Derrida realizou importante ensaio sobre Stéphane Mallarmé, "La double séance"[4], em que afirma uma escritura dos gestos que seria inaugural: o mímico inicia uma página branca. Para Mallarmé, analisado por Derrida nesse ensaio, a mímica está mais perto dos princípios do que qualquer outra arte. O mímico não imita nada nem tem um referente anterior, ele é o próprio movimento da verdade. A verdade deixa de ser a adequação entre a representação e a própria coisa, entre aquele que imita e aquilo que é imitado: o mímico é um duplo de nada, é um espelho sem realidade, o que leva à desconstrução da própria noção de verdade, pois a verdade é que deve ser compreendida, contida nesse processo de um remeter infinito de duplos que duplicam duplos. Quando não há significante que implique um significado, quando o signo deixa de ter um referente, operar com signos deixa de ter como parâmetro a noção de verdade como adequação do signo ao referente.

Se o branco é constituinte daquilo que nos estrutura, poderíamos entender esse branco como a possibilidade de articulação de qualquer linguagem. É onde a literatura e as artes nos guiam como psicanalistas, explicitando o que fazemos em nossa escuta.

Rodrigo opera com esse branco em todos os seus contos. Sempre uma surpresa, algo que irrompe e tira o chão. Temas tabus se transformam em histórias de todos nós. O aborto, o sexo, a solidão, o câncer. O estranho se cotidianiza e o monstro se torna inseto a ser espatifado em noites de insônia. A escolha de trabalhar com contos deixa tudo isso mais em evidência. Monique Schneider tem um lindo ensaio sobre o conto, intitulado "O tempo do conto e o não tempo do inconsciente"[5], ao qual tive acesso em versão divulgada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, quando de sua vinda ao Brasil, em 1991. Afirma que no conto ocorreria "um estilhaçamento dos modos do discurso", na medida em que se constitui entre o texto e a fala viva. O conto sempre desafiaria a tradição racionalista, segundo Schneider. Para ela, buscar o tempo do conto é ir contra "os movimentos de inspiração estruturalista", "um combate de ‘Logos' contra ‘Cronos'". Acompanhada de Roland Barthes, Schneider fala que "isso que chamamos de tempo não existe, ou no mínimo, só existe funcionalmente, como elemento de um sistema semiótico: o tempo não pertence ao discurso propriamente dito". Há um tempo submetido à lógica do pesquisador. Afirma: "assistimos ao combate do herói Logos contra qualquer monstro temporal que traz em seu seio um risco irredutível de indiferenciação. O conto está ligado à infância e ao adormecer, a uma temporalidade que corre o risco de submergir ao noturno".

"A noite escapava da sala e inundava a fazenda inteira. A noite começava dentro dela e se espalhava." (p. 27). Assim começa o conto "O rondó da prisioneira". Nesse início está condensada a escolha de Rodrigo pelo trabalho com contos. A escolha de submergir ao noturno. Assistimos a assassinatos de sapos, coelhos, figuras de nossa mitologia infantil. Nossa argamassa cotidiana em escutas de falas que se tornam contos em nossos consultórios.

O terror, o terror noturno tornado realidade em conto atroz. No conto "Livros", uma mulher com câncer vai ao encontro do marido e do médico e, na noite, vê sua casa assaltada. Um câncer não é um terrível assalto à vida? O simbólico tornado real. Afinal, toda arte seria um rasgo no simbólico em direção ao real.

O último conto, que dá nome ao livro, nos fala de um "laranjal indomável". Em quadro de Goya, "o búfalo estático sob o olhar assombrado de uma espanhola obesa" (p. 98). Afirma Rodrigo: "O laranjal eu". Uma laranja descivilizada: "e eu risonho e leve numa gargalhada alegre e alta que estuprava o mundo e mijava acre risonho sonoro sobre fileiras fileiras fileiras de laranjas esmagadas a produzir insuportável ansiedade em inigualável suco" (p. 99).

Rodrigo não teme suas fantasias. E isso é condição primeira para ser psicanalista. É como se, no trabalho com a ficção e a literatura, preparasse o laranjal de seu ofício de psicanalista. Assim explicita o que é ser psicanalista. Mergulhado nas trevas de seus fantasmas, prepara-se para os contos-sessões de seu cotidiano. Rodrigo brilha como laranja descivilizada, na sua clínica e na sua escrita.


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