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Resumo
Realização: Camila Junqueira, Cristiane Abud Curi, Gisela Haddad, Thiago Majolo e Vera Zimmermann


Autor(es)
Benilton Bezerra Junior
é psicanalista, professor do Instituto de Medicina Social e pesquisador do PEPAS – Programa de Estudos da Ação e do Sujeito, na UERJ. Autor de “O ocaso da interioridade e suas repercussões sobre a clínica”, em Carlos Alberto Plastino (org.), Transgressões (2002) e “O filme como meio de experimentação subjetiva”, em Cristiana Facchinetti (org.), Lições de psicanálise (2002), entre outros.

Carla Penna Penna
é doutora em psicologia clínica pela PUC-RJ, psicanalista do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, membro da Group Analytic Society International e ex-presidente da Sociedade de Psicoterapia Analítica de Grupo do Estado do Rio de Janeiro. Publicou os livros: Inconsciente social (Casa do Psicólogo, 2014) e The Crowd: Reflections from Psychoanalysis and Group Analysis (Routledge, no prelo).


Lucas Simões Sessa Sessa
é psicólogo pela PUC-SP, psicanalista pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e especialista em transtornos alimentares pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Tem experiência clínica no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), acompanhamento terapêutico, atendimento ambulatorial hospitalar e coordenação de grupos terapêuticos.


Suelena Werneck Pereira Pereira
é psicanalista, mestre e doutora pelo programa de pós-graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ.



Referências bibliográficas

Mota N.; Copelli M.; Ribeiro S. Early markers of thought disorganization. Schizophrenia Bulletin, v. 45, p. S128-S129, 2019.

Žižek S. https://blogdaboitempo.com.br/2020/07/20/zizek-a-dialetica-paralisada-da-pandemia/, publicado e acessado em 20 de julho de 2020.

 

Freud S. (1915/1974). Reflexões para os tempos de guerra e morte. In: Edição standard das obras completas de Sigmund Freud, vvol. XIV (p. 311-343). Rio de Janeiro: Imago.

____. (1921/1974). A psicologia de grupo e a análise do Ego. In: Edição standard das obras completas de Sigmund Freud. volume XVIII (p. 91-183). Rio de Janeiro: Imago.

Hinshelwood R. (2020). Pandemic, Panic and Pandemonium. Political Mind.

Hopper E. (2003). Traumatic Experiences in the Unconscious Life of Groups: London: Jessica Kingsley.

Sousa Santos B. (2020) A cruel pedagogia do vírus. Coimbra: Almedina.

Žižek Z. (2020). Pandemic Shakes the World. London: Or Books.

 




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 DEBATE

O que a era do Covid-19 pode legar à psicanálise e aos psicanalistas

What the Covid-19 era can bequeath to Psyhoanalysis and psychoanalysts
Benilton Bezerra Junior
Carla Penna Penna
Lucas Simões Sessa Sessa
Suelena Werneck Pereira Pereira

Podemos definir tragédia por aquilo que nos ataca de roldão, sem muito ou nenhum aviso, e para o que não temos ainda recursos subjetivos para lidar. A todo o resto, em maior ou menor grau, com mais ou menos capacidade, somos levados a enfrentar a partir de um repertório conquistado durante nossa trajetória, um arcabouço cultural coletivo e individual que carregamos. Mas, frente às tragédias, sentimos primeiramente uma espécie de susto da ordem do traumático, susto esse capaz de provocar uma ferida psíquica, algo que precisaremos tratar antes de uma hemorragia completa.

A capacidade de criar recursos, ou melhor, o fabuloso recurso de inventar recursos, é tudo com o que podemos contar para enfrentarmos os aspectos trágicos da vida, sobre os quais não temos escolhas. A manifestação de um novo vírus, que colapsa o sistema de saúde dos países, mesmo dos mais desenvolvidos, e nos obriga a um recolhimento em uma quarentena infindável, numa regressão narcísica compulsória, nos expõe a essa condição trágica da vida. Nessa nova condição disruptiva, parece que tudo se torna desamparo, falta de sentido e incapacidade imediata de respostas. Expostos de peito aberto a esse vírus, somos testemunhas da situação de vulnerabilidade comum ao humano. E, sendo comum a todos, cria-se uma certa simetria.

É esperado que nós, analistas, possamos remendar nossas feridas no processo de formação, o que nos permite não apenas escutar empaticamente a dor alheia, mas também nos instrumentaliza a desenvolver um pensamento clínico promotor da análise dos pacientes. É claro que nada nos garante que novas tragédias não voltem a nos interpelar: o adoecimento de um parente, a morte de uma pessoa amada, uma separação, ou qualquer coisa que nos exija novos remendos. Mas o que faz desse momento uma realidade inédita é o fato de todos, analistas, analisandos, analistas dos analistas, supervisores, pares e familiares, estarem submetidos à mesma tragédia, numa simetria entre dores e desafios incomum ao conforto das poltronas dos analistas.

