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Resumo
Na busca de desassociar a clínica em-linha das circunstâncias particulares que a cercam atualmente (pandemia e confinamento social), este artigo retoma o desenvolvimento do atendimento psicanalítico em-linha praticado pela autora antes da migração maciça e compulsória do trabalho clínico. Em diálogo com Winnicott, Birman, Stern e Rodulfo, discutem-se possíveis bases para a sustentação de modalidades em-linha na psicanálise.


Palavras-chave
psicanálise online, psicanálise em-linha, enquadre, setting, método psicanalítico, psicanálise mediada por tecnologias de comunicação.


Autor(es)
Lia Pitliuk


Notas

Trabalho apresentado em encontro em-linha promovido pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae em junho de 2020, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=jhl-aNNIuZM&t=13s.



Referências bibliográficas

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Abstract
In an attempt to disassociate online clinical treatment from the particular circumstances that currently surround it (the covid-19 pandemic and resulting social confinement), this article continues the development of online psychoanalytic care as practiced by the author before the mass compulsory migration from in-person clinical work. It establishes a dialogue with Winnicott, Birman, Stern and Rodulfo, discussing possible bases for sustaining online modalities in psychoanalysis.


Keywords
online psychoanalysis, remote psychoanalysis, communication technology in psychoanalysis, setting, psychoanalytic method.

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 TEXTO

Sustentar uma clínica psicanalítica em-linha (online)?

Sustaining an online psychoanalytic work?
Lia Pitliuk

Por menos que queiramos atribuir efeitos positivos à pandemia de covid-19, no que tange à clínica psicanalítica temos de dar a mão à palmatória: o isolamento social acabou nos convocando para, enfim, tratarmos coletivamente da clínica mediada por tecnologias de comunicação?- tema com que viemos nos confrontando nas últimas décadas, avançando nele sempre com muitas dúvidas e cuidados. Não que o assunto estivesse totalmente no silêncio: embora sempre cercado por pretextos e reticências, lentamente vinha surgindo em publicações que respeitamos e em alguns espaços de debate de muitas associações psicanalíticas no mundo. Impossível que não fosse assim, dadas as velozes transformações existenciais e subjetivas que atravessamos. Não se trata apenas (como se fosse pouco!) de que as pessoas viajem muito, mudem de país ou não tenham tempo para os engarrafamentos nas cidades; com o desenvolvimento e os novos usos de dispositivos tecnológicos, vão mudando nossos próprios modos de pensar, sentir e viver, e a clínica analítica, obviamente, não se manteve à parte desse movimento.

O que é totalmente novo, agora, é a pronta resposta dos analistas ao confinamento, migrando em conjunto para as práticas de atendimento em-linha[1], o que nos oferece uma oportunidade única de pesquisa, compartilhamento e debate. Impossível negar o frescor trazido pela necessidade de reinvenção importante de settings, implicando uma retomada e uma revisão?- sempre saudável?- dos fundamentos da nossa clínica.

Por outro lado, temos o fato de que essa experiência coletiva de agora foi implantada de forma repentina, massiva e compulsória, em situação de ameaças violentas (sanitárias e políticas) e de isolamento social. Pandemia, calamidade sociopolítica, confinamento e atendimento em-linha se implicaram e se complicaram inteiramente neste nosso momento, sendo impossível separá-los neste verdadeiro ‘experimento universal'.

Penso que nosso esforço coletivo para metabolizar e teorizar o que encontramos/produzimos nessa nova clínica pode obter um importante apoio na pesquisa sobre a clínica psicanalítica em-linha que vinha sendo praticada antes desta crise monumental, nas indagações sobre quanto e como, nela, se sustentam, se transformam ou se deterioram o campo transferencial e os trabalhos simbolizantes da dupla analítica. É a esse horizonte que este artigo visa, compartilhando as linhas de reflexão que embasaram meu percurso nesse campo.

 

Os primeiros fios de uma clínica em-linha

Para tratarmos da sustentação de uma clínica em-linha, retorno a 1995 quando uma moça?- que chamei de Silvia nos artigos que publiquei sobre ela[2]?- iniciou comigo um processo analítico, inteiramente na modalidade tradicional. Mas, durante sua análise?- e ao longo de muitos anos?- ela se relacionou com um companheiro, convivendo com ele só pela internet: uma relação muito rica e muito intensa, com algumas características muito parecidas com as que acontecem numa análise.

