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Resumo
Este trabalho faz um recorte da observação de bebê, focando os aspectos emocionais despertados nas observadoras, tais como: sentimento de abandono, rejeição, angústia de separação, desamparo e frag mentação. Discute-se o impacto emocional da observação de bebê também na dupla mãe-bebê.


Palavras-chave
observação de bebês; relação pais-bebê; função parental; estados emocionais primitivos; desenvolvimento emocional; capacidade de continência; função analítica.


Autor(es)
Maria Cecília Pereira da Silva
é membro efetivo, Analista de criança e adolescente e docente da SBPSP, com pós-doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP, membro do Departamento de Psicanálise de Criança, professora do curso de Introdução à Intervenção Precoce na Relação Pais-Bebê do Instituto Sedes Sapientiae, participante do Setor de Saúde Mental do Depto. de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Autora dos livros A paixão de formar (Artes Médicas) e A herança psíquica na clínica psicanalítica (Casa do Psicólogo).

Denise Serber
é psicóloga clínica, especialista em Psicanálise da Criança, com aperfeiçoamento em Intervenção Precoce na Relação Pais-Bebê pelo Instituto Sedes Sapientiae.

Gabriela Rinzler Mizne
é psicóloga clínica com aperfeiçoamento em Intervenção Precoce na Relação Pais-Bebê pelo Instituto Sedes Sapientiae.

Maria Teresa Ferriani Nogueira
é psicóloga clínica, psicanalista, especialista em Psicanálise da Criança, com Aperfeiçoamento em Intervenção Precoce na Relação Pais-Bebê pelo Instituto Sedes Sapientiae. Co-cordenadora do Espaço Potencial do Instituto Sedes Sapientiae.

Patrícia Vendramim
é psicóloga clínica. Mestre em Psicologia pela FFCLRPUSP. Extensão em Psicanálise de Criança, e aperfeiçoamento em Intervenção Precoce na Relação Pais-Bebê pelo Instituto Sedes Sapientiae.


Notas

* Trabalho vinculado ao curso de Introdução à Intervenção Precoce na Relação Pais-Bebê do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae. Agradecemos a Alícia Lisondo pela leitura cuidadosa e suas sugestões.

1 Conforme apontou Ester Bick (1948) em “Notas sobre la observación de lactantes en la enseñanza del psicoanálisis”.

2 “Os tropismos são a matriz a partir da qual brota toda a vida mental. Para a sua maturação ser possível, eles precisam ser resgatados do vazio e comunicados. Assim como a criança precisa de um seio ou equivalente, para sustentar a sua vida, é preciso que haja uma contrapartida mental, o seio primitivo, para que a vida mental seja mantida. O veículo de comunicação, que é o choro da criança, as sensações táteis e visuais, não está envolvido apenas na comunicação, mas também no controle do tropismo. Se tudo corre bem, a comunicação por identifi cação projetiva leva a depositar no seio tropismos que a criança não pode controlar nem modifi car ou desenvolver, mas que podem ser controlados e desenvolvidos depois de terem sido modifi - cados pelo objeto. Se isso entra em colapso, o veículo de comunicação, o contato com a realidade, os vínculos… passam a ser partículas comunicativas, que acompanham os tropismos involucrados, e são rejeitados tanto pela psique quanto pelo objeto […] o tropismo fi ca involucrado no próprio veículo de comunicação, seja ele o som, a visão ou o tato”. In: W. R. Bion, Cogitations.

3 W. R. Bion, Aprendiendo de la experiencia; W. R. Bion, Una teoría del pensamiento, p. 151-64; W. R. Bion, As transformações: a mudança do aprender para o crescer.

4 B. Golse, “Conferência realizada no encontro Intervenções Terapêuticas Precoces com Bebês: modelos, promessas, limites”.

5 A. D. Lisondo; V. Ungar, “Permanencias y cambios en el método de observación de bebés de Esther Bick”.

6 Conforme assinalaram: G. Williams, Observação participativa como uma forma de prevenção, (sem data); G. Williams, “O bebê como receptáculo das projeções maternas”, p. 105-12; G. Williams, “As angústias catastrófi cas de desintegração, segundo Esther Bick”, p. 37-9; G. Williams, “Observação de bebê: sua infl uência na formação de terapeutas e profi ssionais que trabalham com educação e saúde mental”; G. Williams, “On different introjective processes and the hypothesis of an Omega Function”, p. 243-53; D. Houzel, “Genèse du langage chez l’enfant”; M. P. Mélega, Tendências. Observação da relação mãe-bebê – Método Esther Bick e M. P. Mélega, “Gerando signifi cados no trabalho com pais-criança”, p. 531- 40.

