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Resumo
Este artigo procura delinear e discutir metapsicologicamente os principais traços da histeria e da posição feminina. Busca também apontar a especificidade e contemporaneidade do sofrimento histérico, bem como indicar algumas aberturas para a clínica psicanalítica.


Palavras-chave
psicopatologia; histeria; feminino; sofrimento; amor.


Autor(es)
Adriana Campos de Cerqueira Leite
é psicanalista, psicóloga clínica, doutora em Psicanálise e Psicopatologia Fundamental pela Universidade de Paris VII, doutora em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).


Notas

1 C. Buarque, “Soneto”, in A. B. Menezes, Figuras do feminino na canção de Chico Buarque, p. 147.

2 A. C. Cerqueira Leite. Em busca do sofrimento histérico. A histeria e o paradigma da melancolia. Tese de doutoramento defendida na Universidade Estadual de Campinas na Faculdade de Ciências Médicas e na Universidade de Paris VII no Laboratório de psicanálise e psicopatologia fundamental. Sob orientação do Prof. Dr. Mário Eduardo costa Pereira e do Prof. Dr. Pierre Fedida. Campinas, Brasil – Paris, França, 2002.

3 C. Lispector (1969), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, p. 155.

4 C. Soller, “A histérica e A Mulher: clínica diferencial”, p. 243.

5 C. Lispector, op. cit., p. 80.

6 C. Lispector, op. cit., p. 146.

7 C. Lispector, op. cit., p. 41.

8 C. Soller, op. cit., p. 243.

9 C. Soller, op. cit., p. 243.

10 C. Soller, op. cit., p. 245-247.

11 Conto de Willian Jensen que Freud analisa visando ao esclarecimento de alguns aspectos do processo de cura analítica e da transferência. S. Freud, (1907 [1906]), “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen”.

12 M.-C. Boons, “A propósito da estrutura histérica”, p. 105.

13 M.-C. Boons, op. cit., p. 106.

14 S. Freud (1905 [1901]), “Fragmento da análise de um caso de histeria”.

15 L. Israël, L’hystérique, le sexe et le médecin, p. 94.

16 C. Lispector, op. cit., p. 134.

17 C. Lispector, op. cit., p. 61.

18 M. Khan, “O rancor da histérica”.

19 M. Khan, op. cit.

20 M. Khan, op. cit., p. 50-51.

21 D. Winnicott, (1956), “A tendência antissocial”, p. 130.

22 M. Khan, op. cit., p. 57.

23 J. Dor, Estruturas e clínica psicanalítica, p. 67.

24 J. Dor, op. cit., p. 75.

25 C. Soller, op. cit., p. 247.

26 J. Riviére (1929), ”La féminité em tant que mascarade”, p. 197-214.

27 C. Soller, op. cit., p. 249.

28 P. Aulagnier, “Observações sobre a feminidade e suas transformações”, p. 91.

29 C. Lispector, op. cit., p.132.

30 P. Aulagnier, op. cit., p. 90.

31 C. Bollas, Hysteria, p. 40.

32 P. Bowles, O céu que nos protege.

33 Expressão de uma de nossas pacientes. Cf. A. C. de Cerqueira Leite, “Em busca do sofrimento histérico: a dimensão melancólica da histeria”.

34 J.-B. Pontalis, Entre le rêve et la douleur.

35 C. Lispector, op. cit., p. 151.



Referências bibliográficas

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Cerqueira Leite A. C. (1999). Em busca do sofrimento histérico: a dimensão melancólica da histeria. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamenta, vol. ii, n. 1, mar. p.71-89.

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Israël L. (1976). L’hystérique, le sexe et le médicin. 10. ed. Paris: Masson.

Khan M. (1997). O rancor da histérica. In M. T. Berlinck (org). Histeria. São Paulo: Escuta. Coleção Biblioteca de Psicopatologia Fundamental, p. 49-60.

Lispector C. (1969/1998). Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco.

