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Resumo
Resenha de Emilio Rodrigué, Separações necessárias – memórias, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2006.


Autor(es)
Ana Lúcia MacDowell Gonçalves Gonçalves
é psicanalista, mestre em Comunicações e Semiótica.

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 LEITURA

Ousadia e verdade (ou: “Je ne regrette rien”)

Audacity and truth – or: “Je ne regrette rien”
Ana Lúcia MacDowell Gonçalves Gonçalves


Resenha de Emilio Rodrigué, Separações necessárias – memórias, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2006.

Quando Federico Fellini lançou 8 ½, sua opulenta autobiografia cinematográfica, o então crítico da revista Time definiu o filme como sendo “Self-indulgent – but, what self! What indulgence!”, acontece algo semelhante com estas memórias de Emilio Rodrigué, Separações necessárias (Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2006): que self, que vida! Não se trata porém de uma autobiografia complacente, portanto não se pode defini-la como auto-indulgente; pelo contrário, há uma certa discrição, uma elegância interna, que o impede de se exceder – tanto em relação a seu extraordinário percurso como analista, quanto ao seu percurso como auto-confessado mulherengo…

Trata-se de um relato que se inicia proustiano e termina lacaniano. Diz ele: “É importante nascer numa família afortunada, isso dá segurança, uma certa mais-valia social e todo um verniz cultural na hora de manejar os talheres, a língua e as gorjetas. Esse verniz pode ser chamado de ‘ter classe’” (p. 25). E é esta “classe” que permeia todo o livro – contando o suficiente para manter a verdade, nunca para ser indiscreto, sobretudo em relação às mulheres que amou. Há um pudor em sua narrativa, talvez porque ele mesmo se espante com o escopo de suas andanças, com o arco imenso das pessoas com quem conviveu – desde um icônico “latin lover” hollywoodiano como Fernando Lamas à neta de Melanie Klein. De Bion a Mestre Didi de Salvador; de Arminda Aberastury a Fritz Perls, passando por David Rappapport, Armando Bauléo, Heinrich Racker, David Cooper, Guattari e tantos outros. Parece um desfilar da história da psicanálise em todos os continentes, abrangendo quase todas as “linhas” e marcando épocas distintas. Um leitor mais rancoroso pode, num primeiro momento, supor que trata-se de um puro “name-dropping”, como dizem os americanos, mero exibicionismo de quem se apóia em nomes conhecidos para projetar sua imagem. Não é o caso. Como ele mesmo diz: “meu compromisso é com a verdade” (p. 248), e este “who’s who” é a verdade, não só de um percurso mas de uma época, os marcos das vicissitudes da própria psicanálise e seus desdobramentos. Mas não só. Há os desdobramentos políticos que até mesmo ao autor espantam: “Eu não podia acreditar, estava no centro dos acontecimentos, na Bastilha, nas três caravelas […]” (p. 132), quando relata sua presença na residência de Salvador Allende quando começou sua queda.

Não se trata de uma autobiografia psicanalítica, mas sim do relato da vida de um psicanalista, um que seguiu à risca e sem medo sua própria direção: “que cada analista deve inventar seu próprio divã” (p. 219). Como Fellini, esta “invenção do próprio divã” não foi feita da noite para o dia, seguiu de início os caminhos mais ortodoxos, porém não menos surpreendentes: morar em Londres e ser analisado por Paula Heimann, fazer supervisão com Melanie Klein e, last but not least, ser analista da netinha da supervisora, recomendado pela própria. Estudar, conversar e conviver com toda a segunda geração dos fundadores da psicanálise, eles mesmos grandes mestres como Bion e Winnicott. Curiosamente, porém, Rodrigué não se detém em descrevê-los, relatar pequenas anedotas ou críticas; cita seus nomes porque são a verdade, menos como vanglória, mais como o relato de um período intenso de sua formação profissional. Mas há um detalhe interessante neste formidável panteão psicanalítico que cita: se o leitor não é psicanalista, ou versado nela, passam a ser meros nomes, sem peso nem de pioneiros nem de mestres, nomes que qualquer psicanalista respira com lentidão ao citá-los para o leitor leigo são nomes apenas e o autor não se detém para avisar este leitor que se trata de Nomes Importantes! Este detalhe propõe talvez a primeira questão referente ao livro: a quem se dirige o autor? Certamente sabe que ele mesmo é um ícone, um mestre, criticado, pioneiro e produtivo, não um desconhecido nos meios psicanalíticos de onde, supõe-se, seus leitores certamente sairão e para quem tais nomes têm um peso considerável. A questão que fica, de início é: é preciso ser psicanalista para apreciar exatamente o peso dessas pessoas? O significante que eles carregam é indispensável ao leitor ou não? É importante saber quem foi Melanie Klein? Ou Pichon-Rivière? Difícil responder, mas o autor dá uma dica: escolheu como interlocutora privilegiada sua neta – é a ela que se dirige ao contar sua história, e nisso frustra seus leitores psicanalistas que gostariam de um olhar mais íntimo sobre estes grandes nomes da psicanálise ou, na falta disso, uma certa visão crítica de suas teorias. Nem intimidades nem avaliações teóricas, apenas a precisão dos fatos: com quem estudou, com quem conviveu, com quem foi mais, ou menos, próximo; há um certo pudor aí, talvez porque se o leitor não sabe quem são esses nomes o autor sabe muito bem, e ele mesmo um pouco intrigado com convívio tão próximo com mestres especiais decide que não seria elegante exibir-se demais. Por outro lado, não é uma autobiografia psicanalítica de um psicanalista, pouco se detém em auto-interpretações, embora não deixe de se referir ao grande apego que tinha pela mãe, já denunciando seus embates edipianos com o pai por quem, apesar de tudo, tem imenso afeto; é o relato de uma vida, portanto não teria sentido se deter demais nas teorias, nos meandros profissionais, nas corajosas viagens até outros terrenos e terreiros.

