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Resumo
Partindo de um diálogo com o livro Freud, pensador da cultura, de Renato Mezan, este artigo aborda a constituição do ego e as instâncias ideais no interior da teoria freudiana. A partir das mudanças culturais ocorridas nos últimos 50 anos, faz considerações sobre os efeitos produzidos pela fragilização do lugar do pai na cultura e das transformações nas relações ego ideal e ideal do ego, introduzidas pela lógica do consumo.


Palavras-chave
psicanálise; ego ideal; ideal do ego; narcisismo; temporalidade.


Autor(es)
Silvia Leonor Alonso
é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise e professora do Curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde coordena o grupo de trabalho e pesquisa “O feminino e o imaginário cultural contemporâneo”.


Notas

1 O evento “Freud pensador da cultura – 20 anos depois” consistiu numa mesa da qual participaram Marilena Chaui, Silvia Alonso, Luís Cláudio Figueiredo e Renato Mezan. Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, 13 de agosto de 2005, São Paulo/SP.

2 R. Mezan, op. cit., p. 268.

3 S. Freud. “Psicología de las masas y análisis del yo”, p. 67.

4 Trata-se de “Tiros em Columbine” (de Michael Moore, 2002) e “Elefante” (de Gus Vant Sant, 2003).

5 P. Verhaeghe. El amor en los tiempos de la soledad, p. 125.

6 E. Galende. De um horizonte incierto. Psicoanálisis y salud mental en la sociedad actual, p. 44.



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Abstract
This article has as reference Renato Mezan´s book Freud, thinker of culture. It deals with the constitution of the ego and the ideal instances in the Freudian theory. The cultural changes of the last 50 years are the basis for an elaboration on the fragility of the father´s place in our culture and the transformations that took place in the relations of ideal ego and ideal of the ego, vis a vis the logic of the mass consumption.


Keywords
Psychoanalysis; ideal ego; ideal of the ego; temporality.

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 TEXTO

A função do pai e os ideais no mundo contemporâneo

The function of the father and contemporary world’s ideals
Silvia Leonor Alonso

Este artigo apresenta um diálogo com o livro de Renato Mezan Freud, pensador da cultura, elaborado por ocasião do evento [1] comemorativo dos 20 anos de lançamento de sua primeira edição. De sua leitura, extraí uma questão que passarei a localizar no contexto da obra, retrabalhando-a, a seguir, no contexto da cultura atual.

É ao longo de quase 700 páginas que Renato Mezan, no livro Freud pensador da cultura – originalmente sua tese de doutorado em filosofia –, desenvolve o objetivo de esclarecer como opera a abordagem psicanalítica dos fenômenos culturais, quais são seus instrumentos, e as conclusões às quais chegam. Página a página, Renato vai desbravando a complexidade do pensamento freudiano num movimento de mão dupla: a psicanálise na cultura e a psicanálise da cultura. Assim, no que diz respeito à vertente da origem, ele faz uma longa análise da Viena na virada do século: análise histórica, política e da atmosfera cultural do lugar de nascimento da psicanálise, ou seja, do ambiente no qual ela foi produzida e das infl uências deste ambiente na própria teoria. De outro lado, ele realiza uma análise da teoria psicanalítica da cultura, debruçandose sobre aquilo que a psicanálise tem a dizer sobre a cultura em geral. E isso, sem esquecer o lugar que a cultura ocupa na própria construção dos conceitos teóricos freudianos. De fato, estes são produzidos e se apóiam num tripé composto pela clínica de Freud, sua auto-análise e, por fi m, pelos fenômenos da cultura que insistentemente entram na obra freudiana como legitimadores ou mesmo fornecedores de elementos para a própria construção do conceito. Dessa forma, é interessante notar como são freqüentes as ocasiões em que Freud, tendo descoberto um fenômeno na clínica e criado um conceito, caminha em seguida em direção à cultura para ali lhe dar força e consistência. Foi na clínica, por exemplo, que descobriu a transferência e deparou com os efeitos negativos da sugestão, mas foi no fenômeno das massas que retrabalhou essas idéias.

