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Resumo
Este artigo resulta de uma pesquisa acerca do estatuto psíquico do olfato. A questão originou- se através do atendimento de duas pacientes, no Programa de Atendimento e Estudos de Somatização do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP/ EPM, cuja queixa central eram dores no corpo despertadas por determinados cheiros. Dessa pesquisa clínica nasceu a questão: podemos falar em pulsão olfativa?


Palavras-chave
olfato; pulsão; somatização; psicossomática; alergia.


Autor(es)
Cristiane Curi Abud

é psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É professora do curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae. Professora afiliada da Universidade Federal de São Paulo, coordena o Programa de Assistência e Estudos de Somatização do Departamento de Psiquiatria da unifesp. Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (pucsp) e doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (fgvsp). Escreveu o livro Dores e odores, distúrbios e destinos do olfato (Via Lettera, 2009). É coautora do livro Psicologia Médica Abordagem Integral do Processo Saúde-Doença (Artmed, 2012). Organizadora do livro A subjetividade nos grupos e instituições (Chiado, 2015) e O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise (Perspectiva, 2017).




Notas

1 J. M. Masson, A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904.

2 S. Freud (1897) “Carta 55”, 11 de Janeiro de 1897, p. 224.

3 S. Freud (1888) “Histeria”, op. cit., Vol. I, p. 85.

4 S. Freud (1893) “Estudos sobre histeria”, op. cit., Vol. II.

5 S. Freud (1905) “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, op. cit., Vol. VII.

6 S. Freud (1897) “Carta 55”, 11 de Janeiro de 1897, op. cit., Vol. I. S. Freud (1897) “Carta 75”, 14 de Novembro de 1897, op. cit., Vol. I. S. Freud (1909) “Notas sobre um caso de neurose obsessiva”, op. cit., Vol. X. S. Freud (1912) “Contribuições à psicologia do amor”, op. cit., Vol. XI.

7 S. Freud (1930) “O mal-estar na civilização”, op. cit., Vol. XXI, p. 120.

8 S. Freud, idem , p. 120.

9 K. Abraham, Teoria psicanalítica da libido.

10 K. Abraham, Psicoanálisis Clínico.

11 Ouso aqui traduzir “instinto osfresiofílico” por pulsão olfativa, considerando a distinção feita por Laplanche e Pontalis entre o uso dos termos instinto e pulsão (Instinkt e Trieb) na obra de Freud. No português, assim como no francês, o termo instinto se reserva mais a qualifi car um comportamento animal fi xado por hereditariedade, característico da espécie.

12 D. Anzieu, O eu-pele, p. 77.

13 D. Anzieu, op. cit., p. 229.

14 J. McDougall, As múltiplas faces de Eros.

15 Em francês, les fruits de mer tem o mesmo som de os frutos da mãe, frutos proibidos.

16 L. Shengold, “The smell of semen”, p. 47-64.

17 R. Roussilon, “Une odeur d’au-dessus”.

18 E. Sechaud, “Figurabilité olfactive”, p. 1141-5.

19 Z. L. Jacoby, “Olfato: percepción y representación-represión orgánica”, p. 635-50.

20 S. Freud (1933) “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise”, op. cit., Vol. XXIII.



Referências bibliográficas

Abraham K. (1970) Teoria psicanalítica da libido. Rio de Janeiro: Imago.

_____ (1994) Psicoanálisis clínico. Buenos Aires: Hornié.

Anzieu D. (1989) O eu-pele. São Paulo: Casa do psicólogo.

Freud S. (1888/1974) Histeria. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmundo Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol. i.

_____ (1897) “Carta 55”, 11 de Janeiro de 1897, Vol. i.

_____ (1897) “Carta 75”, 14 de Novembro de 1897, Vol. i.

_____ (1893) “Estudos sobre histeria”, Vol. ii.

_____ (1905) “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Vol. vii.

_____ (1909) “Notas sobre um caso de neurose obsessiva”, Vol. x.

_____ (1912) “Contribuições à psicologia do amor”, Vol. xi.

_____ (1930) “O mal-estar na civilização”, Vol. xxi.

_____ (1933) “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise”, Vol. xxiii.

Jacoby Z. L. (2000) Olfato: percepción y representación-represión orgánica, Rev. Psicoanálisis, V. 57, n. 3/4, p. 635-50.

Masson J. M. (1986) A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago.

McDougall J. (2001) As múltiplas faces de Eros. São Paulo: Martins Fontes.

Roussilon R. (1992) Une odeur d’au-dessus, Rev. Franç. Psychanal, n. 1, 1992.

Sechaud E. (2001) Figurabilité olfactive, Rev. Franç. Psychanal, V. 65, n. 4, p. 1141-5.

Shengold L. Th e smell of semen. In: Shengold L., Soul murder revisited: thoughts about therapy, hate, love and memory. London: Yale University Press.