Acompanhando aquela verdadeira aventura internética, fui apreendendo usos possíveis das tecnologias digitais como uma espécie de "pontes elásticas" que permitiam experiências, construções e reconstruções sutis e essenciais. Experiências com seu próprio corpo, por exemplo, e com suas imagens corporais, num clima fortemente brincante com seu parceiro internético?- uma verdadeira "análise de criança com um adulto", como diria Ferenczi. Aliás, foi a partir dali que me aproximei de Ferenczi, Winnicott, Balint, Bollas, Rodulfo?- algumas das minhas referências mais caras.

E, também, fui me surpreendendo muito com as experimentações de Silvia?- na relação com ele e na relação comigo?- ligadas a muitas questões fundamentais de o que seria o processo maturacional de uma criança: os imbróglios de presença/ausência, proximidade/distância, posse/perda, realidade/ficção... a lista seria imensa. Na análise trabalhávamos intensamente, nomeando aqueles afetos, aqueles movimentos, sofrimentos e descobertas; e na relação internética a dupla ia construindo e reconstruindo settings em que cuidava delicadamente desses problemas.

Em paralelo, descobri Ricardo Rodulfo, um autor argentino que, na esteira de Winnicott, desenvolve em profundidade a questão dos espaços onde se vive. Um parágrafo, em especial, me serviu de chave:

Quando o paciente é capaz de se alojar no divã, ou na folha de papel, ou na mesa onde brinca, ocorre uma espécie de efeito de substituição: o analista como corpo tende a se eclipsar; o paciente não precisa estar no colo dele ou do seu olhar. Divã, folha etc. funcionam como equivalentes que substituem o colo?- como sua metáfora, se quisermos[3].

Era o que tinha acontecido: Silvia tinha se alojado na conexão digital?- e depois telefônica?- com seu parceiro, e a potência daquela composição acabou me inspirando para uma primeira experimentação, com outra analisante, já na modalidade em-linha: parecia então ser possível que uma relação transferencial intensa, mediada pelo fio dos dispositivos tecnológicos de comunicação, pudesse se conjugar com um trabalho elaborativo fecundo numa relação analítica em-linha.

A literatura apoiava essa iniciativa. Já em 1951 encontramos um artigo sobre a utilização do telefone como um modo de contornar a impossibilidade da análise na modalidade presencial, pelas reações transferenciais intensas que a proximidade física do analista produzia na analisante[4]. A partir dos anos 1980 as publicações sobre o assunto começaram a aparecer com alguma frequência, proliferando de fato a partir da entrada no novo século.

Foi neste contexto então que, em 2003, aceitei Rosa em análise: a moça vivia numa cidadezinha brasileira longínqua, pertencia a uma família tradicional da cidade e mantinha relações pessoais e sociais com os poucos terapeutas de lá. Suas tentativas de trabalhar com dois deles tinham sido desastrosas. Assim, depois de algumas consultas presenciais, começamos um trabalho por telefone que se estendeu por onze anos, com frequência de três vezes por semana na maior parte do tempo, quatro vezes em alguns períodos, duas em outros. Inicialmente intercalávamos séries de sessões presenciais a cada dois ou três meses, mas estas, com o tempo, foram sendo espaçadas, pela nossa sensação de que iam ficando menos necessárias.

Foi uma análise intensa e rica, bem difícil em vários momentos. E não que Rosa se apoiasse primordialmente em seu próprio jogo associativo, e no meu: numa transferência muito intensa, idealizada, agressiva e regressiva, ela precisava até dramaticamente da minha atenção e do contato comigo. Só que a ligação telefônica parecia equivaler ao encontro presencial; inclusive, quando vinha ao consultório, tinha sempre um cumprimento com um abraço, um rápido período de reconhecimento visual um tanto desconcertado e, logo, ela se deitava e trabalhávamos em continuidade com as sessões por telefone. Parecia que a análise acontecia numa espécie de canal entre nós duas, um fio que não se abalava muito na alternância consultório-telefone.