Sem dúvida pesa o fato de ter sido presidente da Associação Psicanalítica Argentina – abre portas, abre braços, abre espaços; é um trampolim – talvez resquício de seus dias de nadador na juventude – para provar outras formas de trabalhar, de escutar, de investigar. Não se identifica, malgré tout, como um filho pródigo:

sou psicanalista até a raiz dos cabelos, escrevo como um psicanalista, psicanaliso psicanaliticamente e até mesmo nos motéis eu introduzo a causa freudiana. Sou uma máquina psicanalítica (p. 295).

(Confissão talvez surpreendente para o leitor que conhece sua trajetória ousada como psicoterapeuta, sua curiosidade constante de abrir portas novas e de ter interlocutores absolutamente diversos dos que os meios psicanalíticos esperariam).

Sim, era necessária uma referência aos motéis. Mulherengo assumido, ainda que de uma forma um tanto marota pois criticava seu pai por sê-lo, talvez se redima para si mesmo quando afirma: “Quando sobrevôo as cenas, vejo em mim um romantismo condenável, mas redentor” (p. 209). Caçula de uma família abastada, neto de uma avó milionária, criado no requinte e no que, mais tarde, reconhece com certo humor, um certo excesso burguês: o relato do verdadeiro banquete que eram os jantares formais em sua casa – só de entrada três tipos de peixes – demonstra que há um dna não só de classe, mas de uma maneira de ser barroca, que se desdobra na forma como ama suas mulheres (e todas as mulheres). Também neste capítulo de sua vida fala com discrição e afeto daquelas com quem casou. Quatro. Mais apaixonado por umas do que por outras, mas não menos gentleman ao se responsabilizar pelas mágoas causadas – talvez uma exceção aqui ou ali, que ele não é nem masoquista nem penitente em excesso. Conta para sua neta a beleza da avó, sua primeira mulher; conta para o leitor o charme e o carisma de sua segunda mulher; descreve sua companheira de viagens e descobertas profissionais do terceiro casamento e, por fim, chama de “mulher de sua vida” a quarta, paixão profunda e especial. Quase que o Vinícius de Moraes da psicanálise – um humor em relação a si próprio, uma queda pela aventura – em todos os sentidos – uma dificuldade com a monogamia, uma paixão pela paixão.

O que faz uma pessoa se interessar pela vida de outra? Levá-la a ler suas memórias? Certamente cada leitor tem sua resposta: seja a fama açodada pelo marketing, o profundo conhecimento de um assunto, a posição exaltada; seja o que for, há sempre algo que se refere a um tempo especial que é testemunhado na biografia. O curioso em Rodrigué é que, de fato, ele é um homem de seu tempo – de todos. Dos anos glamurosos da década de 1940 da alta burguesia de Buenos Aires, regados a champanhe e verões passados em Mar Del Plata, aos anos frugais, marcados pelos cartões de racionamento do pós-guerra londrino do início da década de 1950 – ele estava lá, com a sobriedade reforçada pelos rituais psicanalíticos ortodoxos; nas primeiras experiências de grupos terapêuticos americanos, com Erickson e Rappaport, lá estava, participando, produzindo, pertencendo; os anos 1960, revolucionários, radicais, perigosos, Rodrigué os viveu política e profissionalmente; e por aí afora. É um homem do seu tempo, seja qual for o tempo. Se entrega a investigar, se propõe a aprender. Esalen com Perls? O Chile de Allende? Sim e sim. Mas, sempre, fiel à psicanálise, à sua forma de “fazer seu divã”. Talvez este seja um dos pontos fascinantes deste livro, pois sempre se reinventando nunca perde a coerência; corajoso, sem perder a âncora de um espírito crítico que lhe permite ser revolucionário sem ser insensato. Talvez o segredo deste permanente “estar no seu tempo” é que, como ele diz; “as coisas são parecidas mas nunca se repetem” (p. 270). Nunca se acomodar, nunca ter certezas, nunca deixar de buscar, parece ser a fórmula, embora ele também nunca se detém para dizê-la. O tempo que passa não é denegado, é importante ressaltar. Ciente das necessidades que cada idade traz e de suas nuances, desenvolve o que chama de “teoria da aposentadoria”, não muito diferente de sua “teoria das separações”: “Depois dos cinqüenta anos, corre-se o risco de estourar como uma rã se não nos protegermos. Há os mortos a enterrar, os adultérios a cometer e as pragas do Egito” (p. 270). O fundamento de sua teoria da aposentadoria é: “chegou a hora de ser sábio” (p. 194), o que envolve a sabedoria de saber se separar do que é necessário e a sabedoria de continuar articulando o que chama de “meu dever desejante” (p. 194/258). E assim chega à Bahia.