Menezes A. B. (2000). Figuras do feminino na canção de Chico Buarque. São Paulo: Ateliê/Boitempo.

Pontalis J-B. (1977). Sur la douleur (psychique). In Entre le rêve et la douleur. Saint-Amand, França: Gallimard.

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Soller C. (1998). A histérica e A Mulher: clínica diferencial. In Psicanálise na civilização. Rio de janeiro: Contra Capa Livraria.

Winnicott D. (1956/1987). A tendência antissocial. In Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes.





Abstract
This paper presents a metapsychological discussion of the main traits of hysteria and of the feminine position. In our era both present specific aspects; this fact opens some new perspectives for Psychoalalysis


Keywords
psychopathology; hysteria; feminine; suffering; love.

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 TEXTO

A histeria do amor

The histery of love
Adriana Campos de Cerqueira Leite


Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono?

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo?

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu portão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio? [1]

Não se render a nenhuma experiência de prazer com o outro é o preço pago, na histeria, para escapar da vivência traumática de sua incompletude protegendo sua imagem narcísica fragilmente conquistada. Aquilo que protege a histérica de ser tocada pelo outro é também o que provoca sua dor. Dor por não se deixar tocar, não no seu sexo mas no seu ser; dor pela incapacidade de amar outro. A histérica só conhece o frio do amor narcísico [2].

Clarice Lispector, através de Lóri e Ulisses, narra a preparação para um encontro. Lóri pressentia que esse encontro amoroso só poderia acontecer quando “… ser não fosse mais uma dor…”, só então “Ulisses a consideraria pronta para dormir com ele?”. Do caminho para esse encontro ou, nós diríamos, do rumo ao feminino é que o Livro dos prazeres nos fala. Sabemos que, determinada pela necessidade de mascarar a falta, a histérica aliena-se ao desejo do Outro, tentando ser o falo, aquilo que falta ao Outro, ela quer ser tudo no campo do desejo e do amor para o Outro, menos o objeto de seu gozo. Assim, mascarando a castração do Outro, a histérica mascara a castração em si mesma, encontrando um modo de ser, ainda que seja um ser um pouco manco, na falta de um modo de ser feminino. Manco como Lóri, personagem de Clarice Lispector em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres [3]. No início da travessia, Lóri decide não ir a um encontro marcado com Ulisses, mas, contrariando seu hábito, desta vez irá preveni-lo de sua ausência, não o deixará a sua espera. Ela quer poder fazer uma “ofensa mais positiva” ou ativa. Atividade que a protegeria de seu temor maior: o da passividade, da entrega absoluta ao Outro, ou ao gozo do Outro, do qual ela seria apenas um objeto.

Definindo uma clínica diferencial entre a histérica e a mulher, Colette Soller [4] diz que a histérica, assim como Lóri, quer ser; enquanto a mulher quer gozar e goza da posição de objeto, sim, mas objeto na relação sexual. A histérica não pode entrar e sair desta posição. Ela teme, caso se ofereça como objeto, não poder mais libertar-se e perder-se como sujeito. Ela não conhece o ritmo e se apavora.

Lóri, em um momento já avançado de sua aprendizagem, vai à praia de madrugada e mergulha no mar. “Era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. […] Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão, pois já conhece e já tem um ritmo de vida no mar. Ela é a amante que não teme pois sabe que terá tudo de novo” [5].

Representante das histéricas do século xx, Lóri não tinha uma inibição sexual. A sexualidade não lhe trazia problemas, já tinha tido cinco amantes, embora se comportasse com Ulisses como se fosse virgem. “Amantes”, nas palavras de Ulisses, pois ela não os considerava amantes, não os tinha amado. Agora ela preferia o “sofrimento legítimo” ao “prazer forçado”. Quando Ulisses lhe pergunta como é que ela se dava com o sexo ela responde, despertando sua ira: “Era a única coisa em que eu dava certo” [6].