Sublinho aqui a questão do fio porque nesse contexto não há nada mais sugestivo, e com tantas ressonâncias, do que a ideia de ligação por fio ou cabo (de telefone, de internet, de fones de ouvido): o cordão umbilical... o cabo que liga um astronauta à nave-mãe... o barbante do carretel do neto de Freud[5]... o cordão do famoso menino do cordão, atendido por Winnicott[6]... os brincares das crianças com os telefones com fio, como o das latinhas unidas por um barbante... Brincares que vão se desdobrando e vão se simbolizando, ao longo da vida, em telefones sem fio das mais variadas formas e distâncias, na construção da capacidade de se separar e de ficar só. Telefones sem fio, sim, mas lembremos: sempre ligados por ondas?- sonoras, elétricas, eletromagnéticas; ou seja, ligados, sempre, por pontes de alguma natureza, mesmo que não visíveis.

E é a força dessa referência ao fio que me faz propor que adotemos a expressão traduzida atendimento em-linha, como fizeram os analistas de língua espanhola. Com isso evitamos mais um termo de outra língua?- como self, setting, acting-out, après-coup etc.?- mas, mais que tudo, temos o ganho da evocação imediata da linha, do fio, do cordão que simboliza e sustenta, ao mesmo tempo, a união e a separação. Este é o paradoxo da transicionalidade, que permite o afastamento da contiguidade corporal por formas de ligação cada vez mais simbolizadas. Então fica a sugestão: clínica psicanalítica em-linha.

 

Afetações em-linha

Como aconteceu com muitos analistas, aos poucos fui achando possível continuar trabalhando, pelo fio do telefone, com analisantes que se mudavam de cidade ou de país, analisantes em pós-parto, um analisante que se acidentou e passou meses em hospital e depois dentro de casa, uma artista com viagens e horários incomuns.

Fui experimentando, sempre com muitas dúvidas?- ainda mais que esse universo era visto com muita desconfiança pela comunidade analítica. Joel Birman, naquela época, escreveu um artigo contundente defendendo a ideia de que, nas relações por telefone e computador, acontecia uma exclusão dos afetos, do corpo e da alteridade. Em suas palavras: "Nos novos contatos mediatos de terceiro grau entre as individualidades, estas perdem parcelas significativas da sensorialidade direta e das paixões provocadas pelo impacto dos outros[7]". E ainda: "... a carne, enquanto superfície e profundidade vibrátil, deixa de existir" [8].

Estava colocada a questão que hoje, passados mais de vinte anos, tanto nos toca na questão dos atendimentos psicanalíticos em-linha. Mas não era o que eu vivia naquelas experiências, que não se reduziam ao sentido de comunicações verbais, não eram unidimensionais e empobrecidas. E o que mais me surpreendeu, na época?- e continua me surpreendendo, sempre que leio ou escuto algo assim?- é o contraste dessa ideia com a convicção, sempre presente em todo o campo psicanalítico, sobre os efeitos da arte sobre nossos afetos e nosso corpo, mesmo quando a arte está alojada em suportes inanimados.

Mais surpreendente ainda foi encontrar exatamente isso nesse mesmo texto de Birman, quando o autor trata do que se passa com o espectador frente a um filme, objeto do artigo:

O corpo é colocado em movimento pelo ritmo alucinante da montagem. [...] o posicionamento do espectador na cena do olhar é provocado eminentemente pela via da afetação. [...] É na imanência absoluta da afetação e da sensorialidade, circulando pelo corpo e pelos humores a partir dos canais visuais e auditivos de entrada, que a narrativa nos toca e nos pega em cheio. É apenas posteriormente que um trabalho do pensamento se impõe ao espectador, que busca dar conta da narrativa que transformou seus humores e sua sensibilidade corpórea [9].

De fato, sensorialidade, paixão e o outro não deixam de existir frente a uma tela de cinema, ou mesmo a uma transmissão sonora. Conhecemos, por exemplo, a emoção, ou mesmo a grande comoção promovida pelas novelas de rádio antes da TV; ou os efeitos da transmissão, via rádio, de Guerra dos mundos, criada por Orson Welles, em 1938. Impactos imensos, produzidos pela via dos canais auditivos.

A questão fundamental, então: se todo o nosso conjunto somatopsíquico é fortemente afetado frente a uma obra de arte, ou a personagens de ficção numa tela de cinema ou numa novela de rádio, como supor que isso não aconteceria numa relação com outro ser humano, por computador ou telefone?

