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Resumo
Resenha de Sylvia Loeb, Contos do divã (pulsão de morte e outras histórias), São Paulo, Ateliê Editorial, 2007, 150 p.


Autor(es)
Luciana Saddi
é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, autora do livro O amor leva a um liquidificador (Casa do Psicólogo), mestre em psicologia clínica pela PUCSP e colunista da Revista da Folha do jornal Folha de S. Paulo.


Notas

1 Da clínica extensa à alta teoria, meditações clínicas. Segunda meditação: O análogo. A esta segunda meditação foram dedicadas as aulas do primeiro semestre de 2003 na pós-graduação pucsp.

2 Toda a relação comporta um campo – é uma ordem produtora de sentidos. Um campo rompe-se quando as relações que o determinam se tornam conhecidas.


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 LEITURA

Contos do divã: entre a bruxaria e a ficção [Contos no divã: pulsão de morte e outras histórias ]

Tales on the couch: between witchcraft and fi ccion
Luciana Saddi


Resenha de Sylvia Loeb, Contos do divã (pulsão de morte e outras histórias), São Paulo, Ateliê Editorial, 2007, 150 p.

Ao longo dos meus estudos psicanalíticos, li muitos relatos e livros dedicados aos casos clínicos; alguns, inesquecíveis pelo talento em apresentar de forma vívida para o leitor – e mesmo para o leitor psicanalista – o trabalho clínico, questões e impasses do encontro terapêutico, a transferência, o analista e o paciente. O livro Contos do divã (pulsão de morte e outras historias), da psicanalista Sylvia Loeb, com certeza, está entre os mais interessantes e bem escritos que já conheci.

É notória, entre os psicanalistas, a tradição, vinda de Freud, em bem contar casos clínicos; deles extrair o sumo teórico e, num salto, maior ou menor, derivar conceitos. Afinal, cada paciente e seu correspondente relato clínico se tornaram um passo adiante na construção da teoria psicanalítica. As histórias nascidas da clínica, nascidas do encontro inusitado entre paciente e analista – histórias que contaram as descobertas psicanalíticas e que ao serem escritas descobriram e inventaram esse saber – levaram a escolhas narrativas particulares, que revelaram a forma de o analista pensar aquele determinado caso, inclusive, a maneira de conceber a própria psicanálise. Assim, no caso Dora há suspense e um enigma a ser decifrado pela interpretação de seus sonhos. O trabalho obsessivo de decifração de Freud revela detalhes sobre o mundo anímico dessa moça, sobre sua família, sua curiosidade e sexualidade, e quando acreditamos que nada mais poderá acontecer nessa história, que tudo que tínhamos para saber já havia se cumprido, somos surpreendidos, no final, pela descoberta da importância da transferência no tratamento, o que sugere estarmos diante do desvendamento de um crime – encontramos um culpado. Curiosamente, a culpa recai sobre o próprio tratamento – e nós que pensávamos ora ser o pai, ora o senhor K e até acreditamos na culpa da senhora K, somos pegos por observações sutis, quase fora do contexto narrado, que desvendam não apenas o enigma de Dora: desvendam o próprio tratamento psicanalítico, revelando a forma de Freud pensar – sempre além das evidências, diga-se de passagem.

Herrmann (2003) [1] afirma que nosso saber se faz por ruptura de campo [2]; que o método psicanalítico não pretende nem pode enunciar uma verdade objetiva; sua capacidade heurística reside na atribuição de sentido, por vezes inesperado, em despertar reações, em jamais capturar objetivamente qualquer de seus objetos. Dessa impossibilidade metodológica nasce uma forma específica de saber criada num lugar reservado. Ao teorizarmos a clínica, ao fazermos psicanálise, nos retiramos para esse lugar especial: a literatura, o análogo da Psicanálise. Freud dissera que a metapsicologia se equivale à bruxaria e que o aparelho psíquico era ficção teórica. Mas onde, então, situar a narração dos casos clínicos? Entre a bruxaria, operação invisível e o aparelho psíquico, produto da ficção teórica? Decerto, o caso, então, ocuparia o mesmo lugar que os estranhos ingredientes ocupam no caldeirão da bruxa e o aparelho psíquico compreenderia o conhecimento do modo de funcionamento das magias. Mas não há encanto sem canto, não basta que a bruxa, em silêncio, coloque seus ingredientes no caldeirão, é preciso que urre, que clame por seus demônios, que solte uma risada maligna cada vez que pronunciar: “rabo de lagartixa”.