O livro, como afi rma o próprio Renato, possui uma certa “hibridez”, que não é considerada pelo autor um defeito, mas, ao contrário, uma amostra de que os processos do pensamento não se esgotam em si mesmos. Embora se defi na como uma tese em fi losofi a, o trabalho começa com um sonho e as associações sobre ele, que localizam o leitor no mapa das condições pessoais do autor na ocasião em que a obra foi produzida. É uma época na qual Renato tem como projeto tornar-se analista, em que está começando estágios de atendimento e mergulhado num processo de análise pessoal. Assim, convergem nessa obra o momento de produção de uma tese e de construção de um analista. O livro é um trabalho de investigação sobre o tema da cultura na obra de Freud, mas inclui o reconhecimento de que o tema tratado refere-se também ao investigador e às suas motivações. No fi nal de cada capítulo, Renato realiza uma espécie de crônica da viagem subjetiva, tentando refl etir sobre as andanças pessoais na sua produção, descrevendo os impasses resistenciais que o impediam de escrever, relatando os momentos nos quais se fecha a possibilidade de continuar caminhando, assim como as descobertas das determinações histórico-subjetivas em jogo que novamente lhe abriam a possibilidade de escrita. Quatorze meses depois do sonho que lhe deu origem, já no fi nal da obra, Renato afi rma ter vivido um processo de apropriação da disciplina, mas também um processamento no campo da fi liação com Freud, o que lhe teria permitido um trabalho de reconhecimento e, ao mesmo tempo, de separação do “pai da Psicanálise”, para poder assumir alguma autoria. Processo, então, do qual fazem parte as identifi cações e desidentifi cações vividas no caminho de apropriação das heranças.

Pode-se então dizer que a questão do pai no seu livro mostra-se sob dois aspectos. De um lado, aparece como questão teórica que, junto a muitas outras, é minuciosamente trabalhada no terceiro capítulo, e, de outro, como motor da escrita, já que o que está se processando é a construção de uma obra e de um analista.

Através da correspondência entre Freud e Jung, o autor acompanha o “diálogo de surdos” [2] que estes travaram durante muito tempo, com Freud fi rmemente assentado na expectativa de que Jung algum dia iria se convencer da força do sexual, enquanto este último vai mostrando cada vez mais claramente suas discordâncias. Diálogo de surdos que responde a interesses narcísicos e de poder, até a ruptura, acontecida numa data bastante tardia. É no entrecruzamento com a análise desse processo que a questão do pai vai sendo esmiuçada no capítulo – desde a forma em que, nos textos de Hans, o Homem dos Ratos e Schreber, surgem conceitos básicos como a ambivalência dos sentimentos, a onipotência das idéias, a projeção – até sua culminação na complexa conceitualização de Totem e tabu, onde esses pontos serão retrabalhados. Merece ainda ser mencionada a forma pela qual o autor aborda a questão do pai a partir da análise da posição de líder ocupada por Freud como chefe do movimento psicanalítico, e especialmente em sua interação com Jung – tal posição comporta o traço da paternidade – e as relações dos discípulos, nas quais Freud encontrará um paradigma da horda selvagem. Mas, ao mesmo tempo, Renato Mezan insiste em mostrar que a produção da obra psicanalítica acompanha todo o processo através do qual Freud trabalhou seu complexo paterno e assumiu o reconhecimento da mortalidade do pai. Vemos assim o tema da paternidade bifurcar-se em duas direções: na relação com a obra e naquela com o próprio pai. Lembremos que todo processo de apropriação das heranças passa pela identifi cação e pelo questionamento do mandato paterno com a desidealização e o luto correspondente, processo que se organiza ao redor de um projeto. A pregnância que, no livro, esta complexidade confere à questão, fez-me escolher como tema da refl exão deste texto o pai e os ideais no mundo contemporâneo.