Acontece. Vejamos uma situação clínica: Fernando, "garotão alternativo" que mora numa cidadezinha de praia e se analisa comigo só por áudio há quase dois anos, numa sessão me dizia que estava contente por ter mudado, na pandemia, de sua minúscula casinha alugada no centro da cidade para a casa de praia de sua família, num condomínio fechado luxuoso e afastado. Comentava que lá era mais seguro, não tinha casos de covid, a casa era só para ele. Lembra de muitas cenas de férias vividas ali na adolescência, cenas infantis no mar com o pai quando velejavam só os dois etc.

Eu ouvia, imaginando paisagens praianas bucólicas, sensação de tranquilidade e de liberdade... e comecei a sentir muito calor, falta de ar, opressão. Olhei para minhas roupas, buscando ver se eram sufocantes... toquei minha cabeça para ver se eu tinha colocado algum prendedor de cabelos que me apertasse... nada. Ele seguia falando daquele paraíso, que estava surfando, andando de bicicleta, o condomínio praticamente vazio. Contava detalhes da casa, do cotidiano, dos dias lindos com cenas deslumbrantes de por-de-sol e lareira à noite... E me peguei pensando que, ao contrário dele, eu estava presa onde moro e não sabia quando poderia sair novamente. O sentimento de aperto aumentava. Lembrei do gesto masculino de afrouxar a gravata em situação de opressão. Lembrei de uma cena central de um filme que eu tinha visto naquela semana, em que um personagem seria enforcado. Tudo estava bem aflitivo. Só quando senti um cheiro estranho de mofo é que me ocorreu, enfim, que isso devia estar vindo da sessão, mas era totalmente enigmático.

Fernando disse então que seus pais estavam mantendo todas as despesas, que o portão automático tinha quebrado, mas os pais já tinham contratado o faz-tudo da casa que iria consertá-lo no dia seguinte. E que só faltava encontrar uma "gatinha" pelo aplicativo de encontros, e tudo ficaria perfeito. Eu então pensei: "ele nunca mais vai sair dessa casa"?- e percebi que isso fazia eco às minhas sensações corporais e às minhas associações.

Perguntei-lhe, então, se ele estava preso lá. Fernando fez um silêncio de vários minutos, que me fez imaginar que estávamos num bom caminho; depois, abalado, começou a falar do seu medo de ficar capturado, mais uma vez, pelos laços da família, e mais uma vez perder a autonomia que tinha conseguido construir... voltar a engordar de novo... voltar a ser o nerd da adolescência... reencontrar sua impotência sexual... Acabou dizendo, bem angustiado, que não sabia qual perigo era maior: o covid-19 ou o risco da prisão familiar.

Coisas assim aconteciam todo o tempo, nesses anos: os corpos sempre participaram muito das análises?- às vezes o meu, às vezes o do analisante. Aliás, ainda neste mesmo texto de Birman, encontramos uma passagem que parece mesmo antecipar o que hoje transpira nos atendimentos em-linha que todos estamos experimentando: "Contudo, às vezes, a tecnologia pode também possibilitar o imprevisível. [...] Somente quando alguém ainda pulsa e deseja ser afetado, a tecnologia pode se inscrever num outro registro"[10] .

Tratava-se, então, de compreender como isso podia acontecer.

 

A sensorialidade e suas transmutações

Foram os estudos de Daniel Stern sobre o que ele chamou de percepção amodal que mais me alicerçaram no desenvolvimento da prática em-linha. Stern, estudioso dos processos precoces de subjetivação, atribui a bebês uma capacidade de transferências modais de informação das mais variadas espécies:

 

[...] os bebês parecem ter uma capacidade geral inata, que pode ser chamada percepção amodal, de tomar a informação recebida em uma modalidade sensorial e de alguma maneira traduzi-la para uma outra modalidade sensorial[11].

 

Isto nos remete ao campo das deficiências de funções de órgãos de sentido, como Winnicott bem ilustrou, referindo-se à função de espelho da mãe: "[...] crianças cegas precisam refletir-se por meio de outros sentidos que não a visão[12]". Parece, também, lançar luz sobre a fluidez que eu percebia nas alternâncias entre as modalidades clínicas presencial e em-linha, quando aconteciam num mesmo processo analítico.