Abstract
This article results from a research of the psychological meaning of olfaction. Two patients seen in the Program of Somatization Studies of the Department of Psychiatry at the Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina were allergic to certain smells. It could be shown that the pains they presented were determined by psychogenic factors. Conceptual elaboration of these cases led to an intriguing question: can we speak of an “olfactory drive”?


Keywords
olfaction; drive; somatization; psychosomatic; allergy.

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 TEXTO

Podemos falar em pulsão olfativa?

Can we use the term “olfactory drive”?
Cristiane Curi Abud


A partir de duas pacientes que apresentam alergia a determinados cheiros, tenho notado na clínica muitas menções ao sentido do olfato. Conforme fui observando e estudando essas menções, antes despercebidas, notei sua freqüência e importância clínica.

D. Bernarda foi encaminhada à triagem do Programa de Atendimento e Estudos de Somatização do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo/Hospital São Paulo e contou a seguinte história:

Eu tenho uma alergia a cheiros. Cada coisa com que eu entro em contato, a reação no físico é diferente. Com cheiro de tinta, sinto dor de cabeça, parece que vou fi car cega; cheiro de cola me dá moleza nas pernas, falta de ar, fecha o meu esôfago; com cândida sinto queimação na cabeça, no rosto e na sola dos pés, além de tontura. Às vezes passo tão mal com os cheiros, minha pressão sobe e vou para o Pronto Socorro. Chego lá, os médicos dizem que não tenho nada e me dão calmante, mas eu tenho certeza que é alguma doença. E tem essa tosse, Doutora, mas acho que é porque eu durmo com o ventilador ligado. Sabe, Doutora, eu durmo na sala todas as noites. Eu deito na cama pra dormir e durmo, mas perto de meia-noite eu acordo todas as noites, suando, a cabeça quente, pesada, parece que eu vou morrer. Aí vou dormir no sofá da sala, e melhoro, lá eu consigo dormir. Antes de dormir fecho a casa toda, as portas, as janelas, e se tem alguma fresta fi co tampando, porque senão quando chega perto de meia-noite começa a entrar um cheiro de borracha quente, bem fraquinho, ninguém percebe, mas eu sinto, acordo e não durmo mais. Esse é o pior cheiro de todos, foi o primeiro que me fez mal e não sai do meu nariz.

Essa é a história oficial que a paciente conta, a partir da qual iniciamos um trabalho de desconstrução, que durou alguns meses e que resumo a seguir. O primeiro elemento que me chamou a atenção foi o “cheiro de borracha quente” e, na tentativa de remontar a história, perguntei quando ela começou a sentir o cheiro de borracha quente e ela contou:

Numa noite, minhas fi lhas (a mais velha tinha 17 anos) pediram para sair com amigos, iriam a um baile. O pai não quis deixar, mas eu encobri e as meninas foram ao baile. Eu estava dormindo e, lá pela meia-noite, ouvi um barulho, saí de casa correndo e vi um acidente com uma Kombi na esquina. Cheguei perto do carro e senti o cheiro da borracha queimada do pneu que derrapou. Fiquei desesperada e alguém me disse que minha fi lha, a mais velha, estava morta dentro da Kombi.

Dessa maneira, os elementos “cheiro de borracha quente” e “meia-noite” articulam-se numa outra história, cujo conteúdo apresentava-se de forma latente na primeira versão. A essa altura a conexão entre sua alergia e a morte de sua fi lha já era explícita.

Interessada pelo tema, realizei uma pesquisa sobre a história cultural dos aromas e aprendi que a palavra per-fume signifi ca através da fumaça. Os antigos gregos e romanos usavam incensos em cerimoniais religiosos, pois acreditavam que através da fumaça estabeleciam uma comunicação direta com os mortos. Encontramos essa crença na atualidade: nos fi lmes de terror, por exemplo, é comum aparecerem cenas de cemitério com uma ambientação esfumaçada; ou ainda no fi lme O cheiro do ralo, o protagonista acreditava que o ralo de seu banheiro, muito mal-cheiroso, conectavase com o inferno, onde seu desconhecido e desaparecido pai deveria estar. Diante dessas crenças milenares e culturais, propus então a Bernarda a hipótese de que através do cheiro de borracha queimada ela se sentia mais próxima de sua fi lha.

É mesmo, doutora, foi desde o dia do acidente que comecei a sentir o mesmo cheiro à meia noite e a dormir na sala. Eu acho que durmo lá por causa da minha fi lha, sim. Ela foi velada naquela sala, e a cabeça dela fi cou bem perto de onde minha cabeça fi ca no sofá. Acho que ela olha por mim, me protege e me ajuda a dormir.

Leila, uma moça de trinta e três anos, durante a faxina que fazia na casa de seu patrão, passou mal com o cheiro de um produto de limpeza. Ela limpava o banheiro, com “um tal de Form não sei o quê, que serve para matar bactérias” e o cheiro gerou falta de ar, tremedeira, moleza nas pernas, “gastura” e choro: “dali para cá fi quei assim”. Passou a ter medos: medo de usar cera vermelha, medo da cor do sangue da menstruação. Cheiro de cândida e cloro fazem mal, “fi cam parados no nariz”. Às vezes está bem e algum cheiro a faz sentir-se mal, como se tivesse “alguma coisa ruim passando dentro de mim”, sente uma dor na perna e no braço, um formigamento, acha que é o “nervo”.