7 G. Williams, op. cit., 1997.

8 W. R. Bion, op. cit., 1991.

9 G. Williams, op. cit., sem data. G. Williams, op. cit., 1997. G. Williams, op. cit., 1999.

10 Conforme propuseram: S. Lebovici, et col. S. Stoleru, La mère, le nourrisson et le psychanalyste, les interactions prècoces; S. Lebovici, “À propos des consultations thérapeutiques”, p. 135- 152; S. Lebovici, et Weil-Harpen, La psychopatologie du bébé; S. Lebivici; P. H. Mazet, J. P. Visier, L’evaluation des interations precoces entre le bebe et se partenaires; B. Cramer, “Interventions thérapeutiques breves avec parents et enfants”, p. 53-117; B. Cramer, “Interaction réelle, interaction fantasmatique. Réfl exions au sujet des thérapies et des observations de nourrissons”, p. 39-47; B. Cramer; D. Stern, “Evaluationn des changements relationnels au cours d’une psychothérapie breve mère-nourrisson”, p. 31-70; B. Cramer; F. Palacio Espasa, “La technique des psychothérapies mere-bébé”, p. 126-32; B. Golse, La transmission psychique dans le developpement et dans lla formation; B. Golse, Regards croisés sur l’attachement – Psychanalyse, psychologie du développement, ethologie; L. Solis- Ponton, L., (org.) Ser pai, ser mãe: parentalidade: um desafi o para o terceiro milênio. D. N. Stern, O mundo interpessoal do bebê: uma visão a partir da psicanálise e da psicologia do desenvolvimento.

11 Gostaríamos de expressar nossa gratidão em relação às mães que se dispuseram gentilmente a abrir suas casas para que nós as acompanhássemos junto com seus bebês, num momento tão delicado, íntimo e de tantas afl ições e emoções distintas.

12 Todos os nomes são fi ctícios.

13 W. R. Bion, “Una teoría del pensamiento”, p. 151-64; W. R. Bion, As transformações: a mudança do aprender para o crescer.

14 V. Ungar, Actitud analítica: transmisíon y interpretación.



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_____ (1999) On diff erent introjective processes and the hypothesis of an Omega Function. Psychoanal Inquiry, v. 19, n. 2, p. 243-53.





Abstract
This paper describes the emotional impact, on four observers, of baby observation using the Esther Bick method and discussed in group supervision. It also presents the impact and relevance of this practice to the development of the observer’s analytical function as well as to the observed, capacity to contain and their maternal function. It focuses on the emotional aspects felt by the observers such as: feeling of abandonment, rejection, separation anxiety and fragmentation. The impact of the observation on the relationship between mother and baby is also discussed.


Keywords
baby observation; parents-baby relationship; parental function; primitives emotional states, emotional development; capacity to contain; analytical function.

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 TEXTO

O impacto emocional da observação do bebê no observador e na relação mãe-bebê *

How observation of babies affects both the observer and the observed
Maria Cecília Pereira da Silva
Denise Serber
Gabriela Rinzler Mizne
Maria Teresa Ferriani Nogueira
Patrícia Vendramim


Introdução

A observação da relação mãe-bebê foi introduzida em 1948 no currículo do Curso de Psicoterapia Infantil da Tavistock Clinic de Londres por Esther Bick, como exercício de formação para estudantes de psicoterapia e psicanálise de crianças. Tinha como fi nalidade acompanhar o desenvolvimento da criança no contexto da relação com sua mãe ou com seu cuidador e conhecer os mecanismos emocionais primitivos, a partir da mente do observador [1]. Desde 1960, essa prática passou a fazer parte da formação de analistas da Sociedade Britânica de Psicanálise e, mais tarde, de outras sociedades também.

A proposta consiste em observar um bebê, a partir de seu nascimento até um ou dois anos de idade, através de situações cotidianas de alimentação, banho, brincadeiras, sono, aconchego etc. na relação com sua mãe, uma vez por semana, por uma hora. Após a observação, o observador deve procurar registrar cada encontro sistematicamente.

A função do observador psicanalítico é observar a situação presente com atenção aos mínimos detalhes, ao contexto e ao clima emocional daquele momento, utilizando para isso sua própria experiência emocional; assim, em primeiro lugar o observador aprende a observar. Durante a observação, procura-se apreender não só a realidade sensorial, mas essencialmente a realidade psíquica, e, para tal, é importante a refl exão, por parte do observador, em seus próprios movimentos emocionais, sem deixar que estes interfi ram em sua conduta. Ao registrar, o observador organiza suas idéias e vai nomeando e elaborando as emoções que estão em jogo.