Ficamos submetidos a uma sensação de irrealidade, a agonias, insônias e pesadelos, que dividem espaço com gestos de solidariedade, compaixão e empatia. Somos levados a reinventar nossa vida e nosso fazer. Precisamos caçar novos recursos, ampliar técnicas e ferramentas, desenvolver espaços psíquicos que desconhecíamos. Ainda que as respostas possíveis ao trágico se modulem conforme as condições sociais, políticas e culturais de cada um e, assim, nos distingam em diferenças e desigualdades, o que essa pandemia carrega de ineditismo é similar mundo afora. Como lidar com esse desafio quando a novidade é, de fato, inédita a todos? E como lidar com a tragédia própria simultaneamente com a dos outros?

Se é verdade que a superação da tragédia costuma retribuir à humanidade com novos repertórios concretos e simbólicos, estamos aqui nos perguntando, voltados à comunidade de psicanalistas, o que essa era do Covid-19 pode nos legar, como sujeitos e em nosso fazer. A seção Debate da Revista Percurso convida alguns debatedores para pensar o tema.

 

Benilton Bezerra Jr.
O que a era do Covid-19 pode nos legar como sujeitos e em nosso fazer

“Tragédia”, como toda palavra, não tem um significado único, inequívoco. Na linguagem ordinária é frequentemente usada para aludir a catástrofes, desgraças, infortúnios, fatalidades, coisas assim. É uma maneira de apontar para o caráter indesejado, inesperado ou violento de um acontecimento que ocorre à revelia daquilo que seriam nossos desejos, expectativas ou decisões, e que traz consequências funestas?– Brumadinho, um crime passional, um acaso infeliz.

Na questão formulada pela revista aparece uma outra camada de significação, que alude não apenas a um fato, mas a um certo tipo de experiência do sujeito?– que pode ou não emergir diante dele: o desamparo e a angústia frente a algo cujo alcance e significação nos escapam, que resiste a uma inscrição simbólica, que nos deixa sem saber como agir, perplexos, engolfados pelo sentimento de impotência diante do destino.

Na pandemia somos atravessados por ambos esses sentidos. Mas vale a pena lembrar uma outra acepção de “tragédia”, fortemente associada ao pensamento nietzschiano. Esta não se refere a um acontecimento isolado, ou à experiência que ele pode precipitar no sujeito, mas à própria natureza da existência humana: a tragédia como uma maneira de conceber a vida, afirmando e acolhendo a totalidade de seus aspectos?– a alegria e o sofrimento, a certeza e a ambiguidade, a coerência e a contradição, o determinismo e o acaso, o sombrio e o luminoso, a criação e a destruição. Talvez essa perspectiva seja a mais providencial neste momento.

Há perdas, retrocessos e incertezas no cenário atual, sem dúvida. Mas há também mudanças positivas se desenhando no horizonte. O vírus vem atacando não só os corpos, mas boa parte do arcabouço simbólico e do imaginário que emoldurava e dava consistência àquilo que percebemos como a nossa realidade social. Alguns insistem em acreditar que sairemos desta crise iguais ao que éramos antes?– as esperançosas recuperações em V ou U. Mas tudo indica que de fato não seremos mais o que éramos no verão passado. Os pessimistas anunciam a famigerada retomada em K, com aumento brutal da distância entre privilegiados e excluídos. Mas, frente a uns e outros, é preciso lembrar Hannah Arendt: embora mortais, nós, humanos, não nascemos para morrer, e sim para recomeçar. Há muitos futuros possíveis em gestação nesse instante, e a hora é de fazer apostas.

Estamos sendo violentamente empurrados para frente pela pandemia, e há algo de promissor nisso, porque que o vírus, tal como um espelho, escancarou a verdadeira crise civilizatória em que estávamos mergulhados e para a qual, ao menos desde o fim dos anos 1980, parecia não haver alternativa. A pandemia não está provocando uma revolução, mas está mostrando que muita coisa considerada impensável pode se tornar realidade. Cinquenta anos depois, a bandeira de 1968?– “Soyons realistes, demandons l’impossible!”?– já não parece tão incendiária, mas razoável e necessária.

Slavoj Žižek escreveu num artigo recente que

A epidemia é em larga medida lida através das lentes de Chronós [o tempo linear] ou Aion [o tempo circular]: como um acontecimento no curso linear das coisas, como uma temporada ruim, um ponto baixo que cedo ou tarde será revertido. O que eu espero é que a epidemia siga a lógica de Kairós [o tempo oportuno]: uma catástrofe que nos impelirá a encontrar um novo começo (2020).

 

Construir esse novo começo exige reconhecer que não há estratégia segura para o enfrentamento desta pandemia?– e isso vale também para as outras que certamente virão?– sem o enfrentamento dos problemas que a tornaram tão dramática: a crise climática, a desigualdade econômica global, as várias faces do racismo, a economia do consumismo, a cultura do narcisismo, a fragilização da democracia como valor universal.

