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Resumo
Resenha de Ana Lúcia MacDowell Gonçalves, O pioneiro esquecido: Freud e as ciências cognitivas, São Paulo, Annablume, 2004, 130 p.


Autor(es)
Alcimar Alves de Souza Lima
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

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 LEITURA

Contribuições freudianas às ciências cognitivas

O pioneiro esquecido: Freud e as ciências cognitivas


Freudian contrubutions on Cognitive Sciences
Alcimar Alves de Souza Lima

Qual a importância de Freud para a cultura contemporânea? Muitos acreditam que ele seja um autor superado, pautados na crença de que estamos em pleno século xxi e que o mundo de realidade virtual é um marco novo na história da humanidade. Freud seria mais um autor do século xix, voltado para um mundo que não existe mais; Freud é um ancestral ilustre das ciências cognitivas? (p. 11).

Assim começa a apresentação feita por Leny Mrech ao livro de Ana Lúcia MacDowell Gonçalves, livro que considero uma possibilidade de situar Freud no universo das ciências que cunharam os últimos dez anos do século xx como a “década da mente”.

Nesse sentido, a autora aponta com paciência e rigor os fundamentos desse saber nos meandros da constituição do pensamento psicanalítico. Freud pensou a construção de um aparelho psíquico, fundamentou-o topologicamente, analisou sua economia e dinâmica como um todo e, através de sua autoanálise e da observação de sua clínica, fundou os alicerces de um novo conhecimento. “Com uma prática alicerçada numa teoria já centenária, pioneira e ousada, cujo fundador teve um sólido e respeitável percurso e seus discípulos continuaram nessa tradição de pesquisar e acrescentar conhecimentos que se mostraram fecundos na compreensão, no tratamento e na prevenção dos distúrbios da mente, os psicanalistas teriam uma contribuição pertinente entre estes outros cientistas” (p. 17).

Contribuição esta que não foi levada em consideração pelos cientistas cognitivistas, que não lhe deram o crédito devido, já que muitos dos conceitos por eles desenvolvidos estavam contidos na obra de Freud de forma embrionária em seus textos produzidos na década de noventa do século xix.

Em sua leitura do “Projeto para uma psicologia científica”, de 1893, MacDowell focaliza sua atualidade: “o que importa é apontar sua modernidade em termos de modelo: não apenas preconiza a existência de redes neurais como supõe um psiquismo que se constitui através de etapas sucessivas, a partir de seu uso, e da força das redes que se formam, privilegiando as que têm mais ‘peso’ – dado entre outros fatores, pela repetição e pela diferenciação” (p. 64). A natureza da modernidade de Freud, segundo a autora, começa a partir de sua ruptura com os modelos de sua época – a busca das regiões cerebrais anatômicas – e seu direcionamento para o modelo de rede neural – absolutamente atual. Mas não para aí: em 1900, em sua “Interpretação dos sonhos”, dá outro salto: introduz, tirado da ótica, o modelo do virtual; do efeito constituído por uma série de informações distantes entre si mas que se unem numa configuração, não neural mas virtual, que se ancora na linguagem, mais especificamente, no simbolismo dos significados ligados entre si por associações. Na atualidade, com a internet, não é difícil pensar essa questão da não materialidade, das redes virtuais. Essa concepção de Freud abre caminho para se pensar a associação livre de ideias, fundamental para a formação das configurações de nossa subjetividade. A ideia de redes articuladas, tanto na subjetividade quanto na cultura, nos leva a pensar o movimento, um mundo perene em transformação construindo-se e desconstruindo-se. É trazendo o conceito de rede que MacDowell diz que: “Atualmente, com o advento das tecnologias de imagens computadorizadas de alta definição e em tempo real, o conceito de redes neurais como base de funcionamento cerebral é indiscutível” (p. 57). Trazendo esse pensamento ao psicanalítico, ela faz a reflexão bem humorada de Glymour: “Uma grande parte da ciência cognitiva contemporânea é essencialmente o que se poderia esperar se Freud tivesse um computador” (p. 58).