Ela sabia que queria dormir com Ulisses, isso talvez fosse uma das poucas coisas que sabia, “no entanto era o seu pavor de uma possível intimidade de alma com Ulisses o que a deixava irritada com ele” [7].

A posição histérica pode ser definida, segundo Soller, por “gozar de abster-se ali onde se é chamado como objeto de gozo” [8]. Não satisfazer o gozo do Outro dá à histérica um “a mais de ser” [9]. Assim ela sustenta seu narcisismo fálico.

Falamos então, ao falar da histeria, de uma das saídas para a dificuldade do ser feminino ou para a dificuldade da mulher em subjetivar-se a partir de uma ausência, a ausência de um significante que possa dizê-la totalmente. Querer dizer algo completamente é a impossibilidade engendrada desde sempre pela linguagem, pela castração simbólica. A histérica, entretanto, não cessa de querer alguém que lhe diga o que ela é. Ela demanda um saber, e, na tentativa de convocar um saber no Outro sobre seu ser de mulher, produz um saber sobre o objeto causa de desejo do Outro, não o seu próprio [10]. Como uma criança que em determinada fase nos pergunta: – “Qual você prefere? Não vale dizer os dois. Tem que escolher”. Se, no caso da criança, lhe damos uma resposta ela provavelmente virá com outra pergunta até o momento profundamente decepcionante em que, não raramente irritada, a criança depara com a impossibilidade de o adulto responder a uma de suas perguntas. É como se o adulto lhe negasse um saber que ela supõe, entretanto, que ele tenha. Um saber sobre ela, sobre seu ser.

A mesma situação é frequente na clínica. Uma de nossas pacientes dizia: “Tudo seria tão mais fácil se você dissesse tudo o que de verdade pensa sobre mim”. Evidencia-se aí a conhecida facilidade da histérica em estabelecer transferência ou, como disse Lacan, em supor um saber no outro. O risco maior no tratamento de um caso de histeria também está aí, naquilo que é sua característica mais marcante: o analista, seduzido, vir a ocupar o lugar do mestre, daquele que sabe algo da verdade do paciente, o que inevitavelmente conduzirá à decepção. “Você, daí da sua vidinha organizada, não pode mesmo saber nada sobre a minha dor. Não adianta.” Era o que dizia outra paciente, decepcionada com o que ela percebia como uma falha da analista. “Nem você me compreende.”

Lóri, assim como Norbert na Gradiva de Jensen [11], tem a chance de ter alguém que a ame e quer esperar.

Ulisses pôde esperar por Lóri até que ela não mais se apavorasse em sentir-se ausente de si mesma, para depois reencontrar-se.

Mas o que, afinal, o histérico teme perder? Sua imagem narcísica fragilmente constituída, é a resposta. Desfazendo-se essa imagem, o histérico corre o risco de perder-se no real do corpo, o corpo orgânico. Aquele corpo esfacelado da criança antes que ela apreenda, no espelho, uma primeira imagem corporal unificada. Ele teme que as coisas percam o sentido.

A fragilidade na identificação imaginária revela uma carência no nível da identificação simbólica [12], ou seja, do olhar do Outro que o reconhece, o nomeia e, sobretudo, o ama.

Continua suspensa a questão sobre o que haveria falhado na constituição psíquica do histérico. Fala-se, desde Freud com Dora, de uma insuficiência paterna.

Nesse contexto estrutural, diz Boons, podese dizer que o pai da histérica seduziu sua filha mesmo que não a tenha tocado; prendeu-a a si “encerrando-a numa identificação fálica que tem o objetivo de completá-lo” [13].

O pai/mestre que a histérica procura num homem a quem possa servir é o pai imaginário que por sua insuficiência não pôde oferecer à sua filha outra identificação senão a fálica. As falhas do pai são ressentidas pela filha, mas essas falhas são também, e mais frequentemente, identificadas na relação do casal parental. A mãe do histérico tem em geral o papel de vítima. É da mãe que viria o sentimento da insuficiência paterna. Uma das saídas da histeria e particularmente da histeria feminina é mascarar a falta no pai e decretar que o problema está na mãe, que não é a mulher de quem o pai precisa. A partir daí ela buscaria, incessantemente, descobrir o que uma mulher deve ser para preencher a falta do pai. Missão impossível e cheia de riscos para aqueles que nela se arriscam.

