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ÍNDICE TEMÁTICO 
46
A clínica do trauma
ano XXIII - junho de 2011
180 páginas
capa: Patricia Furlong
  
 

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Resumo
Resenha de Sílvia Leonor Alonso, O tempo, a escuta, o feminino: reflexões, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2011, 458 p.


Autor(es)
Miriam Chnaiderman
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora em Artes, ensaísta, tendo publicado os livros O hiato convexo: literatura e psicanálise (Brasiliense, 1989), Ensaios de Psicanálise e Semiótica (Escuta, 1989) e vários textos  em coletâneas e revistas. Documentarista, dirigiu os curtas Dizem que sou louco (1994), Artesãos da Morte (2001), Gilete Azul (2003), Isso, aquilo e aquilo outro (2004), Você faz a diferença (2005) e Passeios no Recanto Silvestre (2006).

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 LEITURA

Lutando por nossas reservas florestais: a clínica psicanalítica

O tempo, a escuta, o feminino: reflexões


Fighting for our forest reserves: the psychoanalalytic kind of therapy
Miriam Chnaiderman

Sobre o que autor e leitor esperam obter de um escrito psicanalítico, Pontalis, afirma: “não é, como no caso do escrito científico, uma verdade conclusiva, nem mesmo um fragmento único de verdade, mas a ilusão de um começo sem fim” (p. 117). Não por acaso, essa citação encontrase à página 117 do generoso livro de Sílvia Leonor Alonso, O tempo, a escuta, o feminino. Há, nessa citação, uma tomada de posição em relação ao que é, em se tratando de uma psicanalista, escrever. Mas, não só em relação à escrita. Evidencia- se toda uma proposta de um permanente construir-se, pela vida afora, que vai nos tornando psicanalistas, em um trabalho cotidiano. É a ilusão de um começo sem fim que fica presente na clínica, no contato com a teoria freudiana e pós-freudiana, na pertinência institucional. Sílvia L. Alonso, partindo de “uma clínica cotidiana de quatro décadas” (p. 11), reúne textos de vários momentos de sua vida. O título que escolhe dar ao livro reafirma, de algum modo, essa sua escolha, onde um eixo de trabalho, com toda sua riqueza, vai sendo desvelado. São seus temas a passagem do tempo, com suas diversas inscrições, a sua clínica na sua indagação sobre o que constitui a escuta específica à psicanálise, e o contato com sua longa pesquisa sobre o feminino no contemporâneo. Por fim, a sua história institucional, num enfrentamento dos paradoxos que permeiam a transmissão em psicanálise.

Esses grandes temas vão constituindo os quatro grandes módulos que constituem o volume. No primeiro, a partir da noção de ressignificação, indaga-se sobre a possibilidade de reconstruir a história de uma vida numa análise: “pois o passado factual – a realidade material – não se encontra arquivado em lugar nenhum. O presente é sempre reminiscente; o passado ao qual temos acesso é fruto da ressignificação, que dá lugar não apenas ao surgimento de novas significações, mas também de mudanças no interior da tópica.” (p. 59).

Na segunda parte, a escuta analítica na sua especificidade é questionada. Se abandonamos as definições do que constitui uma análise, a partir do setting, temos que deixar mais claro o que é que fazemos no lugar da transferência. Busca-se, no processo analítico, uma história. Mas, uma história da erotização: a dos movimentos pulsionais e dos lugares de identificação, condensados num pequeno traço, resto de uma história vivida e convertida em realidade psíquica. É devolvendo ao corpo erógeno sua força pulsante e o contato com o estrangeiro em nós que o processo de análise acontece.

Sílvia Alonso, em suas “Palavras Preliminares”, nos conta da importância que o tema do feminino e do materno teve em sua vida: na década de 1970 desenvolveu, com uma equipe, um trabalho em uma maternidade em Buenos Aires: “eram tempos de intensa efervescência e de importantes mudanças na psicanálise argentina” (p. 14). Ocorre então a cisão na apa (Associação Psicanalítica Argentina ligada à International Psychoanalytical Association) em torno de posições políticas e concepções do que seria a formação e o trabalho psicanalítico. Alguns psicanalistas vão trabalhar em instituições públicas ampliando o escopo da prática e levando a importantes questionamentos. Esse momento – juntamente com a força do retorno a Freud – marcou Sílvia Alonso, que afirma: “São heranças dessa época […] algumas posições teóricas […] e clínicas que nunca abandonei e fundamentalmente posições éticas que me constituem como analista” (p. 15).

