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ÍNDICE TEMÁTICO 
46
A clínica do trauma
ano XXIII - junho de 2011
180 páginas
capa: Patricia Furlong
  
 

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Resumo
Resenha de Cassandra Pereira França (org.), Perversão: As engrenagens da violência sexual infantojuvenil, Rio de Janeiro, Imago, 2010, 184 p.


Autor(es)
Flávio Carvalho Ferraz
é membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e Livre-Docente pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo; autor do livro Normopatia: sobreadaptação e pseudonormalidade (São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002), entre outros.

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 LEITURA

Pesquisa e clínica no campo da violência sexual contra a criança

Perversão: As engrenagens da violência sexual infantojuvenil


- Research and treatment in the area of sexual abuse of children
Flávio Carvalho Ferraz

A universidade pública tem como objetivos o ensino, a pesquisa e a prestação de serviços à comunidade. Um desafio grande para os que nela militam é a conciliação destes três tópicos, de modo que sejam integrados entre si e levados a cabo com qualidade acadêmica e, simultaneamente, em prol do interesse coletivo.

O projeto CAVAS – Crianças e Adolescentes Vítimas de Abuso Sexual – foi implantado no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, no ano de 2004, com a intenção de encarar tal desafio. E a publicação que agora temos em mãos, organizada pela professora Cassandra Pereira França – criadora desse serviço – pode ser tomada como um documento que atesta o sucesso dessa empreitada.

O serviço de atendimento psicológico às vítimas de abuso sexual, conforme se lê na apresentação do livro, partiu tanto de premissas teóricas quanto da demanda que se verificava na clínica da universidade, uma vez que, nos últimos dez anos, foi ficando evidente o aumento da procura dos serviços de atendimento psicológico em virtude desse tipo de abuso. Do ponto de vista teórico- clínico, por sua vez, o abuso sexual contra a criança – particularmente o abuso intrafamiliar, geralmente perpetrado pelo pai ou seu representante – era e vem sendo encarado como uma espécie de violência peculiar, que se diferencia sobremaneira de outros tipos de problemas enfrentados por essa população. Isso porque, em outros tipos de traumas, como a perda de pessoas significativas, o reconhecimento oficial do sofrimento da criança permite que haja um consolo adequado. No caso da violência sexual, ao contrário, pode ocorrer um silenciamento que em nada favorece o processo de elaboração. Além disso, como afirma a organizadora, “a sustentação do funcionamento psíquico fica no limite, pois o incesto afeta o núcleo mais pessoal e básico da identidade, o corpo, e provoca uma devastação psíquica maior ainda porque quebra os vínculos fundamentais para os processos de identificação” (p. 13).

Os casos graves, relacionados ao abuso sexual, passaram a exercer uma pressão sobre a clínica social da universidade, uma vez que exigiam um pronto atendimento, o que, numa clínica pública, significa ter que “furar a fila” de espera. E, como agravante, a clínica não contava com estagiários qualificados para esse tipo de atendimento psicoterapêutico. Foi quando surgiu a ideia de implantar um serviço especializado, que pudesse, concomitantemente, abrigar essa população e aproveitar psicólogos estagiários ávidos por dar início a uma formação clínica. Foi assim que nasceu o cavas, um serviço de atendimento clínico que era também um projeto de extensão universitária.

Como deve acontecer na universidade, a prestação de serviços à comunidade, além de atrelar-se à formação de profissionais, obedece à necessidade de um acúmulo de conhecimentos que venha culminar na produção científica acadêmica. Após estes anos de trabalho, já com uma equipe constituída e com uma produção já atestada – artigos, trabalhos apresentados em reuniões científicas e dissertações de mestrado que refletem a experiência – veio à luz o presente livro, que contempla tanto a área da clínica stricto sensu como a teorização acerca do seu objeto.

A primeira parte do livro é dedicada ao enquadre sociocultural da problemática abordada. Trata-se de um conjunto de capítulos que privilegiam uma visão do abuso sexual contra a criança sob o prisma teórico, sociológico e, por assim dizer, epidemiológico. Não se trata apenas de um enquadre sociocultural, mas, sobretudo de um enquadre teórico compreensivo do problema enquanto algo que não se circunscreve a uma psicologia individual. Pode-se dizer que os artigos dessa parte do livro buscam fazer, para o leitor, um pano de fundo cultural sobre o qual o problema se encenará. Produções de autores ligados à ufmg e ao cavas, algumas em coautoria de estudantes de pós-graduação em colaboração com a professora organizadora do livro, abrem o leque do trabalho. E o fazem também em diálogo com o mundo exterior, com a inclusão de um capítulo de Renata Udler Cromberg – pesquisadora ligada ao Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo, já bastante conhecida por seus trabalhos sobre o tema – que situa a violência sexual e a pedofilia dentro do mal-estar da contemporaneidade. Para isso, explora diversos casos midiáticos que descarnam a problemática do abuso diante dos modernos meios de comunicação e de contaminação social pela violência, como o uso da internet tanto na divulgação da pedofilia como na publicidade de atos de violência para o qual ela tem servido. Como eixo teórico, aporta a inestimável contribuição do psicanalista norte-americano Robert Stoller, autor seminal para o tema da perversão.