Leila nasceu em Minas Gerais, é a fi lha caçula de uma prole de quatro mulheres. Sua mãe não queria engravidar, e uma amiga a incentivou a manter a gravidez, pois poderia vir um menino. Numa espécie de brincadeira, as duas combinaram que se fosse menino a mãe biológica criaria, e se fosse menina ela daria o bebê para a amiga criar. Dito e feito: Leila foi dada aos nove meses de idade. Quando Leila completava sete anos de idade, esta mãe que a criou suicidou-se, tomou formicida ao descobrir que o marido tinha outra mulher. Descobriram que ela havia ingerido formicida através do cheiro de seu vômito.

O lugar predominante que a lembrança de cheiros tomou na história dessas pacientes me levou a formular a seguinte interrogação: podemos falar em pulsão olfativa?

Para iniciar a discussão, apresentarei o material teórico que pude encontrar na literatura psicanalítica relacionado com a questão do olfato. Vejamos, em primeiro lugar, alguns autores sob a ótica da primeira teoria das pulsões, na qual Freud contrapunha pulsões de auto-conservação e pulsões sexuais. Observemos como os autores articulam o olfato à sexualidade humana, às suas organizações libidinais, oral, anal, fálica e genital.

Em seguida, apresentarei outros autores que orientam suas formulações pela segunda teoria das pulsões. Aqui, a discussão central diz respeito à classifi cação do olfato: trata-se de uma sensação, de um afeto ou de uma representação? Seria um traço de memória, uma percepção? Sempre partindo de casos clínicos próprios, ou retomando Miss Lucy, os autores que apresento a seguir discutem a função e o lugar psíquico do olfato.

A primeira teoria das pulsões
Freud: da anatomia ao sentido

Na correspondência de Freud com Fliess [1], encontramos inúmeras cartas que contêm passagens sobre a questão do nariz e do olfato. Nelas, Freud demonstra concordar com a idéia de Fliess, segundo a qual há no nariz, assim como no córtex cerebral, uma localização específi ca para cada um dos sintomas distantes em outros órgãos.

Na “Carta de 11 de janeiro de 1897”, Freud transcende o nariz para falar de olfato propriamente:

[…] A esse respeito, cabe lembrar que o sentido principal dos animais (também no tocante à sexualidade) é o olfato, que se reduziu nos seres humanos. Enquanto predomina o olfato (ou o paladar), a urina, as fezes e toda a superfície do corpo, inclusive o sangue, têm um efeito sexualmente excitante. Presumivelmente o sentido aguçado do olfato na histeria está ligado a isso… [2].

Nota-se claramente nesta passagem que Freud supera a anatomia do nariz e passa a falar no sentido do olfato e, portanto, sobre sua possibilidade de deslocamento.

Em 1888 Freud descreve as alterações que ocorrem na atividade sensorial de pacientes histéricos, notando “uma extraordinária exacerbação da atividade sensória especialmente do olfato e da audição” [3]. O distúrbio sensorial já não se deve mais ao nariz anatômico, mas ao nariz-órgão da mente.

Em Estudos sobre a histeria [4], com sua teoria sobre as neuroses já mais avançada, Freud descreve o caso de Miss Lucy, conferindo ao olfato um sentido psíquico e ao nariz, defi nitivamente, um equivalente mental. Lucy perdeu inteiramente o sentido do olfato, com exceção de duas sensações muito afl itivas: cheiro de pudim queimado e cheiro de charuto. Freud se dispõe então a interpretar as sensações olfativas subjetivas. Sua depressão talvez fosse devida à emoção ligada a uma experiência traumática que as sensações recorrentes do olfato simbolizavam na memória. Freud afi rma ser muito raro que sensações olfativas sejam escolhidas como símbolos mnêmicos de traumas e que, neste caso, isso se deu em parte pela rinite da paciente, que tornava seu nariz alvo de sua atenção. Na análise, Lucy consegue remontar às situações traumáticas, nas quais a sensação olfativa se fez presente, e supera seu sintoma.

Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade [5], Freud descreve o cheiro como uma parte do objeto almejado, ao descrever o fetichismo no qual o objeto sexual normal é substituído por outro. A substituição do objeto por um fetiche é determinada por uma conexão simbólica do pensamento, geralmente inconsciente. O prazer coprofílico de cheirar é extremamente importante na escolha do fetiche e desaparece devido à repressão. Os pés e os cabelos são objetos de forte odor e foram exaltados como fetiches após a sensação olfativa ter-se tornado desagradável. No fetichismo do pé, os pés sujos e mal cheirosos é que se tornam objetos sexuais. O pé representa o pênis da mulher cuja ausência é profundamente sentida. Além de ressaltar o cheiro como qualidade do objeto, Freud fala em prazer de cheirar já do ponto de vista do sujeito, ligado à fase anal (prazer em cheirar fezes) e fálica (prazer em cheirar pé-pênis).