Impossível? Talvez não. Os ágeis movimentos de cooperação científica internacional, a crescente pressão internacional contra os desmandos na Amazônia e o avanço das propostas de garantia de renda mínima universal, feitas até por governos neoliberais, são exemplos de como o acontecimento da pandemia tem precipitado movimentos nessa direção?– gerados pelo simples cálculo de sobrevivência. Serão duradouros e sustentáveis, ou transitórios, superficiais? É cedo para saber com certeza. Mas não tenho dúvida de que o extraordinário fortalecimento e ampliação da luta antirracista em muitos países, por exemplo, veio para ficar. No Brasil, isso significa nada menos que uma revolução.

Um dos movimentos mais decisivos do cenário atual, pelo alcance radical de suas consequências na experiência humana, é o entrelaçamento, a mescla?– quem sabe, em algum ponto do futuro, a fusão?– cada vez maior do mundo físico e do espaço digital. Esse processo já vinha crescendo, mas com a pandemia sua velocidade aumentou exponencialmente, e alterou para sempre a configuração e o funcionamento de nosso universo social.

Em apenas quatro décadas, a difusão da internet, a miniaturização dos dispositivos de acesso, a explosão da capacidade de processamento da velocidade de transmissão de dados, o surgimento de redes sociais digitais e a introdução dos algoritmos, junto com ao aprendizado de máquina, transformaram completamente o ambiente humano. Big data e inteligência artificial já modificaram o jeito de se fazer política, a tomada de decisões econômicas ou médicas, as ambições cientificas, a experiência da intimidade pessoal, o grau de acesso de qualquer um a qualquer tipo de informação, o poder de cada indivíduo de se fazer notar no mundo.

Elementos constitutivos da experiência subjetiva e das práticas de si que configuraram o sujeito da interioridade psicológica moderna vêm sendo rapidamente transformados, se não subvertidos?– o cultivo da intimidade privada, a problematização dos sentimentos, a experiência de conflito no centro da vida interior, o alcance da palavra e da imagem nas relações eu-outro, o exercício da autonomia individual, a dinâmica das filiações simbólicas, as estratégias de construção de identidades. O mundo e os dispositivos digitais estão modificando até mesmo o modo como exercitamos certas funções mentais, como a memória e a atenção, por exemplo.

Cada vez mais hiperconectados, deixamos o tempo todo rastros de nossa vida social e psíquica. Capturados por dispositivos de inteligência artificial, esses dados são processados de forma sistemática e contínua, devassando sem reservas a esfera íntima de nossas existências: inclinações estéticas ou políticas, desejos ocultos, medos, fetiches, frustrações, tendências comportamentais.

O impacto desse fenômeno sobre o campo da saúde está apenas começando. Não por acaso, os últimos dez anos viram nascer noções como as de psiquiatria computacional, fenotipagem digital e tratamento matemático de estruturas da linguagem verbal. Seu efetivo sucesso em algumas pesquisas, como diagnóstico precoce de esquizofrenia com altíssimo grau de precisão (2019), é bem-vindo, mas também abre caminho para tentativas de uma positivação sem limites da vida mental, servindo de álibi para expectativas de uma clínica do sofrimento psíquico em que há pouco lugar para elementos axiais da abordagem psicanalítica do pathos humano, como o caráter essencialmente enigmático da vida psíquica, a irredutibilidade da noção de sujeito às infinitas modulações das experiências do eu, a dimensão singular da experiência de cada um.

É certamente possível imaginar futuros próximos em que psicanalistas se tornem vintage. Mas ainda é cedo para isso. Os cenários que a pandemia nos está descortinando trazem desafios que precisamos abraçar. Sem máscara.

 

 

Carla Penna
A pandemia, a tragédia e a onipotência
nossa de cada dia

Epidemias, pandemias e tragédias acompanham-nos desde tempos imemoriais. As raízes da tragédia como gênero literário encontram-se na Grécia Antiga e reúnem-se na palavra “tragosoiodé” as palavras gregas τρ?γος, tragos (“bode”), e ?δ?, odé (“canto”), algo similar a “canção dos bodes”, em alusão aos sátiros que cercavam Dionísio em suas orgias. Assim, deuses e homens, o transcendental e o destino, a cultura e a sociedade interligaram-se. A Praga de Atenas, ocorrida em 430-26 a.C., durante a Guerra do Peloponeso, foi o primeiro relato documentado por Tucídides de uma praga. A peste que acometeu a cidade de Tebas serviu de contexto para a tragédia Édipo Rei, tão cara à Freud. Desde então, tanto na história quanto na literatura e na arte, autores como Boccaccio, Shakespeare, Manzoni, Artaud, Munch e Camus nos introduzem a situações e estados de alma semelhantes àqueles hoje experimentados com a covid-19. Pandemias têm dizimado populações e sociedades, influenciado o desfecho de guerras, como a Gripe Espanhola durante a Primeira Guerra Mundial. Qual seria então o motivo de tanta surpresa diante de uma pandemia em pleno século XXI?