Aos olhos de uma de nossas pacientes, os homens que estavam com outras mulheres tornavam- se mais interessantes. Era como se isso garantisse que eles tinham algo a lhe oferecer. Algo de que outra mulher se beneficiava e que os tornava interessante aos seus olhos. Nessa situação, típica da histeria, trata-se mais de uma identificação com outra mulher do que propriamente de um desejo pelo parceiro do sexo oposto. Como Dora, que mantinha um vivo interesse por aquilo que interessava a Sra. K. e que perde, subitamente, o interesse pelo Sr. K quando este lhe diz não se interessar pela esposa. Era justamente a ligação do casal que sustentava o seu interesse por ele [14].

Falta-nos situar a mãe nessa constelação imaginária da histeria. Ela é aquela que encarna o grande Outro e que, através de sua presença e ausências bem dosadas, sustenta a criança na construção da base para as primeiras simbolizações. A mãe suficientemente boa, com seus cuidados e seu amor, suportando as primeiras frustrações de seu bebê, possibilita à criança a transição entre a vivência de um período de ilusão e onipotência e a desilusão necessária à constituição do eu.

As ausências maternas remetem a criança a um terceiro, o pai. Portanto, a possibilidade de simbolização dessa ausência está diretamente ligada à capacidade da criança de supor o desejo da mãe voltado a um outro. Pois bem, a mãe da histérica, denunciando a insuficiência paterna, torna essa operação mais complexa. Ela é, nessa constelação estrutural que tentamos delinear, a mãevítima que tentará obter de seus filhos aquilo que não encontrou em um homem [15].

A dificuldade para a histérica é situar-se diante das queixas maternas vendo-se, aí também, encerrada em uma identificação fálica.

O pai pode até ser admitido como aquele que tem o falo, aquilo que mobiliza o desejo da mãe, mas a histérica sente que o pai só o tem por dele ter privado a mãe. A histérica restitui assim a possibilidade da mãe fálica e, consequentemente, a possibilidade de uma ligação intensa com a mãe a partir de uma identificação com o falo da mãe. Essa saída, entretanto, não é absolutamente confortável. Lembremo-nos de que o eu é ameaçado de dissolução nessa ligação absoluta com o Outro ou ainda quando se faz objeto do gozo do Outro. Essa ligação é desejada e temida ao mesmo tempo.

Resta à histérica desejar que seu desejo permaneça insatisfeito, guardando assim um ideal fálico ou sua frágil identificação fálica com aquele objeto do qual se sente privada. Essa seria a forma encontrada para não se dar conta da incompletude, da fragilidade narcísica mantendo o que se chama de narcisismo fálico. No lugar do desejo há o ideal.

Se ela imagina que o outro é alguém que pode satisfazê-la, isso a apavora; ela estaria, desse modo, assinando sua rendição ao objeto. Lóri preferia que o estado de graça durasse poucos momentos; do contrário ela temia que suas ambições infantis a levassem a “querer entrar nos mistérios da natureza”. O gozo fálico funciona como proteção contra a natureza ou contra o real. “Havia experimentado alguma coisa que parecia redimir a condição humana, embora ao mesmo tempo ficassem acentuados os estreitos limites dessa condição” [16].

Encontrar uma testemunha do seu ser é o seu desejo. Lóri teme, contudo, que para isso seja preciso dar-se e não só “dar” seu sexo – isso não lhe seria penoso – mas dar-se inteira.

Ela “sabia que teria que dar a alguém o que ela era, senão o que faria de si? Como morrer antes de dar-se, mesmo em silêncio? Porque no darse teria enfim uma testemunha de si própria” [17].

