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Resumo
Resenha de Marguerite Duras, O amante, São Paulo, Cosac Naify, 2007, 105 p.


Autor(es)
Rubia Maria Tavares Delorenzo
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise e professora do curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

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 LEITURA

La mer, la mère

La mer, la mère
Rubia Maria Tavares Delorenzo


Resenha de Marguerite Duras, O amante, São Paulo, Cosac Naify, 2007, 105 p.

“ Muito cedo foi tarde demais em minha vida.”

Feito no trançado do tempo, nos intervalos, nos ecos e nas vertigens, o romance nos transporta e nos fixa, concentrado na cena da balsa. Cena imóvel, pretérita, fotográfica. Cena movediça que desliza fazendo ocasião para a memória.

Ali está a figura da menina e também o contorno da mulher. Nesse entre-dois, a imagem da metamorfose em processo. Está ali, na roupa
da garota, essa inconstância. No chapéu masculino da liquidação, nos sapatos de saltos altos de lamê dourado, a presença do desejo. No vestido transparente, translúcido por roto, os farrapos das esperanças maternas. Cada peça que a veste, chapéu, sapatos, vestido – a leveza do tecido, a cor, o corte e a textura dos acessórios – cada uma delas se desdobra nas reminiscências da longínqua Indochina.

A cena da travessia do rio é elemento onírico, pura imagem, rébus. Tem de tudo: o milagre, o mistério e o enigma. O milagre da transformação da menina: quase Lolita, quase Capitu, densos olhos de ressaca.

Vemos ali o inquietante sofrimento que carrega, o rosto, como ela diz, “visionário, extenuado, esses olhos pisados antes do tempo…”. Mas há mais neste trajeto do barco. Há a atmosfera de urgência, de iminência, de tensão. Há o acontecimento prestes a advir: o encontro com o homem elegante da limusine preta.

Através do amante, transpondo oblíqua esse corpo de gozo, a paixão, a mãe.

A mãe é como as águas barrentas do Mekong que ela observa: belas águas, densas e selvagens, cuja correnteza feroz é capaz de arrastar tudo.

“Há uma tempestade que sopra no interior das águas do rio. Um vento que se debate.”

Correnteza que atrai os detritos, a imundície e a morte, mas leva suas águas a banhar territórios distantes, encontrando os arrozais, nutrindo a vida.

Mãe louca, de sangue e nascença, desabada por desânimo e abatimento, de repente se revira, se agita, compra, muda, cuida, oferece. Imensamente cândida.

Mãe nômade, provisória no humor, desesperadamente morta, desesperadamente móvel. Cigana errática, que vai e vem, que atravessa os continentes e os tempos num misterioso impulso, parece habitar a própria escrita do romance, ela própria em espiral.

Escrita que leva e traz uma dor insana, indestrutível, os restos que não se absorvem e que expõem a alma devastada.

Nesta lenta travessia, o rio observado da amurada, dito manso e violento, sugere o manancial infinito das palavras, sua lenta passagem, sua espessura, a força de sua correnteza.

Foi preciso sustentar-se no brilho precoce dos sapatos de lamê, distanciar-se dos saltos deformados pelo andar torto da mãe, de sua silhueta cinza, desistida, descontente, para começar a escrever.

Foi preciso deixar no esquecimento a miséria de sua mãe e o espetáculo de seu desespero que ocupou, na infância e desde sempre, o lugar íntimo do sonho.

Foi preciso tornar-se matricida como Orestes, para dar à escrita a luz do mundo.

… Eles estão mortos, agora, a mãe e os dois irmãos… Eu os deixei. Não tenho mais na memória o cheiro de sua pele nem em meus olhos a cor dos seus. Não me lembro mais da voz, exceto às vezes a voz da doçura mesclada ao cansaço da noite. O riso, não ouço mais, nem os gritos. Está acabado, não me lembro mais. É por isso que escrevo sobre ela, agora, de modo tão fácil, tão longo, tão estirado, ela se tornou escrita corrente.

Escrita: amor dos começos.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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