EDIÇÃO

 

TÍTULO DE ARTIGO


 

AUTOR


ÍNDICE TEMÁTICO 
  
 

voltar
voltar à lista de autores

Resumo
Resenha de Silvia Bleichmar, Clínica psicanalítica e neogênese, São Paulo, Annablume, 2005, 325 p.


Autor(es)
Maria Laurinda Ribeiro de Souza
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e professora do curso Psicanálise, do mesmo Departamento. É autora de Mais além do sonhar (com aquarelas de Ada Morgenstern) (Marco Zero, 2003) e de Violência (Casa do Psicólogo, 2005), entre outras publicações.

voltar à lista de autores
 LEITURA

Silvia Bleichmar: paixão pelo conhecimento

Maria Laurinda Ribeiro de Souza


Resenha de Silvia Bleichmar, Clínica psicanalítica e neogênese, São Paulo, Annablume, 2005, 325 p.

Não há nada mais angustiante para um analista do que se deter frente a um enigma, a um outro que não tem resposta
[ S.Bleichmar, p. 57 ]

Silvia Bleichmar foi uma analista itinerante. Circulou por diferentes países, por muitos grupos de trabalho e por conversas instigantes com vários autores. A metapsicologia foi sua preocupação constante e o solo da clínica, um campo de experimentação criativa. A vivacidade surpreendente de sua presença, um estímulo para a paixão pelo conhecimento, pelo estudo, pela investigação contínua do que se vive nos encontros analíticos. Seu campo de interesse extrapolou as fronteiras da clínica; ocupou o espaço público com críticas e análises da situação política de seu país e das questões de sofrimento presentes na contemporaneidade, buscando evidenciar as possibilidades de transformação da cultura.

Este livro foi construído a partir dos seminários oferecidos para psicanalistas, no ano de 1996, no Hospital de Niños Ricardo Gutiérrez, em Buenos Aires. Está dividido em 11 capítulos, correspondentes às aulas iniciadas em abril de 1996 e encerradas em julho do mesmo ano. Na primeira parte, a autora aborda a constituição psíquica e a instalação do processo terapêutico e, na segunda, o funcionamento psíquico como premissa da inteligência. Ao lê-lo, somos introduzidos no cenário de sua construção. Aos que nunca assistiram aos seus seminários, é uma possibilidade de conhecer sua forma de pensar “em ato”, de vivenciar seu interesse pelas interpelações dos que a escutam e de verificar como essas questões vão redirecionando seu ensino. Aos que conviveram com ela, uma forma viva de reencontro.

Clínica psicanalítica é o lugar de ancoragem e de partida. É a partir dela que a autora se propõe a difícil tarefa de delimitar as questões que “testam as teorias que sustentamos com convicção” (p. 15). Sua mola propulsora, a idéia de uma possível e necessária transformação daquilo que parece tão solidamente determinado. O inatismo kleiniano e o estruturalismo lacaniano, duas fortes tendências que marcam a história da psicanálise, são constantemente retomados e revisados, ao longo de suas aulas – tanto por seus aspectos produtivos e inovadores, quanto por suas contradições e engessamentos. A psicanálise de crianças – suas indicações e vicissitudes (com muitos relatos ilustrativos) – e as primeiras marcas presentes na constituição do psiquismo – os signos de percepção, o traumatismo, o acontecimento, as condições de metabolização e em especial o recalcamento originário –, ocupam lugar de relevo neste livro.

Neogênese é um termo condensador do movimento criativo no intra e no extramuros. A idéia de movimento é fundamental; as fronteiras estão continuamente abertas aos efeitos de outras referências. O trabalho analítico não se propõe apenas a recuperar o já existente, mas também, e, sobretudo, a criar novas condições de simbolização e abrir outras possibilidades de vida.

Quando fazemos uma intervenção em momentos estruturantes do funcionamento psíquico – o que eu chamo de intervenções analíticas – para produzir, por exemplo, uma passagem da relação binária para uma relação terciária, inauguramos um processo de neogênese: algo, que não estava pré-formado e nem instalado por si mesmo, será produzido em função da intervenção analítica (p. 40).