Fui pensando que isso não se restringe aos bebês e à constituição subjetiva, mas que essa espécie de transmutação de qualidades entre diferentes modos sensoriais permite conceber meios de engajamento e de sintonia relacional que dependem pouco de modos particulares de apreensão e de contato. Mas Stern vai mais longe, num caminho mais interessante ainda:

A informação provavelmente não é experienciada como pertencendo a qualquer modo sensorial particular. Mais provavelmente, ela transcende o modo ou canal e existe em alguma forma desconhecida supramodal. Não é, então, uma simples questão de uma tradução direta entre as modalidades. Ao contrário, envolve uma codificação em uma representação amodal ainda misteriosa, que então pode ser reconhecida em qualquer um dos modos sensoriais[13].

É nesta mesma linha de pensamento que se inscreve uma fina observação de Ricardo Rodulfo, apontando para a "indiferença do inconsciente com respeito a preferências por um ou outro tipo de materialidade"[14]. De fato, com o tempo?- e nisso é fundamental a dimensão da experiência ao longo do tempo?-, fui tendo a impressão de "enxergar" cada vez mais cada analisante, por uma espécie de transporte privilegiado das trocas para o universo da sonoridade e de suas tonalidades afetivas, compondo toda a atmosfera clínica. Não seria, portanto, de espantar que recentemente eu tenha dito a um analisante com quem trabalho só por áudio: "quando você fala disso, seus olhos brilham!".

Claro, podemos nos perguntar como seria se, sentado à minha frente, seus olhos me parecessem mortiços e pesarosos. De fato, estamos bem habituados às dissociações entre as vias expressivas, o que não significa que sempre saibamos o que fazer com nossas sensações e percepções discordantes: nosso trabalho não implica em sustentar algum tipo de foco no que é visto, no que é cheirado, no que é dito ou mesmo no modo de dizer.

Retomemos nossos fundamentos: somos todos divididos, num jogo permanente de mostrar-encobrir-disfarçar-desviar, e os jogos de ilusão são absolutamente vitais para o psiquismo e as relações. Qualquer modalidade de contato é, necessariamente, uma mistura complexa de comunicação e compreensão com adiamentos e impedimentos da comunicação e da compreensão: como tão bem aprendemos com a histeria, a visão, a audição e todos os nossos meios de expressão tanto mostram quanto encobrem. Nenhum movimento humano, em si mesmo, manifesta alguma verdade mais "primária" do sujeito, que poderia ser apreendida de forma direta e precisa.

A esse propósito, lembremos que nosso método toma a atenção flutuante justamente como estratégia para escapar da captura das imagens?- visuais, auditivas ou narrativas. A um analisando deitado no divã, em função do conteúdo que ouvia dele, Winnicott diz: "Estou ouvindo uma menina. Sei perfeitamente bem que você é um homem, mas estou ouvindo uma menina e estou conversando com uma menina"[15]. Isso teve um efeito transformador de grande alcance, e ilustra muito bem o que pode se dar quando um analista consegue se desviar da sedução de uma imagem para ouvir, ver ou sentir o que mais está presente ali.

Um exemplo recente, de minha clínica: quando o confinamento começou, Marcio tinha vindo a uma primeira consulta?- um rapaz jovem, bonito, inteligente e delicado. Em sua opinião, seu problema central era ser hiperadaptado às exigências do mundo, com um grau insuportável de tensão interna, principalmente frente a autoritarismos e agressividade dos outros: descrevia-se como submisso, e mesmo covarde.

Com o início do confinamento, fizemos mais três consultas, todas com imagem?- como sempre faço em consultas avulsas?- e decidimos começar uma análise. Sugeri que passássemos a usar só áudio, mas, como ele não quisesse, seguimos usando imagem. Foram dois meses de muitas histórias de submissão e medo em casa e com os meninos na escola, relatos sobre a descoberta da homossexualidade e sobre o pavor de que os outros descobrissem, histórias de chefes um tanto sádicos... Trabalhávamos.

Até que, em certo momento, Marcio sugeriu passarmos a trabalhar só por áudio, e já na primeira sessão nessa modalidade, eu me surpreendi captando um tom e estilo enérgicos, provocativos, até um tanto belicosos comigo, muito diferentes da imagem que eu tinha dele até ali. Os temas também mudaram muito: surgiu sua desconfiança em relação a mim e à minha competência... uma boa dose de competição... e o tema do medo, que até então aparecia como medo dos outros, enveredou por fantasias de agredir e machucar.

