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Resumo
Resenha de Emilio Rodrigué, Gigante pela própria natureza, São Paulo, Escuta, 1991, 368 p.


Autor(es)
Andrea Hollnagel Araújo
é psicanalista, membro do Colégio de Psicanálise da Bahia.

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 LEITURA

Gigante, para além do princípio do prazer

Giant, beyond the principle of pleasure
Andrea Hollnagel Araújo


Resenha de Emilio Rodrigué, Gigante pela própria natureza, São Paulo, Escuta, 1991, 368 p.

Em Gigante pela própria natureza, texto que considera como um grande conto de amor no outono da vida, Emilio Rodrigué revela aspectos da sua posição singular no contexto social e cultural da Bahia.

Como fez antes com questões como a sabedoria em Lição de Ondina, e a erótica da ética em Ondina Supertramp, o amor e a religião são abordados aqui tanto pelo viés da fascinação, da qual Rodrigué não se abstém, como por um caminho a-mais que lhe permite sair da posição de possuído e avançar na direção de novas significações. Tendo como interlocutor o irmão Jack, seu herói na infância, enriquece o corpo do texto com uma dimensão atemporal onde há lugar para a associação livre e em que, como é bem do seu estilo, os comentários instigam o leitor a uma participação ativa.

Nas primeiras páginas do livro, um glossário de palavras regionais e iorubanas introduz a trilha que o autor propõe, levando o leitor a percorrer, no limite entre ficção e realidade, a riqueza cultural que fez de Salvador a capital do sincretismo, não apenas religioso. Personagens como as filhas de santo podem, por exemplo, aparecer folheando tranqüilamente a revista Casa e Jardim ao som dos Beatles, passeando no Shopping Barra ou comendo moqueca tomando Liebfraumilch. O autor, criando um ritmo de alternância entre os fatos singelos de um encontro de enamorados, as lembranças vividas de outros tempos e a história do povo nagô, seus Orixás e seus rituais religiosos, leva o leitor ao umbral onde a sugestão recebe o questionamento da fé. A surpresa acontece quando em certos momentos um fato que só poderia ser ficcional aparece no contexto cotidiano, ou quando no contexto da ficção desponta mais realidade do que seria de se esperar. Em diversas passagens, a ligação com o candomblé promove acontecimentos diante dos quais surge a pergunta: afinal, ele crê? Rodrigué responde: “Oxalá um dia eu seja um homem de fé”.

O livro conta, em paralelo, a história de seu amor com Gracinha de Oxum, declarada a mulher da sua vida, com a qual se casou e viveu por vários anos, e a história do povo Nagô na Bahia, cujo fio ele puxa desde a chegada dos navios negreiros ao Brasil, passando pela escravidão, pela saga dos quilombos, pelo heroísmo de Ganga-Zumba e Zumbi dos Palmares, até a constituição dos terreiros de candomblé sob o matriarcado das mães de santo Mãe Aninha, Mãe Senhora, Mãe Ondina e Mãe Stella como perpetuadoras da tradição cultural e religiosa do candomblé.

À medida que o texto avança, as duas vertentes se fundem no espaço do Axé Opô Afonjá, terreiro dos mais tradicionais da Bahia. O sonho oracular com uma pedra introduz o mistério que paira à sua volta desde o primeiro encontro com Mestre Didi, sumo sacerdote do culto dos mortos, em Buenos Aires. A questão com o sentimento religioso retorna na narrativa de inúmeras situações vividas, fantasiadas e, quiçá, alucinadas, a partir das várias ocasiões em que esteve hospedado no terreiro: entre outras, febres e fleimões que chegam e se vão misteriosamente, animais que caem mortos no chão como que por vontade própria, um galo que parece ser a própria encarnação de Exu, elementos que produzem o contexto no qual Rodrigué acaba por se confessar sugestionável por natureza.