Já no Brasil, exilada, Sílvia L. Alonso continua trabalhando com a temática do feminino, até articular, em 1997, um grupo de trabalho e pesquisa intitulado “O feminino e o imaginário cultural contemporâneo”, dentro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Seu pertencimento institucional é objeto de instigante reflexão, na parte final do livro.

Assistimos ao movimento de uma bailarina, por entre textos de Freud e de pós-freudianos, expondo sua clínica, seus passos sutis por entre áridas questões institucionais. Temos, como se diz em artes cênicas, um work in progress. A forma de exposição é poética, flui, temas complexos vão sendo abordados com a destreza de alguém que passou pelo árido processo de deciframento da complexa metapsicologia freudiana. Sílvia L. Alonso reconhece “uma forma circular entre a teoria e a clínica”, quer “quebrar dogmatismos fazendo trabalhar os conceitos, as interrogações que persistem, mesmo quando os contextos são outros ou as problemáticas diferentes” (p. 12). Tem como meta transitar entre as teorias sem cair em dogmatismos; para ela, é preciso acabar com qualquer “fantasma de mestria” (p. 414).

É uma psicanalista que não paira, ilhada, no mundo de hoje. Quer contribuir para um pensamento que deve suportar imiscuir-se no que vai acontecendo em nossa realidade (não só psíquica). Aliás, nessa sua posição, Sílvia L. Alonso está acompanhada por Freud, que, conforme aponta, desfaz a oposição radical entre fantasia e realidade, interioridade e exterioridade. Ele não postula uma formação solipsista da fantasia.

A pergunta sobre o mal-estar no contemporâneo permeia o livro todo, mostrando a inserção e engajamento de Sílvia L. Alonso, na busca de um mundo melhor, e se explicita quando a autora diz que, em seus textos, quer “reconhecer posições éticas em relação ao trabalho, ao conhecimento e à vida que me acompanham todo esse tempo”. (p. 12). Prova de sua militância é a metáfora que utiliza para referir-se à clínica psicanalítica: reserva florestal. Claro, pois vivemos em um mundo cada vez mais medicalizado, sem espaço para o sofrimento psíquico. Assim como as florestas estão ameaçadas, os espaços onde a interioridade tem lugar podem desaparecer. O que buscamos, como psicanalistas, é “propiciar processos elaborativos e criativos de subjetivação, opondo-se assim às práticas dessubjetivantes – tão presentes na atualidade – que deixam de fora o sujeito” (p. 422). Como a luta pela preservação das florestas, batalhamos por nosso ofício artesanal, onde as singularidades encontram forma de expressão.

Ao estruturar seu livro, Sílvia L. Alonso dá continuidade ao seu papel formador no movimento psicanalítico. Não se furta de enfrentar grandes questões, tais como, na transmissão, manter a “permeabilidade entre processo primário e processo secundário” (p. 399), algo tão fundamental à escuta analítica. Como manter, na escrita e na transmissão, a invenção e a criatividade, instrumental necessário tanto para aquele que escreve, como para o leitor. É preciso, na escrita, não ocupar o lugar do pai idealizado, evitar a ilusão narcísica de plenitude. É preciso dissolver o lugar de saber, seja na escrita, seja na análise, seja na transmissão. Pensando em como mudou o lugar da psicanálise no mundo – “a psicanálise ocupa lugar de peso em nosso mundo cultural” (p. 384) – Sílvia L. Alonso quer resgatar “a potência desruptora que germinou desde o nascimento da psicanálise na marginalidade e a fez fecunda” (p. 384).

Essa potência desruptora se faz presente na sua concepção do que venha a ser o inconsciente. Não há um inconsciente armazenador de conteúdos, uma essência que nos constitua. No seu trabalho com o tempo, a partir da sua análise da Carta 52, e do seu trabalho com “Uma lembrança infantil de Leonardo” e do texto “Sobre as lembranças encobridoras’, afirma que pode afirmar a existência de um inconsciente aberto, pois se o material de marcas mnêmicas pode ser transcrito, os traços não são fixos. Toma o texto freudiano sobre Leonardo Da Vinci buscando sempre as linhas de força do desejo. Cita Gallende, numa tomada de posição bastante radical: “A história em psicanálise são pontos de condensação em que as tramas do vivido entrelaçam-se e pulsam.” (p. 45). Não é preciso negar a existência do inconsciente, como toda uma linha, ligada à fenomenologia, faz, para desessencializar o inconsciente. Toda a construção teórica de Isaías Melsohn tem essa meta. A partir de um crítica de um consciente conteudístico, Isaías propõe que pensemos em consciência não reflexiva. O que vemos, através do texto de Sílvia L. Alonso, é que, colocando em primeiro plano a teoria das pulsões, encontramos em Freud um inconsciente em movimento. Uma teoria derridadiana do aparelho psíquico, o inconsciente como máquina de escritura, a reorganização dos traços expressando movimentos do desejo. Desejo encarnado, ligado ao corpo pulsional.