Começamos a tratar dessas diferenças. Intrigado, Marcio se pôs a explorar como se porta e se sente quando se comunica por e-mail, nos encontros em-linha e na convivência presencial. A certa altura pediu que recolocássemos o vídeo para testarmos isso, e me surpreendi muito com o que me pareceu uma grande transformação em sua imagem: eu já não via seu modo infantil, doce e tímido de ser.

Eu não pensaria que algum deles é o "Marcio verdadeiro": trata-se de uma dissociação bem importante, como modos de ser depositados em formas diferentes de expressão. Em outra pessoa esses modos, dissociados, poderiam aparecer em sonhos versus expressões da vida desperta, por exemplo. Vivemos sempre no jogo de mostrar-encobrir-disfarçar-desviar.

Este me parece ser o ponto central: nossa maior luta é manter o valor do desfocado, do impreciso, justamente para haver jogo, ou seja, trabalho psíquico que faz abertura[16]. Penso que os momentos de abertura e de fechamento acontecem no divã, na poltrona, no telefone, no aplicativo. Não das mesmas maneiras e intensidades, não nos mesmos tempos, mas entendo que isto não varia tão diretamente em conexão com as modalidades, mas num entrecruzamento complexo entre modalidade, setting e funcionamento singular de cada par analítico. Trata-se, sempre, de que analista e analisante consigam ser tocados pelo encontro e possam abrir fissuras no literal. O literal é sempre insuficiente para lidar com a vida?- é por isso que se busca o analista?-, e é sobre essa capacidade de devanear, de encontrar/produzir aberturas ou linhas de fuga, que uma análise se desenrola.

 

Setting e sustentação subjetiva

O avanço na pesquisa me fez aos poucos ir aceitando iniciar um ou outro processo mesmo sem encontros presenciais prévios. Logo antes da pandemia, em paralelo aos processos presenciais, eu trabalhava em-linha com seis analisantes: dois que viviam nos EUA, um na Alemanha, um paulistano vivendo provisoriamente numa outra capital e dois que moram em pequenas cidades onde não há analistas. Com o confinamento, além de todos os outros processos analíticos, também duas análises de casal passaram à modalidade em-linha, o que tem sido verdadeiramente novo.

Um elemento importante: nunca atendi de forma exclusivamente em-linha nenhum analisante clinicamente psicótico, autista, com adicção grave ou que me parecesse em algum tipo de risco de actings importantes, de risco psicossomático ou suicida, e também nunca atendi nenhuma criança por essa via. Meu critério para a aceitação de cada uma das experimentações em-linha era que fossem pessoas sobre as quais eu tivesse a hipótese de uma estruturação psíquica suficientemente sólida para que, em momentos regressivos da análise, pudessem se sustentar subjetivamente, assim como a uma parte maior do setting do que habitualmente lhes caberia.

Estamos no campo do que Winnicott formulou como capacidade de estar só?- a capacidade de autossustentação subjetiva que é alcançada, em graus variáveis, através da experiência de estar só na presença de alguém[17]. É muito diferente quando o analisante se aloja primordialmente no seu próprio jogo associativo, e nos do seu analista... na atenção e voz do analista... em elementos concretos do ambiente promovido pelo analista (sala de espera, divã etc.)... ou em elementos tais como o olhar, o rosto e o gesto do analista. Temos aí as equivalências, mais ou menos possíveis, que dependem dos processos de subjetivação de cada analisante e, também, do desdobramento do processo analítico em andamento.

Dependendo das possibilidades de alojamento subjetivo do analisante, as tecnologias de comunicação em-linha de que dispomos, os cabos e os sinais de telefonia e de internet, podem ser suficientes ou não para a sustentação, por parte de muitos analisantes, de um si-mesmo e de um vínculo transferencial potente. Nesse panorama, a noção winnicottiana de uso do objeto[18] ganha lugar de honra: é muito evidente como não apenas os possíveis elementos intermediários, mas também a própria proximidade física analista-analisante produz efeitos muito diferentes em cada analisante. A questão do uso é central em todos os dispositivos: o divã, por exemplo, pode ser tomado e utilizado como equivalente de um colo, como oportunidade de ficar só em presença do outro, como concretização de uma relação de submetimento e idealização, ou ainda como representação de distância e mesmo de ausência. O mesmo se passa com o uso do telefone, da internet, da poltrona, e assim por diante, que sempre serão experimentados a partir de perspectivas singulares.