Após as observações, semanalmente, os observadores participam de um grupo de supervisão, que pretende auxiliá-los na manutenção do setting, a desenvolver o exercício de conviver com a realidade presente, sem querer modifi cála, e de conter suas emoções e intervenções para poder pensar sobre a situação. Isso porque, ao longo desta prática, o observador depara com maciças identifi cações projetivas, linguagem préverbal, comunicações inconscientes e tropismos [2], presentes na relação mãe-bebê. Além disso, a partir da leitura e da discussão com os colegas de supervisão sobre a observação da relação mãe-bebê, procura-se levantar conjecturas imaginativas. Esse exercício proporciona ao observador nomear, pensar e elaborar as experiências emocionais primitivas vividas nas observações e revividas no grupo de supervisão, aprender com a experiência emocional e o desenvolvimento de sua capacidade de continência [3], aspecto esse imprescindível para a formação de um analista.

Além da função de formação de analistas, estudos mais recentes têm descoberto que a experiência de observação de bebês traz benefícios também para a mãe e, conseqüentemente, para a relação mãe-bebê. Bernard Golse [4] afi rma que o observador possui uma função seio-toilete, ou seja, funções de acolhimento, evacuação e transformação das pulsões destrutivas da mãe, o que protege o bebê. Podemos dizer que atributos do observador – como exercer uma função de escuta analítica, ser treinado para observar, ter a atenção de uma companhia viva, capacidade de continência e uma mente com certo grau de conhecimento de si mesmo, obtido por análise pessoal – aliados à instauração de um setting e certos fatores que são desconhecidos mas, certamente, presentes, podem gerar transformações [5]. Então, ao exercitar a continência, o observador proporciona o desenvolvimento dessa mesma capacidade na mãe e esse exercício, portanto, tem sido utilizado também como instrumento terapêutico.

A partir dos estudos sobre observação de bebês, alguns psicanalistas propuseram a observação participativa [6]. Através da observação de bebê participativa, a capacidade da mãe de receber as projeções do bebê e de contê-las pode ser ampliada, uma vez que o observador se coloca como um ser receptivo, como um espaço côncavo que a faz se sentir contida, como se fosse uma espécie de Matrioshka (um processo comparado às bonecas russas: uma dentro da outra). O observador recebe as ansiedades da mãe e o tecido conjuntivo psíquico dela se fortalece através dessa forma de andaime. Então, ela se torna capaz de conter melhor o seu fi lho e de pensar. Nas situações em que os pais possuem patologias graves ou são incapazes de conter suas projeções sobre o bebê, o bebê torna-se um “receptáculo” (e não um continente) desses “corpos estranhos” dos pais (em vez de conteúdos), pois ele ainda é incapaz de metabolizar esses aspectos [7]. Nesses casos, a falha da capacidade de continência é extremamente danosa e pode originar o “terror sem nome”, como o reverso do modelo continente/contido [8]. Então, a presença de um observador pode facilitar o processo de separação sadia ou de discriminação entre mãe e bebê. Freqüentemente a mãe se alia ao observador em sua postura observacional e deste modo se distancia da criança, começando a notar assim alguns aspectos da personalidade de seu bebê, do que ele gosta e do que não gosta, como uma pessoa com necessidades próprias [9].

Essas descobertas e outros trabalhos desenvolvidos junto à relação pais-bebê têm fortalecido a importância de acompanhar os recém-nascidos com um olhar mais atento, de realizar intervenções psicanalíticas na relação pais-bebê diante de indicadores de psicopatologias do bebê e, ainda, de investir nos processos de parentalização sempre que necessário [10].

Reflexões sobre as situações de observação de bebê

Tendo em vista essas considerações, o material aqui apresentado traz algumas questões referentes ao impacto emocional do observador e sobre como os sentimentos experienciados puderam auxiliá-lo a pensar sobre a observação e o funcionamento emocional do trio mãebebê- família. Descreveremos, então, o impacto emocional da observação de bebê em quatro observadoras, assim como levantaremos algumas hipóteses desse impacto na relação mãebebê, a partir das discussões realizadas em um grupo de supervisão de observação de bebês, segundo o método Esther Bick. Nessa presente discussão, faz-se um recorte da observação de bebê, focando nos aspectos emocionais despertados nas observadoras, tais como: sentimento de abandono, rejeição, angústia de separação, desamparo e fragmentação. Ao mesmo tempo, procuramos pensar sobre os resultados e a pertinência dessa prática para o desenvolvimento da função analítica das observadoras e da capacidade de continência da função materna nas mães observadas [11].

Mãe: estou aqui!

João [12] é o primeiro fi lho de um casal que vem percorrendo um longo caminho até o seu nascimento. Antes dele, duas gestações perdidas aos cinco meses geraram nos pais muita angústia e este fi lho foi considerado “uma conquista muito importante”, conforme eles me relataram no primeiro encontro. No entanto, após seu nascimento, sua mãe voltou-se rapidamente para as demandas do mundo externo como que se esquecesse da existência do fi lho.