Para Sílvia L. Alonso, o aparelho psíquico tranforma-se perante as solicitações dos novos processos histórico-vivenciais. As marcas mnêmicas vão sendo reordenadas, movidas pela multiplicidade de dimensões pulsionais. No processo analítico, a pulsão deve ecoar, sendo necessária uma escuta com capacidade de ressonância.

Não se trata de um encontro com uma paz interior. É a força da carne, atualizada no encontro analista-paciente, e o tecido da trama simbolizante que possibilitam a aceitação de um funcionamento não amparado na oposição entre corpo e alma, tão típica da metafísica ocidental, conforme Derrida demonstrou em seu texto “Freud e a cena da escritura”. De fato, esse jogo entre o verbal e o não verbal constitui, para Sílvia L. Alonso, um dos eixos do trabalho psicanalítico. Em uma análise, colocamos em palavras algo que até então não podia ter lugar no discursivo. O irrepresentável, aquilo que não está escrito, esse é o objeto da análise. Aí entra a “capacidade imagética da escuta do analista” (p. 131). Fiel a Fédida, Sílvia afirma a possibilidade do analista de figurar, tornando possível o não dito na fala de uma sessão. A figurabilidade é condição para que algo possa ser sonhado. Ser sonhado, ou seja, passar a ser parte da vida psíquica.

Um dos ensaios, já no módulo III, “Sobre o feminino e o materno”, intitula-se “Novos arranjos para a melodia”. Sílvia explica ter se baseado no texto “A história do movimento psicanalítico” quando Freud polemiza com Jung. Cita Freud: “Da sinfonia de alcance universal alcançou-se escutar só um par de acordes culturais, e não se escutou a potente, primordial, melodia das pulsões” (p. 205). Resgatando essa frase de Freud, Sílvia marca sua posição na psicanálise contemporânea: a presença do corpo, a escuta da pulsão, o trabalho com intensidades afetivas. Tudo isso sem desconsiderar o contexto histórico onde o sofrimento psíquico acontece. ”Não há materialidade da carne que não esteja atravessada pela linguagem” (p. 342), afirma. Daí a importância do trabalho com a histeria, que, no nascimento da psicanálise, levou Freud a reconhecer as causas sociais do sofrimento. Sílvia L. Alonso já se aprofundara na questão da histeria. Juntamente com Mário Fuks, publicou, nessa mesma coleção, o livro Histeria.

Claro que esse percurso tem a ver com a afirmação de Sílvia de que “A construção do feminino e do materno não pode ser pensada fora da cultura” (p. 340).

É interessante observar e apreender de que forma, no pensamento de Sílvia L. Alonso, as filigranas teóricas formam uma trama com as questões de cultura e com a preocupação histórica. Por exemplo, no ensaio “Encontros entre imagens e conceitos: reflexões sobre a temporalidade em psicanálise”, a questão do visual e do imagético é profundamente discutida em finas análises do “Manuscrito M”, o “Manuscrito K”, bem como importantes citações de Fédida e Pontalis. Mais adiante, Sílvia vai nos falar da devoração pelas imagens em nosso mundo contemporâneo; “o predomínio das imagens e o seu uso pela mídia, na sua função hipnótica de captura e fascinação, favorecem uma passivização ao mesmo tempo que acentuam a identificação especular com o apagamento das diferenças entre o eu e o outro” (p. 216). Afirma: “As imagens devoram o eu, nós devoramos os objetos” (p. 216). Sílvia vai nos mostrando como o corpo virou o único ideal. Politiza a discussão, citando Cohn-Bendit, líder de Maio de 68 que afirma cuidar do corpo “como antes cuidava da revolução” (p. 214).

Assim vamos acompanhando esse ir e vir, da metapsicologia para o dia a dia de um mundo onde a distância entre Ideal do Eu e Eu Ideal fica apagada, destruindo a possibilidade de ter uma história que nos permita projetar um futuro. O trabalho teórico, a desenvoltura com conceitos instrumentam Sílvia L. Alonso para intervir nesse mundo. Intervenção necessária e na contramão do imediatismo veloz de uma sociedade consumista. Fiel ao que propõe, sua escrita instiga o pensamento.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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