Além de incluir o cheiro e o prazer em cheirar como um componente parcial da libido, que mais tarde na fase genital pode integrar-se a ela, Freud [6] escreve alguns textos nos quais questiona a participação do olfato na origem da repressão sexual – para além da moralidade e da vergonha e, mais tarde em sua obra, da angústia de castração.

Em O mal-estar na civilização, Freud pergunta- se a que infl uências o desenvolvimento da civilização deve sua origem, como ela surgiu e o que determinou seu curso. E diz:

O processo fatídico da civilização ter-se-ia assim estabelecido com a adoção pelo homem de uma postura ereta… passando pela desvalorização dos estímulos olfativos e o isolamento do período menstrual até a época em que os estímulos visuais se tornaram predominantes e os órgãos genitais fi caram visíveis e, daí, para a continuidade da excitação sexual, a fundação da família e, assim, para o limiar da civilização humana [7].

A tendência cultural do homem para a limpeza origina-se no impulso de livrar-se das excreções desagradáveis aos sentidos. As crianças não têm esta tendência, não sentem repugnância pelos excrementos que, ao contrário, são valiosos para elas, parte do próprio corpo que se separou. A educação trata de ensinarlhes a repugnância.

Essa inversão de valores difi cilmente seria possível, se as substâncias expelidas do corpo não fossem condenadas por seus intensos odores a partilhar do destino acometido aos estímulos olfativos depois que o homem adotou a postura ereta. O erotismo anal, portanto, sucumbe em primeiro lugar à “repressão orgânica” que preparou o caminho para a civilização [8].

Freud parte daquilo que é animal no homem, o olfato e sua relação inicial com a sexualidade, e propõe, a seguir, um corte, a adoção da postura ereta cuja conseqüência seria o recalque de alguns instintos componentes e a instalação da sexualidade humana, sujeita a desvios e manifestações que extrapolam a fi nalidade de reprodução e preservação da espécie, tal como postulou nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Desse modo, a sexualidade humana diferencia-se nitidamente da sexualidade animal, governada basicamente pelas leis da reprodução. Nota-se que esta hipótese é levantada em 1897 e se mantém ao longo da obra, mesmo depois de desenvolvidos conceitos como narcisismo, complexo de Édipo, complexo de castração, fundamentais para a compreensão da origem do recalque.

A pulsão através das fases do desenvolvimento da libido
Abraham e a fase anal

Abraham [9] descreve o caráter anal salientando a relação entre olfato e analidade. Abraham foi o único autor que observei usar a expressão instinto osfresiolágnico ao descrever um caso clínico de fetichismo de pé e corpete [10]. Osfresia vem do grego ósphresi e signifi ca olfato, sensibilidade olfativa intensa. Abraham coloca esse instinto entre outros parciais da libido como, por exemplo, o escopofílico.

O autor apresenta o caso no qual um paciente excitava-se ao olhar sapatos e corpetes, em vez de excitar-se com corpos. Apresentava uma forte inibição da sexualidade global, sendo que o prazer causado pelos odores corporais repugnantes havia sido muito forte. A repressão do prazer coprofílico olfativo, da escopofi lia e da sua atividade sexual havia levado a formações de compromisso que constituem as características peculiares do fetichismo por pés. Há casos de fetichismo em que o prazer causado por odores repugnantes não é reprimido. Chamado fetichismo olfativo, o prazer é produzido por pés sujos e transpirados que, ao mesmo tempo, atraem os instintos escopofílicos. No caso presente, o paciente passou por uma fase correspondente ao fetichismo olfativo que fora reprimido, e seu prazer voyerista foi sublimado no prazer de olhar sapatos.

O paciente repete, segundo a interpretação de Abraham, o que Freud chamou de repressão orgânica do olfato em prol da visão. O fato é que Abraham foi o único autor que observei identifi car e nomear a pulsão olfativa [11].

Um salto no tempo

Algumas décadas mais tarde, encontramos na literatura psicanalítica idéias novas, revelando que a psicanálise se desenvolveu desde Freud. Os autores a seguir apresentam proposições relacionadas à constituição do psiquismo numa etapa muito mais precoce do desenvolvimento do que as estudadas pelos autores pioneiros.

Anzieu e a fase oral

Anzieu propõe a noção de envelope olfativo, subconceito da noção de Eu-pele, defi nido como uma

representação de que se serve o Eu da criança durante fases precoces de seu desenvolvimento para se representar a si mesma como Eu que contém conteúdos psíquicos, a partir da sua experiência da superfície do corpo. Isso corresponde ao momento em que o Eu psíquico se diferencia do Eu corporal no plano operativo e permanece confundido com ele no plano fi gurativo [12].