Nas primeiras visitas à casa de João, encontrei um bebê quieto, com poucos movimentos corporais, entretanto, de olhos bem abertos, parecendo tranqüilo e atento. A mãe me contou muitas de suas histórias, chamou-me para acompanhá-la ao quarto de João enquanto trocava sua fralda, mostrou sua casa e me colocou a par das novidades do bebê e da família. Além disso, falou ao telefone, cuidou dos afazeres da casa, conversou com clientes de trabalho e recebeu visitas. Embora a mãe se mostrasse disponível para a observação, diante dessas situações, passei a interrogar se haveria disponibilidade emocional dessa mãe para com seu fi lho.

Segue um registro da quarta observação, quando o bebê tinha dois meses:

João está mamando, aconchegado no colo da mãe, com uma das mãos em seu seio e a outra sendo acariciada pela mãe. A mãe começa a falar algo comigo e ele começa a mexer seus braços e pernas, e a fazer barulhos quase como um choro. A mãe diz: “ele não gosta que eu fi que falando enquanto eu dou de mamar”… “tá bom fi lho, eu fi co quieta”. Nesse momento ela pára de falar e volta seu olhar para o bebê. São momentos de silêncio, em que posso ver os dois juntos, sem ter que prestar atenção em mais nada. Apesar de já ter visto os dois se relacionando, estão agora só eles, em silêncio, um com o outro, sem que algo de fora os tire desse lugar.

As observações prosseguiram acompanhadas de uma sensação minha de experimentar muita informação, agitação e a interferência de terceiros. Eram poucos os momentos de silêncio, como o descrito acima, e eu sentia difi culdade em me ater ao bebê. O que a mãe falou, o que o bebê fez e o que “os terceiros” responderam eram pedaços da mesma observação em que meus olhos e ouvidos movimentavam-se tentando captar tudo o que acontecia. A sensação de dispersão misturava- se com a atenção aos muitos movimentos da casa e o meu cansaço e a cabeça lotada de dados tornavam-se inevitáveis ao fi nal das observações.

O entra-e-sai de pessoas e as questões práticas que afl igiam a mãe e que a faziam tomar decisões pareciam afastá-la da maternidade, concomitante com o meu sentimento de que as solicitações de ajuda e de opinião da mãe convocavam- me a prestar atenção a essas questões e a me afastar da observação propriamente dita.

Em um outro dia, o bebê com três meses, registrei a agitação e o incômodo de J.:

Sua mãe está sentada numa mesa, envolvida com papéis e telefonemas. João está deitado no carrinho. Mexe os braços e a cabeça sem parar. A minha frente vejo uma poltrona vazia e um bebê no carrinho se mexendo. De quando em quando, ele faz barulhos de resmungos. Sua mãe vem até J., coloca a chupeta em sua boca, balança o carrinho e pergunta: “O que foi, fi lho”? Assim que ele diminui seus movimentos corporais, sua mãe volta às suas tarefas. Quando ele torna a reclamar, a mãe volta. Isso se repete algumas vezes e sua mãe comenta que ele está com sono. Entra na sala uma prima de João, que aparenta uns 12 anos. Quando João chora novamente, ambas se aproximam dele, a mãe coloca a chupeta em sua boca e sai. A menina senta, então, na poltrona que estava vazia ao lado do bebê, e fi ca olhando para ele, enquanto João também a olha. Eles mantêm o olhar um no outro, até que João fecha os olhos e adormece.

Essa cena me levou a pensar em como o bebê estava precisando de sua mãe inteira, totalmente voltada para ele, em como o olhar daquela menina, sem pressa, sem pedaços soltos, foi o que ajudou o bebê a se tranqüilizar e sentir-se seguro, relaxar e dormir. Nas discussões em supervisão, comparamos a postura dessa menina com o papel do observador, ou seja, aquele que não entra em ação, observa, mantém e procura sustentar o olhar.

Conjecturamos que as observações da relação de João e sua mãe colocavam a minha postura de observadora à prova a todo instante, à medida que a identifi cação projetiva da mãe provocava em mim a mesma difi culdade em me ater a essa criança. A sensação de fragmentação vivida por mim nas observações era expressão do estado de afl ição dessa mãe, comunicado via identifi cações projetivas. Levantou-se a hipótese de essa agitação indicar o tanto de vivências angustiantes de morte relacionadas aos dois abortos anteriores, sinalizando que essa mãe ainda não os teria processado. Talvez, para que ela pudesse vir a olhar para o seu bebê, para aquele que vingou, haveria um longo percurso a ser percorrido.

Refletir sobre essas questões me auxiliou a conquistar maior capacidade de observar o bebê, e o desenvolvimento desta continência, provavelmente, benefi ciou o olhar da mãe, que, em uma observação posterior, quando seu fi lho estava com sete meses, comentou: “Acho muito legal essa observação porque eu acabo curtindo junto com você o desenvolvimento do meu fi lho”.