Se não nos ativermos a uma concepção endogenista, considerando os fatores externos como meros desencadeantes de uma endo-psique préformada, mas se, ao contrário, pensarmos que o psiquismo só pode ser compreendido na intersecção entre o corpo e o Outro, temos que reconhecer que o psiquismo encontra-se sempre atravessado pela cultura. Dessa forma, concordo integralmente com a seguinte afi rmação feita por Freud no texto de Psicologia das massas: “na vida anímica individual sempre está integrado o outro, seja como modelo, objeto, auxiliar ou adversário, conseqüência do que a psicologia individual é sempre uma psicologia social” [3]. O poder do outro se faz presente, assim, na construção da sexualidade, pois esta é sempre constituída a partir das marcas que o adulto deixa no corpo infantil, fazendo surgir o corpo pulsional, o corpo erógeno. Mas seu domínio não é apenas o campo das pulsões. O outro também está irredutivelmente presente na constituição da instância dos ideais. Os pais e os seus cuidados erogenizam o corpo do bebê, dando origem à pulsão sexual, ao mesmo tempo que, com suas preocupações morais – defi nindo os permitidos e os proibidos – introduzem os valores, a crítica e as possibilidades de laço social.

Quando se fala em ego, deve-se lembrar que, para a psicanálise, este não é absolutamente uma instância coesa, o que tornará impossível a referência a um conceito de identidade unívoca. Ao contrário, temos um sistema psíquico complexo, com dissociações internas, que funciona sempre incluindo o confl ito, numa dinâmica interna que se dá na articulação entre ego, ego ideal, superego e ideal do ego. Parece-nos, portanto, oportuno que, antes de adentrarmos nosso tema propriamente dito, façamos um breve sobrevôo sobre a concepção psicanalítica a respeito da constituição desse sistema.

Anteriormente ao estabelecimento do laço social, a estruturação psíquica do sujeito funciona numa economia narcísica da libido, no registro da onipotência, no qual sua majestade, o bebê, assimilando seu ego ao ideal oferecido pelos pais a partir do próprio narcisismo deles, confunde o ego com o ideal, instaurando em si o ego ideal. Fazendo-se supostamente portador de todas as perfeições no tempo presente, este se rege segundo a mais absoluta onipotência, supondo-se o centro do mundo e exercendo sua tirania sobre o outro, que ele não reconhece existindo nem na sua diferença, na sua singularidade, nem na sua interioridade. O complexo de Édipo e o atravessamento pelo mesmo incluirá no sujeito psíquico uma série de interditos – de proibições – que organizam e regulam as relações intersubjetivas, ao mesmo tempo que anunciam as permissões que abrem para o sujeito possibilidades de construção de caminhos de desejo. Isso acontece porque, como herdeiras do complexo de Édipo, duas partes se diferenciam do ego, construindo o superego e o ideal do ego. Os interditos mapeiam o campo dos permitidos e proibidos tanto no que se refere ao exercício da agressividade quanto aos objetos eróticos. A instância psíquica que introjeta o conjunto dos interditos é o superego, que regula as demandas pulsionais, enquanto o ideal do ego, que engloba os permitidos, permite a abertura de caminhos para o desejo. Embora conserve algo de uma instância narcísica, preservando a marca da busca do que foi perdido enquanto totalidade e perfeição, o ideal do ego reconhece que tal meta é inalcançável e acaba por adiá-la, construindo um projeto de futuro. Agora, o ego não é mais o ideal, mas a instância que constrói os ideais atrás dos quais vai se organizar. Assim, instala-se uma dinâmica de vida, de vínculo com os outros e, a partir daí, esse outro passa a ser reconhecido como alteridade no mundo das trocas subjetivas.

O ideal do ego neutraliza então a potência mortífera do eu-ideal, que na sua força regressiva tenta anular o tempo e o desejo, precipitando o sujeito na loucura e na morte.

