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Resumo
Resenha de Anna Maria M. da Costa, Clinicando. Escrita da clínica psicanalítica, Porto Alegre, Appoa, 2008, 204 p.


Autor(es)
Eva Wongtschowski
é psicóloga, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

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 LEITURA

A escrita da clínica, a clínica da escrita

Clinicando. Escrita da clínica psicanalíti


Writing about practice, the practice of writing
Eva Wongtschowski

Clinicando é resultado de um conjunto de seminários que Ana Costa desenvolveu junto à appoa (Associação Psicanalítica de Porto Alegre), entre os anos de 2003 e 2005. Apresentados mensalmente, foram fruto do reconhecimento da importância do tema para a psicanálise e do seu valor enquanto transmissão.

Organizado em quinze capítulos, o livro é um recorte da sua fala e sua publicação permite à comunidade de analistas retomar os temas tratados, agora pela via do texto escrito. Como seu título indica, trata da clínica, da escrita da clínica, e ainda percorre a teoria lacaniana buscando aqui os fundamentos para pensá-las.

É um texto denso que exige uma leitura cuidadosa e diligente. Durante suas elaborações, a autora vai tecendo relações entre os conceitos, o que resulta, muitas vezes, numa trama bastante complexa. Por outro lado, demonstra uma preocupação didática ao retomar alguns deles – tais como letra, borda, traço unário, as diferenças entre letra e significante, entre angústia e gozo, entre fantasia e fantasma – chamando a atenção para os perigos de esvaziamento que seu uso pouco rigoroso aporta, quando deixariam de expressar a riqueza inicial da sua construção.

Há passagens no texto que chegam a ser poéticas; a autora, com relativamente poucas palavras, esclarece questões teóricas importantes. Assim, por exemplo, ao se referir ao jogo corporal – às pulsões que se “agarram” nos mais diferentes símbolos – afirma que só nos tornamos capazes de acolher palavras porque estas vêm carregadas de corpo, explicitando aqui relações entre corpo e linguagem. Em um outro momento, desenvolve o tema da antecipação enquanto elemento necessário para o nascimento do sujeito. Esclarece que o ritmo produzido pela voz (a alternância de vogais e consoantes, seus hiatos) se inscreve corporalmente como condição de antecipação – assim como os movimentos de diferenciação e separação, do que é contínuo e descontínuo, das inscrições produzidas nesse intervalo de presença e ausência. E conclui que continuamos a funcionar assim por toda a vida.

A investigação minuciosa, o ir e vir pelos conceitos, sua retomada por mais de um ângulo, foi o caminho escolhido pela autora para responder perguntas que a escrita da clínica propõe. Por que lemos e relemos os casos clínicos escritos por Freud? Porque se mantêm, até hoje, como referência? De onde tiram sua força? A autora faz uma diferença entre o estudo de caso como simples paráfrase da fala do analisante e a apresentação do caso como construção do psicanalista. Nesta, a transferência produz efeitos de transmissão da experiência clínica, pois aquele que a relata está colocado na mesma posição em jogo do trabalho clínico do qual fala. E é daí que o texto tira toda sua força de transmissão. Essa é a razão pela qual voltamos e voltamos mais uma vez aos textos clínicos de Freud. O testemunho singular da transferência, segundo a autora, é condição, inclusive para o desenvolvimento da própria teoria; uma das razões pelas quais se escreve sobre o caso é a busca pela precisão diagnóstica e conceitual.

Anna Costa lê a história dos textos freudianos tomando esse ponto de vista como fio condutor. Assim, por exemplo, aponta que foi a transferência no trabalho com Dora que possibilitou a Freud concluir seu trabalho sobre os sonhos. O sonho de Freud, da injeção de Irma, constitui-se no primeiro tempo de elaboração do que ficou irrealizado no trabalho clínico. A construção do caso vai se dar pelo que foi impossível de lembrar, daquilo que não se resolveu, o que permaneceu como resistência. Foi justamente a implicação de Freud no atendimento do Homem dos Lobos que lhe tornou possível transmitir seu testemunho.

Retoma o meticuloso trabalho de Jean Allouch sobre o caso Marguerite Jeanne Anzieu, denominado Aimeé por Lacan. A produção do texto lacaniano sobre o atendimento se deu enquanto estava em transferência com a paciente, transferência essa que, segunda a autora, teria tido uma importância fundadora para a psicanálise francesa. Foi nesse ponto que Lacan teria passado da psiquiatria para a psicanálise. Enfatiza o percurso de Allouch quando faz um cruzamento entre o caso de psicose, sua escrita, bem como a história e a transmissão da psicanálise.

Do mesmo modo como Lacan retoma os casos clínicos de Freud, numa tentativa de reconsiderar seus pontos cegos, Allouch empreende a tarefa em relação a Lacan. Ana Costa nos lembra que apesar de Lacan, desde o início de seu trabalho, já ter Freud como referência, tenha precisado realizar seu próprio percurso enquanto psicanalista, isto é, viver a transferência, para produzir sua obra.

Ana Costa se põe na roda ao relatar um caso trabalhado por ela, explicitando os tempos da escrita: o primeiro quando se esquece um acontecimento, tempo em que algo não ficou resolvido, e o segundo quando se vai transpor o que foi vivido na transferência, seus impasses, e transformá- los em transmissão. Teoriza sobre temas bastante complexos, como a construção da imagem, o suporte do corpo, o nome próprio; estabelece diferença entre a identificação sexual e o reconhecimento sexual.

