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Resumo
Resenha de Fátima Flórido Cesar, Asas presas no sótão: psicanálise dos casos intratáveis, Aparecida, sp, Ideias & Letras, 2009, 262 p.


Autor(es)
Tereza Elizete Gonçalves
é psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae, mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, professora e supervisora da Universidade de Taubaté (UNITAU).

Rosemary de Fátima Bulgarão
é psicanalista, membro associado da SBPSP.

Maria Angélica Braga de Oliveira e Alves
é psicanalista, membro associado da SBPSP.


Notas

1 P. Leminsky, “Poesia: a paixão da linguagem”. In: Os sentidos da Paixão, São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p. 283-306.

2 A. Camus (1913-1960), O homem revoltado, Rio de Janeiro, Record, 2005.


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 LEITURA

Por um fio de esperança

Asas presas no sótão: psicanálise dos casos intratáveis


For a thin thread of hope
Tereza Elizete Gonçalves
Rosemary de Fátima Bulgarão
Maria Angélica Braga de Oliveira e Alves

De um extenso e tenso percurso clínico e teórico resultou, poeticamente, cada página deste livro que se propõe a tecer considerações sobre a clínica dos pacientes “intratáveis”, ou da clínica dos excessos (de ausência ou de presença), como facilmente podemos nomeá-la.

Se, em tempos idos, Freud retirou as neuroses do campo do incompreensível para a medicina da época, e se coube a Melanie Klein ampliar a abordagem terapêutica dos pacientes psicóticos, restanos, analistas pós-modernos que somos, tentar compreender e propor formas de tratamento para os pacientes que hoje são considerados intratáveis.

São pacientes em que a mudança não é possível por meio de interpretações ou insights e onde há um predomínio de comunicação via enactments. Esbarramos nos quadros borderlines, nas organizações patológicas da personalidade que exigem esforços do psicanalista para desbravar caminhos de compreensão e interação.

Essa é a proposta do livro da Fátima Flórido Cesar: Asas presas no sótão: psicanálise dos casos intratáveis. É uma obra que nos permite percorrer veredas abertas desde seus estudos anteriores sobre a elasticidade da técnica psicanalítica.

Ai daqueles iniciantes no atendimento desse tipo de sofrimento, ou dos mais desavisados em busca de roteiros de recomendações ou assertivas para tratar destes sujeitos tecidos à revelia da amorosidade e que só alcançaram a necessária coesão do self através do ódio. Um ódio furioso/ amoroso que garante a ligação com os objetos internos ou externos, e que só pode se expressar pelo negativo, como apregoa a autora.

Somos brindados, logo de início, com uma rica e bem articulada relação de autores que também depararam com esse tipo de desafio clínico, tais como: Mannoni, Penot, Pontalis, Bollas, Green, Searles, Figueiredo e, especialmente, Winnicott, além do resgate da tradição kleiniana no estudo da reação terapêutica negativa, percorrendo Joan Riviere e Betty Joseph. Esses pensadores construíram possibilidades de compreender algo dessa difícil condição humana.

Fátima Flórido Cesar vai mais além e nos propõe uma questão paradoxal: como tratar de pacientes que nos procuram em sofrimento, mas cujo sofrimento resiste, insiste e investe contra a cura analítica? Como reconhecer e acolher o ausente, assentir com os processos de negativação sem abortar o modus operandi do paciente que, ao abolir todas as formas de ligação, ainda está lá, à (des)espera por alguém?

É na medida em que a pesquisa da autora avança e se aprofunda que surge uma compreensão desse posicionamento – nesses pacientes a cura parece ameaçar, em sua essência, não a um prazer substituto ou a um ganho secundário (neurose) e sim a algo da identidade, reverenciado como o que de mais verdadeiro e derradeiro há em si mesmo.

As vinhetas clínicas utilizadas pela autora são pródigas em demonstrar a lógica de sobrevivência pelo Não. Os polos de reação negativa obstruem ao mesmo tempo que sediam a afirmação pela vida: “reajo, logo existo” é o imperativo dos pacientes que assim ganha voz.

No ambiente pós-moderno, a constatação de problemas de identidade torna-se evidente. Apelos de viver ou morrer, se for necessário, aferrados à não mudança.

