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Resumo
Resenha de Fabio Herrmann, Anotando a China: viagem psicanalítica ao Oriente. Edição crítica de Fernanda Sofio (Org.). São Paulo, Unifesp, 2019, 198 p.


Autor(es)
Luciana Saddi Saddi
é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Mestre em Psicologia pela PUC-SP. Diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Autora de Educação para a morte (Ed. Patuá). Coordenadora da série O que fazer? (Ed. Blucher) e coautora do livro Alcoolismo?- série o que fazer? (Ed. Blucher). Representante do movimento Endangered Bodies no Brasil. Fundadora do Grupo Corpo e Cultura.



Referências bibliográficas

Herrmann F. A infância de Adão e outras ficções freudianas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.




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 LEITURA

A escuta do Oriente?– o método psicanalítico em ação

[Anotando a China: viagem psicanalítica ao Oriente]


Llistening to the East?– the psychoanalytic method in action
Luciana Saddi Saddi

O livro Anotando a China: viagem psicanalítica ao Oriente é obra complexa em si mesma, de gênero híbrido. Permite múltiplas formas de leitura, justapostas e não excludentes. No prefácio, de Leda Herrmann, é apresentada a história do livro. A “Introdução: A China fala”, de Fernanda Sofio, traz a leitura crítica da obra. O livro propriamente dito, Anotando a China: viagem psicanalítica ao Oriente, de Fabio Herrmann, em que a palavra “viagem” ganha dimensão psicodélica e reafirma a vocação da psicanálise em tornar possível a criação de novos sentidos, vem em seguida. A edição é complementada por três excelentes ensaios, seminalmente ligados, da lavra de Renato Tardivo, Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Meira Moreira.

Ao leitor cabe escolher qual tipo de leitura deseja fazer. Uma leitura virgem, quando se lê inicialmente a parte escrita por Fabio. Uma leitura com preliminares, na qual se acrescentam prefácio e introdução antes da parte fundamental. Ou com pós-liminares, ensaios consideram afinidades temáticas ao livro de Herrmann, posteriormente. Cada leitor realiza o próprio percurso, como desejar; as partes são compostas separadamente e não obrigam o leitor a nenhum roteiro pré-definido. E, em se tratando de viagem, é sempre bom contar com certa surpresa. Os roteiros abertos satisfazem melhor os viajantes como eu, que tiveram contato primeiro com o coração do livro e deste puderam extrair admiração.

Caso opte por ler a crítica de Sofio, “Introdução: A China fala”, note que o título remete à escuta do analista: afinal, o paciente fala. O incessante trabalho de Fabio Herrmann como analista da cultura, ao caminhar na trilha aberta por Freud e cultivar o método psicanalítico, escutou e fez a cultura falar. E é assim que a China fala. Sofio, por sua vez, oferece muito mais que visão crítica do livro, feito por si só memorável e que a coloca dentre as principais estudiosas da Teoria dos Campos e referência fundamental para a compreensão da obra de Herrmann. Sofio não apenas introduz o leitor, com suavidade e firmeza, à última obra de Herrmann, mas também o transporta para o interior da Teoria dos Campos?– era assim que Fabio denominava seus achados a partir da perspectiva metodológica. É como ganhar um brinde, ao adquirir o livro, e o brinde fosse tão valioso quanto o objeto adquirido. Além da excelente análise realizada por Sofio, os principais conceitos do pensamento psicanalítico de Herrmann são revisitados com vivacidade e em linguagem simples. E poderiam compor, com certeza, um dicionário da Teoria dos Campos (ainda não escrito), tal a facilidade de transmissão de conhecimento da autora.