Nesse caso, podemos pensar na contribuição da observação de bebê, tanto na minha direção como observadora, como da relação mãe-bebê. Trata-se de uma mãe que apresentava pouca disponibilidade emocional para a maternagem, além de um bebê que corria o risco de ocupar um lugar de substituição de dois bebês que não sobreviveram. Nesse sentido, a observação contribuiu para que essa mãe pudesse observar João e reconhecê- lo com suas competências próprias e ela, ao mesmo tempo, pôde aprender a ser mãe, utilizando- me como modelo de identifi cação. Frente à turbulência que as diversas solicitações da mãe geravam em mim, pude, aos poucos, conseguir focar a observação e ampliar minha capacidade de continência emocional, diante das diversas solicitações que o ambiente apresentava. Foi possível observar a aliança que a mãe estabeleceu comigo na postura observacional e, com certa distância, ela pôde notar aspectos da personalidade do próprio bebê como uma pessoa com características próprias e experimentar estar mais presente nos momentos de observação sem tantas interferências e movimentações.

Cadê a minha mãe?

Minha primeira visita à casa de Rafaela ocorreu após contato com a mãe ao telefone, quando a menina tinha dois meses. Nesse dia, fui recebida pela mãe no quarto de Rafa, que estava no berço. A mãe de Rafa me contou sua história ao mesmo tempo que conversava com a fi lha. Quando a bebê começou a reclamar, a mãe pegou-a no colo e ela respondeu com um sorriso de felicidade. Em seguida, sua mãe a chamou de sapeca. Brincou com ela, colocou-a no trocador para soltar gases e trocar a fralda. Voltou a colocá-la no berço e me contou que até a semana anterior tinha uma enfermeira para ajudá-la, mas que ela foi embora e agora estava contratando uma babá. Rafa chorou mais um pouco e sua mãe disse que era sono, colocou então a chupeta e a ajeitou de lado, delicadamente, dizendo que aquela era a posição que ela mais gostava de dormir. Depois de alguns minutos, Rafa adormeceu. Saí daquela primeira visita com uma sensação muito boa, a mãe parecia ter continência na relação com a fi lha.

Na semana seguinte, fui apresentada à babá e fi quei sozinha com ela e com Rafaela durante quase toda a observação. Duas vezes a mãe entrou no quarto, disse para a babá do que a fi lha gostava, brincou um minuto com Rafa, que fi - cou super feliz, e logo saiu do quarto.

Na terceira semana, novamente observei a bebê com a babá. Escutei durante quase toda a observação um barulho de secador e, quase ao fi nal da visita, a mãe entrou no quarto bem vestida, com o cabelo arrumado e contou que voltara a trabalhar. Eu fi quei muito impactada porque a bebê só tinha três meses, era muito pequena para fi car sem a mãe! Tentei um novo horário com a esperança de observar Rafa junto a sua mãe, mas, infelizmente, observá-la com a babá tornou-se uma rotina em todas as minhas observações.

Durante os cinco meses seguintes, sempre encontrava Rafa com a babá, em seu quarto impecável, todo arrumado, com as portas fechadas e uma janela semi-aberta. Sua mãe aparecia empetecada, dava beijos na fi lha e sumia de novo, o que parecia para mim uma brincadeira de bonecas, provocando um grande desconforto.

Um dia toquei a campainha e ninguém atendeu. Fiquei muito angustiada e logo pensei que a mãe havia desistido da observação. Após uma semana, consegui telefonar para saber o que havia acontecido e a mãe pediu desculpas, tinha ido viajar e esqueceu de avisar. Aproveitei essa situação para tentar um novo horário em que a mãe pudesse estar presente, mas de nada adiantou, continuei encontrando a mãe muito raramente. Um dia, encontrei-a amamentando, mas foi a babá quem colocou Rafa para arrotar. Diante dessa cena, pude questionar: “O que signifi ca para essa bebê ter uma mãe que não consegue se disponibilizar para ela?” Imaginei que a angústia que sentia poderia ser fruto de identifi cações projetivas dessa mãe e que indicavam haver uma angústia muito grande que impedia a mãe de se vincular a sua fi lha e à mim.

Passei grande parte do meu trabalho sentindo- me uma intrusa na vida dessa família, em um lugar muito desconfortável. Percebi que fi - cava o tempo todo julgando a maternagem dessa mãe, principalmente porque eu também sou mãe de um bebê muito pequeno, o que me dava pouca distância para observar mais livremente. Aos poucos e com a ajuda da supervisão, pude perceber e processar que não era eu quem estava sendo excluída da relação com a mãe e sim que isso ilustrava um aspecto do modelo de relação dessa dupla mãe-bebê.