Para ilustrar o que chamou de “envelope olfativo”, o autor descreve o paciente Gethsêmani, que em alguns momentos da análise cheirava mal, sendo seu mau cheiro potencializado pela colônia que usava. E seu cheiro tornava-se pior à medida que falava e exteriorizava sua agressividade dirigida a objetos perseguidores da infância. O autor atribuía seu cheiro à sua constituição biológica e a seu meio social de origem, resistindo assim a uma compreensão psicanalítica desse sintoma. Ao interpretar para o paciente que ele o invadia não somente com emoções agressivas, mas com certas impressões sensoriais, o paciente se lembra de sua madrinha, mulher que dele cuidava e que raramente se lavava, assim como raramente lavava suas roupas íntimas, que o paciente clandestinamente respirava para sentir seu odor forte. Esse dado revela uma fantasia fusional com a pele mal cheirosa e protetora da madrinha. Sua mãe, ao contrário, fazia questão de estar sempre limpa e perfumada com água de colônia. Essa menção à mãe revela a fantasia de fusão com ela, percebida pelo analista que se incomodava com a colônia usada pelo paciente. A análise consegue então articular o mau cheiro causado pela transpiração do paciente a certas emoções, como frustração e agressividade. “Para não sofrer dessa agressividade, você a transpira através de sua pele” [13], diz o analista.

Nota-se que Anzieu salienta a fase oral do desenvolvimento da libido e explora a questão do olfato vinculado à oralidade. Já Abraham, a exemplo de Freud, salientou as relações entre olfato e analidade, e olfato e fase fálica. Notamos através dos autores que a pulsão olfativa participa de todas as fases do desenvolvimento da libido.

McDougall e a fase oral

McDougall também se detém mais na fase oral quando elabora o conceito de self do olfato. No livro As múltiplas faces de Eros [14], ao falar sobre sexo e soma, relaciona as fantasias sexuais arcaicas e os sintomas psicossomáticos, e apresenta uma vinheta clínica ilustrativa de um sintoma alérgico no qual encontra uma impressionante importância dos odores. Os bebês, segundo a autora, procuram o seio através do sentido do olfato, donde conclui que todo bebê conhece o cheiro do sexo da mãe e distingue os pais pelos seus diferentes odores. As reações alérgicas começam a organizar-se psiquicamente num contexto de relação mãe-bebê perturbado. McDougall constata, em sua observação clínica, que os alergênicos tóxicos de seus pacientes na infância tinham sido os odores, os sabores e as experiências táteis que eram desejadas e positivamente investidas pelas crianças.

McDougall exemplifi ca com o caso Georgette, paciente que se queixara, no início da análise, de diversos sintomas psicossomáticos que haviam desaparecido, tendo restado apenas uma forte reação alérgica quando comia certas frutas, peixes e crustáceos [15]. Por exemplo, certa vez que ela degustou uma ostra por seu cheiro adorável e teve um forte reação alérgica, seguida de um sonho com um corpo de mulher em forma de concha de mexilhão. Mexilhão, no francês, é termo usado para se referir ao órgão sexual feminino. A analista interpreta seu desejo de tocar, comer e cheirar o sexo materno, recurso primitivo de incorporação da mãe para poder tornar-se a própria e possuir o seu sexo, desejo perigoso e proibido, cujo alerta era dado pela reação alérgica do corpo. Numa de suas associações, a paciente lembra que os mexilhões eram a paixão de seu pai e, junto da analista, tem o insight de que seu pai comia o “mexilhão de sua mãe”, coisa até então impossível de ser pensada, pois não os imaginava como um casal. Assim, o caráter persecutório dos odores, que eram tão atraentes na infância, signifi cava uma recusa da implicação desses odores, isto é, que seus pais existiam como par sexual.

Com o decorrer da análise, a paciente consegue incluir o pai, o cheiro do pai na dupla mãefi lha, demonstrando assim o papel do olfato na diferenciação sexual que se dá na fase fálica do desenvolvimento da libido. À medida que a paciente se separa e se diferencia da mãe, o cheiro do pai pode ir sendo incluído.

Uma paciente minha, certa vez, entrou em minha sala elogiando o cheiro que ali sentia e passou a falar do cheiro de sua mãe. Era até então muito apegada à mãe e vínhamos trabalhando intensamente essa relação. Mas, na ocasião dessa sessão, ela reclamou do cheiro da mãe, dizendo ser muito intenso e invasivo, sufocante. A paciente sofria de rinite e tinha um desvio de septo, sendo que o perfume da mãe fazia seus sintomas piorarem. Ainda nesta sessão ela diz que cheiro bom é o de seu pai, suave e delicado. Após essa associação, decide que deve fazer a cirurgia para corrigir o desvio de septo há muito protelada. Na época em que o médico sugeriu a operação ela decidiu, no lugar de operar, fazer uma tatuagem de golfi nhos nas costas – pois eles saem da água de vez em quando para respirar. Concordo com sua decisão de abrir o caminho das vias nasais. Após a cirurgia, sua rinite melhorou muito, e dois anos depois a paciente tatuou uma tulipa em seu calcanhar. A permissão da entrada do cheiro masculino em sua vida tirou-a da condição de bebê da mãe – golfi nho – e a fez desabrochar como uma tulipa perfumada.