Estamos diante de uma proposta de trabalho de construção e questionamento contínuos. As diferenças, a singularidade do sujeito, o indeterminismo, a potência dos encontros e a idéia de fronteiras plásticas no psiquismo são, em seu pensamento, pressupostos necessários.

Em sua primeira aula, “Intervenção analítica e neogênese”, retomando como modelo o caso Hans, explicita o efeito privilegiado da experiência analítica sobre as convicções teóricas previamente formuladas pelo analista – ato já presente, portanto, no fundador da psicanálise e que deveria ser reproduzido por todo aquele que se aventura a sustentar este encontro com aquele que o interpela. Freud, ela nos diz, foi até Hans para comprovar a teoria do Édipo e Hans o surpreendeu com a teoria cloacal, provocando uma ruptura no corpo teórico, pondo em relevo a importância da analidade e obrigando-o a repensar a condução da cura.

Delineia, também, as condições necessárias para que seja possível a implementação do método psicanalítico: inconsciente constituído e, portanto, existência de conflito; sujeito capaz de posicionar-se perante o inconsciente, recalque e defesa. E, para explicitar e problematizar essas condições, Silvia Bleichmar nos apresenta uma queixa freqüente na psicanálise com crianças: a recusa a comer. E lança uma série de interrogantes: entendemos essa queixa como um sintoma; uma formação de compromisso resultante do conflito entre o desejo recalcado e sua proibição? Já se delimitaram as fronteiras entre as instâncias? Ou, deparamos com um transtorno, resultante não de um conflito, mas de um momento constitutivo, onde a negação é simultânea ao surgimento do Eu? Trata-se de uma resposta de sobrevivência decorrente de uma invasão materna aniquiladora? Que lugar essa manifestação ocupa no psiquismo da criança? É pertinente ou não a indicação de uma análise? E nos mostra como as estratégias de implementação e condução da cura dependerão de nossas referências metapsicológicas, do modelo de aparelho psíquico que sustentamos, de nossa concepção de sujeito e do inconsciente, mas também da continência possível para a surpresa, que pode nos forçar a uma mudança inesperada de rumo.

Há em toda mensagem um caráter enigmático e os seus efeitos não podem ser inferidos a priori. Em situações altamente investidas libidinalmente, em especial quando a relação é assimétrica, como as que ocorrem nas origens do sujeito e as que se vivem na transferência, esses efeitos são investidos e se inscrevem de modo peculiar. Na psicanálise de crianças isso se potencializa pois estamos diante de uma dupla assimetria: adulto-criança, paciente-analista, além de uma limitação do intercâmbio linguageiro.

Quanto às origens do sujeito psíquico, a autora insiste na necessidade de se compreender o modelo de construção das tópicas, o registro das primeiras inscrições, os momentos de instalação do recalcamento originário e sua diferença do recalcado secundariamente, diferenças entre representação-coisa e representação-palavra, pois isto é decisivo para que, na clínica, se possam levantar hipóteses diagnósticas e decidir sobre a pertinência da aplicação do método ou de sua modificação, propondo formas mais adequadas de intervenção: atendimento com os pais, entrevistas separadas, indicação ou não da análise… Ainda que se possa perguntar aos pais sobre a história de certos acontecimentos, e possamos intervir de forma indireta sobre seus próprios sintomas, “teremos que descobrir, na própria criança, por que uma inscrição fixou-se de um ou outro modo, porque é desde aí onde teremos que desfixá-la” (p. 91). E, além disso, é sempre difícil saber como se deu a passagem dos ditos parentais para a inscrição no psiquismo da criança; como ela os recebeu, em que circunstâncias e como os metabolizou. Nossa teorização, ressalta ela, é sempre insuficiente…

Essas considerações que aparecem nessa apresentação de um modo muito geral são analisadas detidamente pela autora nos capítulos iv e v, para transmitir sua concepção acerca da fundação do inconsciente e do lugar ocupado pelo traumatismo. Retoma, então, a origem histórica dessas questões, destacando as posições de Melanie Klein, de Lacan e de Anna Freud e aponta os aspectos conflitantes no interior de cada Escola, para, ao mesmo tempo, elucidar as diferenças do que vem teorizando e como isso produz efeitos na clínica.