Nesse caso, pouco posso dizer sobre o impacto da observação na mãe, já que ela participou muito pouco das observações, mas posso pensar que a observação me permitiu abrir mão de certos julgamentos morais, manter a observação mesmo sem a presença da mãe e sobreviver às situações emocionais despertadas. Rafa continuou a ser observada sempre com a babá, mas não só em seu quarto. Ela passou a fi car mais tempo no jardim e sempre fi cava muito feliz ao me encontrar, sentindo e percebendo a minha presença e se comunicando comigo. Parece que as observações tiveram um impacto muito positivo sobre ela.

Nessa situação observacional, é visível a angústia de abandono e rejeição despertada em mim por essa relação mãe-bebê. Eu fi quei muito identifi cada com a bebê e passei a ter pensamentos de ordem moral, julgando a mãe como responsável pelos desconfortos da bebê. Auxiliada pelas supervisões, as observações se mantiveram mesmo sem a presença da mãe e eu pude compreender o lugar dessa criança nessa família e a dinâmica dessa relação, discriminando meus próprios sentimentos dos da bebê. Constatei o desenvolvimento da bebê dando-se, apesar do ambiente julgado por mim como hostil. Além disso, pude superar os meus sentimentos de intrusão/exclusão, abrindo mão de um lugar superegóico e ampliando minha capacidade de observação. Nesse caso, poderíamos imaginar que essa mãe seja incapaz de empatizar com sensações e emoções sem signifi cado e que são avassaladoras para a bebê, que ela não seja capaz de executar a função de metabolizar em sua mente as projeções da bebê e dar-lhes signifi cados (função α), deixando-as indigeríveis para criança (elemento β) [13]. Quanto a Rafaela, podemos imaginar que eu, observadora, de alguma forma, me tornei um objeto disponível para ela explorar e, quem sabe, introjetar.

Onde foi parar minha mãe?

Essa é a pergunta indigesta de Pedro, vivida por mim também, diante da separação precoce de sua mãe. A partir das observações desse bebê e do impacto emocional que vivenciei, levantamos a hipótese de essa separação ter sido precoce e ter despertado sentimentos de desamparo e abandono no bebê.

Observo Pedro e sua mãe desde o seu segundo dia de vida, ainda no hospital. Ela é jovem e solteira, mora com seus pais e irmã e sua relação com o pai do bebê está rompida.

No terceiro mês de observação, a mãe, repentinamente, começou a trabalhar. Foi defi nido, então, que Pedro fi caria com a avó. Nos dias da observação, a mãe tentaria retornar do trabalho no horário dela. Mas, nas cinco semanas seguintes, ela não conseguiu chegar a tempo e a observação se deu na presença da avó.

No primeiro dia em que estive na casa sem a presença da mãe, Pedro ria muito para mim. Estava irresistível, mais do que o habitual. Sua avó brincava muito com ele, que dava gargalhadinhas. Porém, no meio da brincadeira, começou a chorar, ria e chorava ao mesmo tempo. Em um momento, a avó saiu da sala e Pedro berrou, chorou muito. Quando ela voltou, ele parou de chorar e, deitado em seu carrinho, virou a cabeça para trás tentando enxergá-la. Nesse dia, no momento da mamadeira, Pedro me parecia solto, desaconchegado no colo da avó, prestes a cair. De fato, em um momento ele escorregou do colo e ela o segurou rapidamente para que ele não caísse no chão. O leite escorreu de sua boca duas vezes, parecia que jorrava mais do que ele conseguia engolir e ele soltou a mamadeira rapidamente. Diante dessa cena, fui acometida de um profundo sentimento de incompletude e desamparo, senti muita falta da presença da mãe. Até então, Pedro era alimentado exclusivamente no peito.

No grupo de supervisão, pensamos no forte sentimento de incompletude que vivi na hora da mamada como fazendo parte do sentimento de desamparo do bebê. O fato de ele rir e chorar ao mesmo tempo poderia expressar um estado de confusão emocional, ocasionado pela ausência da mãe. E sua atitude de virar a cabeça para enxergar a avó poderia ser expressão da busca pelo referencial conhecido para se assegurar diante dessa confusão e desamparo. Por outro lado, a sedução que o bebê exercia em mim nesse dia poderia ser pensada como uma competência que ele desenvolveu para chamar a atenção sobre si diante desses sentimentos vividos.

Outro ponto importante refere-se às difi - culdades que passei a encontrar no seguimento das minhas observações. Passei a ter muita resistência para fazer as transcrições e para fazer as visitas de observação: sentia preguiça, queixava-me do horário e tinha desejos intensos de não querer realizar a observação. Além disso, em alguns momentos, sentia claramente que aquele vínculo de observação estava frágil e prestes a se romper. Necessitava fazer um esforço para me lembrar de que a mãe havia dito que as observações continuariam, mesmo em sua ausência. Nesse sentido, supusemos que me atrapalhei em minha função, assim como Pedro se atrapalhou em sua vida, sem a mãe e sem o seio. Mas, na medida em que fui entrando em contato com essas difi culdades, foi possível relacioná- las com a ausência da mãe e com o quanto eu estava identifi cada com o bebê abandonado, indicando para mim uma difi culdade dessa dupla mãe-bebê em sustentar essa situação.