Shengold e a fase fálica

A respeito da contribuição do olfato para a diferenciação dos sexos na fase fálica, há um artigo muito interessante de Leonard Shengold [16], no qual o autor nota no relato de várias pacientes uma preocupação com o cheiro do sêmen.

Segundo o autor, os odores estão envolvidos com experiências sexuais e somáticas, cruciais para o desenvolvimento psíquico – experiências corporais íntimas, que participam da formação do ego e do senso de self. O cheiro da mãe para a criança começaria com uma mistura de odores corporais, predominando o cheiro do seio e o do leite. Passada a fase de nursing, na qual a diferenciação em relação à mãe é parcial, o cheiro sexual da mãe envolverá os cheiros do corpo – doce, sujo, cheiro de urina, de fezes, menstruação, vagina – e cheiros periféricos – sabão, comida, casa… Esses odores podem também emanar do pai. Na fase anal-sádica os vários odores provavelmente adquirem uma signifi cância anal. Os odores desse estágio envolveriam uma confusão entre odores vaginais e anais. A curiosidade sexual se centraria parcialmente na diferenciação de odores. Portanto, deve haver uma história traumática para pessoas que dão particular importância aos cheiros. Os odores podem derivar, por exemplo, de uma exposição à cena primária; ou de um adulto senil, psicótico ou perverso, que expõe a criança a cheiros derivados de exibicionismo ou da falta de higiene. O sentido do olfato pode ser importante no assassinato psíquico: um adulto abusador pode violentar a criança com odores, diretamente ou como acessório para outras cenas. Isso marcaria o caráter traumático dos cheiros. O cheiro da experiência pode ser um deslocamento de algo mais traumático da experiência para a criança, como, por exemplo, a sensação de dor da penetração. E a sensação olfativa é capaz de trazer à tona toda a experiência.

Shengold descreve três casos clínicos que ilustram uma preocupação com cheiro de esperma. As pacientes descritas sentem-se ameaçadas pela ereção e pela ejaculação, revelando intensa inveja do pênis. A diferença sexual é especialmente importante para crianças que sofreram abuso, assim como a diferença hierárquica entre adultos e crianças. As crianças não conseguem ter orgasmo como um adulto, e a imagem do pênis ejaculando marca bem essa diferença. A criança excitada não consegue descarga sufi ciente e fi ca com essa dolorosa excitação sem destino. Os desejos ativos e destrutivos das pacientes, assim como as pulsões orais e coprofágicas, expressam-se deslocadas nos cheiros genitais, na atitude passiva de cheirá-los. Ele presume ainda que essas pacientes são mais sensíveis a cheiros do que outras, e as cenas traumáticas da infância foram determinadas por um elemento aromático específi co. Abraham diria que o instinto osfresiofílico nesses casos não fora sufi cientemente reprimido, causando o que ele chamou de fetichismo olfativo. A descrição que ambos os autores fazem dos casos, e mesmo sua compreensão, é baseada em conceitos teóricos muito próximos; entretanto, Shengold não usa o conceito de pulsão olfativa: ele fala apenas em sensação olfativa.

A segunda teoria das pulsões
René Roussilon e as representações

René Roussilon [17] descreve uma sessão na qual um paciente fala de um cheiro indefi nível. Mais tarde, o associa com a casa onde morou quando pequeno, um cheiro que vinha de cima, de café com leite, que despertava raiva e desespero. Associa-o ainda com uma hospitalização, aos onze anos, para operar o apêndice. Liccio, o paciente, esperava a visita da mãe e ela não vinha. E ele se empanturrava de café com leite. Ao sair do hospital, achou sua mãe estranha, sua cabeça girava e aí tudo começou. Disseram ao analista que ele estava esquizofrênico. Mas após essa sessão ele mudou: estava mais presente, evocava sua questão central: como seria o mundo se Deus não tivesse criado os homens? Como seria o mundo sem ele? Paradoxo existencial psicótico de um sujeito presente que diz não existir, que não existe para o psiquismo da mãe, para o espelho do olhar do outro. O odor não seria uma representação, mas um traço mnésico perceptivo, utilizado como representante, como índice. O objeto de cima, o cheiro, não é uma representação, é um representante não-representação associado, por contigüidade temporal, à ausência.

Sechaud: olfato, da apresentação à representação

Évelyne Sechaud [18] cita Laurence Kahn e elogia sua insistência em traduzir Darstellung por apresentação, em vez de fi guração, pois permite a liberação em relação ao visual em prol de outros modos de fi guração.

Segundo Sechaud, o sensorial olfativo é muito próximo do afeto. O visual fornece uma mise-en-scène à representação, enquanto o olfato cria a ambientação, a atmosfera. Se a percepção visual não é possível sem a presença do objeto, o odor, como o afeto, subsiste a essa ausência, tornando- se um indício, um signo do objeto. A possibilidade de guardar a sensação na ausência do objeto abre caminho para o deslocamento simbólico, conferindo ao odor o poder de evocação que ultrapassa a lembrança precisa do objeto. Em outros termos, o odor se presta a deslocamentos e condensações. Uma vez sentido o odor, dele não se esquece mesmo depois de muito tempo. Ele faz parte de um contexto emocional e constitui a chave para se recriar este contexto.