 

Setting e sustentação metodológica

É assim que, apoiada na ideia do supramodal, e considerando cuidadosamente as possibilidades subjetivas de quem me buscava como analista, fui propondo e afinando o novo setting em-linha. E entre os muitos pontos de sustentação para isso, escolho neste momento indicar quatro: o modelo clínico, a consideração pela complexidade do setting, a singularidade do analista e a afinidade com o dispositivo.

O primeiro, o mais primordial, é o do modelo clínico do trabalho. "[...] o enquadre não tem valor senão como metáfora de um outro conceito"[19] diz Green, referindo-se aos modelos com que o analista trabalha (a hipnose, o sonho, os cuidados maternos, o brincar etc.), que incidirão em cada detalhe das montagens que inventamos?- e, claro, das que recusamos.

Apenas como exemplo: há uma questão importante nos atendimentos em-linha, referente ao movimento corporal dos analisantes durante as sessões. Não há como processar o tema sem partir da referência ao modelo que o analista utiliza em sua clínica. No modelo freudiano do sonho, é pela inibição da motilidade que a excitação, impedida de se dispersar pela descarga corporal, é compelida ao espaço psíquico, onde poderá seguir vias elaborativas. Já no modelo do brincar, por outro lado, pensamos uma atividade corporal?- a da ordem do gesto?- combinada, justamente, com os processos elaborativos. Então, será a referência clínica do analista que dará sentido e valor a cada elemento do setting (divã ou poltrona, frequência e duração das sessões, áudio com ou sem vídeo etc.). Em suma, mantenhamos que a sustentação da clínica?- inclusive a da em-linha?- se dá sempre e necessariamente na rede conceitual com que cada analista trabalha.

Em segundo lugar, no que se refere à sustentação dessa clínica, sugiro que não isolemos demais os componentes do setting. Pelo caráter abrupto e compulsório da migração para a modalidade em-linha, esta virou foco e capturou nossos debates, deixando de lado o conjunto das condições da clínica contemporânea. Por exemplo, hoje em dia considero bastante a possibilidade de que a variação da frequência de sessões semanais tenha tanto peso no trabalho analítico quanto o fato da modalidade ser presencial ou em-linha.

Por múltiplas razões, até o momento do confinamento o modelo de uma sessão semanal presencial vinha se difundindo e se firmando cada vez mais na clínica psicanalítica, com efeitos muito grandes no desenvolvimento dos processos; na modalidade em-linha, em contraste, tem sido possível retomar o trabalho com mais sessões semanais, o que tende a sustentar mais qualidade de presença, de liberdade associativa, de capacidade de escuta e até mesmo de apreensão de processos corporais.

Não há como propor que "perdas" e "ganhos" sejam equivalentes, não temos recursos de medida dos pesos relativos dos fatores; mas, de qualquer modo, é bem importante que não deixemos de considerar, sempre, a dimensão de complexidade envolvida no debate.

Em terceiro lugar, penso que o setting da clínica em-linha precisa estar fortemente apoiado na singularidade do funcionamento subjetivo do analista, como Freud tão bem formulou, em suas sugestões a quem fosse iniciar uma clínica analítica:

 

[...] o que estou asseverando é que esta técnica é a única apropriada à minha individualidade; não me arrisco a negar que um médico constituído de modo inteiramente diferente possa ver-se levado a adotar atitude diferente em relação a seus pacientes e à tarefa que se lhe apresenta[20].

 

Trata-se, então, de cada analista descobrir/inventar os melhores modos de sustentar o método analítico. A prática me fez compreender que, em mim, o olhar frente a frente tende a ter um efeito de captura particularmente obstaculizante; e que, por outro lado, tendo a não ser muito capturada pela concretude das narrativas ou das descrições de contexto: mesmo frente a analisantes muito desafetados ou racionalizantes, tenho bastante facilidade em permanecer numa escuta mais oniroide, mais devaneante e flutuante. Deste modo, minha preferência pelo uso do divã sempre esteve muito ligada à proteção da minha liberdade de escuta e de associação, e foi esse o critério de base que sustentou minha decisão, prévia à pandemia, de só aceitar para análise em-linha pessoas com quem o trabalho só por áudio parecesse uma boa indicação.