No retorno, após as férias de fi m de ano, a mãe me solicitou um novo horário, para que ela pudesse voltar a participar da observação. Disse: “Vamos ver um horário em que nós duas possamos estar?” Aceitei prontamente. Isso sugeriu para mim que a continência dos sentimentos anteriormente descritos havia favorecido esse pedido. No primeiro dia em que estivemos novamente na observação, eu e a mãe, ela contou como estava sendo difícil fi car longe do fi lho, disse que seu seio doía muito e que o leite chegava a fi car todo empedrado. Quando passava do horário de ir embora, já não conseguia mais trabalhar, pois sua cabeça estava no bebê. Isso nos fez pensar que a intensidade das emoções vivenciadas por mim poderia corresponder à da dupla mãe-bebê. Com o retorno da mãe, as tensões que vivi na sua ausência se desfi zeram e voltei a sentir confi ança no vínculo de observação.

Nesse caso, fi ca evidente a angústia de separação vivida por esta dupla mãe-bebê e também desencadeada em mim. Me aproximei de emoções primitivas do recém-nascido, via identifi cações projetivas, repletas de comunicações inconscientes – experienciadas com intensidade durante as observações de bebê – e, ainda, de situações inconscientes da mãe difíceis de serem elaboradas, depositadas em mim e na minha função de observadora-continente. Com a ajuda das supervisões, pude sobreviver a esse impacto emocional, prosseguindo com minhas observações. Sinto que, a partir dessa experiência, ampliou- se minha condição de continência para essa dupla e também a da mãe de Pedro.

Onde está o pai?

Esta é a observação de Márcia e sua mãe, em que me vi todo o tempo impactada pela oscilação da presença/ausência da fi gura paterna.

Márcia tinha duas semanas quando entrei em contato por telefone com sua mãe para iniciar a observação. Entretanto, a primeira observação só aconteceu aos dois meses de Márcia, uma vez que, na semana seguinte ao contato telefônico, recebi a notícia de que a mãe havia ido para o interior, na casa da avó de Márcia, em função de uma viagem do pai da bebê.

No primeiro encontro, em sua casa, com a presença da avó, a mãe relatou que o pai continuava fora: “ainda bem que a minha mãe está comigo, pois ainda não tenho coragem de dar banho na bebê sozinha”.

As observações se seguiram e o que eu observava era uma mãe com sua bebê em meio ao silêncio da casa, algumas vezes com a presença de uma empregada ou da avó. Quando a bebê estava com três meses, uma surpresa para mim, o pai estava presente. As notícias a respeito do pai eram vagas e raras e eis que ali estava com sua fi lha no colo durante toda a observação.

Após esse dia, novamente a ausência do pai se fez notar. Ele aparecia apenas em alguns relatos da mãe: “esse brinquedo é molinho, gostoso… foi o pai que deu”. Ou então: “ela já está pegando o pezinho, faz essas coisas novas sempre com o pai…” Nas supervisões, pensou- se que esta mãe queria muito que Márcia fosse uma bebê competente para segurar esse pai junto delas, já que eu soube de um outro fi lho desse pai com quem ele tem tido muito pouco contato. Levantou-se a hipótese de estarmos diante de um pai com difi culdade para se vincular.

Quando a bebê estava com quase cinco meses, durante a observação, a mãe me informou que havia se separado e, provavelmente, o pai mudaria de país. O impacto emocional vivido por mim nesse momento diante dessa notícia fi cou evidente, eu pude sentir o abandono e o desamparo, identifi cando-me com a bebê e com a mãe.

Parece que essa mudança do pai também foi vivida pela mãe como algo desorganizador, pois desencadeou nela sintomas físicos (vômitos e diarréia). A separação conjugal coincidiu com a volta da mãe ao trabalho e eu pensei que a observação poderia estar ameaçada, pois tive difi culdade de encontrar um novo horário em que a mãe estivesse presente. Entretanto, essa sensação logo se desfez, uma vez que a mãe continuou bastante receptiva e disponível para que a observação de bebê prosseguisse.

As observações foram acontecendo, ora com a presença do pai, ora sem – ele não sumiu defi nitivamente como eu temia, embora fosse sempre uma surpresa. A bebê foi se desenvolvendo bem e, apesar de ter voltado ao trabalho, a mãe esteve bastante presente.