Retomando a afi rmação de Freud, segundo a qual as histéricas sofrem de reminiscências, Sechaud afi rma que essas últimas não são lembranças, mas impressões vagas do passado que fl utuam na bruma impalpável de uma memória sensorial e afetiva. Nesse sentido, os odores se prestam bem às reminiscências; são uma ligação metonímica e também metafórica com o objeto, que permite um deslocamento por contigüidade, mas também simboliza o objeto. Serve de cobertura ao recalcamento.

Jacoby: o status psíquico do olfato

Jacoby [19] discorda de Sechaud no que concerne à capacidade do odor de sofrer deslocamento e condensação. Para ela, apesar de fonte dos sonhos, o odor não é transformado pelo trabalho onírico, como acontece com a imagem que sofre deslocamento e condensação. Emerge freqüentemente como sensação que se presentifi ca ante um estímulo olfativo externo que produz o despertar. São as alucinações que emergem nas condições psicóticas mais regressivas. Há uma prontidão olfatória para o desejo amoroso, o medo, a cólera.

Para Jacoby, o olfato está intimamente ligado à memória, em cujos circuitos o odor pareceria expandir-se relacionando constelações vividas, principalmente em associações de simultaneidade pelas quais sua inscrição corresponderia à primeira transcrição ao signo de percepção no pré-consciente, como Freud descreve na carta 52, por completo insuscetível de consciência. Freud especifi ca ainda mais, afi rmando que as associações simultâneas são incapazes de se fazer conscientes. A continuidade e a contigüidade poderiam confi gurar-se para o olfato, mas Jacoby considera que a condição da simultaneidade no registro dessa sensação corresponde à observação da presença do olfato como o fundo de variadas experiências sensoriais. A condição de não ser suscetível à consciência aparece na experiência de chegar à percepção com um particular caráter evanescente. O registro da simultaneidade não pode ser enquadrado em referências espaciais e temporais, pois esses parâmetros são ordenados pela lógica do pré-consciente e da linguagem. Essa característica torna a percepção olfatória difícil de ser elucidada pelo pensamento secundário.

Discussão

Como podemos articular pulsão e olfato até aqui? O olfato está, do ponto de vista biológico, estreitamente ligado à respiração. No ato de respirar, quer queiramos, quer não, sentimos o cheiro do lugar onde estamos, das pessoas a nossa volta, de nós mesmos. Podemos incluir a pulsão de respirar, descrita por Freud na Conferência XXXI [20], dentro das pulsões de autoconservação, dado que se trata de uma necessidade ligada a uma função corporal essencial à conservação da vida. O olfato se apóia nesta fonte somática que é a respiração. Podemos afi rmar que o olfato está para a necessidade de respirar assim como o paladar está para a fome. A pulsão olfativa seria então classifi cada como sexual, pois se apóia numa função somática.

Mais ainda, ela poderia ser concebida como pulsão parcial da libido, pois se especifi ca por duas fontes somáticas, aparelho respiratório e olfativo, e por uma meta, a satisfação de cheirar. Essa meta também cumpre uma função biológica importantíssima, para além da respiração, pois através do cheiro das coisas, alimentos e ambiente podemos nos prevenir de diversos tipos de acidentes. Seu objeto seria tudo aquilo que exalasse o cheiro desejado para a satisfação da pulsão e diminuição da tensão. A pulsão olfativa teria um funcionamento independente e tenderia a unirse às diversas organizações libidinais.

Apresentamos várias referências que Freud faz ao olfato, deixando implícita a noção de uma pulsão parcial da libido. Para salientar algumas delas, retomemos o prazer em cheirar fezes na fase anal e cheirar pés-pênis na fase fálica. Freud inclui o cheiro e o prazer em cheirar como um componente parcial da libido, assim como incluía componentes como a pulsão de ver, a pulsão de dominar etc.

Freud fala de uma repressão orgânica de prazer no cheiro, conferindo ao prazer no cheiro a vicissitude de ser, como qualquer outro prazer parcial, recalcado. Além de recalcada, a pulsão contribui para o progresso da civilização, podendo, assim, ser sublimada.

Discutir essa questão com Abraham é bem mais fácil, pois ele é o único autor que nomeia a pulsão e, sendo assim, não precisamos buscá-la nas entrelinhas de sua teoria.

Da teoria de Anzieu, gostaria de destacar a abordagem que ele apresenta da fase oral do desenvolvimento da libido. A noção de Eu-pele se instaura na criança na fase de amamentação, portanto, oral. Como a noção de envelope olfativo é um subconceito do Eu-pele, deduzimos que sua instauração se dê na mesma fase.

Apesar do salto no tempo e de uma considerável evolução teórica, Anzieu mantém o conceito freudiano de pulsão, segundo suas características básicas como a noção de apoio, meta e objeto da pulsão.