Até aqui o superego foi caracterizado como uma instância ordenadora do mundo pulsional pela inclusão dos interditos; mas é preciso ressaltar que em Freud o superego é uma instância paradoxal. Ele possui uma dupla origem e uma dupla face: de um lado, é o herdeiro do complexo de Édipo, constituindo-se por identifi cação com a fi gura paterna proibidora que provoca a separação do corpo materno através da interdição do incesto; mas de outro, ele também é herdeiro dos primitivos investimentos do id. Do lado de sua vertente ordenadora possui uma face cruel, feroz, claramente testemunhada por algumas patologias como a melancolia, e que será explicada por Freud por dois caminhos. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o superego se constitui por identifi cação, e que toda identifi - cação implica o abandono do investimento no objeto, sendo que nessa desfusão libera-se um quantum de pulsão de morte que virá se instalar no sujeito na forma de consciência moral. Em segundo lugar, por ser constituído tanto pelas representações-palavras, ou seja, por aquilo que provém do ouvido das normas parentais, quanto pelas investiduras do id, ele pode voltar-se contra o ego numa hipermoralidade – tão cruel quanto só o id consegue ser –, dirá Freud.

Essas duas faces do superego vão, por sua vez, conectar-nos com as duas fi guras do pai no mito da origem, em Totem e tabu. Em primeiro lugar, temos o pai primitivo, pai da horda, onipotente, perverso e demoníaco, que mantém para si todas as mulheres e ameaça castrar os fi lhos que, revoltados, o assassinam. Mas após a morte do pai, que introjetado passa a construir a lei interna, surge o remorso, a nostalgia e o sentimento de culpa. Com o pai morto pode ser feito um pacto de respeito em troca de amparo e indulgência, mas a nostalgia confere, por sua vez, uma intensa atualidade ao pai terrível que, com sua força, coloca-se como o algoz do ego que se oferece em sacrifício masoquista.

Além disso, lembremos que é sobre o desvalimento infantil, a partir do desamparo da criança, que as instâncias ideais se estruturam. Esse elemento foi, ao longo da obra freudiana, tomando um espaço cada vez mais signifi cativo no que diz respeito à constituição subjetiva, não só em termos desse próprio desvalimento infantil, mas como presença permanente constituinte do psiquismo frente às fragilidades do corpo, das forças da natureza e das difi culdades na relação com os outros. Como resposta ao desamparo encontram-se abertos os caminhos da sublimação e do amor, mas, ao mesmo tempo, é sempre possível fugir dele através de uma via regressiva, na qual se tenderá a reeditar o sentimento oceânico, como vivência de eternidade, de completude e de não-limitação. Tal falta de diferenciação com o todo remete à busca do pai primitivo, banhada na tensão narcísica presente na relação de dependência da criança com o adulto.

A urgência da necessidade e o desenvolvimento infantil colocam a criança numa situação de dependência do amor do outro que, para mantê- lo, responde às suas demandas. A cultura frente à pressão da necessidade envolve o infans na teia da linguagem que, ao penetrá-lo, torna-se tão premente quanto a própria necessidade. O superego se transforma assim na garantia do cultural e encarna os ideais sociais e as representações da perfeição; dessa forma, a cultura impõe ao sujeito seus mandatos impossíveis de serem cumpridos.

No entanto, se o superego e sua constituição têm a ver com o complexo paterno, isto não quer dizer que o superego deva ser confundido com o pai. Freud já dizia que o superego não é o pai e que uma educação benevolente não impede o surgimento de um superego cruel. Pois apesar de este ser transmitido através das fi guras parentais, ele é também impessoal, e uma verdadeira multidão anônima participa na sua formação. Em outros termos, o pai suporta aquilo que o modela: a cultura, a tradição, os valores.

Aqui, encontramos diretamente nosso tema, que poderia ser resumido na seguinte interrogação: o que o pai sustenta atualmente? É evidente em nossos dias o enfraquecimento da fi gura paterna, seja como pai da realidade, seja como função simbólica da paternidade na qual o pai da realidade se sustenta. Sabemos que o patriarcado não atravessou incólume a passagem do século xix ao xx. Os patriarcas de testa franzida, olhar penetrante através do monóculo, sentados à cabeceira da mesa, ostentando a fi gura de amo pouco questionado no exercício da autoridade, só chegaram até os anos 1950. O estremecimento da autoridade patriarcal certamente trouxe consigo mudanças no nível da constituição das identidades sexuais e dos comportamentos sociais. A falta de fi gura identifi catória paterna se faz sentir, por exemplo, nas adolescências que não acabam nunca ou em certas formas de patologias que se multiplicam na clínica. No entanto, o enfraquecimento do patriarcado também permitiu que o erotismo fosse incluído no ideário feminino, através do gradual esvanecimento de um de seus efeitos, a saber a divisão entre amor e o sexo presente na moral vitoriana, no ideal virginal, maternal, no qual a carnalidade encontrava-se ausente do corpo feminino.