O novo milênio apontava para o ápice do desenvolvimento científico e tecnológico contemporâneo, contudo também revelou o aumento das desigualdades, vulnerabilidade e sofrimento psicossocial. O descaso com o outro, pelo recrudescimento do neoliberalismo selvagem, da exploração desenfreada do meio ambiente ou da simples cegueira narcísica, conduziu-nos novamente às dimensões do trágico. A pandemia seria castigo dos céus ou, diante do descaso com a vida e ambiente, apenas fruto do “domínio violento e vergonhoso que a estupidez exerce sobre nós”, como Robert Musil já havia alertado! A morte de milhões de pessoas contaminadas por um vírus com nível zero de vida?a “zero-level life” virus (Žižek, 2020, p. 78)?– e cura desconhecida é surpreendente. Sua “cruel pedagogia” (Sousa Santos, 2020) apresenta dimensões sócio-político-econômicas há muito conhecidas, que revelam a incapacidade dos Estados e das tecnologias mais avançadas de valorizar a vida e de responder às emergências com a eficácia outrora imaginada. Pensadores como Žižek e Sousa Santos expõem a olho nu as ilusões nutridas pelas massas contemporâneas, revelando nosso profundo desamparo diante da falácia de seus líderes (Freud, 1921/1974).

Estas trágicas revelações, dignas de sofisticados Édipos contemporâneos, remetem-nos à psicanálise, pois em desamparo e narcisismo somos “especialistas”, contudo como em termos de onipotência e ilusão ainda temos a aprender… Freud já havia alertado que, apesar das mais altas apostas terem sido feitas em relação às conquistas civilizatórias, o valor conferido à vida individual era pequeno. Com Freud aprendemos sobre o poder das ilusões e das desilusões, as transformações da pulsão baseadas em nossa susceptibilidade à cultura e especialmente sobre “a falta de insight demonstrada pelos melhores intelectos, sua obstinação… e sua credulidade destituída de senso crítico para com as asserções mais discutíveis” (Freud, 1915/1974, p. 324). Tais considerações remetem à importância conferida por Freud (1915/1974) à relação entre intelecto e vida emocional, e a constatação de que quando lidamos com paixões e afetos, as fontes de sofrimento e de reconhecimento influenciam, por imprevisíveis desfechos, a vida e a tragédia em sociedade. Neste sentido, as experiências de desamparo, castração e a realização da inexorabilidade da morte fazem as feridas narcísicas pulsarem. Mesmo assim, como Édipo diante de suas paixões, permanecemos cegos frente aos enigmas da vida e da morte, decerto porque não há lugar para a morte em nosso inconsciente, a morte é sempre a “morte de outrem” (p. 327).

Acreditamos que havíamos dominado a natureza, eliminado seus perigos, onipotentemente triunfado, como Hinshelwood (2020) aponta:

Essa pandemia é uma enorme ruptura nessa confiança onipotente exagerada? Quando a onipotência se despedaça, a lei do inconsciente é substituída por impotência e perigosa vulnerabilidade. E foi isso que aconteceu globalmente?– uma dose coletiva de onipotência destruída? O vírus trouxe para casa, bem debaixo de nossas gargantas, o fato de que a natureza pode reivindicar-nos como suas criaturas indefesas”.

As ideias de Hinshelwood vão ao encontro de palavras do debate proposto pela Percurso. De fato, a pandemia é um “susto”, não esperávamos por ela, fomos de uma hora para outra remetidos ao universo do intolerável e do conhecido não pensado de Bollas. Pelos excessos da ordem do traumático e do medo contagiante, a vida na pandemia rompeu escudos psíquicos protetores, levando-nos à proteção do confinamento e a novas vivências espaço-temporais. Experimentamos ininterruptamente um pesadelo em vigília, no qual sonho e realidade, fantasia e ilusão, espaço e tempo se misturam. Se não sucumbimos ao horror do desamparo e do medo, à orfandade de experiências extremas de falha na dependência básica em relação ao outro, ao ambiente e ao mundo, experimentamos coletivamente angústias psicóticas que acionam defesas poderosas como negação, cisão, desrealização e projeções maciças. Esses processos psíquicos fazem parte da fenomenologia de experiências traumáticas na vida inconsciente de grupos e sociedades presentes em situações de trauma (Hopper, 2003).