No pensamento de Melanie Klein, diz ela, a concepção do funcionamento psíquico está determinada endogenamente, o inconsciente existe desde o início e seria impensável, portanto, supor que o recalcamento originário ocupasse um lugar fundante. Já para Lacan, o inconsciente só existe no discurso, é um fato da cultura e sua fundação é exógena; o recalcamento originário é entendido como um momento mítico, definido pela presença da metáfora paterna – e, portanto, é a estrutura edípica que ocupa, aqui, um lugar fundante.

E Silvia Bleichmar pergunta: o inconsciente é o que está no discurso ou ele tem uma existência para além do discurso? Sua investigação vai se deter na necessidade de “cercar os tempos reais do recalque originário e na necessidade de abandonar a conceitualização de um tempo mítico” (p. 116).

O primeiro tempo da vida psíquica, diz ela, retomando Freud e Laplanche, traz a marca do traumático, introduzido pela sexualidade inconsciente do outro, adulto, que se responsabiliza pelos cuidados iniciais; são tempos de implantação da pulsão.

O segundo tempo caracteriza-se pela constituição do recalcamento originário. A incidência do recalque permitiria constituir instâncias psíquicas diferenciadas – inconsciente, pré-consciente e ego narcísico –, a instauração intrapsíquica do conflito e o reequilíbrio de um psiquismo, perturbado originalmente pela insistência do prazer pulsional. Através desse ato, o psiquismo fica livre da tarefa de renúncia constante, ou da sujeição a uma compulsão perturbadora e abrem-se vias possíveis para a sublimação. São tempos reais de fundação, embora isso não queira dizer que as pulsões não possam seguir operando independentemente.

É só num terceiro tempo que irá se produzir o fundamento das instâncias ideais e da consciência moral; tempos de sepultamento do Édipo. As conseqüências clínicas são evidentes, pois, se não se produz a ação eficaz do outro significativo, o recalque do inconsciente e a organização de uma tópica para o auto-erotismo recalcado, não se poderiam instalar, em sentido estrito, os mecanismos clássicos da cura psicanalítica.

Referindo-se ao momento de instauração narcísica do ego, Bleichmar aponta para uma diferenciação importante entre os traços do ego ideal e os do ideal de ego. Estes últimos têm um caráter móvel e de projeto e, embora se articulem como mandatos, não submetem o sujeito à angústia de aniquilamento, mas sim à de castração; já os primeiros tornam-se exigências terríveis, marcando uma só possibilidade para o devir do sujeito: ou serás isto (rico, belo, com sucesso) ou não serás nada! Essa diferenciação tem um lugar importante na elaboração diagnóstica, pois certas manifestações altamente valorizadas pela cultura podem, na verdade, estar respondendo, no sujeito, ao evitamento terrorífico de seu aniquilamento. É o caso dos estados denominados de limite ou borderline ou dos assim chamados falso-self.

Introduzimos, assim, aquilo que será o tema inicial da segunda parte deste livro: uma aproximação ao modelo diagnóstico. A discussão inicia-se com a apresentação do caso Erna; trata-se da “Análise de uma neurose obsessiva em uma menina de seis anos”, texto lido pela primeira vez em 1924, por Melanie Klein. Silvia Bleichmar questionará a validade atual desse diagnóstico, apontando as diferenças entre compulsões e neurose obsessiva e propondo que, nesse caso, os desenvolvimentos teóricos atuais lhe permitem concluir que o sofrimento de Erna derivava de um transtorno e não de um sintoma; a renúncia pulsional não se efetivara e o recalque não se constituíra. Mas, na apresentação do caso, sua conclusão não é o mais interessante. O que importa é o caminho percorrido, é como ela vai nos permitindo acompanhar a construção de seu pensamento, suas hipóteses acerca do desenvolvimento libidinal da criança, a compreensão de risco e urgência presentes no tratamento, do impedimento intelectual da menina, seus impasses, suas possibilidades de abordagem clínica, as derivações para outras situações de tratamento, as perguntas que faria, os acontecimentos que privilegiaria, a conversa póstuma com Melanie Klein e sua teorização…