O temor histérico, estar entregue ao outro, é atuado através de seu corpo preservando intacto seu psiquismo. Ela parece oferecer-se ao outro mas, de fato, tudo o que entrega é seu corpo.

Mantendo seu funcionamento, tal como o compreendemos aqui, a histérica chega frequentemente aos consultórios profundamente ferida, ressentida e em um grave estado de privação fruto da dificuldade que tem em fazer-se entender. Seu idioma lembra uma língua morta, “um romance antigo” – como na poesia de Chico Buarque que abre este artigo – cuja compreensão exigirá muito trabalho do analista.

É desse ressentimento que Khan nos fala em seu artigo “O rancor da histérica”, iluminando outro caminho para compreender o apelo do histérico ao outro. Ele convoca o outro a atuar num roteiro escrito por ele, transformando a temida dependência do objeto na conhecida manipulação histérica [18].

O medo maior da histeria é da rendição psíquica ao objeto. Utilizando-se do conceito de tendência antissocial de Winnicott, Khan nos oferece uma valiosa contribuição para a compreensão da histeria [19].

À descoberta freudiana sobre os sintomas histéricos como símbolos de desejos recalcados inconscientes provenientes da sexualidade infantil, Winnicott trouxe sua contribuição que, de nosso ponto de vista, a complementa. Do sistema de desejos inconscientes, o isso, Winnicott distinguia o sistema de necessidades inconscientes, o eu. Esse sistema de necessidades inconscientes depende, até poder alcançar alguma autonomia, de uma facilitação do ambiente, da maternagem suficientemente boa que permitirá, aos poucos, a integração das capacidades ainda incipientes do eu da criança.

A hipótese de Khan é de que “o histérico, durante os primeiros anos de sua infância, responde às faltas de uma maternagem suficientemente boa com um desenvolvimento sexual precoce… O histérico tenta realizar, ao utilizar os aparelhos sexuais, o que os outros conseguem graças ao funcionamento do eu” [20].

Winnicott vê no complexo de privação, ou seja, nas falhas importantes do ambiente que deveria propiciar a integração do eu, a origem da tendência antissocial. Brevemente, a tendência antissocial seria a forma encontrada por esse eu frágil para conseguir uma intervenção do ambiente. “Um elemento nela (na tendência antissocial) compele o meio ambiente a ser importante” [21].

O histérico, por sua vez, expressaria uma tendência antissocial pelo viés das experiências sexuais. Na histeria, segundo esse ponto de vista, haveria um desenvolvimento precoce da sexualidade camuflando as necessidades desatendidas do eu. Assim como na tendência antissocial, o histérico impele o ambiente a agir sobre ele permanecendo, contudo, “inacessível à mutualidade de um diálogo psíquico e de uma partilha” [22].

Na histeria há frequentemente uma queixa de falta de amor, falta de um olhar amoroso no qual teria sido possível reconhecer-se e constituir uma imagem de si. O histérico sente que foi utilizado como objeto pelo Outro para, em seguida, ser descartado. Não é raro que a queixa histérica seja formulada como uma queixa de traição. Pensamos poder localizar essa traição na perda precoce ou traumática da ilusão e da onipotência infantil.

Uma adolescente queixava-se em sua análise de que não gostava quando sua mãe encontrava um namorado, pois ela esquecia-se dos filhos. “Quando tudo termina, nós (os filhos) voltamos a ser tudo para ela. Mas enquanto ela está com alguém não somos nada.”

O histérico sente como se nunca tivesse sido o objeto ideal do Outro e busca ao longo da vida convencer, aos vários outros que assumirão esse lugar do grande Outro, de que ele pode ser aquilo que imagina ser: o objeto ideal do desejo. Saber o que mobiliza o desejo do outro é a grande ambição do histérico, tornando-se mestre na arte da sedução.