Diante da invisibilidade do vírus, bem como de sua inclemente e ilimitada expansão, fomos forçados a experimentar uma estranha e nova relação com nossos próprios limites. Resistimos e continuamos a resistir à sufocante invasão do vírus na alma e no corpo. Como psicanalistas, nossa atenção foi direcionada também à auto-observação e às transformações nos mundos interno e externo, cujos limites se confundiram, se fundiram ou se cindiram drasticamente, demandando um esforço maior de integração e uma valorização de áreas de transicionalidade acrescidas do estofo adquirido em nossas análises pessoais.

A prática clínica, inicialmente transformada em e pelo pandemônio, forçou-nos a romper com a sacrossanta continência do setting clássico, fazendo-nos mergulhar no ambiente selvagem, “não psicanalítico” dos atendimentos online. Se, por um lado, o universo virtual propiciou a continuação de nossos atendimentos, por outro lado, fomos confrontados com os excessos da tela plana, do contato visual ininterrupto com os clientes e com nossos próprios rostos. De forma inclemente como o vírus, nossas sessões foram invadindo espaços inusitados nos settings improvisados pelas duplas analíticas. Nossa “neutralidade” foi posta à prova, atravessada tanto pela presença do paciente em nossa própria casa (e nós na dele), quanto pela exaustiva horizontalidade imposta ao tratamento psicanalítico pelo trauma coletivo.

A psicanálise nunca mais será a mesma após a pandemia. Contudo, como psicanalistas, temos aprendido e criado como nunca! Fomos obrigados a deixar de lado a onipotência, a arrogância e as amarras do establishment analítico. O desamparo, o medo diante do desconhecido experimentado por nossos clientes e por nós mesmos transformaram a dor da “onipotência destruída”. Não sucumbimos à pandemia, ou à ferida narcísica perpetrada por ela, tampouco fomos derrotados pelo destino inexorável de uma tragédia grega. Inovamos, criamos, experimentamos diariamente novas formas de pensar, interagir, agir e sentir analítico. Reduzidos por vezes a um “setting mínimo” renovamos a compreensão de que as transformações de uma análise provêm, acima de tudo e a despeito das circunstâncias, de um breve toque, de um encontro único entre almas.

 

Lucas Simões Sessa
Pandemia(s)

O primeiro ponto que me ocorre levantar para ser debatido, a partir da proposta apresentada, tem a ver com a diferença entre tragédia e trauma. A primeira remete à própria condição humana, inerentemente trágica, uma vez que carrega em si determinações irredutíveis como a consciência sobre a finitude e a estrutura de impasse do desejo, na formulação de Lacan. Nomear a condição humana como trágica implica em dizer que ela é marcada por um destino inegociável, mas também aponta para a existência de um trabalho de produção discursiva acerca de uma experiência que é, portanto, da ordem da errância. A tragédia é uma estrutura narrativa capaz de encadear a contingência, do registro do real, na lógica do significante. Tragédia implica em um enredo de sofrimento e na possibilidade de falar do mal-estar, inscrevendo-o no campo dos códigos socialmente reconhecidos e compartilhados de uma cultura e de uma época.

A noção de trauma nos indica o que está para além daquilo que o cobertor da linguagem consegue alcançar. Ao fracasso da representação psíquica, à angústia. A uma dor que não tem recursos para ser vivida nas nuances do significante, e assume a forma de algo que simplesmente acontece, sem que se possa dizer nada a respeito. Entre o trauma e a tragédia, entre o mal-estar e o sofrimento, o que existe é trabalho psíquico. A sustentação do desvelamento do caráter trágico da condição humana é traumática. Viver implica, então, em se alienar: à linguagem, ao outro, a uma imagem de si. O imaginário é este campo de ilusões edificantes. Esquecemos da finitude, da distância impercorrível que existe entre mim e o outro, da precariedade dos recursos de comunicação de que dispomos. Ignoramos que toda realidade é psíquica e que, portanto, no limite, só é possível dizer de si. Não contamos com o fato de que, até de nós mesmos conhecemos muito pouco, quem dirá do outro. Inadvertidos, podemos de algum modo dar conta de amar, trabalhar, investir, fazer planos, laços e apostas na vida.

Um acontecimento da dimensão de uma pandemia viral capaz de, no intervalo de um semestre, tirar a vida de milhares, infectar milhões e isolar bilhões de pessoas mundo afora traz um duplo potencial traumático: pelo que introduz e pelo que desvela. Introduz adoecimentos, mortes, confinamentos, prejuízos econômicos e toda uma sorte de privações que não existiriam em outro contexto e para as quais não estávamos preparados. Mas também desvela algo desse caráter inerentemente trágico da condição humana, que reiteradamente encobrimos como parte indissociável do esforço de viver. Faz lembrar a fragilidade dos nossos planos, a vulnerabilidade dos nossos corpos; aponta e abala a fundação narcísica das nossas certezas. Na cena contemporânea?– com seus traços de hiperconexão, ideais de maximização produtiva, avanços tecnológicos e científicos que vendem promessas onipotentes de ampliação dos recursos de gestão da vida, de controle do tempo, da performance do corpo, e ofertam a possibilidade de colonização do futuro?– é de se esperar que a queda seja especialmente significativa. Um golpe que é de natureza narcísica, na imagem que temos de nós mesmos, enquanto sujeitos e enquanto espécie.