Nosso objetivo ao nomear essa resenha foi ressaltar uma característica que torna Clinicando uma leitura instigante, quando se propõe a pensar a escrita da clínica mas ao mesmo tempo vai pensando na clínica da escrita. Isto é, quais são as circunstâncias, em termos de constituição psíquica, para que a escrita se torne possível. A escrita é considerada no seu sentido mais amplo, não apenas enquanto sua forma alfabética. Por exemplo, o sonho se constitui em uma escrita, a passagem ao ato é uma tentativa, fracassada, mas uma tentativa de escrita. Assim como o que está na inscrição corporal é da ordem da escrita.

A literatura, o cinema, a escrita matemática passam pelas teorizações e esforço de compreensão da autora.

Assim, localiza a escrita de James Joyce como uma escrita sinthomática. A expressão cunhada por Lacan, trabalhada no Seminário 23, teve como origem seu estudo da obra de Joyce que é pensada como um trabalho que permite um suporte para além da fantasia. Isto é, um texto onde o sujeito fica implicado na sua história pessoal, mas cujo destino é a produção de cultura. O que não foi possível para Schreber com o seu o trabalho.

E acrescenta: a expressão sinthoma quando falada em inglês aponta para as palavras ”sin” (pecado) e “home” (casa): em francês, se ouve “saint” (santo)” homme” (homem). Em português poderíamos ouvir “sim”, “toma”; de acordo com um dicionário lisboeta, a palavra designaria um acidente produzido por uma doença do qual se tira uma consequência – sentido que está implícito na ideia de uma produção que, apesar de ligada a questões estritamente pessoais, acaba produzindo laços sociais.

Lol Stein, protagonista do romance O deslumbramento de Marguerite Duras, trabalhado por Lacan, vai proporcionar a Ana Costa elaborações sobre a questão da montagem do número três, a possibilidade de se contar a si próprio, a constituição do olhar, o reconhecimento de si, o nome próprio. É muito interessante como, por meio de uma pequena passagem, a autora vai desdobrando as ideias ali contidas para avançar na teoria.

Quando uma escrita se transforma em literatura? Por que o texto dos casos clínicos de Freud, embora tão ficcionais quanto a literatura, não são considerados como tal? Como diferenciar a obra escrita por um psicótico daquela escrita por um artista? Para responder a essa última questão, Ana Costa lança mão da noção de endereçamento, isto é, a suposição de uma comunidade de transferências.

Recorremos à definição que a artista plástica Ana Maria Maiolino faz de endereçamento: “a obra de arte só existe quando é vista, quando tem o outro, o espectador. Se ninguém a conhece, se ela não se comunica, perde sua função primeira, que é a função social”. A comunidade de transferências tem uma função social.

A questão do estilo, tema caro à literatura, é analisada por Ana Costa por meio dos heterônimos de Fernando Pessoa. Sugere que ele tenha buscado a inscrição de um traço singular, a produção de um nome não submetido à ordem da família. O tema da família é retomado ao se perguntar por que alguns autores escrevem em outra língua que não a materna. Refere-se a Nabokov. É um tema fértil. Luis Fernando Veríssimo sugere que Nabokov usou a língua inglesa do modo como o fez, “até beirar o preciosismo”, justamente por ter entrado em contato com ela em idade adulta e assim ter podido explorar suas possibilidades. Kafka escrevia em alemão, embora sua língua materna fosse o tcheco. Veríssimo usa a expressão “exílio em outra língua” para assinalar o fato e lembra que Kafka alude ao “estranhamento” quando se refere à língua materna. Lembra de Joseph Conrad, polonês que adotou o inglês, e nesse idioma se tornou grande estilista. Samuel Beckett, irlandês, escrevia em francês. Veríssimo propõe que ele teria usado a linguagem como um jogo, “com um máximo de liberdade e experimentação permitido longe da mãe”. Os pontos de vista de Ana Costa e Veríssimo se encontram.

A escrita e o inconsciente são indissociáveis, diz Ana Costa. Ao citar a literatura libertina, exemplificada por Sade e pela bailarina clássica Bentley, vai examinar a relação entre escrita e gozo, escrita e compulsão à repetição, sugerindo que o esforço da escrita é uma tentativa de inscrição em outra ordem que não a corporal. É uma criação que tenta dar consistência a algo que não existe, e seu fundamento está ligado à ideia contida na afirmação de que “não há relação sexual”, ou naquilo que a “cena primária” indica, falando freudianamente.

Por outro lado, a autora entra no universo do texto matemático e conclui que toda escrita é derivada da escrita do corpo, portanto da escrita do fantasma. Faz equivaler a escrita das fórmulas matemáticas às da dramaturgia, indicando que os avanços tecnológicos se deram primeiro ao escrever e só num segundo momento foram testadas, ou reverteram em produções de objetos. “Mas”, conclui, “no fim das contas, ao ponto a partir do qual cada escrita é construída, nunca se chega. O primário é sempre mítico. Como dizia Einstein, no fim das contas, se chega a Deus”.

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