Podemos pensar que o estudo das funções cerebrais em si levará a um ponto onde os cientistas cognitivos precisarão dos psicanalistas. Leny Mrech, ao escrever a introdução, é aguda em suas observações:

A presença do cérebro não garante as respostas do sujeito. Para isso é necessária a presença do outro. A interação estabelecida entre o sujeito e o outro. O sujeito encontra suas determinações no outro. É na relação que o circuito cerebral se tece. Quando se privilegia apenas o cérebro e suas funções, este aspecto relacional fica perdido. Retira-se a vida do cérebro. Fica-se com o cérebro morto a ser dissecado. A importância de Freud se encontra em que ele vivifica o cérebro através da pulsão. Vivifica mas não o entifica (p. 12).

Assim, qual a contribuição que a psicanálise pode dar às ciências cognitivas? Fazer com que elas saiam de uma perspectiva entificadora relacionada às suas próprias descobertas. Uma entificação que paralisa os seus processos de investigação, naquilo que escapa a cada vez que acredita ter descoberto “a coisa”, dando-lhe o nome de mente.

O que todo psicanalista sabe é que o cérebro em si não garante a constituição de um sujeito, para isso é necessária a presença de um outro. Na ciência positivista, toda a base conceitual era voltada para a observação pura em que o objeto pudesse ser observado sem ser contaminado pelo olhar do observador. Antes mesmo do surgimento da física quântica, a psicanálise como pioneira já deixava claro que o observador e o observado faziam parte do mesmo jogo. Freud observou e demonstrou que uma subjetividade se constitui através da relação com o outro, instituição essa sempre orquestrada pela linguagem. O sujeito é fruto de relações transgeracionais, infantis e atuais.

Mais para o final do livro a autora traça paralelos entre a psicanálise e as ciências cognitivas em que encontra muitas similaridades. Com consistência, analisa as concepções de Freud e de Antonio Damásio, neurologista expoente das ciências cognitivas. Um aspecto que Ana Lúcia ressalta é como nas ciências cognitivas a aquisição do verbal parece ser algo automático:

O que surpreende é o salto que se dá de uma total “ausência” de linguagem passa-se para uma “imediata” ação verbal; […] ser capaz de linguagem não significa que sua aquisição seja “automática”, muito pelo contrário, e esse é um dos aspectos que a psicanálise mais estudou: as relações que constituem o ser humano enquanto ser de linguagem, ou como o chama Lacan, o parlêtre, sobretudo levando em consideração que sem a linguagem, lato sensu, ele não é ser (p. 99).

Mas não existe nenhum automatismo nem algo filogeneticamente herdado na aquisição da linguagem, e sim um longo processo de relação do infans com o outro, aspecto este jamais marcado pelos autores das ciências cognitivas como sendo relevante.
Como ressalta Leny,

O futuro da ilusão de uma manipulação de cérebro, do sujeito, será sempre uma desilusão. Porque há falta, o furo no real, como revela Lacan. A linguagem e o real, ao se cruzarem, delineiam apenas o furo, isto é, aquilo que a linguagem não consegue tecer. A contribuição maior que a Psicanálise pode trazer às ciências cognitivas é revelar a importância do sujeito como um fator determinante na própria construção da mente humana. […] A Psicanálise pode propiciar às ciências cognitivas uma ética. Uma ética pautada no sujeito, no inconsciente e no real (p. 12).

Mais além da mente está o real. O livro de Ana Lúcia sinaliza caminhos, propõe roteiros. Um trajeto importante. Uma passagem da mente para o sujeito, o inconsciente e o real.

Acredito que o centro deste livro é a atualidade dos conceitos psicanalíticos, que hoje se entrelaçam com diversas áreas do conhecimento. Os psicanalistas devem estar abertos a todas as correntes de pensamento, para nutrir a evolução da psicanálise e também fornecer elementos para o desenvolvimento de outros saberes. Se a década de noventa, do último século, foi chamada de a década da mente, esperemos que este seja o milênio do psiquismo humano. Do sujeito e do inconsciente. Revelando que mais além da biologia estão a criação, a sexualidade, a pulsão.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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