Neste ponto é preciso lembrar que, desde Freud, a noção de adoecimento psíquico envolve uma importante dimensão quantitativa. Entre o traumático desvelamento irrestrito do desamparo inerente à condição humana, e uma alienação imaginária maciça a estes e outros ideais, o interessante talvez seja a possibilidade de habitar as nuances, como quem deixa uma porta entreaberta, uma fresta.

E é nesse polimento artesanal dos grandes blocos que compõem o registro do imaginário que encontramos outro aspecto importante de ser debatido, e que diz respeito à ideia de que a pandemia é uma realidade que se apresenta a todos universalmente. Toda universalidade e toda experiência de compartilhamento são da ordem de uma ilusão imaginária. O trabalho analítico em meio a uma pandemia envolve, de maneira particularmente delicada e necessária, portanto, o esforço de não ceder aos sedutores apelos da compreensão, do entendimento e da identificação, no sentido de operar uma singularização dessa experiência. Ocupar uma posição de escuta implica essencialmente em um estranhamento da experiência do outro, ciente de que o único acesso possível a ela se dá pelo discurso desse que nos fala. De que a identificação e o entendimento encerram a singularidade da posição do sujeito e, com isso, a possibilidade de escutá-lo. Também demanda um trabalho ainda mais escorregadio de sustentar uma abstinência, que não implica na ausência do desejo nem na manutenção de um silêncio, mas em uma modalidade específica de posicionamento frente ao desejo e na especificidade de um dizer, que permitem o surgimento do sujeito do inconsciente.

A complexidade plural de respostas possíveis de serem construídas por um sujeito a determinado contexto questiona e surpreende qualquer tentativa de antecipação, como a clínica nos lembra diariamente. Mas um parâmetro que me parece interessante para pensar manejos diz respeito ao grau de determinação do sofrimento. Frente a uma vivência de angústia, logo excessivamente indeterminada, é interessante trabalhar visando a construção de um discurso capaz de inscrevê-la em uma experiência de sofrimento possível de ser articulada nos termos, recursos e nuances da linguagem. Determinar tem a ver com passar a poder nomear como sendo medo de se contaminar, como luto pela perda de um ente querido pelo coronavírus ou como apreensão relativa ao futuro pós pandemia, por exemplo, e essa discriminação significante modula encaminhamentos distintos. Isso é diferente de um caso em que o sofrimento do sujeito que nos procura se apresenta excessivamente determinado, por diagnósticos, explicações e causas. Alguém que deprimiu porque já sabe que vai morrer, já que toda desgraça sempre recai sobre ele e nem vale a pena tentar se prevenir, ou outro que desdenha da importância das medidas de proteção porque é imune a qualquer coisa e essa é só mais uma gripezinha. Cumpre aí o trabalho de operar um esvaziamento de algumas idealizações às quais aquele sujeito está excessivamente alienado, e que estão dificultando reposicionamentos que seriam importantes nesse momento.

Qualquer consideração acerca de o que essa pandemia nos lega enquanto sujeitos e psicanalistas, terceiro e último aspecto que eu gostaria de abordar, deve ter como ponto de partida a importância de não perder de vista a singularidade da experiência de um sujeito, o que inclui a singularidade de cada psicanalista também. Eis aí um legado aos analistas: somos sujeitos e estamos sujeitos. Dizer que a psicanálise é uma ética implica, entre outros desdobramentos, em sustentar uma aposta de que o mundo não seria um lugar melhor de se viver se todos fossem iguais a mim. Enquanto analista, me instiga experimentar a técnica em condições extremas, buscando conhecer o limiar em que ela se sustenta sem se descaracterizar. Penso que essa reflexão proporciona recursos importantes para o sempre necessário e urgente empenho de ampliação do seu alcance.

Também é preciso diferenciar o que é da ordem do legado e o que são efeitos desta pandemia. Legado pressupõe transmissão e depende dos nossos recursos para construir algo a partir deste real que se impõe, indagando ainda nossas expectativas a respeito desse futuro já tão inflacionado de especulações. Parece-me evidente a existência de um efeito relativo a um trabalho de luto. Pelas perdas humanas sofridas durante a pandemia, pela perda de ideais e futuros que já estavam imaginariamente contratados. A intensificação dos cuidados, do gerenciamento dos corpos, das medidas de segurança, dos cálculos e proteções das fronteiras, tanto dos países quanto das peles. Inclusive, e talvez sobretudo, enquanto posicionamento de Estado, o que há de se traduzir em alguma redução das liberdades individuais, pretextos para o patrulhamento dos costumes e a exacerbação de conservadorismos diversos. Mas também uma urgência em reencontrar certos prazeres depois de tanto tempo de privação e renúncia.