Erna tornou-se uma jovem muito perturbada; e embora o fracasso de seu tratamento não invalide a psicanálise, coloca em xeque o caminho percorrido por Melanie Klein e deixa-nos como questão, em cada caso, de qual seria a melhor estratégia clínica. Na segunda aula em que o caso é discutido, Silvia propõe uma tarefa coletiva: “Abramos o debate como se estivéssemos diante de uma paciente atual. O que proporíamos como conduta terapêutica?” E segue com entusiasmo, comentando as alternativas levantadas e as formas de intervenção mais adequadas ao caso. Interessa a ela, no momento do diagnóstico, detectar se já se constituíram as instâncias psíquicas, a forma pela qual está operando o conflito intrasubjetivo, intersistêmico, como estão sendo processadas as relações com os semelhantes, com os objetos parentais, e quais são os ganhos primários e secundários das manifestações sintomáticas.

Quando se indica, então, uma análise para uma criança? Silvia responde que há duas situações em que isso deve ser feito: primeiro – quando o sofrimento é muito intenso, e, segundo, quando está comprometendo o futuro da criança. Isso se abre para a idéia de que nem todo sofrimento deveria derivar necessariamente para uma análise, o decorrente de uma morte acidental, por exemplo. “Se se pressupõe que os sistemas psíquicos são abertos, é necessário que se dê o tempo para que as recomposições reequilibrantes possam produzir-se espontaneamente” (p. 168). E, também, para o reconhecimento de que existem outras possibilidades de intervenção analítica que podem ser postas em prática até que, de fato, seja indicativo o início de um processo analítico. Mas saber quando, como e por que é uma tarefa complexa e que só pode ser decidida considerando-se as singularidades de cada caso.

A riqueza de um texto como este é a de nos interpelar a respeito de nossa própria prática e nos implicar com a necessidade contínua de estudar e repensar nossas referências metapsicológicas e considerar, enquanto analistas, os efeitos de nossas falas, nossos atos e nossas intervenções. Um relato anedótico expressa a força enigmática das mensagens e a conseqüente necessidade de teorização:

uma pessoa analisou-se com um analista que, durante dez anos, não emitiu nenhuma palavra… essa pessoa então se divorcia… de sua mulher, não do analista… e este lhe diz: “você não me deu seu novo endereço’” Era tão intenso o excesso de enigma propiciado pelo silêncio, que esta frase foi entendida como uma avalização de seu divórcio… É muito interessante… quanto maior a escassez de palavras, maior a força da mensagem enigmática e maior o esforço de teorização para dar-lhe algum tipo de trama
(p. 214).

Mas, por outro lado, um excesso de fala pode incorrer no parasitismo do psiquismo, na intromissão invasiva e impedir que se estruturem espaços para vias simbólicas necessárias.

No capítulo VIII, somos apresentados a um outro caso clínico. Trata-se de uma criança de 4 anos e 10 meses que se recusa a ir à escola. Novamente, a autora, generosamente, vai nos mostrando desde o relato das primeiras entrevistas, as hipóteses que podem ser levantadas, as perguntas que se fazem necessárias, os movimentos pulsionais em questão, seus destinos, o enlace com a história familiar, os lugares ocupados pelos pais, pelos avós, pelos irmãos, pela criança, pela analista, os acontecimentos traumáticos, suas determinações culturais… Os múltiplos atravessamentos presentes numa análise com crianças…

E, ao final, uma conclusão sobre a especificidade desse trabalho: a análise de crianças é “cansativa” não porque se tem que brincar com elas, mas sim porque obriga o analista a entrar em contato com seus aspectos mais primários e mais reprimidos e suportar o conjunto de transferências que se colocam em jogo; “analisamos a um, suportamos a transferência de vários, e estamos obrigados a conduzir um processo no qual as variáveis se multiplicam” (p. 245).