De início, o sentido de narrar o caso clínico para a construção da psicanálise se apoiava na demonstração dos efeitos curativos do tratamento, na comprovação da veracidade das descobertas analíticas, na apropriação de um ato médico legitimando o ato analítico, de difícil caracterização para a época. Mas a operação de nosso método, a ruptura de campo, nos levou mais longe do que imaginávamos – é sempre assim –, os casos viraram novelas que ganharam vida; nasceram histórias e personagens que marcaram uma época: Freud, e mesmo Breuer, foram virados de cabeça para baixo, seus relatos de caso sofreram transformações inesperadas, a ciência se ligou a paixões proibidas, a sonhos, lapsos e chistes, até a minicontos. Essa transformação mágica da palavra escrita em ficção – não há nada como uma boa história contada numa linguagem apropriada – se encontra entre a bruxaria da metapsicologia e a ficção teórica. Espaço potencial de Winnicott, magia que integra ilusão e realidade – tudo que um leitor deseja de um bom livro – ilusão real que só a literatura e as artes nos proporcionam ao criarem um saber próprio. É a magia do escritor que devolve aos pobres fatos clínicos o direito usurpado pela ciência positivista, direito de serem boas ou grandes histórias, misteriosas, enigmáticas, estranhas.

Contos do divã encontra-se no cruzamento entre a bruxaria e a ficção. É magia, narrativa desconcertante, que arremessa o leitor no centro de um acontecimento ímpar, feita de estranheza dura, produzida pela dupla intenção de elevar o relato clínico à categoria de literatura e economizar o leitor da digressão das infindáveis teorias psicanalíticas, quase todas aplicáveis a quase tudo e, portanto, reificadas, distantes de seu poder criativo original. É para dar vida à psicanálise clínica que a magia da palavra escrita é aqui recuperada, e o encanto produzido pela escrita, por sua vez, é recriado por meio da temática analítica. Ótimo casamento.

O desgaste teórico-clínico-literário desse gênero – o caso clínico – é bem grande. Esse gênero exige fôlego e requer a solenidade diante da morte. Ao longo da formação dos analistas ouvimos relatos sem graça, sem valor de descoberta, aplicações teóricas corretas, e até mesmo criativas, mas com a intenção de afirmar que a própria psicanálise reside num campo de saber em que conhecimento soma com conhecimento e constrói um edifício teórico sólido rumo à ordem e ao progresso. E todos participamos da construção dessa ciência, mesmo que divididos em escolas, em estilos arquitetônicos, em mais ou menos vanguarda, nos certificamos de que algo semelhante ao ideário de nossa bandeira, ordem e progresso, ocorre. O livro de Sylvia Loeb destrói essa tal ordem e pede trabalho para suportar o mistério que é ser analista e encontrar-se com pessoas e dramas que não alcançamos. Entre outros recursos, ela utiliza o murmúrio das histórias de horror, que sugerem os piores pesadelos, deixando para nós a tarefa de imaginação. O domínio do tempo na narrativa suspende o leitor da realidade e o coloca à espreita do trauma, no meio da fantasia. Por isso a linguagem poética, a escolha ousada pela ficção demonstra que a clínica é feita de um líquido que não se agarra facilmente, material escorrido, gasoso ou sólido, sempre liquidificado pela presença do método de ruptura de campo.

Para quem deseja matar a curiosidade sobre o que ocorre ao analista e ao paciente, o livro também é indicado. Pois sua linguagem e narrativa permitem ao leitor estar dentro da sala de análise, dentro da cabeça do analista. Creio que isso é o que diferencia Contos do divã de outros livros de relato clínico. O leitor na pele do analista pode pensar e sentir como ele, é transportado no tempo e no espaço para que suporte a impotência de acreditar que sabe de algo que ainda não pode ser falado ou para calar o que não deve ser sequer pensado. Muitos bons relatos levam o leitor até o consultório, aos livros, às teorias, mas não ousam invocar a magia da literatura.

À estranheza de escolher narrar análises partidas (o que alguns classificariam de fracasso clínico) chamo de coragem analítico-literária, rara em nosso meio, que ainda procura, através de relatos clínicos exitosos e até mentirosos, demonstrar eficácia analítica. Não precisamos mais disso. Até mesmo Freud, um dia, escreveu: – não acredito mais em minha Neurótica – e por isso a psicanálise nasceu. Hoje, se progrediremos como quer nossa bandeira nacional, será apenas à custa da capacidade de lidar com nossos limites e desordem. Não é o conceito de pulsão de morte que gera a estranheza desses relatos, muitas análises são interrompidas. O sucesso analítico depende da demanda do paciente por análise e não do desejo do analista em fazer uma psicanálise bem sucedida, nós sempre queremos mais. Mas, afinal, se nosso objeto escorre é porque está vivo, não seria justo imobilizá-lo, acusando um conceito por tal capacidade. No livro, a proximidade quase invasiva do leitor à ignorância sábia do analista, por meio de pequenos socos no estômago e surpresas poéticas-narrativas, é que gera e constitui estranheza. O estranho é a matéria-prima do encontro analítico e Sylvia Loeb sabe disso.

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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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