Mas diante da fragilização do patriarcado, quando os grandes ídolos paternos perdem legitimidade e o muro que separava o sexo do amor é destruído, frente às mudanças e as angústias que estas produzem, muitos jovens saem à procura de um pai, encontrando apenas os pais originários, reais, cada um engajado nos embates com sua própria horda. Ou ainda eles se envolvem com os mais diversos fundamentalismos, de onde se depreende um movimento regido pela nostalgia, numa busca de pais aos quais se possa atribuir todo o poder. Notemos que essa experiência, do ponto de vista psicanalítico, traz a marca de uma precoce etapa do psiquismo, anterior ao reconhecimento da diferença entre os sexos. E lembremos que foi justamente contra essa fascinação que Freud se opôs quando questionou a hipnose e a sugestão.

Há alguns anos, na Columbine High School, no estado do Colorado, eua, dois adolescentes entraram com armas na escola atirando em colegas e professores, fato que certamente todos conhecemos não só por sua repercussão na mídia, como por ter inspirado dois instigantes fi lmes [4]. Infelizmente, não se tratou de um incidente isolado, pois casos semelhantes repetiram-se em outros lugares, acompanhados das queixas atualmente tão freqüentes sobre as crescentes difi - culdades para se lidar com os jovens nas escolas. Referindo-se a esse episódio, um analista belga, Paul Verhaeghe, no seu livro O amor nos tempos de solidão, conta que, após o acontecido, o estado do Colorado decidiu instalar uma linha telefônica direta entre cada sala de aula e a delegacia de polícia mais próxima. Analisando essa providência, o autor afi rma que “onde a autoridade se quebra, o poder armado adquire relevância” [5], fazendo a seguir uma interessante refl exão sobre a questão da autoridade, sua crise e também sobre as complicadas saídas que alguns procuram frente a ela. A seu ver, não há que se confundir a autoridade com o poder: o poder das armas da polícia não só será incapaz de introduzir uma autoridade na escola, como ainda pode acabar se voltando contra essa própria autoridade. Segundo Verhaeghe, a autoridade só é um elemento operacional no interior de um processo de separação e de um certo gozo ligado à união da origem. Cada sujeito em devir tem que abandonar a mãe, a família nuclear e o grupo de origem para entrar em outro grupo. Nas sociedades patriarcais, essa função de separação se exerce por meio da fi gura do pai, o que não quer dizer que essa seja sua forma exclusiva. No interior dos clãs, por exemplo, a separação se operava a partir dos tabus que primeiro se exerceram em relação à alimentação, para só posteriormente incluir a sexualidade. Mas nas sociedades onde vigora o patriarcado há um pai no lugar de ideal do ego que exerce a autoridade baseado num sistema de crenças coletivas reconhecidas e numa identidade familiar constituída na identifi cação com o pai. Assim, a separação é essencial, mas a ligação desta com a paternidade não o é, como demonstram os clãs e as novas organizações familiares atuais.

Sabemos que as modifi cações dos laços sociais e as mudanças das instituições e das normas de convívio coletivo não acontecem sem sofrimento. No entanto, a nostalgia do passado pode levar a saídas anacrônicas, dando ensejo ao surgimento de tentativas de retorno à antiga ordem, em que se reclama, entre outras coisas, a restauração do patriarcado. Tal saída pode ser vista como anacrônica, não só porque os processos históricos são irreversíveis, mas também por esquecer que nem todo tempo passado deve necessariamente ser considerado o melhor.