Os três últimos capítulos tratam da investigação da Inteligência: Inteligência e psicanálise; Inteligência: a psicanálise e seus limites e Inteligência e recalque. Logo no início, uma precisão do tema: os transtornos de aprendizado podem ou não incluir transtornos de inteligência; o tema de suas aulas serão os transtornos do funcionamento propriamente dito da inteligência, relacionados à problemática específica da constituição dos processos de pensamento e da simbolização. Novamente coloca-se em evidência seu campo de interesse: pesquisar os tempos da origem quando se dá a constituição do aparelho psíquico, a diferenciação das tópicas e dos processos primários e secundários, que vão possibilitar a organização do conhecimento. A inteligência humana, diz ela, é radicalmente diferente da inteligência animal; o ser humano é o único capaz de uma imaginação produtiva; de criar uma realidade capaz de transformar, inclusive, as necessidades básicas de sobrevivência.

Retomando o modelo proposto por Freud no Projeto, na carta 52 e o conceito da alucinação primitiva descrito na Interpretação dos sonhos, assinala como já a primeira simbolização não é algo que responde a um objeto real, externo, mas sim que é uma criação própria da cria humana, cujo objetivo é o domínio sobre a excitação interna. Essa criação surge a partir dos traços da vivência de satisfação, mas o que é interessante é que essa inscrição já não é, desde sua origem, memória de objeto, pois sua referência já está perdida; o seio alucinado é muito mais complexo do que o objeto real e já está para além da autoconservação. A realidade, no humano, está sempre atravessada pela ordem libidinal.

Temos, a partir disso, uma questão central: como se constitui a objetividade necessária do conhecimento? Através de um complexo processo, dirá a autora, onde se não se instalarem certos pré-requisitos – alucinação primitiva, inscrições primárias, auto-erotismo, recalcamento originário, processos secundários de inibição, negação e contra-investimento, categorias de tempo e espaço e apropriação da linguagem –, não haverá possibilidade de inteligência lógica e interesse pelo conhecimento. E, algo fundamental, essa complexidade só se instala graças à ação de um outro desejante; um outro capaz de “um gozo ligado ao corpo da criança que ele próprio desconhece” (p. 284). Mas, um outro passo é necessário: que esse outro – a mãe, o semelhante humano –, seja capaz de ligar as quantidades que produz, isto é, que tenha um ego que ultrapasse a parcialidade do corpo erógeno e represente a criança como uma totalidade. Estes seriam pré-requisitos simbólicos, pois há possibilidades de facilitação genética que pertencem ao campo da neurobiologia. E, ainda, condições culturais que funcionam ou não como abertura para essas possibilidades. Tema complexo, a questão da inteligência, dos talentos, da genialidade coloca-se na imbricação de diferentes campos de saber e demanda, ainda, muito trabalho investigativo.

Ao final do livro, permanece o desejo de que a conversa pudesse continuar, de que certas afirmações pudessem ser retomadas – como quando Silvia Bleichmar afirma, por exemplo, que em Freud, ao contrário de Lacan, o inconsciente “não está originado pelo outro” (p. 268), ou que pudéssemos discutir melhor a relação entre denegação, negação e recalcamento… Temas que, embora já trabalhados por ela em seus livros anteriores – A fundação do Inconsciente e Nas origens do sujeito psíquico, sempre deixam restos que nos convocam a uma conversa infindável; coisas próprias daquilo que diz respeito às origens…

Mas há, neste livro, um fio que se tece de forma consistente na posição analítica de Silvia Bleichmar e nos convoca à mesma implicação: sua preocupação com o sofrimento do outro e seu desejo epistemofílico; o analista não se limita a encontrar o existente, mas a tentar produzir algo novo, num movimento constante de neogênese. Retomo suas palavras finais: “Que solidão terrível deve implicar não ter quem nos pense e não ter em quem pensar”; sem isso estabelecido, fica muito doloroso, senão impossível – ter o que pensar… Com sua paixão pela transmissão, deixou-nos a marca de sua presença; uma convocação ao pensamento.

topovoltar ao topovoltar à lista de autorestopo
 
 

     
Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
Sociedade Civil Percurso
Tel: (11) 3081-4851
assinepercurso@uol.com.br
© Copyright 2011
Todos os direitos reservados