Não deve ser desconsiderada, no entanto, a possibilidade de que grandes esforços sejam mobilizados no sentido de negar a dimensão e a importância dos impactos causados por esta pandemia, em uma tentativa maníaca de resgatar um ideal de normalidade há muito insustentável e incompatível com o imperativo de cuidar dos efeitos e marcas dessa experiência nos diferentes âmbitos em que ela nos convoca. Cenário em que tudo o que está se passando seria tomado como aleatório infortúnio, sem que nenhum esforço no sentido de conhecer os fatores envolvidos na produção deste fenômeno fosse empregado, ao que permaneceríamos capturados em mortífera repetição.

A hiperinflação das idealizações da cena contemporânea tem um efeito importante de ser marcado, que pode ser atribuído a um trabalho da pulsão de vida, e que tem a ver com um aumento desenfreado de complexidades que caminham para uma indiferenciação massificante, como a reprodução celular em um processo tumoral. Nesse processo, a morte, enquanto pulsão, tem função imprescindível de operar um corte, uma ruptura capaz de instalar o vazio necessário à construção de novos arranjos. Dar voz à potência criadora do caos seria, no meu entendimento, um encaminhamento interessante de ser enfrentado neste momento que estamos atravessando.

Penso que seria interessante que o legado desta pandemia fosse da ordem de um redimensionamento narcísico capaz de operar um esvaziamento de idealizações de efeito libertador, em um giro passível de ser expresso pela diferença entre os termos “perder” e “prescindir”. Um legado de questionamento do peso paralisante de demandar tantas garantias, do cálculo fóbico que deriva de ter a felicidade como critério maior de valoração da experiência. De um aprendizado genuíno acerca da importância e urgência do estabelecimento de uma lógica coletiva de gestão da vida em sociedade, condizente com a função estruturante do outro na fundação de um sujeito e com a sustentação de um pacto civilizatório que assim possa ser chamado. Um legado capaz de nos sensibilizar para a determinação lógica da morte?– enquanto acontecimento, pulsão e saber da própria finitude?– na construção semântica da experiência da vida, análogo à relação entre silêncio e música e ao efeito de significação exercido por um ponto final.

Suelena Werneck Pereira
Tristes novos tempos

Muito difícil escrever sobre uma situação inteiramente nova e na qual estamos todos inseridos de modo inevitável. É uma condição que nos toma por completo, sem saída. Olhamos, como meros espectadores estarrecidos, esse acontecimento, esse momento extraordinário, tentando entender não só a pandemia como os fenômenos de massa que a acompanham. A caotização política, que precariza ainda mais essa situação limite, somou-se à pandemia e, juntas, escancararam uma face desconhecida da sociedade, na qual o ódio opera como diretriz política. O contemporâneo se desvela tenso, num conflito importante entre aspectos conservadores e progressistas; a fina epiderme que o encobria se rasgou, revelando uma bizarrice explícita e tóxica. Some-se a isso o fato de vivermos em um país com desigualdade social obscena e ausência de um projeto coletivo: é cada um por si, sem pacto, sem acordo social.

Nossa prática se apresenta diferente da usual por questões impostas pelas novas regras de isolamento social. Entretanto, o ato de inclinar-se para escutar a fala dos analisandos, a clínica propriamente, continua em princípio a mesma, fundamentada no mesmo edifício teórico. Só que com outro grau de intimidade, com outra familiaridade. E deparando-se, de modo contundente, com o que esteve sempre na mira das análises: o desamparo e a castração.

Ao mesmo tempo, pela condição vivida por todos, sem exceção, com seu cortejo de restrições, medos, perdas, nos encontramos na mesma condição dos analisandos. Se antes podíamos dizer que havia uma assimetria entre os dois lugares, o do analista e o do analisando, ou melhor, uma dissimetria?– baseada em, apesar de todo sofrimento humano ser universal, o analista se encontrar mais bem equipado, por sua análise pessoal e por seu estudo, a pôr em prática certa neutralidade e compreender melhor do que se trata aquela narrativa?–, agora temos um sofrimento comum, para o qual estamos igualmente despreparados. Sim, o analista continuará mais apto a lidar de modo mais adequado com as demandas do vírus, posto que nosso treinamento nos deu ferramentas importantes, mas não estará fora dele, muito menos a salvo. Perdemos qualquer fantasia de imunidade. Vivemos a mesma realidade, mas devemos acreditar que temos instrumentos que nos equipam melhor para enfrentar essa catástrofe.

A pandemia revela, ou manifesta, algo de que sempre soubemos. O que antes era uma verdade abstrata, a nossa finitude, torna-se uma ameaça concreta e compartilhada planetariamente. Temos como tarefa primeira a análise das percepções equivocadas compartilhadas por todos: a de que somos imunes às tragédias. Sempre alimentamos uma esperança descabida de que as desgraças acontecem só com os outros. Essa pandemia operou um concreto choque de realidade; as estratégias de sustentação estão falhando, perdendo o precário sentido então criado. Temos de reinventar táticas para enfrentar essa vulnerabilidade.