Ainda nesta primeira parte do livro, Cassandra Pereira França estabelece o enquadre teórico psicanalítico sob o qual o problema será tomado enquanto manifestação psicopatológica. Assistimos aí a um esclarecimento sobre a psicopatia e a perversão, que sustenta, em síntese, que esta se assenta sob os eixos da clivagem do ego, da recusa da castração e da encenação erótica. Sem muitos rodeios, a perversão é aqui tomada como causa do abuso sexual contra a criança e o jovem.

Outros colaboradores dessa parte do livro são Liliane Camargos, Ana Lúcia Modesto, Izabela Roman e Larissa Bacelete, trazendo temas como a pulsão escópica, o tabu do incesto e silêncio familiar sobre as situações de abuso, todos fundamentais ao programa de estabelecimento das bases teóricas sobre as quais vão se desenvolver, a seguir, as linhas da coletânea.

A segunda parte – central, em todas as acepções do termo – versa sobre as políticas públicas destinadas ao problema da exploração sexual da criança. Aqui os colaboradores (Marlise Matos, Edite Cunha, Valter Ude e Daniela Rezende) fazem um levantamento dos diversos serviços que já foram implantados, tanto no nível federal como no nível estadual de Minas Gerais, na tentativa de combate da violência sexual e no tratamento de suas consequências. Não se trata de uma parte do livro que traga aspectos teóricos nem psicanalíticos, mas que cumpre quase uma obrigação, no plano da informação, para o leitor especializado. E que tem por virtude a honestidade de fornecer uma espécie de mapa das políticas públicas, dentro do qual se pode situar o momento da emergência do cavas e compreendê-lo dentro de uma rede que o antecede e o contém.

Por fim, a terceira parte do livro é que traz propriamente o enquadre psicanalítico do problema tematizado. Aqui, novamente, encontramos uma síntese da produção teórico-clínica já desenvolvida pelo grupo liderado por Cassandra Pereira França dentro da universidade, em trabalhos assinados por ela própria e em colaboração com outros membros da equipe (Diogo Henrique Rodrigues e Anna Paula Njaime Mendes, que é também autora de uma dissertação de mestrado que reflete especificamente o projeto clínico do cavas, cuja banca examinadora tive a oportunidade de integrar). A exemplo do que se deu na primeira parte do livro, esta terceira parte traz também um convidado externo à ufmg que, tal como Renata Cromberg, tem estabelecido um diálogo com o grupo mineiro. Tratase de Lucía Barbero Fuks, também membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo, que aborda especificamente as consequências psíquicas do abuso sexual intrafamiliar. Mais uma vez, a organizadora da coletânea demonstra um espírito de abertura para fora, mesclando a artigos da lavra particular de sua equipe a produção de autoras que têm se destacado no tratamento do problema do incesto e do abuso sexual.

Nesta última parte do livro vêm à tona as questões mais estritamente clínicas envolvidas nesse tipo de atendimento tão delicado e tão mobilizador ao terapeuta nele envolvido. A começar pelo problema do psicodiagnóstico de crianças abusadas. E culminando com as sérias interferências contratransferenciais que desafiam o profissional nos campos da técnica e da ética. Além desses temas, ressoam ainda aqui questões teóricas relevantes como o problema do Édipo consumado no caso do incesto, a “inundação” pulsional e suas resultantes psicopatológicas e, finalmente, o complicado problema da identificação com o agressor. Este último, desafio teórico lançado por Ferenczi, pode ser o elo de reprodução da violência que se estabelece entre as gerações e pode ser o elemento responsável pela perpetuação do abuso. Trata-se do objeto do último capítulo do livro, escrito em coautoria da organizadora com Anna Paula Njaime Mendes, e que vem a ser uma forma sucinta do trabalho de mestrado da segunda autora, que mencionei acima.

Enfim, trata-se de um livro necessário, que atesta o trabalho de um grupo sério que se debruçou sobre um desafio difícil. E cuja relevância social não precisamos sequer discutir. Como na boa tradição da prática universitária, no que esta contém de plural, aqui a psicanálise dialoga com as políticas públicas de saúde mental e profilaxia. E os aportes de diversos outros campos – como os dados provenientes do tratamento estatístico e epidemiológico do abuso sexual da criança – são buscados e processados como elementos necessários ao desenvolvimento da clínica. Só nos resta saudar a aparição de trabalhos como este e, sobretudo, das práticas da clínica social que o engrendraram.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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