Ao ilustrar o que chamou de envelope olfativo, Anzieu deixa clara a conexão entre a respiração das roupas íntimas da madrinha para sentir seu odor forte, o prazer que sentia nesse cheiro e a ilusão de fusão com a madrinha que este odor propiciava. Desse modo, concluímos que o prazer parcial de cheirar também se encontra presente na fase oral do desenvolvimento da libido.

McDougall também fornece um exemplo – o caso Georgette – da conexão entre odores e fase oral. A autora estabelece esta conexão ao interpretar o desejo da paciente de tocar, comer e cheirar o sexo materno, recurso primitivo de incorporação da mãe.

E, fi nalmente, Shengold nos fornece um exemplo de como o prazer em cheirar se presentifi ca na fase fálica. Aliás, o autor descreve como os odores estão envolvidos com experiências sexuais, passando desde as primeiras experiências com a mãe, na fase oral, e depois pela fase analsádica e fálica. Concentra sua discussão na fase fálica, mostrando como o cheiro da vagina e do sêmen podem contribuir para a diferenciação sexual e hierárquica.

E se pensarmos sob o prisma da segunda teoria das pulsões? O que pensariam os outros autores citados?

Roussilon descreve o caso Liccio: o paciente sente um cheiro de café com leite que desperta raiva e desespero. Associa esse cheiro a uma hospitalização ocorrida aos onze anos de idade, na qual se empanturrava de café com leite enquanto esperava a visita da mãe que não vinha. Segundo Roussilon, o odor, nesse caso, não seria uma representação, mas um traço mnêmico usado como índice, pois a primeira inscrição representativa da mãe e de si não foram bem estruturadas. O autor não deixa claro se o odor pode vir a ser uma representação, caso a primeira inscrição tenha sido sufi cientemente bem estruturada.

Para Sechaud, o odor está muito próximo do afeto, subsistindo à ausência do objeto de modo a tornar-se um índice, um signo do mesmo. Essa possibilidade de guardar a sensação na ausência do objeto abre caminho para o deslocamento simbólico. Assim, o odor se presta a deslocamentos e condensações. Para a autora, os odores participam de toda vida sexual, estando presentes nas várias fases do desenvolvimento da libido. Eles são os vetores da sexualidade, investidos de libido, veiculam modos de afetos, prazer, cólera, ira, medo. Os afetos podem usar os odores como um modo de se apresentar à consciência. Por exemplo, o sintoma neurótico faz um trabalho de fi gurabilidade, ou seja, apresenta-se à consciência como produto desfi gurado pelo processo primário, sob o qual aparece uma representação de desejo. A fi guração do desejo pelo olfato pode ser ilustrado pelo caso de Miss Lucy. Não estaria Sechaud falando de pulsão?

Para Jacoby, o odor não sofre deslocamentos e condensações. Trata-se de uma sensação que até pode aparecer nos sonhos como estímulo externo sem sofrer o trabalho de transformação onírico.

Pensando nos casos clínicos que venho atendendo em psicoterapia, D. Bernarda apresenta quase uma alucinação de cheiro de borracha queimada relacionada à perda da fi lha no acidente de carro. Seguindo o pensamento de Roussilon, tratar- se-ia de uma alucinação negativa, um traço do objeto desaparecido, a fi lha. Podemos supor que a representação de si e do outro não foram sufi cientemente estruturadas e constituídas e, por isso, o reinvestimento dos traços mnêmicos perceptivos cria uma alucinação que não se transfere ao campo representativo.

Leila passou mal ao limpar o banheiro de seu patrão com um produto chamado “form não sei o quê”. E lembra, após me descrever esse episódio, que sua mãe adotiva suicidou-se, ingerindo formicida. Descobriram o modo como se matou através do cheiro de seu vômito. Leila encontra uma representação de palavra form que dá forma e sentido ao odor. O formicida e o lysoform possuem não apenas o mesmo cheiro, mas o mesmo nome, sendo que a associação se deu através do nome.

Trata-se de uma possível condição do olfato, a de não ser passível de uma representação psíquica através da palavra, ou de um forte recalque, talvez o orgânico mencionado por Freud?

Para terminar, penso que noções como representante da pulsão, sensação, percepção, traço de memória, índice de presença, pulsão respiratória permitem hipotetizar o estímulo olfativo do ponto de vista de sua inscrição como marca psíquica. Isto é, por que não conceber um estímulo olfativo que desperta uma sensação olfativa no soma que, uma vez percebida pelo psiquismo, é inscrita na memória, traduzindo-se num traço mnêmico que, por sua vez, será investido de um afeto que o transformará num representante psíquico? Por que não nomear Isso que se encontra latente no discurso dos autores citados, Isso que uma vez Abraham nomeou como instinto osfresiolágnico e, novamente, caiu no esquecimento? Por que não chamar Isso de pulsão olfativa?
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Percurso é uma revista semestral de psicanálise, editada em São Paulo pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1988.
 
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