Depois de participar de inúmeras cerimônias e festas, sabendo-se homem de Xangô, Rodrigué testemunhou manifestações e teve direito à sua própria experiência extática. O texto dá testemunho do mergulho nesse mundo de religião e revela o saber desse analista de formação kleiniana, que sacrifica a ortodoxia em favor da plasticidade, sem com isso perder a coerência. A mitologia é perpassada pela psicanálise. Ao final, não sem ter deixado no texto as chaves para decifração de tal enigma, o autor narra a sua polêmica confirmação como Obá de Xangô junto a Mãe Stella no Axé Opô Afonjá.

Por outro lado, também adernando em direção à ficção, a história de Tristão e Isolda é convocada para balizar, ponto a ponto, a sua própria história de amor que, nascida na fantasia infantil da princesa africana, permanece atravessada por uma posição sublimatória que desde o início a caracteriza. Como filha de santo, Graça, como as Damas cantadas outrora pelos trovadores, mantém sua parcela inacessível, sendo envolvida num amor que se diz casto por natureza. As cinco caras do amor – Amor Cortês, Amor Herético, Amor Platônico, Amor Lacânico, Amor Lacônico –, assim como os cinco nomes de Graça – Maria das Graças, Gracinha de Oxum, Oxum-Adé, Mãe do século xxi e Princesa Africana – são cantados quando o autor se vê privado da mulher por ocasião de sua reclusão por motivos religiosos.

Garantindo a manutenção de um espaço privilegiado para o mistério, religião e amor constituem, junto com a política, o tecido a partir do qual Rodrigué analisa o curto-circuito que expõe o assujeitamento que se dá em cada um desses três campos e que ele chama de possessão. A possessão, fio que percorre o texto de ponta a ponta, une e ao mesmo tempo separa, uma vez que constitui a alienação explícita, tesoura narcísica a ser quebrada. Enfocando a questão a partir de vários ângulos, numa pesquisa que vai de Nina Rodrigues a Sheila Walker, passando por Arthur Ramos, Ravenkrof, Bárbara Brown, João Batista Rios e Marcio Goldmann, o autor chega à idéia de que o possesso é um ser evidentemente unitário e, apesar disso, de modo paradoxal, ele é mais-que-um.

Rodrigué é enfático ao afirmar existirem apenas duas formas de sair da possessão: a explicitação extática ou a cura psicanalítica. A partir daí é possível aceder a essa posição outra que ele diz ser a do psicanalista, que é a de ser herege pela própria natureza, uma vez que partimos de um dualismo que desemboca em outra coisa mais além do Princípio do Prazer.

Contrariando, portanto, o amor narcísico e a submissão religiosa por serem fundamentalmente alienantes, amor e religião, imbricados como estão nesse livro, são chamados na sua aparição herética. Para tal, Rodrigué recupera com Denis de Rougemont a relação entre a cena do amor cortês e da doutrina cátara, a chamada igreja do amor, que difundiram ao mesmo tempo, em meados do século xii, pela região do Languedoc, Pitou, Catalunha, Lombardia, respectivamente, uma forma de amor casto pela Dama que, sendo esta sempre objeto inalcançável, era sublimado gerando uma infinidade de poemas e exaltações verbais e musicais, e uma forma de amor a Deus que, suspensa num dualismo – Satanás de um lado e o Altíssimo do outro – alimenta-se na perspectiva de uma solução escatológica. Assim como Jesus Cristo, para os cátaros, não encarna, manifesta-se, ou seja, não faz Um, o amor cortês, de saída impossível, desemboca em algo mais-que-um. Também o Gigante não nos oferece uma solução, não nos permite encontrar um sentido unívoco. A contradição entre a afirmação de ser um sujeito descrente pela própria natureza e a confirmação como Obá de Xangô não se resolve, antes abre à possibilidade de, como é aqui sugerido, inventar a partir da vivência explícita do mais-que-um, a partir de uma mitologia existente, coletiva, uma mitologia própria efetuando, na saída da possessão, uma mutação que leva à identidade. É certo, porém, que ao final deparamos com um limite. A Kesila, o tabu que suspende a escritura desse livro pode bem ilustrar que no fim restará sempre uma palavra que não pode ser dita.

Fecha-se o livro, mas não a questão.


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