Ele faz de tudo, entretanto, para não ser posto a prova, para manter as ilusões que, ainda que muito úteis, não deixam de ser ilusões e ele sabe disso. Ele não quer jogar de verdade, prefere imaginar uma partida a ter que deparar com a castração. O histérico experimenta uma permanente sensação de que está blefando e de que será convocado, em algum momento, a dar a prova.

Quando o outro já está seduzido perde a graça. Não há nada mais a ser feito. De fato, para o sujeito histérico trata-se principalmente de manter uma identificação imaginária com o objeto fálico mais do que desejar o outro.

Essa reivindicação do ter aparecerá de forma diferente na histeria feminina ou masculina, embora o motor seja o mesmo em ambas [23].

É, pois, na relação com o sexo que se delineia o perfil tipicamente reconhecido como histérico e que as diferenças de manifestação da neurose em homens e mulheres se evidenciam com mais clareza. Na histeria feminina observase uma reivindicação incessante do falo, de que ela se considera injustamente privada, e na histeria masculina há uma necessidade perturbadora de dar provas do atributo fálico [24].

Na histeria, feminina ou masculina, o sujeito busca constituir-se como podendo ser o falo do outro para, como vimos acima, não lidar com a dimensão da falta que, no entanto, é a dimensão que mobiliza a relação com o desejo e com o sexo. Está dada a dificuldade básica do histérico para seus encontros sexuais. A incompletude é essencial ao erotismo, é nela que o sujeito histérico tropeça.

O histérico masculino está sempre atormentado; por um lado porque não se sente como possuidor do falo, o que ele confunde com falta de virilidade e, por outro lado, porque imagina que tem que dar provas da atribuição fálica: guarda, entretanto, fidelidade à mãe fálica que lhe garantiu, em algum momento, ser ele seu objeto fálico.

A histeria está, então, relacionada com o feminino em homens ou mulheres, ou com a diferença entre os sexos. É ela que o histérico não suporta ver na difícil experiência de entregar-se a um outro, pelo pavor de diluir-se, desaparecer como sujeito, transformando-se em mero objeto do gozo do outro. Neste artigo, contudo, privilegiamos a histeria feminina assim como a trajetória da menina para a mulher.

A histérica busca incessantemente uma resposta para a pergunta: O que é ser uma mulher? E, ao mesmo tempo, defende-se pela recusa da feminilidade.

Lóri era uma mulher que procurava, nas palavras dela mesma, “um modo, uma forma”. Mas através do amor de Ulisses e do encontro que eles finalmente podem ter ela alcança algo “muito mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos nem formas”.

Ao falar sobre a importância do amor para a mulher, Colette Soller adverte que ela não tem o mesmo papel para homens e mulheres. Para estas “o amor corrige a castração, ele a cura temporariamente” [25]. Baseando-se na elaboração lacaniana sobre o gozo feminino, Soller afirma que este ultrapassa o sujeito feminino na medida em que não identifica a mulher como mulher. O homem, por outro lado, identifica-se como homem através do gozo fálico, e isso se evidencia não somente no terreno das conquistas sexuais, mas em todos os campos de sua vida: poder do dinheiro, poder profissional, força física e muitas outras conquistas fálicas que o tranquilizam sobre sua masculinidade e, acima de tudo, o marcam como homem.

Com as conquistas femininas das últimas décadas o acesso ao gozo fálico está cada vez mais aberto às mulheres. Já vai longe o tempo de Freud em que restava às mulheres satisfazeremse na maternidade. Entretanto, nem as conquistas no plano profissional, financeiro ou outros nem tampouco a saída da maternidade evocada por Freud solucionam a questão subjetiva da identidade feminina.