Recuados a uma queixa-ladainha repetida feito um bordão identitário, esses pacientes cumprem uma tragédia anunciada da qual nem sempre é possível sequestrar uma parte para construir um drama analisável.

Ao analista pós-moderno resta, portanto, tolerar e sobreviver ao tédio e à falta de sentido na vida que emana de forma insidiosa e violenta no percurso dessas análises. Impregnado desses afetos, cabe recolher pequenos fragmentos da história afetiva e conectá-los, tentar criar uma narrativa que desvele aquilo que, por não ter inscrição na mente, marcou-se como que por ferro em brasa no corpo do destino, feito bordão, ao qual faltou a música e o restante da letra.

A autora nos recomenda cautela e respeito às muralhas de apatia e ao descrédito/desesperança que alicerçam essas análises. É embarcando na consciência de nossa falibilidade na função de analista, sem ânsia de curá-los, de demovê-los ou ainda de lhes impor um trabalho de luto e nos cosendo para dentro e para fora – como disse Clarice Lispector – que encontramos alguma possibilidade de estar junto do intratável. Nessa visão de um psiquismo que se estruturou em torno da negatividade, Fátima Flórido Cesar chegou a uma elaboração pessoal sobre o negativo patológico dos pacientes que quase não se deixam tratar: – o Não enunciado é uma reação. Vale citá-la literalmente:

“Não” ao desejo do outro, pelo terror de captura do desejo do outro, inclusive do analista (em contrapartida, podemos pensar em uma rendição do sujeito ao seu próprio não desejo).
• “Não” à análise e ao analista. Necessidade de se aproximar da construção de si pelo terror de delegar ao outro o cuidado e repetir a subjugação, o assassinato psíquico.
• “Não“ à própria cura. Não há como curar-se sem curar a “mãe enlouquecida dentro de si”.
• A partir daqui o “não”, a reação, define-se e ganha força obstinada porque se firma de uma vez por todas como luta dentro do campo das relações objetais.
• O “não” é recusa a perder o objeto e ser perdedor.
• O “não” é “não” à separação.
• O mau objeto é garantia de possessão recíproca. O ódio assegura um pacto eterno. Existe uma dimensão de luta obstinada por não perder, e de não ser perdedor; porque outrora este outro fora e é predador, latifundiário de suas parcas terras em constante desapropriação; proprietário que arbitra leis e despeja seu inquilino na imprevisão das horas. (p. 72).

Se ao longo do trabalho de Fátima Flórido Cesar deparamos com um vasto e rico recurso literário e poético, isso se deve não somente por sua afinidade com a linguagem poética ou por essa linguagem lhe proporcionar um método figurativo. Trata-se, isso sim, de uma exigência do seu pensamento enquanto psicanalista. Os poetas que a acompanham, mesclados aos psicanalistas célebres, são imprescindíveis na medida mesma em que tanto a autora como os poetas são vítimas e algozes da linguagem, como muito bem apontou P. Leminsky [1].

É nesse território que poderá ou não se dar a análise. Se ao paciente cabe falar, ao analista cabe narrar, pois o falar repara e o narrar constrói. Mesmo que de início construa apenas uma ferida, na esperança de que, como pensou Camus, “a ferida que se coça com tanta solicitude acaba dando prazer” [2].

E, se como nos ensina a autora – o não engendra um sim – podemos nos alinhar novamente com Camus, e agora também com Melville, escritor por ela citado, e considerar o paciente intratável da psicanálise como um análogo tanto do homem revoltado – esse homem que diz não, que recusa, mas não renuncia e que é, portanto, um homem que também, desde seu primeiro movimento, diz sim – como do personagem literário tão ao gosto de Fátima Flórido Cesar, o Bartleby, imerso em sua fala renitente: “Prefiro, não”.

O paciente intratável da psicanálise – aquele que recusa a cura, mas procura análise – encontra-se com o homem revoltado de Camus, aquele que sempre diz não, que recusa, mas não renuncia, e ainda com Bartleby e seu enigmático não.

Propomos essa analogia que nos permite, por fim, lançar uma pergunta: é o homem revoltado o paradigma do paciente pós-moderno que, do divã do analista, migrou para as páginas desse delicado e poético livro?

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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