Interessa ressaltar aqui que a separação operada pela autoridade, ou seja, pela função simbólica que se estabelece desde através dos mitos até pelas leis, deve ter como correlato a oferta, dentro do grupo, de alternativas possíveis de laço social. Disse anteriormente que a renúncia ao ego ideal dá-se na medida em que é possível o acesso ao ideal do ego, instância que mantém viva a alteridade e as trocas intersubjetivas. A esse respeito é importante notar a presença de sérios problemas ligados a certas características da sociedade contemporânea. De fato, o excesso de individualismo tem feito com que a separação ocorra muitas vezes de uma forma, por assim dizer, equivocada. Ou seja, no lugar de um processo de separação do Outro primordial, acontece, em muitos casos, uma ruptura com os próprios pares, quebrando-se as relações de solidariedade que implicam o reconhecimento da alteridade.

A meu ver, a gravidade desse processo torna indispensável uma profunda refl exão sobre as articulações entre o ego ideal e o ideal do ego na sua relação com os ideais presentes na contemporaneidade, segundo ponto que desejo abordar aqui.

Quando, em 1908, Freud escreve o texto A moral sexual e a nervosidade moderna, ele nos apresenta sujeitos comprometidos com os ideais de esforço, de sacrifício, de austeridade e responsabilidade, que se mostravam inibidos na vida, medrosos frente à morte e recalcados na sexualidade. Em outros termos, indivíduos em claro confl ito entre a pulsão sexual e as fortes proibições da cultura. Sabemos que os ideais da cultura que impregnam a subjetividade mudam com as épocas. No mundo de hoje, os ideais evidentemente não são os mesmos que os dos tempos de Freud. Atualmente, predominam ideais ligados à lógica do consumo, na qual o objeto é oferecido como totalmente satisfatório, em que o sujeito toma esse objeto de consumo por objeto de desejo. Num mundo regido por tal lógica, esperase tudo do objeto e nada do sujeito, podendo-se dizer que o objeto de consumo confunde o ter e o ser. Ele não só se oferece como aquilo que trará satisfação, mas também como garantia de identidade, passível de proporcionar toda a felicidade. Lembremos que essa lei do tudo ou nada, presente na lógica do consumo, é exatamente a lei que rege a instância totalizante do ego ideal.

Em segundo lugar, é importante notar que a promessa de felicidade presente nessa lógica do consumo é a da felicidade imediata. Há em jogo então, nos ideais de atualidade, toda uma experiência da temporalidade, na qual os ideais estão intrinsecamente ligados à sua realização no aqui e agora. Com a queda das utopias e o desinvestimento dos projetos de futuro, os ideais preconizam um presente eterno, com desprezo pelo futuro e pelo passado. Desaparecendo o valor da história e do projeto, os indivíduos passam a carecer de regulação simbólica para o narcisismo que se impõe de forma onipresente, fazendo-os oscilar permanentemente entre a sensação de êxito total e a ameaça de colapso narcisista. É quase desnecessário dizer que, nessa lógica, inexiste lugar para qualquer luto. Também aqui, lembremos que essa soberania absoluta do tempo presente é a única forma de temporalidade existente para a instância do ego ideal.

Ainda a esse propósito, tomemos como exemplo a medicina atual que, com todos os seus avanços tecnológicos, oferece-nos a possibilidade de uma vida longa e de cura para grande parte dos males. No entanto, ao reduzir o corpo a uma engrenagem perfeita a ser desmanchada, melhorada e novamente remontada, e ao reduzir as penas do amor, a miséria sexual e todo mal-estar a uma mera disfunção das sinapses neuronais, ela acaba por objetivar o ego ideal que, assim, recua em direção ao orgânico. Esse corpo, assimilado a uma pura materialidade tecnicamente desmontável, isento de qualquer enigma e aderido à idéia de perfeição, converte-se, ele próprio, no grande ideal, aos quais se agregam os ideais ligados à juventude e aqueles vinculados ao mundo da imagem.