Observamos claramente, seja na clínica ou na mídia através de entrevistas das estrelas da televisão, uma mesma queixa: lamentam a falta de amor e frequentemente suspeitam que o seu sucesso em áreas antes reservadas aos homens os afasta delas. Esses indicativos sugerem que a problemática da paciente de Joan Rivière [26] permanece bastante atual. A paciente, a propósito de quem a autora utilizou o termo “mascarada”, gozava de um prestígio profissional raro para uma mulher no fim do século xix. Após suas apresentações públicas era tomada por uma grande angústia ainda que, em geral, obtivesse aprovação evidente da plateia. A forma encontrada pela paciente de Joan Rivière para aliviar essa angústia era, em seguida a uma dessas “demonstrações fálicas”, oferecer-se sexualmente para um homem. A autora e psicanalista interpreta o sintoma de sua paciente da seguinte forma: seu sucesso profissional advinha de uma identificação com o pai, de quem ela sentia ter roubado o falo, portanto, tomada por muita culpa a paciente buscava compensar o pai, através dos homens em geral, devolvendo- lhes a força fálica ao submeter-se a eles como objeto de gozo. Assim, mascarando-se de mulher redimia sua culpa pelo gozo fálico.

O caminho do amor não nos é indicado só por Lóri, personagem de Clarice Lispector; muitos analistas indicam esse caminho para uma identificação feminina. “

Em outras palavras, por falta de poder ser ‘A mulher’, resta às mulheres ao menos serem ‘uma’ mulher. Mas como uma mulher não pode se especificar ‘uma’ por seu gozo, resta-lhe ‘ao menos ser a mulher de um homem’” [27].

Na feminidade normal, segundo Aulagnier, a mulher encontra o investimento narcísico no olhar desejante do homem e, dessa forma, aceita que é na qualidade de “sujeito da falta que ela pode encontrar seu lugar de desejada. A feminidade será não mais o véu enganador ou a arma que ela brande, mas a oferenda, o dom por excelência” [28]. A autora acrescenta que esse dom, substituto da inveja daquilo que ela não tem, só pode sustentarse do amor que ele desperta em troca.

Recorramos a Lóri novamente. Depois do encontro consigo mesma através de Ulisses, não precisa mais perguntar-se sobre quem é, seu “corpo se transformava num dom. E ela sentia que era um dom porque estava experimentando, de uma fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente” [29].

A respeito do conflito entre amor e sexualidade na histeria, Piera Aulagnier [30] propõe que a mulher aposta numa mentira de que só goza por amor pois do contrário deveria assumir sua falta, sua incompletude e desmoronaria toda sua valorização narcísica. É no desejo que vê despertado no homem que estaria, para a mulher, seu investimento narcísico. Na frigidez ou na neurose, o prazer revela para a mulher ter sido simplesmente um instrumento de gozo do parceiro que, então, designar-lhe-ia o lugar do “objeto da ausência”. A saída para não se sentir absolutamente entregue ao desejo do outro seria sacrificar seu próprio prazer, recuperando seu poder. Amor e ódio estariam, então, absolutamente misturados a força ou fraqueza fálica.

Lóri parece ter conseguido apropriar-se de seu sexo e de seu corpo, bem como de suas emoções, e embora temesse acordar como a antiga mulher que era, tinha de algum modo a sensação de que aquela conquista não seria mais perdida; mesmo que perdesse seu amor. A oposição entre amor e sexualidade, típica da histeria, parecia ter sido superada. Bollas vê nessa separação um repúdio do histérico que vê na sexualidade a perda do amor de tipo materno [31].

“Depois que Ulisses fora dela, ser humana parecia-lhe agora a mais acertada forma de ser um animal vivo.”

Clarice Lispector permite-nos, na beleza de seu texto, acompanhar uma travessia da histeria rumo à posição feminina.

A mímica histérica representa o trabalho desenvolvido pela menina ou pela histérica para salvar sua sexualidade de uma repressão total ou do desaparecimento das pulsões. Erotizando tudo, salvo seu sexo, a histérica busca proteger-se da ruptura de sentido produzida pela castração.