Outra variação bastante explorada na Introdução de Fernanda Sofio é compreender o Anotando a China como a materialização última do pensamento metodológico, psicanalítico, ficcional e fenomenológico de Herrmann. Evolução de A infância de Adão (2002), livro de contos psicanalíticos. A imaginação de Fabio não conhecia limites. Pela sua arte, gêneros e subgêneros vieram ao mundo. Teoria psicanalítica e metodológica, interpretação crítica da psicanálise, contos, novos conceitos e formulações provenientes do contato de Herrmann seja com o mundo cotidiano, a fenomenologia ou antigo Egito. Com sua criatividade as ideias brotavam e exigiam amplo reconhecimento em diversas categorias a um só tempo. Essa talvez seja a principal vocação da psicanálise: existir como corpo conceitual, história, método, técnicas e múltiplas formas de atendimento clínico, desde a tradicional dupla analista e paciente até arranjos menos ortodoxos; ser tudo isso e algo mais, e ao mesmo tempo, escrita, sonho, imagem, criação de sentido e mistério. Composição de muitas camadas e múltiplas interpretações. O Anotando a China é, portanto, transcendência, ruptura de campo, poesia e viagem psicanalítica.

É também o último livro de Herrmann. Ofereço, agora, minha leitura, dentre tantas possíveis. Foi organizado em meio à sua própria agonia. Agonia de se saber acometido por doença incurável. Agonia nascida da consciência da passagem do tempo. É o tique-taque a martelar continuamente. São as horas que escapam e a escuridão que se aproxima.

Os sofrimentos físico e psíquico pelo tempo que rapidamente falta a Herrmann estão presentes de maneira indelével nesse livro raro. A morte é matéria principal, embora tenha sido ocultada em versos e imagens do livro, em que o autor preferiu dar testemunho de vida e de viagem; de escritor e psicanalista; de artista gráfico e poeta; amante e amado da querida companheira de vida e viagens. É prova de vida?– talvez todos os livros materializem a insistência na vida; é prova de vida derradeira, de quem se agarra ao galho frágil sobre o abismo. Nos últimos instantes, o que sobra de nós? Um sopro, um gemido ou o testamento de bens? O que deixar para quem?

Anotando a China é o testamento de Herrmann. É ontos, ente, ser. É relato de viagem, psicanálise, poesia, grafismo, notas, pensamentos bem-acabados, rabiscos de ideias e despedida. Ultrapassa gêneros. Híbrido que faz do leitor testemunha da vida, do homem, psicanalista e escritor. Do artista que deseja com volúpia engolir o mundo num único trago e devolvê-lo aos que aqui ainda permanecem. O livro é formado por deliciosas sandices, olhar inteligente, cultura clássica, preciosidades genéricas e gostos variados. Chistes e versos. Textos e grafismos. Apresenta a China e o Japão vistos por Herrmann. Tem caráter absolutamente pessoal, embora não seja apenas pessoal. Traz pensamentos psicanalíticos sobre o Oriente e pensamentos à toa, recolhidos com originalidade. Há imagens, poemas, histórias. Discorre sobre e fala do mundo, no entanto, logo se percebe que o livro é o próprio escritor. Ao se apresentar e se oferecer à sociedade como jovem debutante ou rapazinho no barmitzva, Fabio Herrmann vai além. Faz dessa breve e criativa brincadeira o seu legado. Do final, o começo. Nó no tempo, entrelaça nascimento e morte.

Livros sobre psicanálise e contos psicanalíticos não foram suficientes, Fabio precisava mais. Dar mais de si, se dar por inteiro, sem amarras, sem as limitações dos jargões, conceitos e livros de psicanálise, para ir além da própria obra e pensamento psicanalítico. Continuar nos detalhes de sua visão de mundo. Continuar. Não apenas eternizar o pensamento, mas sobreviver a si mesmo. No mais genuíno desejo de eternizar o homem, na vaidade da imortalidade, a morte infiltra-se sorrateira pelo livro. Como aranha, o tece e faz nascer o livro testemunha e testemunho do autor.

Acompanhei como leitora e psicanalista a obra de Fabio Herrmann. Fiz supervisão com ele, grupos de estudos e fui orientanda por ele no mestrado. Apreciava desfrutar de sua companhia e de seu humor. Aprendi com vagar a compreender a importância da Teoria dos Campos para a psicanálise. Alimentei-me dessa fonte e de sua liberdade criativa. Tive a oportunidade de receber de suas mãos o Anotando a China e a missão de editá-lo. Há quase quinze anos atrás fracassei. Mesmo ciente de ter em mãos uma preciosidade, algo ímpar, não logrei obter reconhecimento das qualidades do Anotando da parte dos editores. Escrever essa resenha remove um peso dos ombros, assim como satisfazer o desejo do mestre querido.



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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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