Nunca mais ela mencionou a situação conjugal. A presença do pai e os cuidados que dedica a Márcia indicam que há um vínculo entre eles. Mas eu sinto que existe alguma coisa que impede essa mãe de amparar bem essa bebê, como demonstrou uma observação em que Márcia, aos sete meses, estava sentadinha no chão, protegida por duas almofadas ao seu lado, mas ela caiu para trás, atrás não havia nenhuma almofada para protegê-la. Diante dos gritos de choro da bebê, eu, afl ita, pensei que a almofada que faltou atrás de Márcia poderia representar a falta da presença paterna para amparar a dupla mãe-bebê. Aqui, do meu ponto de vista, apareceram as falhas de continência, captadas nas entrelinhas: existiam duas almofadas, mas não a mais importante. Essa situação poderia refl etir a ausência física e emocional da fi gura paterna, num momento em que a mãe ainda estava necessitada de seu apoio.

Continuei sem saber muito sobre esse pai. Em alguns momentos da observação, evidenciou- se algo nebuloso, embaçado, sendo difícil se manter só com o aqui e agora da experiência. A mãe falou de suas angústias por meio de reclamações com relação ao barulho da rua, à desordem dos catadores de lixo ou à possível falta d’água no mundo, retratando seu estado de ausência emocional, que se contrapunha à tranqüilidade da casa descrita no início das observações. Talvez essa mãe não se desse conta do próprio desamparo que vivia diante da oscilação presença/ausência do pai, embora contasse com a observação e sua função como continentes.

Curiosamente, aos oito meses de Márcia, o pai passou a estar nas observações, brincando com a fi lha no chão, curioso e intrigado com a minha função de observadora. Conjecturou-se que a observação estava favorecendo a união do casal, ao menos em torno da fi lha.

Nessa observação, destaca-se a importância do lugar paterno para sustentar a relação mãebebê. Eu, ora identifi cada com o desamparo da mãe, ora com o da bebê, pude viver o impacto emocional da ausência/presença do pai e ressignifi cá-lo. Nesse caso, a função da observação de bebê refl etiu-se em continência para as angústias da mãe diante dessa oscilação paterna e de todas as demandas da bebê, favorecendo o desenvolvimento da bebê e a função parental (ser capaz de amar e de pensar, manter a esperança e conter a dor depressiva).

À guisa de conclusão

Esses relatos mostram a riqueza da situação de observação de bebês para o contato e compreensão de diversas emoções e sentimentos extremamente primitivos – tão evidentes nas primeiras relações mãe-bebê-família. É interessante notar como o sentimento de ameaça de ter a observação de bebê sob o risco de ser interrompida foi uma vivência experimentada de formas diferentes nas quatro observações. Esse sentimento é próprio das vivências emocionais primitivas do bebê e dos pais se manifestando de diferentes formas com o contato com o desamparo do bebê. A chegada de um bebê na família perturba o equilíbrio narcísico dos pais, que é instável, despertando e tornando visíveis suas necessidades infantis não resolvidas.

Nessa tarefa, o observador desenvolve sua função de continência por meio de uma atitude receptiva aos estados internos dos pais e do bebê, tolerância ao impacto das emoções primitivas e pressões emocionais sobre si, elaboração e transformação de toda turbulência interna em vez de qualquer ação ou desejo de interpretar. Desenvolve a capacidade de manter em mente a experiência e registrá-la, tolerar o não saber e as dúvidas sem fazer julgamento moral, de aguardar que o sentido surja da experiência, identifi - car-se e sentir empatia em relação ao bebê e/ou a mãe, observar uma mente em formação com seus processos mentais e, também, o desenvolvimento do bebê e da função parental.

No grupo de supervisão, o observador experiencia o desenvolvimento das idéias e da capacidade de formular o impacto emocional primitivo, em uma experiência compartilhável através de comunicação, palavras e linguagem. Todos esses aspectos da observação de bebês contribuem para o desenvolvimento de uma atitude analítica, isto é: ser receptivo, ser capaz de observar e ter tolerância, tanto diante do mistério quanto do desconhecido, ser capaz de refl etir antes de atuar e ter disponibilidade para conjecturas imaginativas [14].

Antes de fi nalizarmos, gostaríamos de assinalar como o exercício do método de observação mãe-bebê Esther Bick é um instrumento útil para os terapeutas que desejam realizar intervenções precoces na relação pais-bebê. Isso porque o que se privilegia nessas intervenções é a escuta, a observação, a continência emocional do terapeuta para conter os diversos elementos sem representação que vão surgindo na consulta pais-bebê, buscando sentido e recebendo novas compreensões. Os aspectos transferenciais e contratransferenciais presentes, mas não interpretados, servem de bússola para o terapeuta compreender os sintomas do bebê em dada família. Assim, ao observarmos um bebê brincando, como em um sonho, podem-se fazer construções que enriquecem a compreensão da dinâmica familiar.

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