A experiência dessa dor compartilhada, ao quebrar uma suposta neutralidade do analista, cria nele uma sensação de impotência ao se deparar com novas e agudas formas de sofrimento psíquico. Nada ou muito pouco sabemos a respeito desse novo vírus. O vírus é um ser sem vida própria, que vive somente no organismo vivo que invade; ele se apropria da vida de um outro. São considerados parasitas, não podendo ser considerados propriamente seres vivos; seriam meros “ladrões” da vida alheia. Já que o vírus não é um organismo vivo, não nos cabe matá-lo, mas simplesmente evitá-lo e, com sorte, neutralizar sua potência de ataque. Ainda não há vacinas, não há medicamentos eficientes, não há hospitais suficientes, não há proteção de fato efetiva. Cada um se protege como pode e como entende que deve, já que não temos uma diretriz consistente. A característica traumática dessa situação nos invadiu com seu susto e agora temos de inventar novos modos de viver, cheios de temor. Em nossa experiência compartilhada, na comoção psíquica causada pelo trauma, não podemos desmentir a própria dor. Confinados, muitas vezes totalmente isolados, temos de dar conta de tarefas antes impensáveis. Ao fantasma da morte soma-se a situação de confinamento.

Temos de estar muito atentos para que o isolamento físico não acarrete um indesejável confinamento psíquico, uma perda de território de pensar. E a toda hora as pessoas se perguntam como será o “novo normal”. Será que não se pode viver sem uma norma? Parece-me que se quer mais do mesmo quando se invoca esse novo normal. Apenas mais um faz de conta.

E há um fator inédito relativo à projeção do futuro: seu achatamento. Deparamo-nos com a impossibilidade de planejar, de fazer projetos. É inevitável o agravamento do sofrimento humano diante de um acontecimento que escapa totalmente de nossa intervenção e de nossa potência. Não apenas mudou o espaço do atendimento ou a amplidão da vida, dos horizontes: mudou o olhar sobre o tempo, a finitude não é mais passível de ser disfarçada. A morte sempre esteve presente em todas as análises bem conduzidas e era a marca de um fim de análise a admissão da morte, da castração. Mas a cara da morte mudou: nunca ela esteve tão presente, tão real, tão concreta, de modo tão brutal. Esse espetáculo midiático, contínuo e diário, fragiliza nossas defesas, a contagem macabra nos joga em mais desamparo; algo difícil de ser simbolizado passou a fazer parte das notícias do dia, instalando-se uma certa promiscuidade com sua presença. Contam-se os mortos diariamente, no noticiário. Já se sabia que a morte nos esperava logo ali, a qualquer momento, mas se fazia de conta que se tinha algum controle. Esse controle sumiu. Nunca nos sentimos tão vulneráveis, tão ameaçados, tanto nós, psicanalistas, quanto nossos analisandos. Houve uma banalização da morte. O vírus invisível tornou nossa finitude muito visível.

Paradoxalmente, passamos a nos alimentar de lives, de transmissões ao vivo, para compensar esse excesso de morte, para nos ligar ao vital. Para driblar a onipresença muito incômoda dos óbitos, nos vinculamos às lives com frenesi, em um trabalho incansável de Eros. E nos voltamos inteiramente à potência de Eros para podermos continuar, para fazermos novas dobras. E somos cada vez mais afetados pela tecnologia, importante vetor de subjetivação; há uma intensificação de nossa dimensão maquínica, ficcional. Tivemos de nos atualizar também nesse campo, para muitos de nós inóspito.

Penso que a função clínica ganhou um novo aspecto, o de dar crédito, ser fiador da percepção do mundo. Tendo sido nossa tarefa trabalhar no sentido de uma ampliação dos espaços, nos deparamos, nesse momento, com uma infinidade de restrições. Cabe a nós, agora, a dificílima tarefa de tentar dar algum sentido à vida. Cabe a nós, agora, reconhecer as perdas e atravessar, com nossos analisandos, o sofrimento, que é compartilhado. Não temos as respostas que são esperadas, não somos portadores de nenhuma garantia. Já havíamos entendido que a prática psicanalítica se funda no sem álibi e constatamos, a duras penas, que essa prática é também sem nenhuma garantia. Temos de nos haver com a terrível ruptura de certezas ilusórias. Nessa situação limite, trabalhamos com afetos de base: o isolamento social não deve vir acompanhado de um isolamento afetivo. Nesta era de excesso de conexão e ausência de pudor, nestes tempos mais que incertos e conturbados, de radicalização política e soluções populistas, penso que devemos apostar na delicadeza dos gestos, na crença nos vínculos, na potência do sentido. 


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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