Assim, centrando minha clínica em-linha na utilização exclusiva de áudio, fui tendo a experiência de trabalhar com a voz e os sons?- emanações dos corpos do analisante e do analista?- de modo muito mais sutil do que se dá no setting tradicional. Usando fones de ouvido, fui me dando conta de o quanto ficavam muito mais presentes as hesitações, as pausas, os tons, as correções súbitas do que se começa a dizer, os quase-choros e quase-risos, as reticências, a lentidão e o apressamento etc.

Claro, nunca duvidei de que dessa forma eu deixava de receber comunicações expressivas de peso, enquanto, por outro lado, conseguia me ater mais às modulações da voz, da fala e da atmosfera geral de cada encontro; e, talvez mais que tudo, certamente eu conseguia um contato bem maior com minhas próprias associações, afetos e estados de corpo.

Finalmente, indico um quarto ponto de sustentação da clínica em-linha: temos de considerar sempre que, junto com a experiência, vem a confiança em relação a essa modalidade, o que vai fazendo toda a diferença na firmeza com que propomos e sustentamos o trabalho, no nosso alojamento no novo setting, na nossa qualidade de entrega ao processo?- e, portanto, nas nossas capacidades de acolher e processar o que nos chega por esses fios e cabos e ondas.

Claro que, junto com a arquitetura metapsicológica que sustenta a clínica do analista, aí estão envolvidas sua experiência em seus percursos analítico e de formação, suas considerações sobre suas características singulares e sobre a estruturação subjetiva do analisante e, sempre, um sem-número de fatores sociais e culturais que rodeiam a dupla e a empreitada. Mas é importante sublinhar a importância da inclinação e afinidade maior ou menor do analista em relação ao dispositivo que usa?- no caso, em relação ao telefone e aos recursos digitais?- lembrando que, como em outros pontos, também neste é fundamental considerar a dimensão do tempo de experimentação.

Pensemos em quanto é estranho e difícil, no começo da clínica, utilizar o divã; como, com o tempo, sentar atrás dele se torna um modo natural de trabalhar; e não é difícil compreender que pessoas sem experiência analítica achem muito estranho este modo de proximidade. Sem viver a experiência, não é possível conceber o grau de intimidade e a qualidade da comunicação que pode se dar com uma das pessoas, deitada de costas, falando para uma outra, e menos ainda se pode imaginar sua posição subjetiva em relação a si mesmo, ao seu corpo, ao que diz e sente.

O que dizer, então, do universo em-linha? Os caminhos da tecnologia de comunicação tem feito com que corpos em lugares diferentes se mantenham psíquicamente cada vez mais próximos. Assim o rádio, o cinema, o telefone, a tv, a secretária eletrônica, o computador, o celular?- com Whatsapp, com Skype, com Zoom, com Youtube. Claro que isso produz uma forte dissonância psíquica, muita vertigem e muito estranhamento: o longe e o perto, acontecendo ao mesmo tempo?- um dos maiores paradoxos com que Winnicott trabalhou?- agora nos toma até o pescoço.

 

Sustentação... da psicanálise

É bom que nos preparemos: em breve viveremos a superrevolução das projeções holográficas e/ou da chamada Realidade Virtual, com efeitos impossíveis de imaginar sobre nossas noções de proximidade e de afastamento, sobre o que é vivido como presença, como ausência e, fundamentalmente, como formas alternativas de presença.

Mas, futurismos à parte, na minha opinião isso tudo não tem retorno?- e não só pelo congestionamento no trânsito e nas agendas, pelas mudanças de país ou pelo covid. Não tem retorno pelas próprias transformações subjetivas e relacionais que isso tudo produz: o uso intenso e repetido de qualquer dispositivo necessariamente aciona complexos sensoriais, mnêmicos, intelectuais, afetivos e relacionais diferentes, com efeitos muito radicais sobre a subjetividade humana, sobre a nossa percepção, o nosso funcionamento somatopsíquico global, nossos modos de relação.

A comunidade psicanalítica tem estado bem à altura dos desafios, tem experimentado e se reinventado com muita garra, podemos ter muito orgulho disso. Nosso desafio?- tão difícil quanto apaixonante, como foi o de Freud e de todos que admiramos?- é sustentarmos a atenção aos fundamentos e aos processos mantendo, ao mesmo tempo, a abertura ao novo e à alteridade. Alteridade em nós mesmos e alteridade no encontro com o analisante e com as transformações socioculturais que nos envolvem e nos impulsionam.

Para seguirmos vivos e juntos.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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