“Na minha vida há um antes e um depois da Bahia” (p. 222). A Bahia é o grande estuário onde vêm desembocar e se enlaçar todos os caminhos, os desejos, as teorias e as paixões. A partir da chegada à Bahia, o relato dessas memórias se torna mais aberto, mais íntimo, mais detalhado, mais confortável. É como se tivesse voltado ao lar. Conclusão descabida talvez, na aparente discrepância entre uma origem tão aristocrática e privilegiada, quase esnobe, e a entrega às cores e sincretismos, à malemolência baiana e sua cultura. Pode-se dizer, entretanto, que há um elo em comum entre ambas: sua natureza barroca. Os rituais refinados da casa da avó, os cerimoniais sazonais das férias, dos drinques, dos esportes, as vestimentas quase sacramentais que acompanham tais rituais, são reencontradas nas cerimônias, na sacralidade, nos ritos solenes do candomblé. A estrutura barroca do discurso aristocrático se reproduz na estrutura barroca do discurso do candomblé. Existe o solene, o nobre, e suas exigências disciplinares, e a elas Rodrigué se entrega. Movido pela paixão por Graça, certamente, mas como não supor que certamente movido também pelo conforto de uma releitura de suas raízes?

Este lado barroco que ressurge traz ao leitor um presente, um alento – devagar Emilio vai dando o nome aos bois, ou melhor, vai citando os livros onde encontrar os detalhes de fases de sua vida que não conta nestas memórias, estabelecendo então seu caráter rizomático. As lacunas que o leitor deseja preencher estão contadas em outros livros do autor, fazendo deste um hipertexto totalmente coerente para quem viveu a vida como tal: numa aparente desordem que se faz ordenada pela lógica da busca e do “dever desejante”, ou, como diz: “eu levantava minha orelha para além do rumor do mar e, efetivamente, talvez ouvisse alguma coisa nessa grande concha que é o mundo” (p. 373). Estas memórias são testemunho desta “escuta”, aberta sempre para o “mundo”, talvez aquilo que André Bréton chamava de “o maravilhoso” e, por isto mesmo, um convite para que o leitor faça o mesmo.

“O analista deve ser tão inocente quanto o lago que reflete a imagem de Narciso. Com o Louco eu tinha a cabeça em branco, maquiavelicamente pura” (p. 227), sendo assim, inocentemente – ou maquiavelicamente? – obriga o leitor que, embalado por narrativa tão inebriante se esquecera que haveria um final, a um que vem curto e desconcertante, sem mais delongas, deparando-se o leitor com sua frustração narcísica: “mas logo agora ele pára?!”. Final lacaniano: corte seco. Ironia daquele que, por anos, como conta, relutou a ler Lacan:

Lacan foi uma pedra no meu sapato […]. Imaginem um homem realizado que, nas proximidades dos sessenta anos, perdeu o jogo de cintura do toureiro que ele nunca foi. Lacan me fez cair de meu pedestal de pioneiro fossilizado (p. 218).

Não se pode dizer que tenha se tornado lacaniano, mas sim que, como ele, foi “analista até o fim”, e também coerente até o fim nunca deixou de “inventar seu próprio divã”, um divã que passa pelo seu corpo:

[…] eu encontrei meu corpo na teoria da alma. […] O que restou no meu caso foi uma leitura mais atenta e mais profunda do corpo do outro, a partir da transferência do meu corpo. […] Ficando o dia inteiro sentado, imóvel em sua poltrona, o analista convencional se achata, perde sua redondez coperniciana (p. 219).

Não tendo perdido sua “redondez coperniciana”, Rodrigué em suas memórias oferece o relato de uma vida vivida com coragem, ousadia e paixão; nunca um Hamlet – sua escolha foi sempre ser.


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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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