Pela falta de se saber, a histérica busca saber o que o outro quer dela, quanto ela vale para o outro. Atribuindo a si própria valores provisórios que ela determina a partir de suas relações de objeto e da imagem de si mesma que o outro reflete, a histérica sempre corre o risco de repentinamente não valer mais nada. Justamente aí identificamos o sofrimento da histeria. Sofrimento que exige, para que nos aproximemos dele, uma referência paradigmática à psicopatologia da melancolia.

A sexualidade consolida-se como um terreno apropriado para essa frágil atribuição de algum valor, um valor fálico que não resolve sua questão sobre a identidade feminina. Ao abandonar a cena histérica em que elementos do mundo externo são utilizados como suporte, o repertório da histeria entra em colapso e, jogando o carretel mas soltando o barbante, a histérica pode encontrar o nada com o qual se identifica. A afirmação crua da castração elimina o campo das ilusões e da esperança presente na histérica, que está sempre relançando seu desejo de desejo. Ela não acredita mais que algo possa completá-la, preencher sua falta, o que a leva a aproximar-se do mecanismo melancólico que afirma a verdade da castração que a histérica procura evitar.

O preço que a histérica paga para escapar da experiência traumática de sua incompletude é não viver nenhuma experiência de prazer com o outro a fim de manter sua imagem narcísica fragilmente conquistada. Aquilo que protege a histérica de ser tocada pelo outro é também o que provoca sua dor. Dor por não se deixar tocar, não no seu sexo mas no seu ser; dor pela incapacidade de amar o outro. A histérica só conhece o amor narcísico.

Como nem todas as histéricas têm a chance de Lóri que se fez acompanhar em sua travessia de Ulisses, um grande amor, resta-nos pensar em como pode se dar essa travessia na análise. A imagem de um deserto nos ajuda e descrever alguns aspectos dessa aventura possível. O deserto, sob “o céu que nos protege” [32], figura um lugar vazio, onde o tempo passa diferente e o viajante que lá se aventura descobre-se também diferente, descobre-se outro. A aventura anunciada traz promessas e riscos. Os riscos apresentamse como miragens para o viajante que, por não suportar o vazio do deserto, insiste em procurar algo por trás delas. Atrás da miragem, assim como atrás do espelho, não há nada.

A miragem ameaça a situação analítica dos dois lados: do lado da histérica que busca assegurar- se de uma imagem de si a qualquer custo, arriscando-se ao nada, e, do lado do analista, que, capturado pelo efeito ofuscante e espetacular de uma miragem que a histérica reflete, não devotará mais sua escuta ao silêncio do vazio, impedindo a constituição do espaço continente, potencialmente criativo onde o jogo, a fantasia e o pensamento são possíveis.

Estar no deserto, que utilizamos aqui como figura do vazio, não é estar no nada, há o “céu que nos protege” do vácuo, do nada. O céu que, como a mãe do bebê, nos dá a ilusão de que há algo que estará sempre lá. No início da travessia do deserto, o céu deve mostrar-se previsível, deixando as grandes tempestades para quando o viajante já se sentir um ser no/do deserto.

A travessia do deserto vazio nos fala ainda do luto da criança e da mãe fálicas preservadas pela incorporação num “cemitério de fantasmas” [33] de onde só podemos falar de morte e não de ausência. Trata-se, segundo Pontalis, de descobrir na análise a morte da qual se é portador, o “trabalho da morte”, através de um “desinvestimento do tempo e investimento da ausência” [34].

O “trabalho da morte” ou a travessia do deserto – promessa de descoberta de um outro de si mesmo para o paciente e para o analista – não pretende reeditar a situação primitiva, mas exige do analista uma posição transferencial específica que supõe ter, ele próprio, feito a travessia do deserto, entrado em contato com sua dor alcançando uma potencialidade criativa.

A experiência do vazio é, finalmente, constituinte da feminilidade, permitindo que a menina, futura mulher, encontre na criação ou no amor algo que diga de si mesma, permitindo-lhe simplesmente ser.

“Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos. A solução para esse absurdo que se chama ‘eu existo’, a solução é amar um outro ser que, este, nós compreendemos que exista” [35].

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