Diferentes autores vêm pensando a forma pela qual tanto a lei do tudo-ou-nada, instaurada pela lógica do consumo, quanto a temporalidade do presente prejudicam a constituição do ideal do ego, favorecendo, ao contrário, uma regressão na direção da instância narcisista do ego ideal. Se, como afi rmava Freud, a passagem do ego ideal ao ideal do ego, além de fazer um corte no narcisismo, instaura um tempo de futuro e de construção de projetos postergados, devemos perguntar o que ocorre com esse processo quando, no quadro social, a idéia de futuro aparece como anacrônica. Nota-se que, nessas circunstâncias, além de a constituição da instância do ideal do ego tender a diluir-se em um psiquismo que privilegia o presente, a própria tópica psíquica parece não mais se orientar pelo eixo instaurado na tensão entre ego ideal versus ideal do ego, mas sim inclinar-se no sentido de uma divisão interna ao próprio ego, em que o eixo desloca- se da tensão entre o permitido e o proibido para aquela que se instaura entre as categorias do possível e do impossível. É esse exatamente o caso das chamadas personalidades narcísicas.

Por outro lado, o superego – articulador fundamental do indivíduo com a cultura – também adquire, com as épocas, confi gurações específi cas. No mal-estar da atualidade, a própria sexualidade, antes recalcada, e sobre a qual pesava a proibição de saber, tem permanecido totalmente aberta e tendendo a se despojar de qualquer enigma. Ao mesmo tempo que o discurso midiático tem articulado a sexualidade a um mandato superegóico em que a injunção goza torna-se imperativa, sua imediatez no tempo presente, refl etindo a absolutização e totalização características do ego ideal, paradoxalmente acentua a face cruel e a ferocidade punitiva do superego. Essa busca de um gozo absoluto parece ter se desvinculado das regras coletivas de regulação, que foram sendo substituídas pelo consentimento mútuo ou por valores surgidos a partir da constituição de pequenos grupos, que vão criando novas formas de convivência. Para dar um exemplo no nível da saúde mental, podem-se citar os grupos de auto-ajuda, nos quais se instaura uma solidariedade especial a partir da identidade baseada num traço específi co: grupos de gordos, sozinhos, sozinhas, separados etc. Emiliano Galende, ao estudar o novo laço que assim se instaura, mostra que estes grupos vêm suprir a sociabilidade e a compreensão que se ausentam da vida social em geral, afi rmando que eles “são fenômenos que fazem pensar em formas novas de laço social caracterizadas pela redução de uma diferença intolerável na vida social a uma identidade ilusória com o semelhante” [6].

As importantes transformações sociais das últimas décadas e as repercussões das mudanças de ideais na construção das instâncias psíquicas, assim como no equilíbrio entre elas, têm colocado para os analistas muitas interrogações e exigido um intenso trabalho, apenas incipiente, que visa defi nir com mais clareza tanto construções metapsicológicas que dêem conta das novas formas de sofrimento, quanto formas de intervenção diante de certos fenômenos que se fazem cada vez mais presentes na clínica. Para enumerar apenas alguns deles, pensamos nas tentativas permanentes de fuga do desamparo através de drogas lícitas ou ilícitas ou de saídas místicas; as difi culdades de se defrontar com momentos depressivos decorrentes dos lutos, para poder levar em frente um processo de elaboração psíquica; as patologias do excesso; a necessidade de se propiciar a construção da teia psíquica necessária à instauração de qualquer processo interpretativo; a criação de estratégias de sobrevivência psíquica que sirvam de parapeito ao excesso de atuações. Essa lista poderia ser bastante prolongada, testemunhando os desafi os a que devemos nos defrontar numa clínica que hoje se estende para muito além da neurose.

Assim, este novo momento da história e da cultura apresenta aos novos analistas sintomas sociais a serem interrogados, mas também os interroga no sentido de refl etirem se, no trabalho da recriação necessária dos conceitos, eles têm dado a devida atenção ao terceiro apoio do tripé utilizado por Freud e ao qual me referi no início como um eixo básico no livro de Renato Mezan: a cultura.
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